A resposta guardada na caixinha de brinquedos

Por Eliana Marah

“Eu fico com a pureza das respostas das crianças. É a vida. E é bonita.”
Gonzaguinha

O mundo, tal como está, nos causa sensações quase insuportáveis. As mudanças vertiginosas trazem sensação de mudança urgente. Mas junto com essa percepção vem a impotência e a sensação equivalente de estarmos perdidos. Como se estivéssemos num bosque desconhecido e assustador, mítico e ao mesmo tempo contemporâneo. Nossos corpos reagem a esses sintomas. Ansiedade, angústia, confusão, dores e vários tipos de adoecimento. Uma sombra nos persegue e quase sempre chove sobre nossas pequenas alegrias.

Para quase todos nós, há uma sensação de que é preciso achar respostas mas não sabemos nem por onde começar. A crise, o caos, a insegurança, tudo cresce numa escala desproporcional se comparado com nossas forças. As soluções parecem ínfimas e até inócuas. A esperança praticada é débil. Dentro dela reside um outro vírus, ainda pior: está contaminada pela realidade, onipresente, de um momento em que a vida, ao que parece, perdeu o valor e o sentido. As palavras do momento: violência, injustiça, corrupção, tortura, guerra, pobreza, desemprego, falta de perspectiva, destruição do planeta estão inflacionadas.

Num momento como esse, em que o mundo parece perder de vez o rumo, o que poderia nos salvar?
Não só no nosso país, mas espalhadas por todos os continentes, as guerras continuam, insanas. As tecnologias avançam e ao mesmo tempo servem para alimentar nossa idiotia. Abro exceção especialmente para avanços que ajudam a cuidar da saúde e aliviar sofrimentos, mesmo sabendo que determinadas vidas continuam sendo expostas a dores e condições tão brutas e aviltantes quanto ao que acontecia há tantos séculos atrás.

Que espécie é essa, o ser humano e quem sou eu, reles mortal, para tentar alguma resposta? Só consigo esboçar perplexidade e completa falta de fé. Ainda que fé seja um termo bastante avesso aos meus pensamentos rotineiros, porque não tenho, infelizmente, o consolo de um Deus, como esse que é vendido e tão usurpado, que virou uma marca, palavra vã na boca dos malditos. Hoje, a quantidade de usurpadores que sempre falam nome de um “Deus”que criaram para seu próprio uso e em nome desse personagem fazem com que milhares de pessoas paguem com a vida por desejarem o mínimo, que lhes é retirado. Pessoas que querem pão. Mas reivindicam também honra, justiça e direitos.

Neste momento existe um contador que não cessa, arauto monstruoso que não conseguimos calar nem interromper: ele que aponta as mortes por segundos, em função de um vírus. Mas essas mortes, rodando esse contador, também são causadas por interesses que são ainda defendidos em nome de um Deus. E mostram, com risos de desprezo, o apego ao luxo, ao consumo sem sentido, ao desejo ilógico de dominação e poder. Muitos desses usurpadores, e inclusive eu, que me entendo como menos predadora, alimento projetos individuais e egoístas. Esses projetos dos comerciais: sonhos de consumo, planos para férias, tratamentos de implantes, mudança de decoração, cirurgia para prótese peniana, compras de apartamentos suntuosos na planta, esses gestos e outros tantos possíveis, costumeiramente realizados por essa espécie, tudo isso, que já não vale nada, para onde nos levará?
Porque sabemos, tão certo quanto sabemos que vamos morrer, e ainda assim esquecemos, sabemos que estamos destruindo o planeta e vamos acabar com a água, a flora e a fauna e tudo que for vivo. Que espécie é essa? Quem somos nós?

Então, penso, haveria alguma utopia? Ir pra Marte não adianta porque vamos destruir Marte. Ir para Pasárgada não é possível porque Pasárgada, apesar de paradisíaca, não existe. Me surpreenderam duas cenas em época de pandemia. Vieram gafanhotos e poucos foram reler a Bíblia, para relembrar a antiga lição do Apocalipse. Quando os isolamentos eram liberados, as pessoas corriam desesperadas para os shoppings, para compras inúteis. Então, penso, que talvez, quem sabe, ser criança, assim, levando a sério, como uma filosofia de vida, seja uma possibilidade de continuar a existirmos, ainda que, conforme pergunta Caetano, a que será mesmo que se destina?

