Misturados: Patrícia Pará Yxapi

Era dia 19 de fevereiro e a manhã estava ensolarada, mas não muito quente. Depois de dois dias de filmagem com Vangri Kaingang na aldeia da Serrinha, em Ronda Alta/RS, estávamos na estrada em direção a São Miguel das Missões. A felicidade de ter cumprido o primeiro roteiro para o Projeto Misturados – contemplado no edital da Secretaria Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul nº 09/2020 da Lei Aldir Blanc – se chocava com a incerteza sobre como seria as filmagens com a segunda artista: a cineasta mbya guarani Pará Yxapy.

Seguíamos com pouco tempo, um dia e meio para cumprir um roteiro grande, e já acumulávamos o cansaço dos últimos dias de filmagem e viagens. Nossas vivências até o momento indicavam que a aldeia guarani seria completamente diferente da kaingang. Na Serrinha, Vangri se revelava uma pessoa extrovertida, cheia de energia, falava bastante e se mostrava sempre disposta a nos acompanhar pelos locais sinalizados no roteiro. Intuíamos que a aldeia guarani funcionaria em um outro ritmo, numa fluidez mais calma.

A manhã revelava uma luz maravilhosa e uma brisa suave. Enquanto cruzávamos a devastação da soja, Marcelo, produtor da nossa equipe, recebia o roteiro e repassava conosco. Depois de um breve almoço em São Miguel, seguimos nos 30 km  de estrada de chão até a Tekoa Koenju.

Com mais de 200 hectares – a maioria de mata nativa preservada ou em processo de regeneração – a comunidade se apresentava a nós como um reduto de vida cercado pela soja. Estradas de chão levavam até as casas, algumas de alvenaria, outras unindo técnicas tradicionais de construção guarani e materiais de construção não indígenas. Perto das casas, algumas árvores nativas, frutíferas e roças de mandioca, batata doce, milho, feijão, melancia, amendoim e diversos outros alimentos. Para além das roças se estendia a mata.

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Na casa de Pará fomos surpreendidos na chegada pela presença de Ty, quati cheio de energia que dividia o espaço do pátio com um periquito, gatos, cães, galinhas, jacús e outras aves nativas. A cineasta e professora nos explicou que os animais selvagens fugiam da destruição das plantações de soja para a aldeia e os indígenas cuidavam deles. Durante a gravação da primeira entrevista, depois de ser interrompida sucessivamente pelas travessuras da cadela Vorita, do quati e do periquito, Pará brincou: “fiquem quietos, bichinhos, vocês estão roubando meu filme”.

Apesar das interrupções a conversa rendeu. Pará nos contou sobre o início de sua trajetória como cineasta a partir do contato com o Vídeo nas Aldeias, no qual participou primeiro como tradutora e depois como oficinanda. Relatou um pouco sobre o processo que a levou a produções como Bicicletas de Nhanderú e Teko Haxy – ser imperfeita, entre outras produções. Explicou também sua percepção de que quando faz um documentário registra a realidade a partir da visão de mundo do seu povo, como se fosse um “olho guarani” vendo o mundo.

No dia seguinte fizemos uma conversa caminhando pela comunidade e outra na escola onde Pará dá aula para as crianças guaranis e também ensina aos adultos brancos como é a dinâmica de educação do seu povo. Um espaço de troca de saberes e vivências bastante rico.

Junto a um grupo de jovens, nos encaminhamos ao Rio Vermelho, que ladeia a terra indígena e serve de fonte de brincadeiras e alimentos. A cineasta nos explicou que o rio tinha ainda mais um significado: representava o limite da Terra Indígena com as propriedades dos brancos. A fronteira imposta – que contraria todo o modo de vida de um povo que caminhava por um vasto território – era naturalmente ignorada pelos jovens, que preferiam atravessar o rio para pescar em outro ponto.

Além de seguirmos a conversa com Pará aproveitamos e caímos no rio. O espírito guarani tomava conta da atmosfera e da nossa equipe! Quando voltamos, fomos convidados a almoçar junto aos mais velhos e algumas crianças. Depois fizemos a nossa última conversa, que incluiu Ariel Ortega, integrante do Coletivo Guarani de Audiovisual e companheiro de Pará.

O tempo guarani, que anda conforme a natureza, contempla as nuvens e o movimento do sol, foi mais um aprendizado dessa recém iniciada saga de filmagens do Misturados. Correu tudo maravilhosamente bem e ao final do dia, já em São Miguel, paramos e tomamos a melhor cerveja de nossas vidas! Tendo cumprido a missão, celebramos a vida, a arte, os encontros e planejamos a sequência do trabalho numa mesa de bar, algo que faz parte da maneira descontraída de trabalhar da Catarse.

Voltamos ao hotel num clima de leveza e alegria: energizados pelas vivências, instigados pelas trocas com cineastas e anciões de outra cultura e recompensados pela cerveja gelada em um dia quente de verão. No quarto, o celular conectou ao Wi-fi e começaram a entrar as más notícias. O estado tinha chegado ao pior cenário desde o início da pandemia, com alto risco de colapso do sistema de saúde frente à disseminação do vírus. Naquele sábado, foi decretada a suspensão geral das atividades das 22 até as 05, com perspectiva de mais fechamentos e restrições vindo a seguir. Faltando ainda cinco artistas a serem filmados, nos perguntávamos “E agora, como vamos seguir o trabalho?”.

 

Texto: Bruno Pedrotti e Marcelo Cougo
Fotos Billy Valdez.

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