PANC, a revolução das plantas uma década depois

Passados treze anos do trabalho realizado em assentamentos da Região Metropolitana de Porto Alegre, o Coletivo Catarse reencontra Valdely Kinupp. Em entrevista remota, o biólogo avalia os avanços na popularização das PANC na última década tendo como ponto de partida a gravação do documentário “Projeto PANCs – Plantas alimentícias não-convencionais”. Traçando horizontes de luta e possíveis caminhos a se percorrer, Valdely defende a agroecologia e o uso múltiplo das PANC para combater a monocultura no campo, a monotonia alimentar na mesa e o colapso socioambiental causado pelo modelo econômico exploratório e insustentável.

Ouça a entrevista como podcast ou siga lendo o texto.

R: Eu queria começar justamente pelo nosso primeiro encontro, treze anos atrás tivemos a oportunidade de gravar juntos o vídeo sobre um trabalho muito importante – que estava sendo realizado por ti e pela Irany Arteche nos assentamentos da RMPA. Naquele momento, as PANC eram algo completamente novo para mim. Hoje vemos que as PANC já estão  mais conhecidas e disseminadas. O que mudou nesses 13 anos? Daquela primeira gravação pra cá em relação a realidade das PANC, da disseminação desse conhecimento e em relação ao teu próprio trabalho?

V: Só tenho a agradecer ao Coletivo Catarse por registrar esse projeto capitaneado pela Irany, pelo patricínio da CONAB, do PNUD e outros parceiros. O projeto viabilizou a minha viagem para passar quinze dias no Rio Grande do Sul, gravando com vocês na região metropolitana de Porto Alegre.

E o filme é um divisor de águas, tem muita gente assistindo, virou um referencial e até hoje é usado em cursos, palestras, aulas, no ensino médio, universitário, superior, pós graduação, nas atividades de extensão no Brasil inteiro e até fora do Brasil. Então tudo começou com esse vídeo. 

Eu lembro até que o Coletivo Catarse mandou ele para o congresso de agroecologia em Curitiba, um dos maiores congressos do Brasil, na época reuniu mais de 4 mil pessoas. Eu estava no congresso e fui a essa sessão aonde vocês estavam exibindo o filme, quando entrei as pessoas começaram a me identificar e ver que eu era o cara do vídeo. E o vídeo fez o maior sucesso. 

Agroecologia e PANC tem tudo a ver. Desde então, a agroecologia se fortaleceu nos congressos brasileiros, internacionais, seminários, fóruns, simpósios, eventos, feiras, e as PANC também. 

O vídeo do Coletivo Catarse foi o primeiro a lançar para o grande público o acrônimo PANC. Até então ninguém usava. Hoje o Ministério da Agricultura utiliza, o CNPQ utiliza, o extinto MDA, o MAPA, o Ministério da Saúde, da Educação, recomendando a aquisição destes produtos da sociobiodiversidade brasileira para a alimentação escolar e eles usam o termo PANC nas entrelinhas. 

Hoje, você entra no Currículo Lattes e percebe que aumentou demais o número de pesquisadores – tanto com graduação, mestrado, doutorado, pós doutorado – que tem pesquisado ou o acrônimo PANC ou a expressão toda “Plantas alimentícias Não Convencionais”.

A expressão já existia, antes de 2007 quando eu defendi minha tese de doutorado “Plantas Alimentícias Não-convencionais da Região Metropolitana de Porto Alegre, RS”. Mas, o acrônimo eu não usei em nenhum momento na tese, nem a minha orientadora na época teve esse insight. 

O acrônimo PANC foi uma sacada da Irany Arteche quando escreveu o projeto (que deu origem ao filme). E aí, bombou, porque ele é fácil de falar. A partir daí vem essa revolução dos últimos 13 anos. Na época em que começamos não tinha nada e hoje tem muita coisa.

R: Mas a expressão foi criada por ti?

V: Criada não, mas ela realmente não era usual no Brasil. A gente tinha um livro chamado Hortaliças não convencionais da Amazônia da Marinice Cardoso aqui da Embrapa Amazônia Ocidental, que já chamava de Hortaliças não convencionais, mas não usou o acrônimo HNC. 

Em 2004, quando eu morava em Porto Alegre, publiquei com a minha orientadora Ingrid de Barros um artigo na Revista Horticultura Brasileira, aonde chamamos de HNC.

Mas, realmente fui eu que comecei a dar visibilidade e popularidade para essa expressão [PANC] no Brasil. Antes se chamava de ervas comestíveis, plantas comestíveis, plantas comestíveis alternativas, ou de plantas alimentícias alternativas. Não era usual esse uso do Não Convencional. Em inglês já tinha outros nomes. 

Mas, aí a gente padronizou “Plantas Alimentícias Não Convencionais”. Depois a Irany veio simplesmente com as iniciais da expressão. Eu gostei, copiei e dei voz e vida a esse acrônimo. Claro, logo depois outras pessoas, como a Neide Riggo no blog Come-se e várias outras pessoas ao longo dos anos usaram a expressão.   

R: Na época tu tinhas estudado as PANC na RMPA. Tu chegou num número de 1500 plantas?

Vald: A RMPA tem aproximadamente 1500 plantas consideradas nativas, autóctones dessa região. Dessas 1500, de forma preliminar, elencamos 311 que tem potencial alimentício. hoje já sei que são mais. Os SMILACS por exemplo, todos têm o aspargo comestível, o fruto talvez, mas não tenho certeza. Só de SMILACS já entrariam mais 10 espécies, então já aumentaria para 320.

De qualquer maneira, aproximadamente 21 por cento das plantas que estão em volta de vocês, no Morro do Osso, no Morro Santana, no Delta do Jacuí, às margens do Guaíba, no Parque da Redenção ou em qualquer rua ou morro de Porto Alegre e dos municípios vizinhos tem potencial alimentício. 

Coleta de PANC da RMPA. Acervo Coletivo Catarse.

A tese, que apresentei para obter o doutorado em Fitotecnia na área de Concentração em Horticultura, “Plantas Alimentícias Não-Convencionais da Região Metropolitana de Porto Alegre, RS” é a mais baixada da tradicional faculdade de Agronomia da UFRGS e está sendo muito usada. É possível acessá-la no banco digital de teses e dissertações. Nas estatísticas, já passou de 100 mil downloads. Não só no Brasil, tem downloads de Madagascar, Espanha, Uruguai, México, Estados Unidos, vários países da Europa, América Latina. 

Então a tese se tornou uma referência, e realmente é muito gratificante. Ainda estamos em uma pequena bolha, mas ela está crescendo a cada dia. É uma revolução!

Estamos aí com 12 ou 13 anos das PANC, é uma adolescente rebelde. Eu brinco que quando ela chegar a sua juventude máxima dos 21 anos a polêmica estará lançada: alguém que pegue o bonde andando vai falar “estão chamando essa planta de PANC, mas hoje ela não é PANC mais”. Talvez daqui 10 ou 20 anos, algumas plantas que chamamos de PANC estejam sendo vendidas tanto nos grandes quanto nos pequenos mercados.

Eu não tenho nada contra uma PANC ser vendida no supermercado, isso não é elitização, não é gourmetização, é simplesmente um sinal de que ela está chegando a um público maior. Mas ela continua espontânea, a pessoa pode comprar, comer no restaurante ou – se tem conhecimento, disposição física, tempo e uma maneira de ir colher – ela vai conseguir esse material de graça sempre. 

 

R: Hoje vivemos um período em que a ciência está em destaque, em virtude da situação pandêmica. Mesmo que muitas pessoas neguem a ciência, por outro lado ela nunca foi tão defendida, nunca esteve tão em evidência como agora. Quero te perguntar sobre o encontro do conhecimento científico com o saber popular. De que forma esse conhecimento presente na tua tese foi encontrado junto das populações tradicionais? Tu recebeu indicações, buscou em trabalhos ou tu estudou todas essas plantas pra chegar nesse resultado?

V: Em um momento de crise ambiental, sanitária e econômica, como estamos vivendo no Brasil e no mundo, as PANC tem uma relação intrínseca com isso. No caso de um isolamento em um sítio, uma chácara, uma casa com quintal, ou mesmo em uma região urbana onde as pessoas muitas vezes têm dificuldades para se alimentar, elas poderiam ter acesso a um material muito interessante do ponto de vista da nutrição e da saúde. 

A ciência foi muito menosprezada por alguns, mas está dando a volta por cima. Temos vários problemas como o corte de verbas para a pesquisa e o desprezo pela ciência, mas ela nunca foi tão falada. Principalmente com a questão das vacinas, da alimentação e outros medicamentos, estamos vendo a importância dos cientistas, dos professores, dos pesquisadores, dos acadêmicos, dos estudantes de graduação que fazem pesquisas básicas e aplicadas, da importância dos programas de pós-graduação.

As PANC tem muito a ver com isso, tanto em um caso de catástrofe sanitária como essa, num caso de greve dos rodoviários, como já vivemos um preâmbulo no brasil. Então esse conhecimento da natureza é muito importante. 

Boa parte (do estudo) é fruto do conhecimento tradicional. Do conhecimento das pessoas não só do RS, mas do Brasil e do mundo, já que muitas dessas plantas são cosmopolitas, ocorrem em várias regiões do planeta. 

A minha principal referência para chegar a isso foram bibliografias que não eram disponíveis para o grande público. Eu trouxe à tona livros antigos, artigos antigos, artigos críticos que estavam perdidos em revistas pequenas de pouca circulação, dissertações, monografias, teses, livros em português, espanhol e inglês. 

Eu não fiz pesquisas etnográficas, etnobotânicas, mas consultei obras que fizeram e são devidamente referenciadas na tese. Mas, também conversei com as pessoas, de uma forma muito informal, nas feiras orgânicas da Redenção (em Porto Alegre). Eu visitava os agricultores em municípios como Arvorezinha/RS, em busca de plantas para retirar amostras para análises químicas. A família Bellé colaborou muito, pois  já era pioneira na difusão de várias frutas gaúchas, fabrico de sucos, geleias. Hoje a Fran Bellé vende as flores comestíveis também. 

Então foi uma sintonia de pessoas e ideias, mas a principal fonte foi bibliográfica. O diferencial da minha tese e, depois, do meu livro e da minha trajetória toda, foi o meu engajamento no campo e na cozinha. Diferente de outros colegas, eu tive esse diferencial que eu já vinha fazendo desde sempre. 

