Caos, confusão ou cais: só tem viagem para dentro

“Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era.

Mas acho que já mudei muitas vezes desde então.”

Alice no País das Maravilhas

Por Eliana Marah

*Advertência: pode conter teor de autoajuda.

Por volta dos 11 anos, mudamos de casa para um lugar bem melhor, no mesmo bairro. E trocamos de escola. Minha nova escola era o meu paraíso. Havia coral, teatro, fanfarra e biblioteca. Dei um jeito de participar de tudo. Fiz até carreira na fanfarra. Depois de um tempo integrando a turma que tocava surdo, fui promovida para o seleto grupo das quatro meninas dos atabaques. Brilhei nos desfiles de Sete de Setembro. Na Avenida São João, desfilavam as melhores fanfarras, premiadas nos campeonatos entre escolas. Talvez a melhor parte era poder contar com o suporte de uma excelente diretora, muito gentil e acolhedora, Dona Naomi. Além dela, encontrei as minhas professoras preferidas e muito amorosas: Lili, de Língua Portuguesa, e Sônia, de Ciências – com quem, felizmente, tenho contato até hoje.

Eu estava no “ginásio”, equivalente ao quinto ano, e não sei bem como explicar, mas era famosa entre os meninos. Eu era meio moleque. E meus pais fizeram amizades a ponto de termos muitos amigos. Junto com as afilhadas Sayonara e Rosa, que eram como irmãs, eu e a Bete recebíamos os meninos em casa e ficávamos na calçada até de madrugada. Movidos por Ki-Suco e bate-papo. Com o tempo, as mais velhas começaram a namorar e eu acabei sendo eleita a “melhor amiga”. Me ensinaram a arrotar, a contar piadas, a fazer umas bobagens só deles e eu ganhava na corrida de bicicleta. Aos poucos, aprendemos a jogar cartas e isso fazia parte da diversão. Ainda éramos pobres, mas estávamos numa situação confortável.

Tudo mudou quando passei a olhar para o “Sabugo”, apelido de um dos meus grandes amigos e meu vizinho, de um jeito diferente. Era uma sensação muito desconfortável. Ele ia embora por último, porque morava bem perto. E sempre tinha um pedacinho de conversa só entre nós. Tinha 15 anos e estava no “Segundo Grau”. Praticamente todas as meninas cobiçavam o garoto mais lindo. As mais novas como eu e as mais velhas. Eu sempre me achava feia diante delas. No meu espelho, eu via apenas uma versão feminina e engraçada do Patinho Feio.

Guardei a paixão bem trancada porque, como amigo, a presença dele era garantida e eu não queria estragar aquele vínculo da turma. De algum modo, eu sabia que era uma ameaça ter um casalzinho no nosso meio. Confessei isso apenas para o meu diário. Deixei tudo seguir como estava: aparentemente igual. Mas, sem conseguir dormir direito, curtia uma fossa ouvindo no rádio as músicas mais românticas em inglês, sem saber inglês além do “the book is on the table”. Comecei a sentir uma dorzinha no coração quando ele ia embora.

Até que, numa noite, por mais que estivesse ficando tarde, ele não ia embora de jeito nenhum. Estávamos nos despedindo e eu já do lado de dentro do portão, próxima às plantas e flores do jardim da minha mãe. Nesse clima, eu acabei falando que estava gostando dele, mas que era pra não se preocupar comigo. Ia passar porque eu preferia a gente como amigo. De repente, ele me olhou de um jeito esquisito e fez uma declaração de amor. Perdi o equilíbrio, senti uns espinhos furando minha bunda e disse:

-Sabugo, não precisa falar isso. Não é para ser bonzinho comigo. Eu sei que você tem muitas meninas incríveis gostando de você e eu sou a sua amiga legal e feia. Nem inventa moda!.

E eu, que já estava querendo sair e quase chorando, tentei me esquivar dos espinhos que grudaram no meu vestido.

E ele lá, repetindo a mesma coisa.

Aí eu disse:

-Para com isso e vai pra casa!. Tá tarde, e você conhece minha mãe. Daqui a pouco vou levar uma bronca porque não lavei a louça.

Ele saiu, resmungando. E eu chamei a minha irmã para me ajudar a sair do jardim.

Não contei para ninguém. Não conseguia nem respirar nem dormir.

Quando decidimos fazer a loucura de virar namorados, ele pediu permissão para minha mãe. Que também não acreditou. E, para prepará-lo melhor para o que viria, foi falando dos meus defeitos. O pior deles, segundo ela: a bagunça.

O que aconteceu então é uma das cenas que traziam muita tristeza, mas que hoje consigo lembrar de uma maneira leve.

Nós dois sem saber direito como agir. Ele, apressado para poder me beijar. Eu, querendo cavar um buraco e desaparecer. Minha mãe foi até o quarto, pegou minha gaveta onde, de forma bem caótica, estava tudo que era muito precioso pra mim. Jogou no chão da sala, como se fosse a prova de um crime. Foi uma tentativa fracassada. Eu não tinha segredos com ele. Ele sabia que eu era uma menina diferente. E ser desorganizada já fazia parte. Apesar da gaveta, namoramos e conseguimos a proeza de incluir a turma no namoro. Sabugo era muito ciumento e possessivo e eu era uma pré-feminista. Talvez tenha durado um ano ou menos o namoro. A turma durou bem mais tempo.

Esta cena foi revivida numa sessão de terapia em que falávamos sobre meu caos criativo e minha forma desorganizada de lidar com aspectos práticos da vida – o que ainda persiste. Ser artista fez do meu caos uma ferramenta. Nossa infância foi caótica, por questões que eram maiores do que nós: o fato de sermos uma família de pessoas negras, nordestinas e pobres deu muito trabalho e obrigou meus avós e meus pais a enfrentarem inúmeros obstáculos.

Hoje, em compasso com o caos que perturba o mundo todo, tento encontrar força nas minhas histórias. Vivi em muitos lugares e era frequente ter de mudar de casa. Tenho uma habilidade muito grande de me adaptar e aprendi a sentir conforto no meu caos criativo e meu cantinho bagunçado. Por dentro, as coisas vão ganhando uma ordem sensível e particular. Não me sinto tão pressionada pelas exigências alheias. O que me motiva é o desejo de estar plena, mais tranquila e mais centrada.

Segundo dados de pesquisa de vários institutos idôneos, nesse período da pandemia, o estresse, os traumas e os distúrbios mentais se agravaram. Ainda teremos de fazer um inventário desse momento obscuro e caótico. Algo que me ajudou a entender melhor esse momento foi o documentário Sabedoria do Trauma, do médico húngaro, radicado nos Estados Unidos, Gabor Maté. A primeira e a última imagem são idênticas: um bebê que nos olha, exibindo saúde e vivacidade. E entre essas duas cenas, o documentário discorre sobre o trauma e a apresentação de uma abordagem compassiva e acolhedora cuja premissa central afirma que é preciso ir além do trauma vivido. Colocando atenção no que nos aconteceu e não nos erros que cometemos, é possível encontrar uma estratégia que ajude a sobreviver e sair do círculo vicioso da autodestruição, considerada por Maté como um fenômeno transgeracional. É como se abríssemos a porta disponível para nos reinventarmos, ao escolher outros significados para nossas dores e sofrimentos. Parece óbvio. E eu acho que é mesmo. Mas não me parece simples. Pode ser uma forma de viver melhor nossa jornada, na base da aceitação de que o que nos aconteceu não precisa definir o que somos.

Foto de João Maria Alves

Quebrar esse círculo transgeracional nos permite agir de uma forma melhor do que nossos pais conseguiram. Apesar do trauma e da dor, acolher nossos defeitos e vícios, nossa raiva e vergonha, nossa sensação de culpa, pode ser, finalmente, o encontro do nosso cais, um lugar seguro dentro de nós. Sem deixar de acolher o que somos e o que aconteceu conosco, podemos nos autorizar a estar à flor da pele, conectados, com nossos sentidos despertos, para que a presença massiva da morte não seja banalizada. E que sigamos com a consciência das desigualdades que causam injustiças e perdas. A criança que fomos pode ter se sentido abandonada nas suas necessidades. Podemos agora andar de mãos dadas com ela. E realizar o desejo que também parece óbvio: fazer do mundo um lugar melhor para todos.


Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

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