Álbum de famílias: casa de ser ou não ser

Por Eliana Marah

A névoa tornava as montanhas imateriais, contudo, surpreendentemente, assim pareciam ainda mais opressivas que nos dias claros, quando nenhuma máscara ocultava seus penedos e abismos.

Ismail Kadaré

Visível para quem caminha pela estrada de chão batido, entre árvores e arbustos, surge o quintal da casinha pintada de azul, onde brincam os filhos e a mãe pendura as roupas. O forasteiro passa, olha as roupas no varal e conclui que há um bebê, crianças maiores e um trabalhador da ferrovia. Gosta da imagem, ajusta a câmera e captura o quadro típico da região. A mulher não vê o forasteiro e segue sua lida. De longe, ele não sente o cheiro bom da roupa limpa, enxaguada com gotas de alfazema. Não ouve os gritos alegres dos irmãos nem pode ver, num cestinho improvisado, bem protegido do sol, o bebê que dorme tranquilo depois de ter sido alimentado. Tampouco pode saber que, no interior da casa, roncando pesado, está o homem que chegou de madrugada, bêbado e impaciente, como sempre.

Foto de João Maria Alves

A primeira família, dentro da cosmogonia da Bíblia – um dos mais famosos livros sagrados-, é constituída por Adão e Eva e seus filhos. Abel, pastor de ovelhas e Caim, lavrador, fazem uma oferta ao seu Deus, trazendo os frutos de seu trabalho. Deus não se satisfaz com a oferta de Caim que, sentindo-se pouco reconhecido e incompreendido em seu esforço de agradar, mata o irmão. Ainda no livro Gênesis, que é o primeiro, a oposição entre os irmãos Esaú e Jacó acaba em tragédia

Numa das narrativas mais dominantes do mundo ocidental, o primeiro homicídio acontece entre irmãos. Salto no tempo para encontrar em Nelson Rodrigues. O grande dramaturgo, que é tratado como nosso Shakespeare, põe o dedo na ferida da suposta “família exemplar brasileira”. A tragédia Álbum de Família, mesmo tendo sido escrita em 1945, ainda tem a força de reatualizar os dramas vividos no interior de uma família e de expor o que se quer esconder embaixo do tapete.

A comparação com Shakespeare se intensifica já que ambos fazem uma crítica implacável das estruturas dominantes como a sociedade, a religião e a política. Até hoje a peça Hamlet, um dos maiores clássicos da literatura ocidental, mostra como esse espaço pintado em cor de rosa como a imagem do lar, doce lar – alardeado como seguro -, é o espaço onde as piores coisas podem acontecer.

Claro que séculos e diferenças culturais afastam esses escritores e a família descrita por Nelson Rodrigues parece servir melhor como catálogo da perversidade e desajuste. Se você quer incesto, tem. Se você busca psicopatia, tem. Abuso sexual, pedofilia e inveja entre irmãos incrementam o menu.

A imagem hegemônica da família tradicional foi detonada com explosivos pesados, na extensa e complexa dramaturgia do nosso “anjo pornográfico”.

Passando num rasante pelas origens da ideia de família, encontramos a presença do patriarca, aquele que manteria sobre seu domínio os mais vulneráveis como as mulheres, as crianças e os trabalhadores escravizados.

No aconchego do lar, no equivocado conforto doméstico, os contos de fada da tradição ocidental são contados para as crianças, antes de dormirem. Desde a fábula quase leve de um patinho feio – que foge, depois de passar por uma sequência de rejeições vividas no “seio da família” até se descobrir um cisne belo e elegante -, até as versões mais perversas das relações familiares presentes em Bela Adormecida, A gata borralheira e Rapunzel, por exemplo, temos matéria farta para, no mínimo, sermos cautelosos quando o assunto é “família”.

Se for preciso escolher o caminho mais propício para a desmontagem desse termo insidioso, vá ao cinema. De Bergman a Almodóvar, passando pelo cinema iraniano, você precisa de estômago para suportar melhor Interiores, o filme mais sombrio de Woody Allen ou Abril Despedaçado, obra-prima do cinema brasileiro contemporâneo. Os cineastas se alimentaram e ainda se alimentam dessa fonte. E há filmes que são praticamente insuportáveis, quando escancaram na tela aquilo que revolve nossas vísceras: o espaço da família é o local simbólico das nossas primeiras mortes e das nossas primeiras feridas.

Pensando que nem tudo está perdido, é também dentro da família que encontramos amor, proteção e alegria. Outros modelos de família surgem e podemos encontrar outras formas de convívio. Tendo como modelo a filosofia “ubuntu” podemos descobrir outras formas de poder e aliança.

O filme que primeiro me libertou desse enredo foi Hair. A adolescente que eu era, inconformada e ativista, conseguiu ver uma fresta por onde passar. E meio Alice, meio Macabea, foi em busca de outras narrativas. Gosto da ideia de queimar identidades plastificadas e adotar outros nomes. Mas principalmente gosto da possibilidade de pertencer a famílias estendidas, escolhidas por afinidade e afeto.

Entro dentro do quadro que o forasteiro registrou num clique. No quintal, onde brinco com meu irmão mais velho, tudo rima com o cheirinho de alfazema que minha mãe deixa nas nossas roupas, na imagem delicada da nossa casa de infância.


Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

#EM010

Um comentário em “Álbum de famílias: casa de ser ou não ser

  • 07/09/2021 em 10:02
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    Que texto maravilhoso! Tomo a liberdade de sugerir dois filmes: Deus da carnificina, de Roman Polanski (2011), e Perfectos desconocidos, de Álex de la Iglesia (2017), que tem uma versão francesa, Nada a esconder, de Fred Cavayé (2018). Ambos derivam do original italiano Perfetti Sconosciuti, de Paolo Genovese (2016), que eu não assisti, e há outras versões que também não vi. Mas o espanhol e o francês são muito bons! Há braços!

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