Culinária com PANC. Acervo Coletivo Catarse.

Desde criança sempre gostei de comer muito e de experimentar o novo. Depois tive a oportunidade de experienciar isso nas minhas viagens, saindo do interior do RJ, indo fazer graduação em Londrina/PR na UEL (Universidade Estadual de Londrina). Com essa universidade maravilhosa, um cara que era serrano, mateiro, que morava na zona rural sem luz elétrica até os 19 anos, até ir para a faculdade, fiz tudo isso à lamparina, à vela. 

Na UEL tive a oportunidade de conhecer vários botânicos. Eu já conhecia as plantas pelo nome popular e fui aperfeiçoando meus conhecimentos. Ontem foi o meu aniversário, 18 de maio, e esse dia também foi escolhido como o dia do fascínio pelas plantas desde 2012.

Então ontem eu brinquei que realmente sou um fascinado. Meu mentor, Eduardo Hugo Rapoport, dizia que eu era um tarado pelas plantas.

R: Parabéns! E que sincronia incrível essa da data.

V: Sim, eu tomei conhecimento dessa data na semana passada. Os herbários brasileiros fizeram postagens comemorando. Acompanhei pelo canal no Youtube do herbário da UFRGS, ontem eles fizeram diversos vídeos falando sobre a flora megapotâmica, sobre a flora do RS, para comemorar esse dia do fascínio pelas plantas.

Todos nós temos que ter fascínio pelas plantas! A gente come planta o dia inteiro, chimarrão é planta, a cabaça, a cuia é planta, os remédios vêm das plantas na sua grande maioria; a gente não vive sem plantas, os livros que estão aí atrás de você ou de mim são plantas, são papéis, são celulose. Então, eu falo para os meus alunos que:

a gente nasce com as plantas vive com as plantas e morre com as plantas.

As plantas estão presentes em todas as etapas da nossa vida, nos momentos bons, nos momentos ruins, nos momentos tristes, de doença, de felicidade… A gente é planta! Então, gostar de planta é uma coisa que faz bem pra todo mundo.

Estamos caminhando a passos largos na difusão desse conhecimento, dessa paixão. Espero que realmente, daqui a alguns anos, meu livro, minha tese, meus vídeos, minhas entrevistas sejam históricas; que boa parte daquilo que eu chamava ou ainda chamo de PANC seja visto como convencional; porque até aquilo que as pessoas acham que não é PANC, é PANC –  se não está disponível para comprar na quitanda, na padaria, na pizzaria, sorveteria, mesmo que nas diferentes épocas do ano, não pode ser chamado de convencional. Não é trivial, não é corriqueira, não é aquela coisa que todo mundo conhece. 

Mas estamos trabalhando para que as PANC sejam assim. E demos passos largos! O Livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil é um bestseller nacional, com 60  mil exemplares vendidos. 

R: Esse livro nasce com qual propósito e qual conteúdo?

V:  O livro surgiu com o propósito de trazer receitas. Coincidentemente, abri em uma foto de uma planta daí de Porto Alegre. A foto da Caratinga foi tirada na avenida Ipiranga em uma casa em frente ao Campus do Vale da UFRGS. 

Então o livro traz três receitas por espécie, mais duas ou 3 fotos das partes usadas como alimentícias, in natura e pré processada, uma foto do hábito da planta e outra do ramo florífero ou frutífero. Sendo três receitas por espécie e 351 espécies, temos 1053 receitas com fotos. Isso foi um grande diferencial do livro, já que a maioria dos livros de receitas não têm foto. Mas essas 1053 receitas simples já representam quase tudo que se pode fazer com PANC no Brasil. Se você quer receitas mais rebuscadas tem opções como o blog Come-se, o Panelinha da Rita Lobo, os programas de gastronomia, Master Chef, Mestres do Sabor, Bela Cozinha, e todos eles usando PANC! 

Então o livro tem o propósito de trazer receitas simples, inclusive, com plantas comuns. O mamoeiro, por exemplo, Carica papaya é uma planta convencional, mas que tem partes, formas de uso, porções e pratos alimentícios não convencionais. Boa parte dos brasileiros não come as flores do mamoeiro macho, não come a medula – o miolo, ou parênquima medular – o próprio mamão verde como salada crua e a semente do mamão maduro, que pode ser usada como sucedâneo da pimenta do reino com moderação, como um tempero picante, pungente.  

R: Na época da gravação do vídeo, lembro de comer o mamão verde como salada em um assentamento… 

Nós estamos em um extremo do Brasil e tu estás em outro. Teu trabalho inicial foi feito aqui na região metropolitana de Porto Alegre, em um ecossistema de encontro entre pampa e mata atlântica, embora muitas plantas ocorram a nível nacional e global. Mas eu queria que tu falasse um pouco sobre o bioma em que tu estás: a Amazônia é um lugar de interesse mundial. Recebemos informações diárias dos conflitos, do avanço das monoculturas em relação ao bioma, devastação, desmatamento. Como tu vê a possibilidade de muitas plantas nativas da Amazônia desaparecerem com a situação do desmatamento? 

V: Pra mim é um privilégio ter tido a oportunidade de ser do sudeste, ter morado no PR e no RS, depois ter vindo para Manaus. Isso me permitiu conhecer um pouco da flora brasileira, que é muito rica, das nativas e das aclimatadas. Também me permitiu escrever o livro. 

Esse livro é para o Brasil inteiro e não é apenas de plantas do Brasil; por isso ele é Plantas Alimentícias Não Convencionais no Brasil: elas estão no Brasil, a maioria é nativa ou autóctone, mas outras são africanas, asiáticas, australianas, européias… mas que são aclimatadas em Gramado, Campos do Jordão. 

Tem outras que se adaptaram bem aqui na Amazônia que são da Polinésia, como as Frutas Pão, as Jacas, e estão contempladas no livro – desde que sejam consideradas não convencionais para alguns, ou para a maioria das pessoas. 

Moro em um sítio chamado Sítio Panc, na Região Metropolitana de Manaus, desde 2014. O local virou um Sítio Escola, hoje temos um canal no Youtube mais um perfil no Instagram que recomendo para quem gosta da área. Todo o sábado, as 20h de Brasília ou 19H de Manaus, postamos um vídeo novo com uma PANC que ocorra aqui no sítio ou em Manaus. Futuramente, nosso plano é expandir para viagens pelo Brasil e pelo mundo, fazer o PANC Expedições. Para isso, pedimos contribuições, pois estamos investindo em conteúdo. E o Youtube é uma boa ferramenta para isso, pois pode ser usado em palestras e aulas no Brasil e no mundo.

E o bioma Amazônia está sim bastante ameaçado, assim como o bioma Pampa aí no RS, que também tem uma riqueza de PANC, por mais que elas sejam pequenas em geral. Elas são gostosas e tem várias megapromissoras que estão sendo destruídas. A monocultura leva a esse problema do desmatamento e da degradação do bioma pampa, da Caatinga, da Mata Atlântica, do Cerrado, do Pantanal e da Amazônia.

Aqui tem esse problema do desmatamento, das queimadas ilegais. Daqui a pouco chega o verão, período em que não chove aqui, aí é um perigo. Com essa flexibilização das políticas ambientais – ou contra o ambiente – podemos ter problemas sérios nas Unidades de Conservação, no ICMBio, no IBAMA, que estão sofrendo perseguições, retaliações, mudanças nos cargos. 

Questões ambientais que eram consolidadas no Brasil podem ser massacradas. Consequentemente vai se massacrar a natureza, os recursos naturais, e a perda da agrobiodiversidade, a perda dos recursos não só vegetais, mas também hídricos, do solo, inviabilizando as condições de vida dos seres humanos urbanos, florestais, rurais e indígenas, tradicionais, quilombolas. Além de todos os outros seres, que não são humanos, mas também precisam de um ambiente equilibrado, não contaminado por agrotóxicos, microplásticos ou metais pesados.

 

Então as PANC e a Agroecologia, em que a gente milita diuturnamente, vem fazer contraponto a isso. Mostrar que podemos investir na bioeconomia real na Amazônia. Por exemplo, mostrei o vídeo da Vitória Régia, do Ariá. Temos um grande potencial para agrofloresta na Amazônia, para o turismo gastronômico. E as PANC tem tudo a ver com turismo agrário, turismo rural, turismo de conhecimento.

Exatamente isso que fazemos no Sítio Panc, aonde inclusive temos um Hostel Agroflorestal Panc, para receber as pessoas que queiram ter contato com a natureza, comer coisas diferentes, relaxar e também conhecer um pouco mais. 

R: Trazendo mais um elemento para a nossa conversa, hoje o RS está sendo visto como uma nova fronteira mineral do Brasil, e o Pampa – que é o bioma reconhecido mais recentemente no país – tem poucas áreas de proteção ambiental instituídas. Inclusive, uma das áreas mais preservadas do bioma está sofrendo ameaças de empreendimentos de megamineração. Como tu vê as questões envolvendo essas políticas de “desenvolvimento econômico”, como a mineração? De que forma poderíamos efetivamente fazer com que esse conhecimento que tu tens e que tantas pessoas hoje disseminam das PANC possam de fato chegar até a mesa das pessoas e ajudar na preservação dos biomas? Tu percebe algum caminho para isso?

V: Olha, sendo meio utópico, visionário, acho que tem sim. Mais importante do que os minérios, que o diamante, que o ouro, que o cobre, é a comida. Realmente, precisamos de todos os minerais – não vamos ser hipócritas, precisamos da mineração sim -, mas ela precisa ser feita com toda a ciência das engenharias mineralógicas, e levando em consideração os fatores ambientais. Tem lugares em que é possível fazer, tem lugares em que não é viável ambientalmente; portanto, não é recomendado. 

Aí no RS tem bastante engajamento, acompanho alguns professores como o Paulo Brack, da Botânica da UFRGS, a Jaqueline Durigon, Professora da Furg do curso de Agroecologia de São Lourenço, o próprio Leonardo Melgarejo.

Tanto nas questões dos agrotóxicos, das derivas. É uma barbaridade o que fazem aí. Essa questão da pulverização de agrotóxicos de avião, ou mesmo a deriva por aplicações com trator. Produtos que eles insistem em dizer que não faz mal, mesmo com estudos há muitos anos provando o contrário. O agrotóxico 2,4-D usado em pleno século XXI ainda, é lamentável. 

