No confinamento, dançando na chuva

Por Eliana Marah

Solidão é lava,

que cobre tudo.

Amargura em minha boca,

sorri seus dentes de chumbo.

Solidão palavra,

cravada no coração,

resignado

e mudo,

no compasso da desilusão.

Danço eu, dança você, na dança da solidão.

Preparada para sair de viagem, uma viagem que seria breve -foi o que consegui dizer para minha mãe-, para logo ali, para me distanciar de um cotidiano embaraçado. E eis que a chuva, antes bem discreta, começa a fazer um discurso eloquente. Raios e trovōes no palanque. Regida por força maior, a ventania entrou na casa e quebrou objetos, tirou coisas do lugar e trouxe poeira. A tarde ficou no breu, pouco depois do meio dia. Na cidade, o caos instalado e os automóveis rugindo.

Dentro da sala, sentindo a tempestade vindo em minha direção, comecei a dançar. Batendo os pés no chão, em busca de firmeza, seguindo a percussão irregular dos sons. Yansã me dizendo coisas. O vento virando gente. Os trovōes fortes e as buzinas estridentes.

A mala azul, descansada no sofá. A viagem perdida. Um avião que decolaria sem mim. Sem querer ficar, sem poder partir, dancei. E depois a dança já era aborrecida.

Andei pela casa. Fui em todos os cômodos, me certificando de que estava sozinha. A casa iria ser alugada e foram para a casa do pai meu filho e o cachorro. Nos quartos as luzes da tempestade se alternavam e um raio iluminava um objeto, depois outro, e outro. Vi um par de chinelos deixado perto do guarda-roupa. A bolinha de brincar todas as manhãs. Uma toalha molhada em cima da cama. Já estava saindo, quando percebi que a toalha em cima da cama me prendia.

Cheguei na área de serviço e pendurei. E como se despertasse, fui fechando as janelas, enxugando partes do piso que estavam molhadas, agindo racionalmente como se deve agir quando uma tempestade chega e você está num lugar seguro.

A viagem estava suspensa. E era preciso ser racional agora. Antes do pânico retornar.

As luzes apagaram. Em casa, no prédio, numa parte do bairro. Agora era só eu. Sem disfarces. Acendi algumas velas. Na sala, abri a mala e comecei a colocar, um a um, cada objeto, enfileirados, de forma organizada, em cima da mesa de jantar. Minha mesa de madeira, bem comprida, era adequada para dar uma visão horizontal dos objetos. Separei por categorias: coisas para higiene dental, maquiagens, remédios, remédios a mais em caso de necessidade extrema, chinelos, toalhas, sabonete, uma manta pequena, uma canga, calcinhas e soutiens, maiôs e biquines, filtro solar, repelente, vestidos, saias, lenços, preservativos, moletom, tênis, meias, lentes de contato, óculos escuros, câmera fotográfica, carregadores, pilhas, dinheiro, cartões de metrô, cartões de crédito, o passaporte, cartões de visita, alguns presentes, livros, fotografias, cadernos, lápis e canetas coloridas, cigarros.

Eu iria pagar excesso de bagagem. Abri a bolsa de maquiagem: vários batons, alguns da mesma tonalidade, hidratante, base, pó, sombras. E assim, a cada categoria, pude ver subgrupos. E quando todos os objetos estavam expostos e visíveis, como se fossem a bagagem de uma vida inteira, entendi que eu estava indo embora.

O destino era Montevideo. Acertos com uma editora que iria publicar meus livros, ser minha agente e produzir eventos, palestras e oficinas. Já havia um apartamentinho charmoso, com vista para as águas, perto dali um estúdio de yoga, um bom mercado de produtos orgânicos -coisa rara num país com as melhores carnes- e cafés onde eu poderia escrever o novo livro depois do prêmio e da fama.

