Candombe: Cultura, arte, resistência.

Uma movimentação levada por toques de tambores tem atraído a atenção e o interesse das pessoas que cruzam pelas trilhas do parque da Redenção. Mas afinal que batucada é esta que acontece todas os domingos, às 15h, à beira do lago? Fomos conferir toda esse alvoroço e compartilhamos um pouco dessa magia percussiva chamada Candombe!

Foto: Paulinho Bettanzos.

Ziza Rabelo, Pepe Martini e Gabriel Cruz de Castro, do Candombe PoA, organizadores desses encontros nos receberam e explicaram que Candombe é uma palavra de origem quimbundo (idioma do grupo Bantu, falado na região de Angola) e designa, genericamente, danças com tambores.

Nas palavras de Ziza, o Candombe surge à partir da diáspora africana, perpetrada pela mão do Colonialismo Europeu, que arrancou um contingente imenso de pessoas oriundas daquele continente e os forçou a trabalhar como escravos pelas suas colônias. Aqui eram trazidos pra trabalhar em estâncias, engenhos, plantios e charqueadas, pela Bacia Platina e pelos campos e litorais nas fronteiras entre a Argentina e o Uruguay, mais o estado do Rio grande do Sul, no Brasil.

Ziza conta que aqui em Porto Alegre haviam Candombes, ainda no séc XIX! Sendo que o mais conhecido ficava na atual rua Avaí, no Centro Histórico, entre as Avenidas João Pessoa e Loureiro da Silva. É bem provável que não fosse tocado da mesma forma como o Candombe uruguaio é tocado atualmente, mas se reconhecia como Candombe. Existem relatos de que nesse Candombe, e talvez em outros menos conhecidos pelo Rio Grande do Sul afora, era incluído o sopapo, o famoso e imponente tambor afro rio-grandense.

Falando de tambores, no Candombe, eles são os criadores de toda a magia! A partir deles é gerado o som enérgico e organizado, repleto de timbres e cadências únicas que lhe conferem grande personalidade. No Candombe uruguaio tradicional são três: piano, chico e repique, que juntos formam a “cuerda”, explica Gabriel. Corpos abauluados, recordando a sua origem nos velhos barris; peles percutidas com baquetas (palo), células rítmicas que quando tocadas em conjunto soam como se estivessem conversando. Para quem assiste de fora é um espetáculo hipnótico!

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No Uruguay, o Candombe também assumiu uma dimensão de grande festa popular, com grandes “llamadas”, que é quando tocam os tambores, e desfiles de grandes grupos, as “comparsas”, pelas ruas de Montevideo. Uma expressão cultural tão intensa e profundamente alicerçada no inconsciente coletivo uruguaio não deixaria de produzir lendas, mitos e personagens marcantes, como os que estão presentes no Corpo de Baile do Candombe, representados pela Mama Vieja, El Gramillero e El Escobero. A Grande Mãe Negra, o especialista em todo tipo de ervas, e o grande varredor arauto/bailarino, respectivamente. Personagens surgidos nos chamados “conventos”, que nada tinham a ver com conventos de freiras e padres, mas sim com os espaços destinados aos contingentes de africanos que chegavam no Uruguay e a seus descendentes.

Como manifestação cultural de origem afro-uruguaia, o Candombe, hoje reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial, pela UNESCO, representa um papel significativo na cultura uruguaia nos últimos duzentos anos. Originando-se à partir da chegada de contingentes de escravos oriundos do continente africano, carregando consigo traços de música, dança e religião, inclusive tendo se expandido para além das fronteiras uruguaias, sobretudo na Argentina, mas também no Brasil, onde manifestações similares eram (e ainda são!) encontradas. No estado brasileiro de Minas Gerais, por exemplo, ainda hoje essa manifestação cultural está presente, mas mantendo uma conotação essencialmente religiosa.

Entretanto, foi no Uruguay que esta manifestação cultural, musical e festa popular, fincou suas raízes e de lá saíram seus grandes mestres e intérpretes e onde acontecem as grandes festas populares. Um verdadeiro e intenso carnaval, com desfiles grandiosos! Vale lembrar que em solo uruguaio, o Candombe segue evoluindo para outras formas, incluindo novos elementos, como rock e jazz. Veja-se o candombe beat, movimento surgido nos fim dos anos 60, do séc. XX, segue influenciando, profundamente, a música contemporânea produzida no Uruguay. Deste importante movimento, o grupo El Kinto e os músicos Hugo Fattoruso e Jaime Roos, são apenas alguns exemplos.

Gravura de Pedro Figari.

Agora está sendo possível, aqui em Porto Alegre, vivenciar um pouco deste universo cultural chamado Candombe, e este grupo que está se reunindo nas tardes de domingo, à beira do lago da Redenção, tem exatamente esse propósito que, segundo Pepe Martini, é o de aproximar as pessoas em torno desses tambores – desse outro batuque – para falar de identidade, de expressão, de música, de história, de consciência e de resistência!

A roda é aberta para quem quiser chegar e ir dando os primeiros  toques nos tambores. Não há pré-requisitos! Tem espaço para todos e os mais experientes transmitem o que sabem aos que ainda não estão bem apropriados. E assim a aprendizagem vai acontecendo de forma natural e espontânea. O Candombe PoA, grupo que organiza os encontros na Redenção, não é o primeiro e nem o único dos grupos de amantes do Candombe surgidos em Porto Alegre e, certamente não será o último. Quem sabe “reaprendendo” a tocar o Candombe com as queridas parcerias uruguaias, recordemos de como o Candombe da Rua Avaí era tocado!

Enfim, não estamos tão longe assim. Manifestações como o Candombe nos lembram que o Uruguay é logo ali, sim! Compartilhamos, com este pequeno e belo país, muito de nossa cultura, e vice-versa. Sejam nos pampas, nas milongas, nas bombachas ou nas cuias de mate, estamos culturalmente ligados. Compartilhamos, também, memórias tristes, de conflitos e contradições, mas nada que deslegitime nosso anseio comum por liberdade e respeito. Não é de admirar que aqui, nessas latitudes, chegue o Candombe e que ele nos envolva, nos cative, nos encante!

A partir desta manifestação cultural, é possível redescobrir o continente sul-americano, rompendo as fronteiras, sobretudo as da mente, para que se criem novas maneiras de nos enxergarmos como habitantes de um mesmo continente ao mesmo tempo tão diverso e tão rico!

Foto: Paulinho Bettanzos

Candombe é cultura viva, é rítmo, é alma, é corpo, é dança, é festa, é desde sempre resistência!
Candombe é alegria!

 

Reportagem e fotos: Paulinho Bettanzos.
Edição: Bruno Pedrotti.

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