Da alegria à reflexão.

Por Grêmio Antifascista:

Diante do atual panorama triste no qual nos encontramos, cada vitória se torna ainda mais extasiante.

Ao nos tornarmos bicampeões da Recopa Gaúcha o momento mais emocionante desta conquista foi, sem dúvida, a homenagem ao massagista Zezinho – que trabalha há 48 anos no Tricolor – convidado a levantar o troféu por nosso capitão Pedro Geromel.

Zezinho encarnou uma homenagem a todos os trabalhadores envolvidos nos bastidores dos jogos (desde a equipe técnica até os responsáveis pela limpeza dos estádios) que estão arriscando a sua saúde para que as partidas não parem. Todavia, mesmo com os protocolos de segurança adotados pelos clubes, os casos da COVID não pararam, em verdade, aumentaram, isso porque não há nenhum outro meio tão eficaz contra a contaminação que não seja o isolamento.

A maioria dos trabalhadores brasileiros ainda estão exercendo suas funções sem terem tomado a vacina (e muitos sem perspectiva de receberem a mesma), sendo obrigados a arriscarem suas vidas para não morrerem de fome. Atualmente, há mais de 19 milhões de pessoas no país em insegurança alimentar, ou seja, ou arrisca morrer com o vírus ou arrisca morrer de fome e esse dilema cruel foi produzido voluntariamente pelo governo Bolsonaro.

Diante deste cenário, façamos um pequeno exercício de reflexão: o que aconteceria se o Brasil sediasse a Copa América (recusada por 2 outros países)? Sabendo que a sua população não está inteiramente inoculada, que a maioria das pessoas não possuem renda nem para comprar uma máscara pff2, que há o risco permanente da entrada de mais variantes da COVID e que ainda não estabilizamos os casos de contágio em níveis baixos do vírus, é de se presumir que haveria um aumento exponencial de aglomerações e festas clandestinas por conta dos jogos.

O atual Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, se arriscou a responder essa questão posta acima, e obviamente, respondeu de maneira trágica. Ele declarou, no seu segundo depoimento à CPI da COVID, não acreditar que a Copa América deva aumentar a incidência de aglomerações em bares ou festas clandestinas no Brasil e complementou dizendo que o risco de contrair a doença é o mesmo com ou sem jogo. E disse ainda mais, afirmou que do ponto de vista epidemiológico não há justificativas para a não realização da competição.

Esta resposta dá dimensão do quão inerte está o Ministério da Saúde no combate do vírus e o quanto da estratégia do governo de Bolsonaro passa pela desordem orquestrada como método de poder. Bolsonaro é o próprio antissistema agindo, e assim sendo, não poderíamos esperar uma postura diferente dessa que estamos assistindo do ministro e outros depoentes na CPI, pois conforme o próprio Queiroga “não é função da pasta dar aval, mas somente avaliar”, retirando qualquer responsabilidade do principal ator que deveria conduzir a política de imunização deste país.

Uma perspectiva interessante para entender o bolsonarismo como técnica de poder de corrosão e destruição das instituições foi dada pelo filósofo político Marcos Nobre que alerta para o fato de que Bolsonaro não governa, ele se aproveita do fato de que o Estado continua funcionando, que o serviço público continua sendo prestado e segue atacando a estrutura estatal como se estivesse em campanha eleitoral ainda sempre justificando seus inumeráveis fracassos com a desculpa do fantasma do sistema que não o deixa governar.
Ainda houve, neste cenário de mudança de sede da Copa América para o Brasil (já chamada na internet de “Cova América”) esboço de greve por parte da seleção brasileira masculina de futebol e do treinador Tite. Os motivos, entretanto, não diziam respeito à calamidade pública da pandemia no país mas a motivos outros como férias e descanso pós-temporada europeia. Embora muito de esperança tenha sido depositado neste ensaio de boicote da seleção canarinho, mais uma vez ela se prestará a ser joguete político.

Não precisamos de análises complexas para entender que a atual Copa América deveria ser suspensa imediatamente, em verdade, ela não deveria nem mesmo cogitada no panorama atual, mas numa coisa o governo é absolutamente eficaz: em matar e desviar o foco de suas responsabilidades. A seleção brasileira que poderia fazer história, seguirá sua histórica capacidade de servir de distração para morticínio de seu próprio povo como foi durante os anos da Ditadura e como vai ser agora com o genocida do Bolsonaro.

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