“Serão as crianças que construirão suas filosofias e seus modos de produzi-las. Não é mostrando que as crianças podem pensar como adultos que vamos revogar o desterro de sua voz. Pelo contrário, nesse caso haveremos cooptado, o que constitui uma outra forma de silenciá-las. Seria mais adequado preparar-nos para escutar uma voz diferente como expressão de uma filosofia diferente, uma razão diferente, uma teoria do conhecimento diferente, uma ética diferente e uma política diferente: aquela voz historicamente silenciada pelo simples fato do emanar de pessoas estigmatizadas na categoria de não adultos”.
Walter Kohan

Jesus convidou as crianças para junto dele e em muitas passagens dos Evangelhos há referências de que seu pensamento valorizava a infância como um estado de espiritualidade. Na referência que faz aos lírios do campo, é fácil aproximar a metáfora lírio-criança. Sem pressa, sem posses, aceitando o que existe e sem litígios em função da propriedade. A exuberância natural e simples da própria existência.

Se temos algum nível de consciência, sabemos de nossa responsabilidade pelo que acontece no mundo. Assinar petições, votar melhor, ir a manifestações é nossa obrigação política mas não podemos chegar da manifestação e pedir para uma pessoa, que designamos como “empregada doméstica”, um suquinho de laranja, sentadinhos na poltrona, vendo as últimas notícias. Precisamos aprender a lavar nossas calcinhas e cuecas. No instante em que escrevo este texto, as estatísticas registram o aumento do número já estratosférico de crianças e de pessoas vulneráveis que estão tombando nesta nova fase do game capitalista, injusto, violento e desigual. Talvez tenha chegado a hora de pedir perdão a toda criatura frágil ou pessoa vulnerável, que, sistematicamente, estamos destruindo, desde o começo de tudo. Já passou da hora de lhes dar a mão e lutar por elas.

O que estamos fazendo com as crianças? Em certos grupos de povos originários, a noção de que uma criança pertence a sua família nuclear não existe. Uma criança é a criança de todos. Todos são responsáveis por ela. Todos são responsáveis por criar um futuro digno e sustentável para que ela tenha um mundo bom, justo e bonito para viver. As distopias do cinema mostram com detalhes muito realistas o que deixaremos para as crianças se não cuidarmos do lugar e do tempo em que vivemos. Zumbis, destroços, cinzas, ruínas. Cuidar do mundo é obrigação, é sobrevivência também. E começa por cuidarmos de quem precisa de cuidados com urgências, tanto as crianças quanto as pessoas em situações de vulnerabilidade:

“Cuidar de uma criança com tal dedicação como se cuidássemos de outra, e esta outra, símbolo de todas, pertencesse a nós e ao mundo. Tratar bem a um ser pequeno, completamente vulnerável, morando dentro de uma solidão absurda. Imaginar a quantidade quase infinita de crianças desprotegidas. Espalhadas pelo mundo. Até aquelas que estão por nascer. Ameaçadas pelas tempestades e terremotos, que também ameaçam os pais. Ameaçadas pelos tiroteios, que também ameaçam seus vizinhos. Colocar na nossa mão o pássaro mínimo que é uma criança. Cuidar primeiro do corpo frágil de uma criança e depois cuidar do corpo frágil do seu coração. Para o bem das crianças, amar cada criança deve ser como amar a si mesmo. Cuidar de uma criança dando as mãos e toda nossa memória à criança que fomos. Nós, crianças assustadas pelos gritos, açoitadas pelo frio, acuadas pelo olhar estranho de um adulto mal amado.”

Fotografia de João Maria Alves

Sem a intervenção dos adultos a criança não acumula brinquedos. Ela reparte. Uma criança não machuca um animal. Se dá uma bronca num amigo, minutos depois, as pazes estão feitas. Focam numa atividade pelo prazer de fazê-la e com certeza não inventaram as notas, as medalhas, os pódios. Uma criança não precisa ser famosa e acha estranho ter várias casas. Sendo ela apenas uma, como vai morar em duas, ou três? Eu adoraria ter esta conversa com meus amigos: o que aprendemos quando olhamos de perto e atentos os modos de viver de uma criança livre? Mas fico aqui pensando neste pensamento ainda informe, de que mergulhar na essência de ser criança, na sua filosofia ousada e potente, pode ser um caminho para uma nova ética, um modo de estar abraçando a mudança, repetindo aqui uma expressão de bell hooks.

Para cuidar do mundo, precisamos ser crianças. Para salvar o mundo, nossa criança tem de ser nosso guia, nossa sabedoria. Para nos salvarmos, nossa prática tem de ser a bondade, a alegria, a compaixão e acima de tudo a ética intacta de uma criança. Que sejamos nós portadores dessa filosofia. Matriz urgente de um pensamento novo. Utópica, mas talvez redentora.


Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

2 comentários em “A resposta guardada na caixinha de brinquedos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: