Me dê guerra, me dê paz: uma faca só lâmina

A Juan Ignácio, un nino que no es mio.

Por Eliana Marah

É sempre frio quando começo a morrer.

Ouço ao longe os sons da vida: tudo que cabe numa caixa e basta soprar para fazer desaparecer. Truques de ilusionismo.

Entregaram meu pai numa caixa. Diante das águas inocentes, espalhei as páginas da sua história, apenas pó ao vento.

Dormir é sempre arriscado. Descalça, danço na noite que me sorri, estrábica e maliciosa.

A armadilha chega de manhã, movimentos e sons enlouquecidos. A pauta desconexa que mescla pássaros, zumbidos, buzinas, chuveiros, vozes desafinando, louvores débeis, igrejas falsas.

Saber sofrer é uma arte.

Lembro de você e da cicatriz no teu peito. Um tiro? Uma flecha? Quantas traições?

O câmbio me dá guerra e eu devolvo, em troca, a paz que não me serve mais.

É sempre tarde quando penso em você.

Quando eu encontrar aquela estrada, vou deixar meu amor numa caixa.

Mas e se de repente amanhecer, e um pássaro me fisgar, volto a dormir e podemos conversar dentro do sonho, sem linguagens.

Se a faca me atravessa, ninguém adivinha e sorrio.

Se a alegria escancara seu sorriso bobo, talvez eu possa ficar um pouco mais.

Amei demais. Onde está o amor verdadeiro?

Sou a mulher dividida ao meio no palco iluminado.

Sou uma cobra que, amaldiçoada, apenas rasteja. O veneno diluído na covardia.

É sempre ontem quando grito.

Coordenada pela força  invisível, fantoche que aguarda.

A memória espalhada em livros que ninguém quer ler.

É sempre tarde, quando eu choro.

Abro a porta, cobro ingressos e ensaio o sobressalto.

Onde está o coelho, Alice?

Você entende o que eu digo.

Você pensa que sabe onde estou e o mapa já se moveu.

É sempre longe, quando eu choro.

É sempre tarde. É sempre tarde.

A criança queimou a casa e fugiu.

Vem comigo?


Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

#EM007

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