A festa do meu corpo: arte, amor e êxtase

Por Eliana Marah

A igreja diz: o corpo é uma culpa.
A Ciência diz: o corpo é uma máquina.
A publicidade diz: o corpo é um negócio.
E o corpo diz: eu sou uma festa

Eduardo Galeano

 

Periferia. Palavra conhecida. Mas sabe de uma coisa? Para entender mesmo, tem de vir de lá. Tem de viver lá. Nasci num bairro dormitório, na periferia paulistana. A escola sempre me pareceu o lugar que me tiraria do confinamento e das estatísticas do que me esperava. E desde cedo, me apeguei ao espaço da escola como minha verdadeira casa. Lá, onde eu ajudava na biblioteca, participava do coral, tocava atabaque na fanfarra e era atuante nas peças de teatro. Aos 13 anos, por necessidades econômicas, meus pais disseram que precisávamos trabalhar. E eu teria que ir para o período noturno. Começou um período sombrio. Eu acordava sozinha de madrugada, ia sozinha para a estação de trem, desviando dos “tarados” que rondavam o caminho das mulheres, chegava na fábrica me sentindo uma sereia fora da água, odiava aquilo tudo, tinha nojo de comer em marmita e no final do expediente, corria para pegar transporte lotado para chegar na escola sem atrasos. Fiz dessa adversidade meu primeiro contato com uma pedagogia que existia em mim. Sendo estudiosa e autodidata, exceto em matemática, eu era boa de ajudar meus amigos. E sempre era escolhida como monitora.

Essa rotina desgastante era suportável porque mesmo exaurida eu chegava tarde em casa, jantava, tomava banho e colocava em dia as tarefas. Eu pressentia que se me mantivesse como boa aluna, o preço valeria a pena.

Meu corpo exausto, era o corpo que entrava na engrenagem-máquina capitalista. E isto mudou quando o teatro e a arte popular entraram na minha vida. Me inscrevi num curso oferecido para alunos da escola, que era realizado por uma ONG composta por artistas libertários, que seguiam os princípios do teatro popular de Augusto Boal. Com quinze anos, eu era a caçula de um grupo de teatro mambembe, Teatro de Rua. E outro corpo entrava em cena: meu corpo-festa. Tenho origens ciganas, por parte do meu pai. Tive uma vida cigana. Quando assisti “Hair”, me entendi como pessoa. O filme me traduzia. Eu era hippie e ainda não sabia. Sou dessas de queimar identidade, rasgar dinheiro e dar minha roupa se alguém com frio passar por mim. Não escolhi ser assim. Meu coração é de estudante. Meu corpo é de bailarina. Minha alma é mambembe.

Os saltimbancos sempre me encantaram. Eu era fascinada e atraída pelos circos que vinham para meu bairro. Ficavam, quase sempre, ao lado dos parques de diversões. Nas minhas melhores lembranças, andar na roda gigante era quase um milagre. As luzes, as músicas, as atrações variadas: um conjunto de sensações mágicas, para a menina do bairro periférico. Pobre, mas curiosa e faminta de pão e circo.

Sempre fui artista. E sempre tive imenso amor pelos livros. Tive tanta pressa de entrar no mundo dos livros que me alfabetizei sozinha. Hoje eles ocupam minha casa toda. É difícil sair e chegar em casa sem trazer um livro. E na bolsa, quando saio, levo vários. Abraço meus livros, guardo neles flores, bilhetes. Até dinheiro e documentos importantes, que esqueço onde coloquei. Não consigo me imaginar vivendo num espaço onde não existam livros.

Livros me entregavam o mundo. E algumas soluções para questões da vida. Foi na adolescência também que li partes do livro Segundo Sexo e entendi muito pouco. Mas me parece que foi nesse livro que Simone de Beauvoir me ensinou a ter orgasmos, sozinha, em casa, na segurança do lar. Minha performance melhorou lendo, e ainda entendendo pouco, autores como William Reich e o brasileiro Roberto Freire, cujo livro intitulado “Sem tesão não há solução” me entregou um mantra. Mais tarde, fazendo terapia bioenergética aprendi muito mais sobre meu corpo e meus direitos ao prazer.

