Você sabe o que aconteceu em 2 de junho?

Por Gustavo Türck.

Em 1921, uma horda branca, alimentada pela distorção da realidade publicada na capa do “zap” de época – sim, o jornal -, saiu com suas tochas e capas brancas para acabar com um distrito urbano próspero de população negra – e para assassinar aquelas pessoas. O Massacre de Tulsa deixou centenas de mortos (estimam-se 300, para se ter ideia, no Massacre de Porongos, estimam-se em pouco mais de 100) e a então chamada Black Wall Street destruída.

Dia 2 de junho de 2021. Como que, somente 100 anos depois, eu fui saber disso?

A isso chamamos de Racismo Estrutural. Racismo da minha estrutura, da minha construção enquanto pessoa, gestado dentro de instituições levantadas para o apagamento de histórias assim – e para fazer a população que se beneficia da eugenia viver no seu mais belo conforto mental e físico, sem culpa.

Pois eu estava exatamente usufruindo deste meu privilégio homembranquista, deitado em minha quente cama, com meu celular conectado em uma internet de alta velocidade, com vários apps de acesso ao entretenimento audiovisual, procurando o que assistir antes de dormir naquele ninho aconchegante. Queria algo fora do “água-com-açucar”, mas ainda assim que me fizesse fugir levemente de alguma realidade. Sair também da Netflix e do Prime, pesquisei, porque podia, nas séries da HBO e achei Watchmen. Lembrei do filme, super-heróis não tão heróis, quebras de paradigmas idióticos dos universos Marvel e DC (affffff), ou seja, ainda imbecil, mas… Hmmmm, diferente. Vamos lá.

A sinopse mencionava uma espécie de Estados Unidos distópico, algo que chamasse para uma linha de tempo alternativa da nossa realidade.

Opa! É por aí!

E começa o primeiro episódio… As cenas que se passam são de uma cidade chamada Tulsa, em Oklahoma, onde há muita gente correndo para tudo que é lado. Pela descrição – e minha ignorância -, inicialmente achei que fosse já a realidade paralela sendo construída na narrativa da série, que fosse algo como “e se os EUA tivessem perdido a guerra?”. Mas comecei a notar que quem corria eram pessoas negras, que os assassinados pelas costas, chacinados, eram TODAS pessoas negras. Em relances apareceram capas de jornais e brancos vestidos de Ku Klux Klan! Mesmo assim, ok, seriam elementos reais para se construir um subtexto distópico da série… Dormi depois de 1 episódio e meio.

No dia seguinte – hoje – fui acessar os resultados de mais uma noite de NBA que não consegui acompanhar, porque preferi ir para as séries. Ali, no portal que trata do esporte, em língua nativa, uma chamada de matéria me chamou a atenção: George Hill wants to talk about the Tulsa Race Massacre (George Hill quer falar sobre o Massacre Racial de Tulsa).

Quer dizer que aquilo lá foi real?!

Sim, e está fazendo exatamente 100 anos na minha cama, no amanhecer desta manhã fria outonal em Porto Alegre, num bairro de classe média, aquecido nos meus privilégios! “Mas como eu nunca havia ouvido falar disso?!” – se perguntava também George Hill na matéria, um belo ala-armador de boa história no melhor basquete do mundo, milionário, hoje, mas ainda vítima do Racismo Estrutural.

Foda-se o 4 de julho! Foda-se o Halloween e o nine-eleven. É preciso falar – e conhecer – sobre os muitos 2 de junho que temos por aí!

E impressiona – ainda mais – andar por minha cidade e ouvir e presenciar os mesmos discursos estúpidos e estapafúrdios que alimentaram aquela raiva dos brancos contra toda aquela população em 1921 nos Estados Unidos! O texto é o mesmo! Os argumentos falsos são os mesmos – e prevalecem e prosperam neste país. Há pouco, tivemos um carrasco KKK, com cor de bosta, enforcando uma figura negra em praça pública em frente a uma plateia de patetas vestida de verde-amarelo – em Porto Alegre! Em 2021!

Pois, 100 anos depois, vou descobrindo o Massacre de Tulsa. Só que eu o conheço desde que nasci. Cresci na sua teia argumentativa, no seu citoplasma, como elemento de uma célula-base, que dá todas as respostas para tornar aquele evento em óbvio – e isso é o Racismo Estrutural, que segue vivo e funcionando a pleno por séculos.

Não dá nem para chorar, restando ouvir Nina Simone a todo volume com o surdo bater de panelas ao fundo, ressoando nos lares bem estruturados do meu bairro…

 

*foto retirada daqui: https://www.npr.org/2021/05/24/998683497/a-century-after-the-race-massacre-tulsa-confronts-its-bloody-past

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