E as PANC entram como um prato cheio para esse contraponto. A gente tem que começar a ver que as “ervas daninhas”, as plantas espontâneas, para as quais se usa tanto agrotóxico (para eliminá-las) tem potencial alimentício e medicinal. 

Também precisamos pensar mais em valorizar mais o agricultor e a agricultora, os trabalhadores do campo, inclusive com uma equidade financeira um pouco diferente. E não estou falando do gigolô do terra, do megaempresário. Estou falando daquela família produtora, dos colonos do RS, dos assentados, dos agricultores tradicionais, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, caiçaras, e o camponês mesmo – que produz a comida que chega nas nossas feiras e mercados. A agricultura familiar produz essas coisas que o agronegócio macro não produz: e é o que a gente como de verdade!

 

Então muitas das PANC teriam que ser vistas como cultivos consorciados, gerando mais empregos. É uma visão utópica, mas o consumidor tem que fazer a busca de valorizar essa biodiversidade.

Por isso eu falo que a monotonia nossa em casa, no mercado, de comprar e comer sempre as mesmas coisas, acaba levando a monocultura no campo.

Se você só compra as mesmas coisas, os produtores só irão plantar, por exemplo, laranja o ano inteiro. O cara tem que comprar banana e laranja o ano inteiro, e soja, proteína de soja, frango. As pessoas querem comer ovo o dia inteiro.

Até isso você tem que se preocupar. Por exemplo, se a pessoa é vegetariana, mas come ovo para causar menos impacto. Mas, necessariamente não causa menos impacto, porque também precisa produzir soja e milho e outras coisas em larga escala para alimentar as galinhas.

Então, na minha percepção, quanto mais holística for a alimentação, mais regional, mais autóctone e mais auto sustentável – mesmo que com derivados animais, mas que forem produzidos seguindo a lógica do bem estar animal e dos preceitos agroecológicos – melhor. 

Mas, voltando para a mineração, em alguns casos ela precisa ser feita, porque a sociedade moderna não vive sem minérios. Porém, ela precisa ser feita seguindo o rigor científico, com estudo de impacto ambiental, com restrição de uso, com cautela, usando as melhores tecnologias do mundo, e não é em qualquer lugar que pode ser minerado. 

E a gente vai ter que passar a usar melhor os recursos naturais, com reutilização, reciclagem, menos desperdício. Estamos levantando uma mega civilização no planeta, mas acabando com os recursos naturais. O principal e o vital do planeta é água e o solo para produzir comida. 

Então, as PANC podem ajudar nesse sentido, precisam deixar de ser vistas como concorrentes – infestantes, nocivas, daninhas e tantas outras terminologias preconceituosas, como escrevo na tese e no livro – e passarem a ser vistas como alimentos: verduras, hortaliças, forrageiras para a nutrição animal, fonte de matéria orgânica para incorporação no solo.   

A agroecologia é o canal, precisa ser feita uma mudança. Mas, para isso, vai ter que ocorrer um êxodo urbano. As pessoas vão ter que começar a sair dos grandes centros. Precisa de mais mão de obra no campo. Realmente não dá pra ter agricultura agroecológica sem aumentar a mão de obra: se você vai fazer um trabalho mais manual – que exige ensacolar fruta, fazer manejo de poda, de adubação – em uma propriedade em que trabalham uma ou duas pessoas, vai ter que trabalhar 10 ou 20. Portanto os produtos alimentícios também precisam ser mais valorizados. Por isso a agricultura urbana também é tão importante.

As pessoas precisam melhorar o seu padrão de vida como um todo. Do jeito que está, as pessoas só crescem, moram na cidade – um ecossistema parasita que gera muito resíduo sólido, tanto reciclável quanto compostável, que não é aproveitado, vai pro aterro, pra lixão a céu aberto – e isso é insustentável! 

 

O ser humano só quer comer, mas não quer produzir. Os condomínios de luxo são o ápice disso, e são ridículos. Investem em um paisagismo estático – como diz o Toni Backes, renomado paisagista de Nova Petrópolis, “o estático não tem nem estética”. É aquele paisagismo plastificado, com divisor de grama e pedrinha. Cadê a vida ali? Cadê os passarinhos, as minhocas, os tatus de jardim, mamíferos?  E a gente, que não têm nada para comer nesses condomínios com aquele paisagismo asséptico. Isso é meio suicida! 

Até essa mudança de paradigma em relação ao paisagismo comestível, paisagismo produtivo tem que ser feita nas grandes cidades. E cada um de nós precisa ser um pouco agricultor. Aonde puder, que seja na sacada do apartamento, na varanda, em espaços públicos. Mas, realmente o crescimento desenfreado das cidades precisa parar. Do contrário, vamos ter problemas tanto com mineração, hidrelétricas, agrotóxicos.

Precisamos valorizar mais o camponês, valorizar mais o alimento, desperdiçar menos! O Brasil e o mundo jogam fora muitos alimentos convencionais e todos os não convencionais. Quantas pessoas comem PANC no Brasil? Apesar de crescer 400% o número de currículo lattes por ano que usam o termo, quantas pessoas comem? A gente tem que comer PANC.

