Papos de aranha antes do café da manhã

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor do nosso jardim.

E não dizemos nada.

 

Na segunda noite, já não se escondem;

pisam as flores, matam nosso cão,

e não dizemos nada.

 

Até que um dia,

o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

Vladimir Maiakovski (ou não)

Muito tempo depois de ter feito o curso de Letras, em Sergipe, ainda lembro de cenas vividas com os mais amados professores: Socorro, Viana e Dal Farra. Eram as estrelas do curso, de brilho próprio e intenso.Astros, na analogia simples e justa de me nutrirem com a luz que emanavam e compartilhavam.

Num dos meus aniversários, fui para o campus fora do meu horário. Vi com a secretaria onde Dal Farra estaria dando aula. Era uma turma de alunos novos e eu já estava concluindo a graduação. Cheguei na porta e ela veio falar comigo, muito sorridente e deslumbrante em seus vários tons de lilás em contraste com os cabelos longos e pretos. Perguntei se poderia assistir à aula. Pretendia ser discreta. Ela abriu os braços e me convidou para entrar como se eu fosse uma celebridade. A turma toda me olhava e fui, timidamente, me sentar num lugar disponível no fundo da sala. Emocionada, com o coração aos pulos, peguei um caderno e uma caneta lilás, que tinha sido presente dela e me preparei para anotar. E esse gesto a surpreendeu. Foi a deixa para aquilo que eu temia. Ou talvez, secretamente, desejasse. Ela me elogiou. Falou, com entusiasmo, da minha pesquisa sobre a poeta mística Sóror Violante, declarando, com sua voz doce e firme, no sotaque paulista com o qual eu me identificava, que eu seria uma escritora e era uma das melhores alunas que ela conhecia. Minhas orelhas queimavam. Constrangida, tentei esconder a alegria infantil que circulava pelas veias. Ela seguiu com a aula, com sua presença sábia e luminosa. No final da aula, me convidou para um café na cantina e eu disse o motivo da visita. Era meu aniversário e estar com ela foi o presente que escolhi. E passamos um bom tempo ali, conversando, emocionadas e felizes, na alegria pela nossa amizade.

Com Maria do Socorro, outra estrela, lembro de uma cena engraçada. Na ânsia de manter minha fama de inteligente, eu tinha pressa de ampliar meu vocabulário. Com pressa de saber, lia até o que não entendia. E num dos nossos encontros apresentei um texto no qual usei a expressão, recém conhecida, “papos de aranha”. O que me lembro com mais nitidez foi o esforço dela em conter o riso. Respirou fundo e me corrigiu: Eliana, você usou a expressão no contexto adequado mas o certo mesmo é “palpos de aranha”. Fiquei muito sem graça. Mas essa sensação passou rápido porque ela já brincava, repetindo “papos de aranha” como se tivesse descoberto uma expressão nova e engraçada. Segundo o dicionário a expressão estar em palpos de aranha significa estar em situação difícil, tendo de achar uma saída com urgência, antes de ser devorada, já que palpos são como as bocas das aranhas.

Minhas histórias com Antonio Carlos Viana não cabem aqui mas rendem um bom romance, cujo tema principal é a clássica história da paixão de uma jovem aluna pelo seu professor.

Muito antes do Google e da Wikipedia, foi com eles que aprendi a pesquisar sendo cuidadosa nas minhas citações. E com eles aprendi sobre o tema das obras apócrifas. Dias desses, um resíduo de memória emergiu numa das sessões do Senado. Sigo a CPI, para muitos tratada como seriado, em função das cenas bizarras que o país todo pode acompanhar ao vivo. Apesar da mística prosaica em torno da tragédia, espero, com fervor, que haja punição. Mexe com minhas vísceras o contraste cruel e de mau gosto horror da placa exibida com os números atualizados de mortos pela Covid e as mentiras deslavadas, a defesa descarada de posturas genocidas e negacionistas, agora se configurando como um grande escândalo de corrupção. Este espetáculo de difícil adjetivação me causa risos nervosos, diante da situação grotesca. E nessa gangorra de emoções, um personagem me diverte. Omar Aziz é o campeão do humor, do destempero e das tiradas que viram memes. E para mim, o auge da sua atuação, foi quando pegou o microfone para citar, com voz embargada, o poema de Vladimir Maiakovski.