Uso álcool gel, máscaras e não entro em aglomerações. Levo a sério o isolamento e tomei a primeira dose da vacina no belíssimo prédio do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Respeitando os protocolos, fiz uma escolha estratégica de amar à distância.

Escolhi quatro homens como parceiros de orgasmos. Descobri uma forma poética de misturar arte com orgasmo. Faço isso como arte. Eles não sabem, talvez desconfiem. Quero narrar, brevemente, do caso que tenho com cada um. Percebo que não escolho homens com corpos de Adônis, não gosto de Narcisos. Gosto de homens com quem, depois de transar, eu possa conversar ou ficar em silêncio. Esses homens serão chamados por nomes fictícios: Jorge, Rubens, Ángel e Ignacio. Para você se localizar vou resumir brevemente a história que me liga a cada um deles. Antes, dedico aos quatro cavaleiros um trecho da poesia de Chico César, que é um mambembe muito romântico:

“Para viver em estado de poesia
Me entranharia nestes sertões de você
Para deixar a vida que eu vivia
De cigana antes de te conhecer

De enganos livres que eu tinha porque queria
Por não saber que mais dia menos dia
Eu toda me encantaria pelo todo do seu ser.”

Jorge, um homem católico querendo descer do altar. Em meados de abril, fui para o sítio de uma amiga, na serra. Iria passar um mês com ela. Precisava de uma capa de chuva mais adequada por causa do frio da região. Entrei na loja e o dono, Jorge, veio me atender. Em lugares pequenos os boatos voam. No nosso primeiro (e único) encontro, ele já sabia algumas coisas sobre mim, que o interessaram. E tivemos uma conversa muito agradável. Não levei a capa porque não tinha a cor que eu queria. Ele ficou de me avisar quando chegasse. Pediu meu telefone e, a partir daí, começou a me enviar mensagens muito especiais, com imagens e conteúdos que me agradavam. Acabei não ficando no sítio e voltei para casa. Não passei na loja e não me despedi. Mas ele continuou, com extrema delicadeza e cuidado, me mandando mensagens. Todos os dias, em certo horário da manhã, até hoje, recebo um bilhete matinal. Nenhum conteúdo de flerte, nenhuma insinuação além desse gesto, que mostra que ele está em conexão comigo. Esse cuidado, essa rotina de me entregar afeto, me faz amar esse homem também. E não há ainda nenhuma necessidade de que isso mude e se torne algo diferente, porque é perfeito como é. Uma amizade amorosa, alimentada com zelo e carinho. Amizade que se mistura com o fato de ele ser católico e me enviar, de vez em quando, gotas de sabedoria católica. Que tento saborear, principalmente quando é de noite e ele me deseja um bom descanso.

Sinto curiosidade de saber como seria estar com ele e se possível, receber dele um abraço. Desses abraços onde se pode descansar.

Rubens: um homem inteligente e triste. Encontrei esse homem, quando morei em Porto Alegre. Nossa história começou numa cafeteria bem conhecida no Bonfim, bairro onde eu morava e considero o melhor da cidade. Principalmente porque é bairro de artistas, saltimbancos e judeus. Eu e minha amiga Surian estávamos tomando um café, numa tarde fria, talvez no meio da semana. Conversávamos animadas sobre algum tema polêmico. Estávamos felizes e entusiasmadas. Acho que esse clima entre nós, duas mulheres bonitas, inteligentes e que não deviam nada a ninguém, fez com que ele se aproximasse. De repente, éramos três. Na mesma bolha: celebrando os encontros e as controvérsias gentis.

Nunca soube muito da vida dele. Mas o encontrava com certa frequência no Bonfim. E muitas vezes, sentávamos juntos, dividíamos café e prosa. Eu e ele comprometidos. E respeitosos. Nada além de uma boa conversa. O que vinha além, era a alegria cálida com que celebrávamos a sorte de nossos encontros, por acaso. Algo em mim (só posso falar por mim) foi mudando. E um amor bonito foi chegando. Amor utópico. Impronunciável.