Eu hoje comi um monte de Jaracatiá no almoço. Todo o dia a gente come PANC. E todos vocês precisam começar a fugir da monotonia alimentar. É um trabalho de formiguinha sim, mas que já surtiu muito efeito no Brasil e no mundo. 

R: Comentamos também sobre a questão da pandemia, e eu queria te provocar um pouco no sentido de pensar as PANC pra além do sentido alimentício, mas também no sentido medicinal. Existem inúmeras plantas com propriedades medicinais que não conhecemos, muitas vezes vamos em farmácias e compramos remédios caros quando poderíamos estar fazendo uso de plantas que estão tão perto de nós. E até que ponto a nossa negligência com a nossa biodiversidade pode favorecer o uso por indústrias, que muitas vezes se apropriam do conhecimento tradicional e científico para fazer um uso exclusivo de conhecimentos e plantas em benefício próprio?

V: A maioria das PANC não são só alimentícias, elas são plantas! Antes de qualquer coisa são vegetais que têm uso alimentício e muitas vezes tem usos medicinais. Todas elas, em tese, também são ornamentais, porque o ornamental depende muito do olhar da pessoa. Claro, tem plantas que são belas para a maioria das pessoas, mas toda a planta tem a sua beleza. 

Então, elas são ornamentais, medicinais, algumas são madeireiras, algumas são tintureiras ou corantes, outras podem ter partes tóxicas, podendo ser usadas como bioinseticidas, fibras. Então, as PANC tem múltiplos usos, e como remédio é a maioria. A maioria das PANC são medicinais e muitas medicinais também são PANC. Mas isso também depende, já que muitas plantas são tóxicas. Aqui, vale reforçar o cuidado com a forma de preparo e de consumo, a intensidade de consumo; porque todas as plantas têm princípios ativos e nenhuma quer morrer. 

Por isso, a importância da diversidade da alimentação. Mesmo que a planta seja comestível, comemos ela durante 10 ou 15 dias, depois passa um tempo sem comer. Ou come hoje e vai comer de novo depois de um tempo. Valorizar também a diversidade de cores, texturas e nutrientes no prato. Mesmo que seja uma PANC, você não precisa comer ela todos os dias pelo resto da sua vida. Até porque fica chato. Você pode e deve incorporar ela com outros ingredientes e diversificar ao máximo. 

Muitas das PANC são medicinais. Um dos vídeos que gravamos agora fala de uma PANC que ocorre na RMPA e está na minha tese, mas não no livro, Erva de Botão ou Agriãozinho do Brejo, “Eclipta Prostrata”. Fiz questão de gravar essa planta logo agora porque ela é muito importante nesse período da pandemia. 

É uma planta com ação hepatoproterora, então, se as pessoas fizeram uso de produtos que atacam o fígado – como Ivermectina e outros vermífugos, antibióticos… – essa planta age como hepatoprotetora, assim como o Picão Preto que também é uma PANC. Além de proteger o fígado, também estimula o sistema imunológico. Ela é muito usada na medicina Ayurveda, na medicina Chinesa e também costuma ser usada como corante na Índia, usada como comida e comercializada. 

Aqui no Brasil, ocorre no Rio Grande do Sul – na planície costeira, na RMPA, em áreas de plantio de arroz, já que é uma planta que gosta de áreas úmidas. Uma planta que tem todo esse potencial, mas é pouco conhecida. Apenas para citar um exemplo disponível no canal. Ela ainda tem ação comprovada de anti picada de cobra. Artigos científicos de universidades brasileiras e do exterior mostrando propriedades antiofídicas, com testes experimentais em ratos e evidências fortes desse efeito. 

Então, as Panc têm esses usos. A partir delas se pode seguir o filósofo grego Hipócrates: “Faça do seu alimento o seu remédio e do seu remédio o seu alimento”. As PANC oferecem muitas opções nesse momento de pandemia, inclusive para os chás. 

Eu por exemplo, estou tomando chimarrão e na minha água de infusão tem capim santo (ou capim cheiroso) e a Eclipta Prostrata – a erva de botão, que ocorre em todo o Brasil tropical inteiro e aí no sul também. E nós não a conhecemos, ela não está nem no meu livro, apenas na tese. É uma planta muito desconhecida no Brasil, apesar de haver estudos etnográficos e etnobotânicos mostrando o uso tradicional como protetor do fígado, do sistema imunológico e contra picadas de cobra – principalmente de cascavel e jararaca.

Essa é um exemplo, mas temos a moringa, ora pra nobis, o picão preto, picão branco, guasca, e tantas outras PANC que também tem propriedades medicinais. É um universo à parte de plantas que têm esses usos múltiplos, e num período de pandemia tem tudo a ver, tanto por fazer bem à saúde, ter efeitos nutracêuticos ou fitoterápicos.

Claro que no caso de doenças graves crônicas ou agudas, comer plantas não vai curar alguém da noite para o dia. Mas elas podem ajudar o sistema corporal a estar mais forte, mais preparado para esses baques da vida. 

