A Justiça Federal optou pela fome!

Um aparato policial formado por agentes da Polícia Federal e soldados da Brigada Militar, “armados até os dentes”, desalojou, no início da manhã deste 13 de outubro, a Cozinha Solidária da Azenha em Porto Alegre, organizada pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e que vinha, desde o dia 25 de setembro, servindo almoços a uma população faminta e invisibilizada – formada por pessoas em situação de rua e também por trabalhadores que não possuem nem tempo nem dinheiro para alimentação digna. Alicerçados na decisão da juíza federal Ana Maria Wickert Theisen, daquilo que poderia se chamar de seu Olimpo administrativo, talvez alienada da duríssima realidade que assola uma parcela exponencial da população brasileira, esta ação policial foi levada a cabo bem cedo da manhã.

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Não é de se admirar um fato como esse, em um país em que a distância entre as classes sociais a cada dia se amplia mais e com seu mandatário, Sr. Jair “Messias” Bolsonaro (sem partido?), comprovadamente fazendo vistas grossas às mais de 600 mil vidas perdidas por uma “gripezinha” chamada Covid-19, segundo o próprio. Aliás tal “gripezinha” que arrancou a vida desse contingente imenso de cidadãos e também arrancou outros tantos de suas casas, por já não terem mais condições de se sustentarem – a si e às suas famílias, gerando um problema social imensurável e colocando o Brasil de volta ao mapa da fome. Uma lógica maquiavélica, pode-se inferir, deste governo: combater um mal com um mal ainda maior, ou seja, combater a violência com mais violência, o descaso com mais descaso e a fome com mais fome ainda. Já nem se enxerga uma situação tão sutil, de extermínio à míngua…

Nesses dezoito dias, a Cozinha Solidária da Azenha nada mais fez do que cumprir a lei prevista na Constituição Brasileira, em que se lê, já em seus primeiros parágrafos, que é um direito de todos e dever do Estado a garantia por um trabalho digno, pela alimentação digna e por uma moradia digna.

Diante de um triste estímulo ao “cada um por si” , seguidamente as pessoas se deparam com um Estado que já não é mais capaz de garantir direito algum aos seus cidadãos e que, também, não permite que a sociedade organizada possa os garantir. São decisões e ações desse tipo que permitem teorias bem concretas de, afinal, para quem esses agentes dos Três Poderes estão trabalhando: para o lobby do grande capital, que leiloará, no mesmo dia, o terreno que havia sido ocupado pela Cozinha Solidária da Azenha, deixando esta de alimentar, no mínimo, 150 bocas famintas ao dia.

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Mas o MTST aponta que a saída da Cozinha Solidária desse espaço que ocupava na Av. Azenha de forma nenhuma representa uma derrota. Muito pelo contrário, pois o objetivo de chamar a atenção da sociedade para que se debatesse de forma contundente a questão da fome e da pobreza extrema e da necessidade por moradia digna se considerou atingido. Prova disso é a adesão enorme de pessoas e grupos organizados que foram prestar ajuda e solidariedade à causa. Ao final, ficou um sentimento de que o surgimento de outras Cozinhas Solidárias pelo Brasil afora é uma possibilidade bem real a partir de um exemplo que, por poucos dias, mostrou o que se deve fazer e como realizar tal trabalho.

A Cozinha Solidária da Azenha foi realocada provisoriamente para um espaço particular e seguiu servindo os almoços na Praça Princesa Isabel, na confluência das avenidas Azenha, Bento Gonçalves e Princesa Isabel.

A fome urge!

Reportagem: Paulinho Bettanzos.
Fotos: Alass Derivas @derivajornalismo.
Edição e revisão: Bruno Pedrotti e Gutavo Türck.

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