Carta as deputadas e deputados

Na tarde de terça feira, dia 29/06, foi votado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul o PL 260/2020. Denunciado como retrocesso com graves riscos socioambientais, o projeto que autoriza o registro no estado de agrotóxicos sem uso permitido nos países de origem foi aprovado por 37 votos favoráveis e 15 contrários.

A luta contra o PL tem mobilizado diversas organizações desde dezembro de 2020, quando foi realizada uma reunião virtual alertando que o governo pretendia votar o projeto em regime de urgência no final do ano. Desde então, tem sido articulados atos nas feiras orgânicas, no centro da cidade, em frente ao Palácio Piratini e à Assembléia Legislativa. Apesar de todas as mobilizações realizadas pela articulação envolvendo quase 250 entidades – que tiveram ampla repercussão nas diferentes mídias -, a base governista reafirmou a serviço de quais interesses ela age.

Mobilização contra a aprovação do PL. Foto: Leandro Molina.

Com o objetivo de combater o desanimo causado por mais uma derrota legislativa, publicamos a carta de Leonardo Pillon. O advogado e conselheiro do Consea RS agradece a todas e todos que foram parceiros na resistência ao projeto e incetiva a seguir a luta diária contra o extermínio da vida em nome do lucro:

“Estimada Deputada e Estimado Deputado

Escrevo-lhes, Excelências, para agradecer.

Agradecer a quem bravamente defende o Rio Grande do Sul para que este território não seja um lixo de agrotóxicos banidos na Europa.

Ontem, 37 parlamentares votaram o PL 260/2020 para retirar a cláusula de proteção contra duplos padrões regulatórios sobre agrotóxicos. Isto é, aprovaram a retirada da exigência estadual que apenas agrotóxicos autorizados nos países de origem pudessem ser habilitados para registro no RS.

Agradecer, apesar de que algumas Excelências tenham excretado um voto por mais mortandade de abelhas, por mais câncer em agricultores gaúchos, por mais lucro de corporações transnacionais e não do agricultor endividado.

caixa de abelhas atingida por agrotóxicos. Imagem de Billy Valdez no filme “Medo da Primavera”.

Votaram por mais abortos silenciados e causados por agrotóxicos na população rural, por mais perdas econômicas a parreirais degradados irreversivelmente pela deriva, por água potável cada vez mais contaminada.

Se o agro do tabaco e da soja transgênicos resolvesse a fome, não estaríamos vivendo sem pão, sem gás de cozinha, sem geladeira em alguns casos. Às corporações de agrotóxicos, a isenção fiscal na venda; já à gauchada, o lixo químico no prato, no rio, na água do chimarrão que nos aquece em meio ao frio.

E por que agradecer em meio a isso?

Agradecer porque não passará em definitivo esta traição a quem mais sofre os efeitos devastadores do pacote corporativo agrotóxicos-transgênicos.

Nossa soberania alimentar é nosso direito de escolha sobre qual sistema de produção serve às nossas necessidades atuais e futuras. Esse sistema é o MST, é a agroecologia, é a produção orgânica de Nova Santa Rita, é o sistema que nossas avós e avôs cultivavam em hortas para autoconsumo, é o sistema que alimenta com feijão e arroz no prato mesmo em tempos de pandemia e crise, é o sistema que doou mais de 3.400 toneladas de alimentos nos 24 estados do país: Alagoas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pará, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins.

produção orgânica da Cootap/MST RS. Acervo Coletivo Catarse.

Somos 241 entidades que assinaram a Carta Mais Vida, menos veneno. Apesar desses 37 votos, o direito de escolha dos nossos sistemas alimentares passa por utopias reais, como essas que nos servem de horizonte. Ditas utopias reais daquelas que esperançamos possam servir a tantas pessoas mais.

E horizontes, relembrando Galeano a Vossas Excelências, nos permitem continuar a caminhar.
Leonardo Ferreira Pillon”.

 

Imagem em destaque: Leandro Molina.
Edição: Bruno Pedrotti.
Produção: Marcelo Cougo.

Um comentário em “Carta as deputadas e deputados

  • 30/06/2021 em 23:42
    Permalink

    Não brinquem com a vida.

    Resposta

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