Além disso, também tem o fator econômico relacionado as PANC. Se você perdeu o emprego, está subempregado, ou está em isolamento geográfico, e tem conhecimento de que frutas, verduras e hortaliças existem na sua região, você pode fazer um extrativismo. Isso pode ser feito tanto em ambientes rurais e florestais, como urbanos: em terrenos baldios, calçadas, lugares relativamente limpos – e quando uso essa expressão quero dizer que muitas plantas estão em lugares mais ou menos limpos, não dá para comer elas cruas; mas, a partir do momento em que você lava, higieniza e cozinha, no geral você se livra dos contaminantes biológicos. Mais perigoso são os pesticidas, agrotóxicos, é preciso cuidar o local do extrativismo para evitar resíduos dessas substâncias químicas.

As Panc tem essa importância, tanto na manutenção da saúde – como preventivo, profilático -, bem estar, por ser uma comida gostosa que incorpora novos sabores e aromas, a possibilidade de você gerar economia – seja por não comprar produtos que você poderia colher da natureza, ou que você pode pegar sementes ou mudas e produzir no seu quintal, no seu pátio, na sua sacada, sítio, fazenda, de micro escala até imensa escala. Reforçando que a imensa escala não precisa ser monocultura, temos tecnologia agroflorestal e agroecológica para produzir PANC em policultivos em agroecossistemas biodiversos. Podemos produzir PANC e alimentícias convencionais, ornamentais, medicinais e madeireiras. É a bioeconomia real, partindo de usos múltiplos das PANC!

 

R: Sim, como última pergunta, gostaria que tu fizesse um fechamento contando um pouco do potencial do conhecimento científico para complementar o conhecimento popular. Até porque sabemos de muitos casos – tu citou alguns e nós na Catarse presenciamos o exemplo da palmeira juçara, que só era usada popularmente para extração de palmito e depois de estudos se descobriu que era possível usar o fruto, gerando uma cadeia produtiva que favorecesse a espécie.

V: Eu acho que essa sinergia do conhecimento tradicional com o científico é essencial! Muitas vezes o conhecimento científico não faz nada de especial. Muitas vezes apenas sistematiza e dá uma linguagem científica para aquilo que muitas pessoas já até sabiam. 

Por outro lado, o que tu falou é bem real. Alguns conhecedores tradicionais nunca saíram do local em que vivem, então ele conhece lá: aquela comunidade, aquela planta ele conhece como ninguém. Mas, às vezes ele só conhece aquilo que aprendeu com o avô, com o bisavô, o pai, a mãe. Daí ele faz aquele uso tradicional – que às vezes é muito correto, outras pode ser não muito correto à luz do conhecimento científico atual. Aí, também temos esse feedback: “Olha, você faz assim, e funcionava, mas com os conhecimentos químicos, agroecológicos, biológicos, botânicos, médicos, agronômicos, vamos fazer dessa forma, que é mais sustentável, produtivo, rentável”.

Às vezes a pessoa aproveita uma planta, mas apenas para uma finalidade. Ela não sabe que a outra parte também é medicinal, alimentícia. No exemplo da Juçara, Euterpe Edulis arecacea da Mata Altântica, era realmente usada como palmito. Até o nome popular da planta era palmiteiro e também ripeiro, já que o caule era usado em construções rurais populares para fazer casas, trapiches e telhados.

Hoje ele tem esse uso massivo da polpa do fruto – está na tese e no livro. Na época estava começando esse movimento bem interessante no litoral norte do RS, em que o Centro Ecológico de Ipê e vários outros colegas deram todo um apoio.

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A Irany Arteche – nutricionista e ativista moradora de Porto Alegre e ativista e parceira das  PANC desde sempre –  faz várias receitas salgadas com a polpa de Juçara, substituindo o extrato de tomate em molhos para massa, para arroz, para acompanhar farinhas e frutos do mar – semelhante ao uso que se faz do açaí na Amazônia.

O Butiá, aí no Rio Grande do Sul tem um uso tradicional, mas que não é convencional. Porque não é convencional? Porque não está nos mercados. Tem gaúcho que nunca comeu Butiá. Pode até falar “Me caiu os butiá do bolso”, mas nunca comeu.

Você por exemplo, quando foi a última vez que comeu, ou você já comeu Butiá?

R: Eu por acaso sou um entusiasta do Butiá. Costumo cuidar a época e colher, comi esse ano, mas não tanto quanto eu gostaria…

V: Por que você não comeu mais? Se ele fosse convencional, além de você poder fazer o extrativismo, você iria encontrar ele não só nas feiras da redenção, mas também nos mercados e mercadinhos – tanto ele in natura, como na cachaça, mas também o sorvete de Butiá em um pote de 2kg.

R: E é maravilhoso o sorvete de Butiá.

V: É, a gente sabe que é maravilhoso, mas não se encontra. Não tem para comprar fácil, e se não dá pra comprar, não vende. Se não vende, não tem. E fica aquele ciclo vicioso. Como resultando vão se destruindo os butiazais ou Butiatuba como chamava o famoso botânico Balduíno Rambo.

Daí você vai em SC ou no RS, em Santa Vitória do Palmar, Mostardas, Girua, e vários lugares e percebe que em muitos casos se destruíram os butiazais. Então, esse uso integral das PANC é muito importante: congregar o conhecimento tradicional e o científico.