O tempo fez seu trabalho de sempre e passou. E eis que a roda da vida nos colocou em estados diferentes. Vim morar no Rio de Janeiro e dois anos depois a pandemia adiou nossa decisão de um encontro para assumir, sabe-se lá como, esse amor, que se mostrou recíproco. E pelo impedimento do encontro, recebemos uma tarefa bem bonita: como nos entregarmos na distância, usando as ferramentas de relacionamento disponíveis. Em segredo, pelo WhatsApp e Messenger, teve início nossa troca de cartas. E havia o terreno fértil, das boas condições para um bom sexo virtual. Ele prometeu que viria para o Rio de Janeiro. E com os pés nas águas do mar de Ipanema, vendo o pôr do sol do Arpoador, daríamos nosso primeiro beijo, tão bem guardado. Belo cenário, bom roteiro.

Mas não. Ninguém se viu no Zoom. Ninguém se masturbou junto. Ninguém disse palavras malvadinhas para excitar, ninguém mandou nudes. Menos ainda cartas, poemas, imagens, flores, livros, um anel, um cachecol feito à mão. Falhamos vergonhosamente. Ninguém se beijou ainda. E talvez esse amor já tenha seguido por outra rota. Foi interrompido na trajetória ascendente de ternura e desejo. Sinto vontade desse beijo, de frente para o mar.

Àngel: um homem meio índio, meio tigre, xamã, deus grego e sensível. Ele mexe comigo porque é um homem de uma beleza selvagem, que me lembra Daniel Day-Lewis no filme O último dos moicanos. Mas ele é mais do que isso. É um artista incrível. Ele não faz ideia de que temos um caso. Nem vai fazer. Mas uso áudios com a voz dele para me animar. Geralmente, o orgasmo com ele é do tipo celestial. Faço amor com uma divindade.

E por fim, diferente de todos os outros, Ignacio: um homem incrível, que mistura coragem e ternura e é o grande amor da minha vida.

Ele chegou de mansinho. Logo se tornou o dono da casa toda. Hoje mora em outro país. Difícil saber se algum dia poderei ao menos revê-lo. Mas já fomos companheiros de cama, mesa e mar. Ele é um libertário. Uma das pessoas mais verdadeiras e generosas que conheço. Sempre me estimulou em cada gesto de arte e de escrita. Leu, deu palpites, acordou no meio da noite para me presentear com um café novinho, enquanto eu escrevia meu primeiro livro. Às vezes, algo me lembra o cheiro do corpo dele. Ele está casado com outra. Ponto final. Mas na minha cama mando eu e convido quem eu quero. Tenho tantas boas lembranças do que vivemos que não preciso de estímulos para gozar pensando nele. Basta pensar. Ver fotos. Ou querer aliviar a saudade. Com ele a vida foi feita de festa, batalhas, coragem e amor intenso. O que mais me faz falta é o beijo. As conversas antes de dormir agarradinhos. Eu me sentindo protegida e muito amada.

Me faz bem ter essa liberdade de amar e ter prazer. A causa das mulheres, cristalizada no slogan “meu corpo, minhas regras”, já era uma realidade para as mulheres libertárias nos anos 70, minhas parceiras de jornada. Talvez poucos saibam, mas não cedemos às exigências dos modos patriarcais de definir “mulher”, e como exemplo, não éramos vítimas da depilação. Exibíamos nossos pelos com orgulho.

Acatei o isolamento na pandemia. Li mais livros, vi mais filmes, conheci mais pessoas, estou escrevendo muito. E me reencontrei com a adolescente que aprendeu que o domínio sobre seu prazer estava em suas mãos, literalmente. Tenho quatro homens eleitos. Estou fazendo arte. Sinto falta de sair, ciganeando, trocando de cidades, pulando de galho em galho, circense e saltitante. Mas não tenho pressa. Quero estar bem e viva. Como diz a bruxa maravilhosa Rita Lee, enquanto estou viva e cheia de graça, honrando o prazer e fazendo festas com meu corpo, talvez ainda faça um monte de gente feliz.

Agradeço aos meus homens. Pelas noites (às vezes, manhãs e tardes) de prazer, que me deixam, amorosamente, em festa. Em pleno gozo, no meu estado de poesia.

Foto de João Maria Alves

Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

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