Coragem e afeto: as lições do mundo

Por Eliana Marah

“Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso.

Eu amo as gentes e amo o mundo.

E é porque amo as pessoas e amo o mundo

que eu brigo para que a justiça social

se implante antes da caridade.”

Paulo Freire

Quando a guerra deixa de estar nas telas da tevê, no horário dos telejornais, em terras distantes e começa a se aproximar do seu bairro, o que você faz? Corre para o supermercado para comprar provisões e estocar alimentos? Manda adaptar seu quarto para um quarto do pânico, à prova de ataques? Faz as malas e vai para o aeroporto? Escolhe um lado da guerra e se alista? Vê a oportunidade de enriquecer produzindo armas?

Rita Lee profetizava aos marcianos que “pra variar estamos em guerra”. Acordei um dia desses, fiz minha inscrição num curso com Malala Yousafzai, e horas depois plantões nas notícias de diversas fontes pipocavam no meu celular. O Talibã voltou ao poder. Entre os posicionamentos que começaram a circular, como reação, um deles me assustou, por ser tão óbvio e ao mesmo tempo tão difícil de convencer: O Afeganistão poderia ser aqui também.

Há um corte entre as duas realidades que talvez seja o menos perceptível: aqui, os que se dizem fanáticos não tem aparência selvagem e podem ser encontrados circulando impunemente nos bairros nobres, nos seus carrões que ostentam um luxo que sempre é um crime de latrocínio. Andam em trajes tidos como civilizados. Chegaram ao poder através de um processo democrático de eleição. Tem a aparência dos corpos aceitos e até que suas garras estejam à mostra, podem até ser considerados “indivíduos distintos”. Esse poder do imaginário perverso faz com que grande parte da população esteja entrando no clube dos neoliberais e aumentando o rebanho de aves de rapina que justificam o uso de suas armas letais com discursos reacionários e fundamentalistas, na cartilha do neofascismo. O que retorna é horror e holocausto em troca de mais poder e mais dinheiro. Quando o retrocesso político está representado pelo pensamento conservador, de extrema direita e é posto em prática por grupos que já não têm compromisso em exibir nem uma camada fina de verniz de cultura nem em usar dos bons modos, voltamos ao pior da barbárie.

A pandemia abre ainda mais a distância do fosso e as desigualdades escancaram sua face demoníaca: a fome e o desemprego desmantelam famílias e as pessoas pretas e pobres pagam um preço muito alto. Mais de 570 mil vídas foram perdidas pela Covid 19. Esse número está correto mas a causa da morte é também um disfarce. Até onde sei, decisões e escolhas daqueles que comandam mal e porcamente o país visavam lucros estratosféricos e a chegada das vacinas foi impedida pela maquinação de um esquema imundo que prometia encher, mais uma vez, as contas bancárias de um bando de assassinos de terno e gravata.

O aparente desgoverno dessa nossa nau errante é traduzido, erroneamente, por memes e piadinhas. O Rei está nu e parece o bobo da corte. Mas é na calada da noite e fora dos holofotes que cumpre cada promessa de campanha. Por ironia do destino e não por acaso, seu primeiro gesto foi mandar embora os médicos cubanos. E um dos nomes escolhidos para ser demonizado foi o de Paulo Freire. Esse governo não governa para o “povo” (ainda que esta categoria esteja ultrapassada, é a que melhor descreve a maior parte da população brasileira preta, pobre – deixada em condições de extrema vulnerabilidade) e dessa vez tampouco para elites de pensamento crítico. E toda a trajetória de Paulo Freire sempre teve como bandeira estar ao lado do povo.

Para além dos novos paradigmas críticos, pode ser que eu acabe resvalando em termos “essencialistas”. Mas falar de Paulo Freire é retornar à minha formação. Fiz o curso normal numa escola católica, ligada às pastorais da Igreja Católica e, sendo filha de mãe e pai de esquerda, assim que me encontrei com as ideias de Paulo Freire soube que estava encontrando um grande mestre. Um dos seus princípios propunha a educação como um “um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa”.

Tive a alegria de ao mesmo tempo estar fazendo teatro popular e me encontrando com as ideias de um grande parceiro de Freire: Augusto Boal. O primeiro defendia a pedagogia do oprimido e o segundo, o teatro do oprimido. Bebi, fartamente, dessas duas fontes, que até hoje jorram, provocando e inspirando a mim e aos que seguem na mesma luta.

Quando comecei a trabalhar como professora, na rede municipal da cidade de São Paulo, recebi formação por parte da Secretaria de Educação, cuja base de pensamento estava baseada no método Paulo Freire. Ainda que não seja correto dizer que ele tinha um “método”. Até hoje, mesmo que as pessoas não saibam, inúmeras ideias inovadoras no campo da Educação e também do pensamento crítico no mundo estão repletas das ideias e provocações de Freire.