Lembrei da última vez no Uruguay, na semana do lançamento, chovia e fazia um frio terrível. Cheguei tremendo no Café Brasileiro, quase uma hora antes da jornalista que iria me entrevistar. Com fones de ouvido, olhando a rua, na mesa perto da janela, decidi que ali passaria uma temporada. Nunca soube de onde veio a coragem de deixar para trás uma vida inteira na familia onde eu me sentia menos importante, na rotina viciada de colocar sempre os outros em primeiro lugar. A terapeuta era culpada, de certa forma. E eu não estava nem um pouco segura de deixar meu filho voltar a conviver com o pai. Eu não sabia explicar para minhas melhores amigas a interrupção de projetos comuns.

O porteiro ligou avisando para tirar os aparelhos das tomadas. Tive vontade de fumar e fui buscar um café. Num canto da cozinha estavam empilhados jornais de quase dois anos. Desde o início da pandemia. Muitos estavam recortados, de onde eu havia retirado material para a pesquisa. Naquela pilha de papel velho, as atrocidades que faziam do Brasil um país alheio e dolorido. A viagem não estava suspensa. Era apenas o caso de troca de aeronave. Amanhã a companhia me incluiria em outro voo. Que decolaria até Montevideo, com escala em São Paulo, minha cidade natal.

Andando pela sala, olhando a mesa e a exposição de todos aqueles objetos, senti falta de outros. Peguei algumas caixas. Coloquei no chão da sala e escrevi em cada uma delas o seu conteúdo. Liguei para uma amiga e combinei que ela enviaria tudo como encomenda depois.

Na primeira caixa estava escrito: ballet. E foi por ali, na primeira caixa, onde eu estava planejando colocar minhas sapatilhas, as roupas, os colantes, os arranjos de cabelo, as fotos das coreografias -aquele universo que me parecia inalcançável agora-, foi justamente ali que comecei a escrever a primeira cena do livro.

Foto de João Maria Alves

E o livro começa assim:

“Quando despachei as malas, dei alguns telefonemas, escolhi um livro e comprei lápis novos. Procurei um lugar confortável para um café. A boca seca era efeito colateral da trazodona. Eu precisava de água. Faltava quase uma hora para o início do embarque. Olhando o movimento das pessoas em trânsito, senti que aquela cidade já não me pertencia mais. Senti saudades do filho. E se ele não cumprisse o acordo e decidisse viver no sítio? E se a saúde da minha mãe piorasse? E se minhas irmãs me julgassem? Era egoísmo ou era minha profissão. Eu iria passar um ano longe do Brasil para contar a história do Brasil desgovernado. Eu iria, nos dizeres do poeta, viajar por ter perdido um país.

E o livro era a tentativa de me reencontrar, ao montar uma narrativa de denúncia entre a indignação e a tristeza.

Eu estava pagando caro pelo excesso de bagagem.

E uma voz me dizia que era uma passagem só de ida.


Eliana Marah é da Zona Leste de São Paulo. Fez parte do Movimento Popular de Arte. Morou no Nordeste, em Porto Alegre e Rio de Janeiro. Professora Doutora em Letras, ênfase em Estudos Culturais e Escrita Criativa. Fez teatro de rua, poema de mimeógrafo, dançou, cantou, começou a escrever poemas e foi alfabetizadora de adultos e de crianças. Publicou Fábulas Delicadas, primeiro livro, em 2009. Em Porto Alegre atuou na Casa de Cultura, Cine Hibisco, com o Coletivo Catarse. Está preparando o segundo livro, Fábulas Malungas. Atua no Fórum de Pré Vestibulares Comunitários do Rio de Janeiro.

João Maria Alves, natural de Natal/RN, é repórter-fotográfico há mais de 40 anos e ilustra as colunas de Eliana Marah aqui no site. Trabalhou em diversas redações de jornais locais, com publicações também em jornais e revistas de circulação nacional. João fundou o Jornal Da Fotografia, tendo realizado exposições no Sul e Sudeste do Brasil e em alguns países europeus. Também trabalhou com fotos publicitárias e como professor de fotografia.

#EM012

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