Acontece que ele se juntou ao coro do povo descuidado da internet. E citou, seguindo o coro, apenas parte do poema, para expressar sua fúria e comoção. Justamente, a parte que é uma das campeãs no rol das citações equivocadas. Fernando Pessoa e seus heterônimos se revolvem na terra a todo instante por tudo que dizem que disseram e nunca pensaram em dizer. Muito pelo contrário. Assim como Clarice não disse, nem Frida, nem Brecht, o poeta russo também não escreveu esse poema. Mas é um apócrifo que sempre retorna, usado por gregos e troianos.

E isso me leva aos grupos do aplicativo WhatsApp. Assim como os invasores que são descritos no trecho mais forte (repetido à exaustão) do poema de Eduardo Alves Costa (carioca que, segundo dizem, é o verdadeiro autor do poema atribuído ao russo), as mensagens de “bom dia” chegaram, sorrateiras, e foram avançando numa escala inimaginável, roubando corpo e alma dos que ficaram insones, omissos ou distraídos. E qualquer semelhança com o bolsonarismo e seu império indecente de fakenews não é coincidência.

Foto de João Maria Alves

Tento me lembrar como isso tudo começou. Quando foi que esse fenômeno começou a surgir. Tudo é muito nebuloso. Mas sei que eram mensagens breves, de bom dia. Respeitosas e gentis. Assim, como se faz na rua, no elevador, no local de trabalho: bom dia e pronto. Acabou o assunto.

Mas as pessoas não se contentaram. E foram tomando espaço. Trouxeram parte da família e vieram então os “boa tarde” e os “boa noite”. E sendo uma conspiração muito bem arquitetada, foram evoluindo junto com os emojis e os gifts. Ficaram mais fortes com a moda das figurinhas. Atualmente, para meu desespero, seguem com o acréscimo do dia da semana, efemérides, estações do ano, horóscopo e fases da lua. Existem os “feliz Agosto”, da mesma família de “um Setembro lindo” e “que seu Abril seja maravilhoso”. Se algum matemático se der ao trabalho de calcular o número de combinações, com certeza é uma soma estratosférica. E o pior: as pessoas esperam que você retribua. No começo, você não vê mal nisso e responde aleatoriamente um bom dia ou boa tarde. Pronto. Caiu na engrenagem. Porque passam a querer mais.

Eu me vejo hoje em fase de usar a estratégia da reciclagem. Me encaminham uma granada de “bom dia” pasteurizado e eu repasso para outra pessoa. Nem sempre acerto e ouço reclamações da falta de originalidade ou descuido. Como sobreviver nesse emaranhado? Difícil, porque a situação só piora. Houve a evolução para os casos anômalos dos “bom começo de noite”, “bom final de domingo”, “durma com os anjos” ou os “bons sonhos”. Tudo isso me lembra minhas aulas no curso de Letras. Foi neste período que conheci mais da filosofia e vi de raspão o pensamento existencialista. Me dá arrepios quando tento contabilizar a parcela de vida que se esvai nessa enxurrada de mensagens de péssima qualidade, sabendo que não vai ser possível ir em busca do tempo perdido. Penso nos temas preferidos dos filósofos, ligados à consciência da finitude, questão crucial também para escritores, artistas e pensadores em geral. Juntando todo o pacote com as reflexões profundas sobre o tempo e o sentido da vida, indo do “só sei que nada sei” reutilizado por Paulo Coelho e a única linha que muitos lembram de Hamlet, que não se decidiu se era ou não era, me sinto em papos de aranha. Maria Lucia Dal Farra reina absoluta: não se rendeu ao aplicativo endiabrado.

E eu, querendo ainda manter minha imagem de pessoa inteligente diria, sem assinar, assim, apócrifa: “A vida pode ser curta, mas é maior do que se vê numa tela.”

Apesar de ser uma frase péssima, talvez caia no gosto dos descuidados se for atribuída a Bergman ou Godard.


Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

#EM008

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