Estamos no seu centenário. No mês que vem, ele faria cem anos. E é vergonhoso que esse educador, um dos mais conhecidos do mundo, com um número imenso de títulos de honoris causa e homenageado em diversos países, seja negado e pior do que isso, demonizado por um pilantra e seus seguidores. Enquanto não é possível ver Paulo Freire sendo devidamente homenageado por iniciativa do Ministério da Educação, que afinal só existe para desmontar a Educação brasileira e torná-la ainda mais precária, acentuando as desigualdades, as organizações idôneas, combativas e comprometidas, como instituições de ensino e coletivos, ao redor do mundo, prestam homenagens a ele, tornando visível sua potência e atualidade.

Paulo Freire está vivo, damos vivas a Paulo Freire.

Numa de suas frases, dizia que para o trabalhador a caneta pesava mais do que a enxada. Eu me lembro, como alfabetizadora no programa do Mobral, eu pegava nas mãos dos meus alunos para ajudá-los a entender o traçado de uma letra e sentia suas mãos calejadas do trabalho pesado que tinham. De dia eu alfabetizava crianças. Mas era no curso noturno, com meus alunos adultos que vinham de uma jornada dura de trabalho, em busca da alfabetização tardia, que eu me sentia mais necessária. Uma das coisas que eu tinha de trabalhar logo no início era a vergonha que expressavam de não saber lidar com as coisas da escola e de terem de encarar uma jovem de 17 anos ensinando o que um “marmanjo” deveria saber. Desmontar essa “vergonha” e convencê-los de que deveriam ter sido alfabetizados e que um direito lhes foi negado, era a primeira parte do meu trabalho e do meu aprendizado. Sendo freiriana, eu sabia que estava ali para aprender com eles. E trocando saberes, iríamos descobrir o mundo das letras e o direito de usar a palavra. Na cartilha com palavras geradoras, trazidas a partir do seu contexto de vida, o “vovô não via a uva. Via o ovo, mais barato e quase sempre o substituto da carne que não conseguiam comprar. Brincavam comigo dizendo que ao chegar em casa iam comer “zoião”. Ficavam comigo no ponto para me proteger, até que meu ônibus chegasse. Eu também voltava para casa onde faria um mexido com as sobras da janta, que era fortalecida com farinha e ovo.

Aprendi com Paulo Freire a filosofia de “leitura do mundo”. E depois, nunca mais o mundo foi o mesmo. Escolhi o nome dessa coluna inspirada por ele. Se fosse possível gostaria de me encontrar com Paulo Freire no seu aniversário e contar para ele minha história de educadora e de aprendiz. Sei que ele iria me ouvir atento. E o que ele ouviria seria a história da sua presença em quase tudo que faço e penso. Meu modo de ser e estar no mundo, curiosa e compassiva.

Foto de João Maria Alves

Um binômio proposto por ele para pensar o mundo: denúncia e anúncio. Que sejamos aqueles que denunciam as injustiças e desigualdades, mas que também sejamos aqueles que trazem o anúncio de futuros. Que sejamos críticos e atuantes, mas também tenhamos o frescor das primaveras, que ultrapassam os invernos rigorosos e florescem, de novo e de novo.

Tudo que eu disse sobre Paulo Freire vai ser sempre pouco diante de sua grandeza. Mas é ao dizer o nome dele e falar do homem que até hoje transforma a educação para torná-la ferramenta de emancipação que recupero, diariamente, a esperança, aquela que ele ensinou: “E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. … Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…

Feliz centenário, feliz aniversário. Te agradeço, Paulo Freire. Nesse momento em que sinto que estou perdendo um país que eu tinha, um brasileiro como você me traz de volta a certeza de que tenho de colocar minhas ações para semear o futuro melhor para quem chegar. Você dizia que a educação transforma as pessoas e as pessoas transformam o mundo. Você transformou a educação e nós, herdeiras e herdeiros, seguimos nas trincheiras, mostrando que as armas mais poderosas são canetas, cadernos e livros. E educadores dispostos a esperançar e praticar a justiça. Entre a denúncia e o anúncio, entrar na roda e celebrar a fé de que podemos, lendo o mundo a nossa volta, com olhar curioso e compassivo, criar um mundo novo, todos os dias. Sabemos que a terra não é plana e se move. Setembro vem aí. Teu aniversário vai nos encontrar com a primavera nos dentes.


Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

#EM009

Um comentário em “Coragem e afeto: as lições do mundo

  • 27/08/2021 em 17:03
    Permalink

    Tem outra semelhança do Afeganistão com o Braziu, tanto Talebans como Bozobans são apoiados pelos States…

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