Você pega uma planta que já tem um uso popular de uma parte, daí faz uma composição química e percebe que tem um alto teor de fenólicos, de compostos bioativos anti oxidante, betalaína, antocianina, quercetina, flavonóides, que tem propriedades terapêuticas, nutricionais, pró vitamina A, vitamina C, carotenóides em geral, outros pigmentos. A partir daí você tem uma ferramenta para estimular a produção dessa planta, que tem efeito nutricional e terapêutico. 

Então essa junção é essencial. Acredito que o conhecimento popular é vital para o conhecimento científico. Por sua vez, o conhecimento científico traz mais robustez e entrega informações mais palatáveis, principalmente para a sociedade urbana e para a bioindústria e agroindústria. 

Daí retomando a questão sobre a biopirataria, é algo que existe no Brasil desde o tempo da colônia, dos trezentos anos de colônia fechada e de regime escravocrata e exploração do trabalho dos indígenas e africanos…

R: Sim, lembrando até que Brasil é o nome de uma árvore.

V: Bem lembrado. Eu falo para os meus alunos que talvez sejamos o único país que tem o gentílico de uma planta. E ainda com um sufixo “eiro”, que significa trabalhador, o padeiro, pedreiro, carpinteiro. Nós somos os brasileiros, alguns dizem que eram os extratores de pau brasil. 

Então o brasil e os brasileiros foram vítima de muita biopirataria, mas o país também a praticou. Trouxemos os eucaliptos da Australia, os pinus da américa do Norte. Em uma única viagem, o Edmundo Navarro, trouxe mais de 150 espécies de eucalipto. Hoje a australia vem buscar germoplasma de eucalipto aqui e nós fazemos o contrário: vamos buscar germoplasma de goiaba serrana. 

O mundo hoje é globalizado, então o brasileiro também é biopirata, eu sou biopirata. O ser humano é assim, viajamos e trazemos material, pegamos mudas, estacas, sementes e levamos, trocamos.

O problema é que no nosso país, as empresas locais e as pessoas não tem condições financeiras, aporte logístico, subsídios, apoio para investir e fazer agroindústrias de óleos de plantas daqui, de biodiesel, de óleo comestível, de sorvete, de polpas, de geléias. A carta de geléias do Brasil é ridícula.

Porque a geléia de Butiá não está aqui em Manaus? Poderia estar, nós dois moramos no Brasil. Assim como a geléia de Araçá Boi podia estar aí no RS. Por mais que a agroecologia recomende o consumo local, se o vinho gaúcho chega aqui e eu tomo, a erva mate também.

R: E o açaí da Amazônia chega aqui.

V: Sim. Poderíamos mandar daqui Taperebá, Cupuaçu, pupunha, fruto de pupunha. 

Então a biopirataria tem esse problema, mas ela não pode virar bioparanóia. Precisamos valorizar as plantas do nosso país, mas não blindar elas, achar que elas são intactas. Precisamos gerar empregos com elas, gerar renda e ao mesmo tempo a conservação da natureza com uso real e racional dela.

Claro, se o Brasil ficar só investindo nas commodities, nessa mineração de exportação sem valor agregado, ou produtos do agronegócio sem valor agregado e que só servem aos mercados europeus e asiáticos, vai ser um problema sério. Nesse caso, vamos erguer uma civilização em cima da degradação do nosso povo e dos nossos recursos naturais.

O Khatounian já fala isso no livro dele: as grandes civilizações que tombaram eram gigantes com pés de barro. Gigantes com pés de barro não se sustentam. Podemos entrar em colapso ambiental, econômico, social, cultural, se investimos nesse modelo.

Então, como eu sempre digo, PANC na veia.

Incorpore as PANC na sua alimentação, no seu agroecossistema, gere demanda induzida, vá para as feiras e mercados e deixe de comprar as mesmas porcarias de sempre. Compre alimentos mais naturais, mais orgânicos, mais regionais, mais agroecológicos, mais brasileiros. Claro que precisamos também lutar por políticas públicas, logística reversa e incentivos sistemáticos, mas podemos e devemos pensar globalmente e agir localmente, cuidando da nossa família, do nosso corpo e do nosso quintal.

 

Acho que isso permite muito a popularização da ciência, comover as pessoas. A gastronomia traz isso, e temos um boom dessa gastronomia no Brasil com um destaque para a gastronomia do norte. Quem sabe a gente consiga levar mais espécies de frutas, temperos e hortaliças da Amazônia pro resto do Brasil, assim como dos outros biomas.

Precisamos ter um alimento mais brasileiro e deixar de investir só em commoditie, com monocultura, com degradação do solo, que é deplorável.

 

Entrevista por Bruno Pedrotti e Jefferson Pinheiro

Edição por Bruno Pedrotti

Um comentário em “PANC, a revolução das plantas uma década depois

  • 23/07/2021 em 08:28
    Permalink

    Que trabalho fenomenal que vocês fizeram aqui! Um dossiê das PANC! Kinoupp sempre nos ensinando um novo olhar para o mundo e para o nosso sistema como um todo. ARRASARAM!!! VIVA A DIVERSIDADE! VIVA A DIVERSIDADE ALIMENTÍCIA E NUTRICIONAL

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