Minha alma, minha casa, minha pátria: mãe gentil

Por Eliana Marah

“A sensação de estar neste cenário em que se perde um país é dura, tal como é a de perder qualquer direito que tomamos por garantido. Contudo, o país é uma soma de afetos mais intrínsecos ao indivíduo. Significa casa, nação, cultura, identidade, família. Como imaginar que o pedaço de terra que conecta o nosso “eu” interior ao “exterior” se pode despedaçar ao ponto de não reconhecermos mais os trilhos que nos indicavam a serenidade do lar?”  Márcia Branco

Um pedaço do Brasil, que eu tive, se foi. Em números mais exatos, horror tangível: mais de 500 mil vidas. 500 mil histórias. E há os números incertos, os números escondidos dessa tragédia de tantas mortes e da violência que se traduz no aumento das pessoas com fome, na exclusão digital, na violência diária contra as mulheres, no analfabetismo, no assassinato de pessoas pretas e pobres, no desfile dos criminosos de colarinho branco impunes dos seus crimes, na contradição dos que estão encarcerados, tratados com brutalidade, enquanto estão em liberdade os que roubam merenda das crianças. Como contar a história desse país e admitir nossa nacionalidade sem sentir vergonha? Uma definição que me ajuda a pensar: nação é uma comunidade imaginada como limitada no espaço e portadora de soberania. Até os membros da menor nação jamais conhecerão ou encontrarão ou sequer ouvirão falar da maioria de seus integrantes, mas todos terão em mente “a imagem viva das comunhão” que os liga. Um exemplo dessa “sensação de pertencimento” é o que vivemos em tempos de Copa do Mundo ou Olimpíada. Um atleta que vai ao pódio receber a medalha de ouro, emociona e conecta essa comunidade imaginada e esse gesto, por algum tempo, desfaz as desigualdades, as questões sociais e os problemas que nos  apartam.

Mesmo consciente das nossas mazelas, mesmo sentindo arder minha indignação diante do fosso das desigualdades, fazer parte dessa comunidade era algo que eu imaginava com esperança e alegria. Mesmo sob o manto triste da mentira, de que éramos um povo alegre, esperançoso e cordial -, essa mentira me dava abrigo. Para o mundo, o Brasil era um país que recebia de braços abertos e abraçava a diversidade.

A exuberância da nossa riqueza geográfica, as faces bonitas das várias etnias, nosso exagero continental de biomas diversos e encantadores, nosso sorriso, ainda que nos faltassem dentes, nosso barraco limpo para receber a visita com um café ou um mate ou um pãozinho de queijo, esses pedaços de identidade mostravam nossas narrativas mais cálidas, como se de fato fôssemos filhos da mesma mãe-mátria:

“Terra adorada

Entre outras mil, és tu, Brasil

Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil

Pátria amada, Brasil!”

A ideia de pertencimento, sendo parte deste país imaginado, era um estandarte exibido com orgulho por mim e meus companheiros de luta e utopia. Nossas melhores versões no cancioneiro genial da música popular brasileira, a luxuosa potência da flora e fauna. Nosso privilégio de sermos capazes de ler e entender Guimarães Rosa, escritor que andou pelos “sertões”, pelos interiores do Brasil, buscando nossa sabedoria ancestral, nossa cultura diversa passada de boca em boca.

Brasil interior, fotografia de João Maria Alves

Nossa pátria de heroínas e heróis, na luta e na arte, como Zumbi, Carolina de Jesus, Clarice, Cabral, Elis Regina, Elza Soares, Machado de Assis, Conceição Evaristo, Glauber, Cartola, Mangueira, Beija Flor, Nação Zumbi, Melodia, Chico, Gilberto (mestre) Gil e tantos, tantos outros e outras que escreveram e cantaram o Brasil.

A escravização,  que foi  enfrentada com luta e também com engenho, música e arte, não foi interrompida. Está presente no racismo estrutural e diário. Mais do que presente na estrutura, ele vira e revira nossas entranhas. Somos hoje campeões na  violência contra as mulheres. O que mostramos ao mundo  são as péssimas condições de saneamento básico imposta aos mais pobres. Ainda reina a mística da “educação superior” como gesto violento de exclusão.

O Brasil para “inglês ver”, para quem quisesse ver de perto, cobria com véus as partes apodrecidas. O véu caiu e está bem visível que as populações originárias estão sem proteção, os ciganos invisibilizados, os quilombolas ignorados, toda a cultura e as religiões afro-brasileiras perseguidas.

Mas o que está escancarado hoje, já estava posto.

De certa forma, Nelson Rodrigues, figura controversa por seu posicionamento político, mostrou na sua dramaturgia as feridas de uma sociedade dominante, branca, racista, misógina e ocidentalizada, expondo os horrores dentro das famílias e nas instituições corruptas.

Não sei como explicar, então compartilho uma sensação que dói. Havia um Brasil possível. Vivi nesse país. Desde a adolescência comecei a viajar para fora de minha cidade natal, São Paulo, que sempre foi abrigo de migrantes de outros estados, que saíam de suas terras para tentar uma vida melhor e na maioria das vezes encontraram dor, solidão, maus tratos e exploração.

Viajei  sozinha de São Paulo para Aracaju, aos 12 anos. Época em em que os ônibus eram quase carroças e  logo que saíam da rodoviária,  começavam a quebrar. Alguns quilômetros depois  a população das baratas se apresentava. Apesar disso, uma comunidade se formava e tudo passava a ser dividido. O frango com farofa ia de uma família para aqueles que viajavam sozinhos e sem dinheiro. Uma pessoa cuidava dos pertences da outra, na hora do banho. Uma cocada era partida ao meio para que uma criança ganhasse sua porção de doçura. Esse ônibus que peguei, para ir visitar minha tia Amy, nunca chegou em Aracaju. Antes de a viagem começar, ainda na rodoviária, minha mãe, uma pernambucana arretada, avisou a todos: ela só tem 12 anos, por favor, cuidem dela. E fui adotada por todos. Minha mãe me fez colocar todo meu dinheirinho dentro da meia. Por sorte, não precisei usar porque todos pagavam as coisas pra mim.

Quando o ônibus quebrou definitivamente, ainda no interior de Sergipe, os pais de uma moça, que tinha sido muito carinhosa comigo , foram buscá-la de carro e decidiram que me levariam até a casa da minha tia. Me deixaram na porta, depois de trocarem agradecimentos. Brasil, nordeste, interior, gentilezas.

O Brasil de hoje me assusta. Mais ainda porque junto com o presidente do horror, há uma quantidade absurda de seguidores: genocidas, fascistas, misóginos, neoliberais, mesquinhos, assassinos e criminosos sem pudor e sem remorso, sem julgamento nem punição.

Me apego a minhas memórias e imagens de um Brasil que eu conheci, viajando e morando em várias cidades, e decido honrar este quadro: uma cidadezinha qualquer, talvez até fora do mapa, que nenhum satélite alcance, com umas galinhas, um ou dois cavalos, um forno a lenha, a horta brotando, as árvores com frutinhas tão nossas, como pitanga, jabuticaba e amora.

Seus moradores vão me receber com o que possuem de bom e de melhor. Fico com esse país: que sempre soube receber, que sempre soube ser gentil. Mesmo que eu precise inventar uma versão enfeitada, decido viajar no tempo e voltar a morar na minha pátria amada, Brasil.

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Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

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