Porque não sei bem quem sou nesse país

Por Eliana Marah

“Terceiro mundo só se for
Piada no exterior…
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

Legião Urbana

É
A gente não tem cara de panaca
A gente não tem jeito de babaca
A gente não está
Com a bunda exposta na janela
Pra passar a mão nela…”

Gonzaguinha

Eu me sinto babaca. Eu não posso me enganar achando que o que está acontecendo me absolve. Quando Clarice Lispector mostra a gradação da nossa responsabilidade, ao fazer a crônica sobre a execução do Mineirinho, ela diz sentir que está puxando o gatilho. E no seu texto joga para o leitor a provocação: não éramos nós também quem executavávamos, com crueldade bárbara, um criminoso que vinha da periferia enquanto deixávamos impunes os criminosos bárbaros do Leblon ou condomínios caros da Barra da Tijuca? Os três meninos desaparecidos (e sempre referidos sem nome nem sobrenome) são menos crianças do que o filho do ex-deputado Jairinho? O cachorro da patroa era mais importante que o filho da sua empregada? Quanta barbárie cotidiana, na pauta da desigualdade estrutural, deixamos passar? Estamos tranquilizando nossas consciências sendo caridosos e entregando sopa rala de noite para pessoas em situação de rua ou já preparando as cestinhas básicas para o Natal dos mais pobres, com aquelas roupas e brinquedos baratos comprados na 25 de março?

Foto de João Maria Alves

Eu digo mea-culpa. Eu sei que não faço o suficiente. Não nego que tenho panelas detonadas de tanto bater e gritar fora Bolsonaro. No Senadoflix, acompanho as sessões da CPI da Covid e vibro -e me sinto mais cidadã- quando os engomadinhos chegam, arrogantes, e saem com a roupa cheia de nódoas e a reputação bem manchada, mesmo que me revolva o estômago saber que a impunidade, para as classes dominantes e hegemônicas, é praticamente uma doença contagiosa, de mais de 500 anos.

Quem já tentou roubar um biscoito no supermercado sabe do que estou falando. Quando entro nas lojas sou alvo preferido dos seguranças por ser uma mulher negra e sinto medo de ser levada a alguma sala escondida para uma “verificação”. Sou de esquerda, ativista e tento me manter informada e esclarecida. Mas não concordo com tudo que fizemos e desconfio de que deixamos de fazer muita coisa e que grande parte da responsabilidade do vírus do bolsonarismo, e de seus efeitos perversos, é nossa.

Não acredito em terceirizar a responsabilidade. Eles estavam nas tocas, mas o que permitiu sua sobrevivência e ascensão, me lembrando um pouco do filme coreano Parasita, é que suas tocas são mansões compradas com nosso dinheiro. E todos os gastos com cocaína, prostitutas, álcool, bolsas de 17.000,00 reais e viagens de preços estratosféricos -incluindo acúmulo vergonhoso de fortunas adquiridas com roubo e estelionato-, saem dos nossos salários e custam milhares de vidas. E apesar disso, não temos coragem de incendiar os monumentos ou de quebrar os vidros dos bancos e das lojas de grife. Não temos virilidade suficiente para enviar um homem bomba, sem máscara, abraçar o bolsonaro.

Se o Brasil não é o Brasil que você gostaria que fosse, então, vejamos:

· Independente do ano em que você nasceu, há quanto tempo você vê nas lojas de brinquedos 99% das bonecas “desenhadas” com pele branca, cabelos louros e lisos e magras e isso parece natural?

· Você não acha uma agressão a exibição sistemática de propagandas com café da manhã suntuoso quando os aparelhos de televisão estão presentes em casas de pessoas que mal têm o que comer?

· Você jura que não acha estranho que no verão escaldante de dezembro você comemore o Natal comprando objetos decorativos de paisagens do lado de cima do Equador, enviando mensagens e vendo propagandas em ambientes onde está nevando, o Papai Noel é gordo com bochechas vermelhas iguais aos alemães da Oktoberfest e os animais que trazem os trenós são renas, bichinhos que sinceramente nunca vemos no Brasil?

· Você não se admira de que as escolas do Brasil comemorem uma festa esquisita onde as crianças aprontam se você não enche a sacola delas de açúcar e todos se vestem de um jeito estranho que não tem nada a ver com as tradições e símbolos brasileiros e ainda por cima é divulgado com o termo em outra língua, chamada Halloween?

· Você já pensou na possibilidade de um país como Inglaterra ou França celebrarem as festas juninas, dançando forró brasileiro e comendo canjica?

· Quando você assiste às novelas das principais emissoras, você não estranha que tudo no Brasil aconteça no Rio de Janeiro, em São Paulo ou numa cidade do litoral do Nordeste -e neste caso os atores cariocas imitem, grosseiramente, trejeitos e sotaques nordestinos que sabe-se lá onde aprenderam?

· Você concorda que haja nas novelas brasileiras 99% de atrizes e atores brancos, com aparência de classe média, alta e milionários, vivendo seus dramas que geralmente se resolvem com uma temporada no exterior, viajando, claro, de primeira classe e se hospedando em hotéis caríssimos usando roupas que você não encontra na Renner nem na C & A?

· Você não estranha que nas novelas brasileiras as atrizes e atores negros continuem fazendo papéis subalternos, ou hilários ou grotescos, como se todas as pessoas pretas fossem inferiores e desprovidas de subjetividade ou complexidade?

· Você não acha aborrecido as tramas da novelinha da tarde chamada Malhação, que ensina nossos jovens a se olharem num espelho de idiotice e hegemonia da classe média e alta, branca e arrogante?

· Você não estranha que os monumentos e os nomes das ruas da sua cidade homenageiam ditadores, pedófilos, corruptos e toda a sorte de personagens cuja vida pública é um escândalo?

· Você entende que não houve libertação dos escravos porque o que existiu no Brasil foram pessoas escravizadas?

· Você já parou para ler e entender o que é racismo estrutural?

· Você é homem e já sabe que lavar louça em casa é questão de educação e autonomia, e não uma coisa que alguma mão de mulher vai fazer por você (e isso, vergonhosamente, se estende para suas cuecas?)

· Você acha que trocar fraldas dos seus filhos é coisa de mulher?

· Você é daqueles que acha que se ela não quisesse ser estuprada não deveria ter usado a saia curta e a blusa decotada?

· Você acha mesmo que este é um país cordial e sem preconceitos enquanto vê as cenas do sujeito que foi brutalmente assassinado no Carrefour ou as estatísticas que mostram que as balas perdidas tem endereço e acerta em cheio as famílias de pessoas pretas e pobres, que vive em lugares insalubres porque não tem condições de morar em lugar melhores, que tenham o luxo, por exemplo, de esgoto e asfalto?

· Você acha que está em pleno juízo e sanidade sendo a favor da pena de morte num país onde milhares de pessoas estão encarceradas injustamente porque não tiveram julgamento e a maioria dos piores ladrões de colarinho branco, desses que guardam malas de dinheiro em casa e roubam dinheiro de milhares de crianças que ficam sem merenda e não passam um dia na cadeia?

· Você acha que por estar se sentindo rejeitado ou com ciúmes um homem pode matar a ex-mulher?

· Você aceita se depilar mensalmente, emagrecer, escovar os dentes, alisar os cabelos para ser aceito pelas mulheres?

· Você já pensou que engravidar, menstruar, amamentar e ter TPM são coisas que você não suportaria no seu corpo, mas consegue fazer piadinhas a respeito?

· O que você quer dizer quando diz: “Você sabe com quem está falando”?

· Você acha bonitinho um bolo se chamar “Nega Maluca”?

· Quando você está na missa você lembra que muitos padres são pedófilos e é melhor não deixar seu filho ir com eles para a sacristia?

· Você já pensou nos gastos que tem com seu pet e que pode ser necessário trocar o seu cachorro por uma criança pobre, antes que seja tarde?

· Você sabe que sua vida vai acabar e de toda sua descendência porque não teremos água e você não luta pelo meio-ambiente nem mesmo sendo responsável pelo descarte correto do seu lixo?

· Você é arquiteto, adora ouvir o som de Gilberto Gil e Caetano Veloso, mas não consegue mudar a planta de um apartamento para que o quarto da empregada não seja uma cela escura?

· Já te contaram que caixão não tem gavetas?

· Você já foi atendido num hospital público?

· Quando você abre a sua geladeira cheia e diz que não tem nada de bom pra comer, você sabe que neste governo a fome, a miséria e o desemprego estão aumentando todos os dias e que o prato da vez é pescoço de galinha, para aqueles que ainda têm algo para comer?

· Você já parou pra pensar que ativismo não é postar hashtags no Instagram e pode ser substituído por participação em organizações e coletivos que se colocam em ação para diminuir as desigualdades no país?

. Você tem ideia da violência e desamparo em que vivem os indígenas brasileiros, que estão sendo massacrados?

. Você já fez alguma coisa para ajudar a causa dos indígenas brasileiros?

. Você sabe que precisa proteger as comunidades quilombolas?

. Você entende que não tem sentido a religião católica ainda ser a igreja oficial do Brasil?

. Você sabe que estão preparando uma reforma terrível do Ensino Médio e um dos objetivos é fechar o acesso às universidades públicas? E que estudar será apenas privilégio de pessoas ricas e trabalhar em posições escravizadas e subalternas seja o prato servido para os filhos dos trabalhadores desse país?

. Quantos banheiros têm na sua casa?

Seja sincero: você pega a panela, grita fora Bolsonaro e não cumprimenta o porteiro do seu prédio muito menos sabe o nome dele?

Essas são apenas algumas das centenas de perguntas que podem explicar que talvez, lá no fundo, você também seja um pouco bolsonarista. E para minha tristeza e vergonha, talvez eu também.


Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

#EM011

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: