Um tempo sem hora, para deixar tudo lá fora

Por Eliana Marah

“ah… essa vida que não para
e me arrasta pra acontecer
o que não sei domar em mim.
ir sem fim pra onde vou
e nem sei onde é.”
Renata Ettinger

Conforto e desconforto. Aversão ou apego. Perdição ou certeza. Dor e prazer. Alegria e tristeza. Cela ou imensidão. Tenho vivido experiências ambíguas e inconstantes. Do meu apartamento vejo as janelas de outros apartamentos e diariamente posso observar mudanças sutis: objetos, plantas, animais, as telas dos aparelhos de televisão, bandeiras de times, roupas penduradas, pessoas que me olham ou miram algum horizonte. Há um homem que passa o dia todo sentado, numa mesinha de escritório, aparentemente concentrado e dedicado a alguma tarefa. Parece solitário. Um dia, tentei limpar o vidro e estando em posição de quase perigo, um dos vizinhos disse: cuidado, você pode cair. Acenei para ele, agradeci e desde então, trocamos cumprimentos. De onde olho, vejo morro e céu. Se fecho os olhos e me mantenho atenta ouço os sons ao redor: carros, caminhões, gritos gostosos de crianças, pai e filho jogando futebol, falatório geral na rua, gritos quando o Flamengo joga e tiros, quando os morros próximos entram em ebulição. Estou numa bolha. Estou tendo o privilégio de me manter isolada e de poder escolher quando posso sair de casa. Distante da família e dos amigos, me sobra tempo para estar comigo, conectada com o que sou. Parece bom. Mas nem sempre é.

Mais próxima de autores budistas, leio Os lugares que nos assustam, de Pema Chödrön, um guia para despertar nossa coragem em tempos difíceis. Um dos mantras que tenho usado diariamente, como prática, é bem conciso: nem apego nem aversão. Se tudo na vida é impermanente -alegria, prazer, dor e sofrimento-, tudo que nos acontece vai passar. Tento fugir do sofrimento e busco esticar os momentos de alegria e prazer. Prema me diz que “a primeira marca da existência é que nada é estático ou fixo, tudo é fugaz e impermanente. É o estado normal das coisas. Tudo está em processo. Tudo – cada árvore, cada folha de grama, todos os animais, insetos, seres humanos, edifícios; os animados e os inanimados – está sempre em mudança, momento a momento. (…) Isto significa que nem sempre a vida nos será favorável. Significa que haverá ganhos, assim como perdas. E não gostamos disso. Mais difícil ainda aceitar isso neste momento em que vivenciamos tantas perdas, num cenário impensado e assustador.

Sinto necessidade de ter contato com a natureza. E gosto muito de ter esse contato a sós ou com poucas pessoas. Praias lotadas são a versão do Inferno. Evito viajar em feriados. Quando posso, sempre que posso, busco o mar. Morei quase vinte anos no litoral do Nordeste. Certa vez, saindo de uma aula noturna, voltava para casa e peguei um trânsito horrível. O campus da universidade onde eu dava aulas ficava próximo da Barra, praia de Salvador. Impaciente e me sentido meio idiota naquela fila enorme e tudo parado, lembrei do Barlavento. Tive um impulso e virei o carro à esquerda, no sentido contrário da minha casa. Entrei no bar, que ficava no alto e de onde se podia ver a extensão do mar e ouvir o som das batidas das águas, sentindo uma expansão dentro de mim, uma sensação de poder e liberdade. Bebi um bom vinho e jantei, enquanto ouvia boa música. Deixei minhas coisas na mesa e desci: pisei na areia, molhei os pés. Fiquei ali, diante da noite imensa, ouvindo os sons quase hipnotizantes. Ver o mar e me entregar a um estado de contemplação é um “lugar” a que sempre retorno.

Barlavento, palavra bonita, nomeia também o trabalho feito na parte da duna que recebe o vento. A ideia de barlavento refere-se ao lugar de onde o vento vem. Se eu não estiver enganada, as dunas podem ser descritas como um tipo de colina formada por areia que se move e se acumula devido à ação do vento. A velocidade com que uma duna muda de aspecto faz com que sua “alma” repouse na imagem da impermanência. Quase como foi dito a respeito dos rios, você nunca pisa na mesma duna. Nos desertos, aqueles que o atravessam, são nômades e destemidos. Sempre me intriga o desejo das pessoas que buscam lugares extremos e hostis, como picos das mais altas montanhas, lugares gélidos ou desertos. Gosto muito, mas me dá vertigem assistir a um surfista pairando, destemido, no alto de uma onda gigantesca. Essa imagem faz parte do repertório dos meus pesadelos. Há várias histórias trágicas que são os finais não felizes de escolhas que as pessoas destemidas fazem. Há também escolhas ordinárias, da vida comum, que resultam em tragédias. Parece óbvio, talvez seja, mas há escolhas irrelevantes que podem trazer resultados inusitados, de imensa alegria ou grande dor, que não chegam às manchetes do jornal.

Foto de João Maria Alves

Tragédias coletivas, como essa que vivemos agora, reconectam grande parte de nós com a finitude. Nos trazem de volta para os valores que deveriam ser os nossos guias. Em 2009, um amigo muito querido me ligou, aos prantos. Queria me dizer que fui a primeira pessoa com quem ele quis falar. E precisava dizer que eu era muito importante para ele. Eu não conseguia entender nada. Foi quando ele me contou que estaria a bordo do avião da Air France, que sairia do Rio rumo a Paris. Por algum motivo insano, ele desobedeceu às ordens da chefia e cancelou sua participação num evento que se realizaria na Noruega. Esse gesto era totalmente contrário à sua personalidade. Ao recusar essa viagem, ganhou a segunda chance na vida. O avião decolou no Rio, no dia 31 de maio, com 228 passageiros e horas depois mergulhou na imensidão fria e escura do Oceano Atlântico. Todos morreram. Inclusive amigos da equipe que trabalhava com ele. Essa sensação de não ter morrido, por um triz, fez com que, por um tempo, ele fizesse escolhas diferentes para sua vida. Anos depois, já estava bem mais humano, preocupado com o vencimento das contas e enredado na rotina das relações com as coisas e as pessoas. Nossos contatos com a transcendência, na proximidade do sentido anímico da vida, podem ser vulgarmente comparados com a duração da doçura de um chiclete. Dura menos do que desejávamos, mas aceitamos isso e pegamos o próximo que está no bolso.
Parece (e é) frase típica de livros de autoajuda, mas creio mesmo nisso: a liberdade está ligada à coragem de nos conhecermos. Em Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa nos diz, através da voz de seu personagem, sobre o mal que é parte inegável de cada ser humano: Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem — ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! — é o que digo. Não podemos temer o mal que mora em nós. É preciso praticar uma inteligência mais profunda para não nos iludirmos da suposta concretude (e oposição) de bem e mal.

O deserto me parece ser um espaço de experimentar a movência constante da vida. Mesmo não tendo visitado um deserto propriamente dito, já pude experimentar, incontáveis vezes em que só havia sensação de isolamento e perda da segurança. O espaço contemplativo que buscamos em aulas de meditação ou ouvindo alguma música, pode ser encontrado no nosso quarto. Podemos nos isolar no silêncio que escolhemos fazer ou nos distanciar do que nos perturba. Sempre tentamos encontrar descanso daquilo que nos acelera e cria ansiedade. Mas o que vemos quando diminuímos nosso ritmo é espelho. O que surge quando tentamos seguir o fluxo da vida e não o ritmo do cotidiano que nos é imposto é a proximidade do nosso interior. O que pode trazer paz ou desespero.

Aprendi há poucos dias um termo novo: saciedade semântica. É a sensação que temos quando, ao falar uma palavra várias vezes, ela se esvazia de sentido. Por alguns instantes, a palavra se torna um estranho. Chegarmos a uma saciedade com a matéria (objetos, coisas, status, carro, dinheiro, poder) é uma oportunidade que temos agora. A percepção amplificada da nossa finitude e fragilidade retornou, apocalíptica, com a pandemia: nada é seguro, nada está no controle. Isso pode ser uma estratégia de sobrevivência para além do que nos abala hoje. Não sei dizer se quero essa percepção, talvez eu queira apenas uma vida honesta, praticar minha empatia, ser generosa e levemente viver bons momentos e suportar as dores.

Ao contrário disso, tenho a impressão de estar atravessando desertos. Alternância de desconforto com o calor extremo e epifania, nas noites estreladas. Me sinto duna, a cada dia moldada em um novo estado de humor e consciência. Movida por ventos que não convidei. Me vejo mar, imensa ao longe e apenas um continente de grãos de areia, vista de perto. Me sinto pequena e finita. Durmo mal às vezes, perco o sono, perco as estribeiras, choro, quebro pratos e ao mesmo tempo danço, tímida e espalhafatosa. Há momentos em que me desprendo da realidade em que estou e tudo parece um sonho. Segundo Prema, tudo é sonho, apesar de ser “desconfortável não ter um chão sobre nosso pés.”

Diante da grandeza da natureza, posso dizer que me sinto insignificante. Mas também é neste contato que me sinto viva e aceito que estou de passagem, saboreando o espetáculo milagroso da impermanência na dança das folhas destacadas das árvores. No voo impreciso e agitado dos pássaros. No movimento sinuoso como as águas descem rumo ao mar. Na chegada imprevisível das tempestades.

O vento, poderoso e implacável, traz beleza e ajuda a germinar flores perfeitas e ao mesmo tempo também provoca tragédias. O mar promete aventuras e descobrimentos. As dunas me ensinam sobre a precariedade e a concretude ilusória das coisas. As águas me assustam e me atraem, para mergulhos em territórios desconhecidos. Vento, mar, dunas, águas: a natureza seguindo o fluxo puro e equilibrado da essência da vida: tudo que parece sólido se desmancha no ar. Eu estou no caminho, buscando acreditar que sou oceano, mesmo que, na minha passagem, só consiga deixar alguns dos grãos de areia de que sou feita.

• O título da crônica, que é um verso, bem como a epígrafe são de autoria da poeta Renata Ettinger, no seu livro Grito: silêncios ecoando em minha voz.


Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

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