Eu, eu mesma e outras versões em andamento

“Se você abrir uma pessoa, irá encontrar paisagens.

Se me abrir, encontrará praias.”

Agnés Varda

A matriz do conflito entre irmãos, integrante do combo de humanidade que Adão e Eva levam do Paraíso, começa com a história de seus filhos. Caim matou Abel, por ciúmes do amor do pai. Ainda no livro de Genêsis, temos os gêmeos, Esaú e Jacó, que, conforme dizem as más línguas, já brigavam no ventre. Afinal, quem nascesse primeiro teria direito a ser o primogênito. Essa história antiquíssima é recuperada por Machado de Assis que constrói um de seus melhores romances, Esaú e Jacó, no qual os personagens Pedro e Paulo, de personalidades conflitantes, brigam por tudo na vida e na política e escolhem como objeto de amor a mesma mulher.

Considerado um tema caro na literatura mas também nas artes em geral, o duplo aparece em obras famosas, como a história do médico e do monstro, o jovem narciso Dorian Gray, a inconformada Madame Bovary. Em palavras emprestadas de um site, “o duplo se refere a uma representação do ego que pode assumir várias formas (sombra, reflexo, gêmeo).” Fora das consideradas “altas literaturas”, temos um exemplo que renderia prêmios se saísse do formato novela, em Mulheres de Areia, escrita por Ivani Ribeiro, em 1993. Típico folhetim, o enredo se constitui numa alegoria, que dialoga com os textos mais famosos da dramaturgia clássica. Também se aproxima da galeria de pares antagônicos presentes nos livros da Bíblia e em cosmogonias de várias regiões do mundo. Rute e Raquel são as irmãs gêmeas (e antagônicas) que representam a dualidade maniqueísta do Bem e do Mal. Acontece que a autora soube trazer momentos de complexidade ao folhetim. Em várias passagens, Raquel, a má, ridiculariza Rute, a boa. E tem razão. Rute é boa e boba. Quase sem sal. Sem graça. Raquel tem uma complexidade que agrada, mesmo que em segredo, à maioria das pessoas. Tem humor, tem ginga, domina a própria vida e vida dos outros, apesar de suas escolhas trazerem consequências ruins.

O mocinho, namorado da irmã, que ela rouba (não é o que as irmãs fazem?), também é bobo. E cai na armadilha mais simplória de Raquel. Casa-se com ela e nem desconfia. No ponto de virada mais interessante (depois disso a novela descamba e fica aborrecida), as gêmeas saem para um passeio de barco, com maiôs idênticos. A boba sobrevive e Tonho da Lua, personagem que tem uma certa deficiência e nutre uma idolatria pela pessoa que mais o entende e protege, consegue ajudar a salvar a vida de Rute. Neste momento, sem que ninguém veja, pega a aliança que Rute traz na mão, como resultado da tentativa de salvar a irmã e coloca em seu dedo. Como prova de seu amor incondicional e puro, sabendo que não terá cura para poder se casar com ela, entrega Rute de volta para os braços de Marcos, aceitando que ele sim é o homem que vai fazê-la feliz.

Ao acordar, depois de alguns dias de estresse pós traumático e recuperar a memória, Rute vive um dilema: assumir o papel da irmã, supostamente morta no acidente ou falar a verdade e voltar para sua vidinha pacata e rotineira, de limpadora de camarões durante o dia e professorinha à noite. Pressionada, é convencida de que ao assumir o papel da irmã, livraria o cunhado de viver a dor do luto. Menos que usurpadora e mais como mártir, ela aceita viver uma temporada confortável na mansão, realizando sua paixão. Já que nada vem de graça, ela precisa aprender a ser “Raquel”, no que é apoiada pela mãe e pela sogra, que sabem do acordo. A cegueira de Marcos ajuda na farsa e o “reconhecimento” demora muitos capítulos.

E aí entra a sofisticação da autora. Rute deixa de ser um personagem chapado e adquire complexidade e nuances. Enquanto luta para manter a mentira, se redescobre como mulher e se modifica. Mesmo que a mãe insista em lhe torturar dizendo que Rute jamais vai chegar aos pés da irmã, é essa fusão, criando um terceiro elemento, que atrai telespectadores e seduz Marcos, que reencontra a fragrância da paixão primeira, que viveu ao conhecer Rute acrescentada da força e ousadia de Raquel. E aos poucos o que o mobiliza é essa nova mulher, que, segundo sua explicação, se modificou por ter se aproximado do limiar da morte. Raquel sobreviveu, está escondida e ao saber das façanhas da irmã, promete vingança. Um duelo se forma e a novela ganha mais capítulos.

