Maxos Alpha de todos os países, uni-vos!

Por Rodrigo Navarro:

Dia desses recebi uma provocação num grupo de WhatsApp de trabalho. O provocador provavelmente nem deve ter percebido que eu notei a provocação, porque a arrogância é característica quase inarredável desse tipo de pessoa. Ao postar uma mensagem no grupo, me dirigi, como de costume, com uma saudação, dizendo “Boa noite a todas e todos!”. Usei apenas as marcas de gênero feminina e masculina porque, mesmo sem conhecer pessoalmente boa parte das pessoas que integram o grupo, pelas suas próprias características são mulheres e homens que se identificam como tal. Em resposta à mensagem que postei, o provocador saudou com alguma coisa mais ou menos assim: Bom dia a todos, como manda o bom vernáculo… Se o meu provocador fosse apenas, digo de novo, apenas um Ruy Barbosa redivivo ou um fã inveterado de Policarpo Quaresma (quem sabe um Jânio Quadros ou, para ser ainda mais contemporâneo, um Michel Temer), talvez isso não fosse um grande problema. Mas por curiosidade fui dar uma olhadinha na configuração de perfil do sujeito, que não está – e não estará – na minha lista de contatos. A foto mostra uma camiseta com a bandeira do braZil vestida por uma pessoa sem rosto.

Esse fato, que poderia passar batido, e passaria, caso eu não tivesse entendido a provocação, mostra bem mais coisas do que a aparente simplicidade e desimportância pode anunciar. A primeira constatação, e essa é nada difícil, é que se trata de um bolsonarista. A bandeira do braZil, pela qual eu nunca tive nenhuma simpatia, deixou de ser símbolo nacional para ser um ícone do bolsonarismo (se o meu provocador ler este texto certamente vai se insurgir contra o uso que faço dos termos símbolo e ícone). Na verdade, acho que fica até melhor assim, porque as cores e mensagens do pendão da pátria têm muito mais a ver com a tentativa de manutenção do status de algumas elites de séculos passados do que com o verde das matas e o ouro brasileiro. Salvo se essas matas forem as que os amigos ruralistas do presidente matam diariamente e o ouro seja aquele que os portugueses – e o Paulo Guedes – historicamente mandam pra fora do Brasil. (Dormia, a nossa pátria mãe tão distraída…)

Símbolos políticos à parte, a singela mensagem que me foi direcionada pelo provocador, encerrada com três pontinhos, diz muito sobre o pensamento e a prática da elite conservadora e reacionária deste nosso século, destes nossos tempos. Falar em bom vernáculo já denota um apreço por uma tradição linguística que só se mantém viva na cabeça dessa gente. O que é um bom vernáculo? Aquele que os gramáticos doutrinadores determinam como sendo? A língua das ruas, ou melhor, as línguas das ruas, do povo, certamente ficam na conta dos maus vernáculos. Ah, o linguístico também é preconceito…

Mas a questão não se encerra numa anacrônica defesa do uso correto da última flor do lácio, seja lá o que isso quer dizer. Não, o meu provocador deu mostras que é daquelas pessoas que acha que procurar uma comunicação por linguagem inclusiva não passa de “mimimi de esquerdopatas sem mais o que fazer”. Claro que ele não sabe, ou finge não saber, ou, mais ainda, sabe e desconsidera, que a marca de gênero masculina como universal deriva de séculos de dominação de homens sobre mulheres e outros gêneros na sociedade ocidental. Claro que ele desconhece, ou finge desconhecer, já que é homem de alta cultura, que somente num 18 de outubro, como ontem, de 1929 as mulheres canadenses foram reconhecidas como pessoas. Para esse tipo de… pessoa, como o meu provocador, 1929 não vai além do ano do crash da bolsa. Certamente o meu provocador não sabe, ou se sabe concorda com o fato de que até 1990 a homossexualidade era definida como um doença mental pela OMS. Claro que o meu provocador não sabe quem foram as mexicanas Juana Ramona e Maria Quinteras; também não deve saber qual a profissão de Susan La Flesche nos EE.UU. e muito menos o que fez na história a brasileiríssima Patrícia Galvão. Para o meu provocador, Elisa Lynch foi só a amante do sanguinário ditador Solano López e Dandara não é mais do que uma personagem de nome esquisito da malhação. “Sojourner Truth? Não, nunca ouvi falar.”

E.T., ou, como manda o bom vérnaculo, P.S.: para maiores referências sobre as coisas aqui faladas, sugiro a leitura do maravilhoso livro “Os filhos dos dias”, do grande Eduardo Galeano.


Rodrigo Navarro Lins de Aguiar é técnico do Ministério Público da União desde 1994, mesmo ano em que se formou em Direito, na Ritter dos Reis. Fez Especialização em Direitos Humanos e Trabalho na Escola Superior do Ministério Público da União (2019/2020) e está fazendo outra Especialização, no Instituto Brasileiro de Estudos, em História e Cultura Afro-brasileira. Foi diretor da Seção Sindical-RS do Sindicato dos Servidores do MPU entre 2017 e 2018 e colabora, sem cargo , com o Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no RS. Colabora em Coletivos e escreve em alguns blogs e espaços de debates políticos.

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