Em outra ficção audiovisual, contemporânea e no formato de seriado, Lúcifer é a história do diabo que cansa do seu ofício (quem diria…) e decide viver uma temporada na cidade de Los Angeles. Na primeira cena, já fica anunciada uma estrutura que será repetida: diante de situações em que é confrontado, Lúcifer lê as partes secretas da vida da pessoa e devolve, com uma ironia e estratégia hipnótica, uma dose de ataque à hipocrisia. Sua maior diversão é conhecer o lado escondido das pessoas, sem que elas saibam quem ele é.

A subjetividade, tema que inspira inúmeros estudos, falando de uma forma rasteira, é semelhante aos versos da canção de Roberto Carlos: “tudo certo, como dois e dois são cinco”. Mas apesar de termos acesso a essas informações, suponho, partindo da minha própria vida, que o lugar mais confortável é da fixação a qual nos acostumamos, de sermos uma “unidade” definida e reconhecível. Temos nossas manias, nossos defeitos, nossas fraquezas e nossas forças. Muitos gostam de repetir que se conhecem como a palma da própria mão. O que, todos sabemos, está longe de ser verdade. Se você tivesse de reconhecer o próprio corpo pela palma da mão, talvez errasse. Diz um estudioso da área:

“Se identidade tem o significado de semelhanças se fechando na permanência, outras perspectivas do conceito têm sido desenvolvidas (…). Vale apontar algumas alternativas pelas quais o conceito ganha um sentido em que identidade é “contraditória, múltipla e mutável, mas ao mesmo tempo é una, caracterizando-se como um vir-a-ser sempre inacabado. Ao longo do tempo cada sujeito contém uma infinitude de humanidade.”

Caem os mitos do amor romântico. A ideia de existir uma alma gêmea, de você ser o outro lado da laranja ou a tampa da panela de alguém. E não vou falar agora, mas me dá uma vontade de esticar o texto e de leve falar da falácia da monogamia. Mas confesso que nem por isso deixo de gostar da ideia de ter um par perfeito, cada vez e gostar muito de dormir de conchinha. Quem somos, afinal, se deixarmos de lado a ilusão da unidade e permanência e nos abrirmos para o múltiplo, precário, inacabado e fantástico mundo de sermos nós?

Na literatura, há uma definição teórica, que levei um tempinho para entender: autor implícito. Resumindo, seria a variação que encontramos nos vários narradores que um autor escolhe em cada livro que escreve. Voltando para Machado de Assis, o escritor que narra como Dom Casmurro é o mesmo (em outra versão) que escreve Memórias Póstumas de Brás Cubas. João Ubaldo Ribeiro narra em primeira pessoa o magistral romance “Sargento Getúlio” e também nos delicia com a narradora de 68 anos que vive conta suas aventuras nas infinitas (e livres) formas de viver o sexo, no satírico romance Casa dos Budas Ditosos.

Falando de mim, para concluir, sofro da síndrome da impostora (se fosse um folhetim, o melhor seria dizer “usurpadora”). Ao aceitar o desafio de escrever uma crônica semanal, me senti, de início, superpoderosa, feliz e animada. Depois, comecei a perceber que era preciso uma rotina para cumprir os prazos, aceitar que nem toda semana entregaria um texto incrível e passaria por certos pesadelos antes de entregar a versão final para o editor. Além da necessidade de superar o receio de não agradar ao João, o autor das fotos incríveis que acompanham os textos. Fiz um pacto comigo, para aliviar o processo: se eu conseguisse chegar até a quinta coluna, seria capaz de continuar.

Entrego este texto a você, prometendo variar as paisagens e melhorar o nível. Demora um tempo para encontrar a voz autoral numa coluna. Realizar o desejo de trazer minha leitura de mundos num formato e conteúdos que valham a pena. Sou uma pessoa de variações de humor e vivo uma polarização que meu mapa astral explica: sou aquariana e meu ascendente é Leão. Em parte do tempo posso ser destemida e ousada. E em outra parte, posso apresentar meu lado frágil, claudicante e medroso. Acordo me sentindo incrível e lá pelas três da tarde tenho certeza de que sou uma farsa. O que pode mudar, antes da meia noite, numa decisão impulsiva e corajosa de publicar uma obra-prima. Enquanto este duelo me domina, te entrego a quinta crônica. E sinceramente, agradeço pela companhia e paciência. E te convido a seguir por aqui, numa das minhas praias, pertinho de mim e dos meus outros eus.

Foto de João Maria Alves
Foto de João Maria Alves

Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

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