Antes de Bob Dylan houve uma flor (e seus espinhos)

Por Rodrigo Navarro:

Assistimos o filme, a Patrícia e eu, há uns anos, no cinema do Sindicato dos Bancários, ali na Ladeira. Depois disso, comprei o DVD e assisti várias outras vezes.

O filme é maravilhoso e na época escrevi algumas coisas, que transcrevo aqui debaixo. E por que resolvi falar sobre isso hoje? Por nenhuma razão especial, não há necessidade de razões especiais para escrever sobre coisas legais. Falta assunto político para escrever na linha do que tenho feito semanalmente aqui? Claro que não, é só jogar pra cima e escolher do que falar. Mas tem outra coisa, falar sobre Violeta Parra é falar em política, mesmo sem falar em política. Então segue aí a minha impressão sobre o filme e a sugestão para quem viu rever e para quem não viu ver.

“Antes de mais nada, uma nota de louvor ao Sindicato dos Bancários, que fica ali no centro do Centro, bem no meio da Rua da Ladeira, General Câmara, para os menos velhos. Lá tem uma ótima sala de cinema, bem confortável, com bastante espaço entre as filas de cadeiras, excelente sistema de som, enfim, tudo o que uma boa sala de cinema precisa, sem luxos dispensáveis. E o preço da entrada inteira é 5 reais. Sim, não me enganei, CINCO reais. Ou seja, quando objetivo não é financiar as férias dos donos do cinema nas ilhas gregas, é possível aliar qualidade e preço justo.

Dito isso, o filme. O filme é uma obra de arte. À altura da personalidade retratada: Violeta Parra. “Violeta foi para o céu” baseia-se no livro de Angél Parra, filho de Violeta, que deve ser muito bom, a julgar pela sua versão cinematográfica.

O diretor, Andrés Wood, evitou todos os clichês que se apresentam como tentações a quem pretende rodar um filme biográfico. Seria tranquilo, por exemplo, explorar o fato de Violeta ter sido cantada por Joan Baez. Ou mesmo toda a influência que ela exerceu na arte latino-americana, particularmente no campo da chamada canção de protesto (daí a sua relação com Joan Baez, Mercedes Sosa). Mas não, ele trilhou outro caminho, mais perigoso, no que diz respeito às pretensões de sucesso de bilheteria do filme.

A narrativa é fragmentada e intercala cenas da infância e da juventude de Violeta, com outras, quando ela, mais velha, expõe todas as atribulações do seu espírito indômito (traços do sangue indígena, talvez) e revolucionário, contrapostas à sua busca constante por amor, refletida na relação carinhosa, sem deixar de ser firme, que tem com os filhos e com o próprio namorado. Permeando todo esse jogo de emoções e sentimentos, há uma entrevista dela para uma televisão chilena, que funciona como uma espécie de fio condutor que costura os elementos da narração.

No desenrolar dos eventos do filme, o que se apresenta é um ser humano extremamente forte e muitíssimo frágil ao mesmo tempo. A mesma mulher que desafia figurões da política e das artes e os chama a todos de “mierda”, depois que é orientada a jantar na cozinha de um evento, é capaz de protagonizar crises de ciúmes quase adolescentes. Essa abordagem acaba, de certa maneira, por desmistificar a imagem que tendemos a construir dos grandes artistas como ídolos perfeitos. Eles são, no mais das vezes, tão humanos quanto nós e mostrar isso é uma das virtudes da fita.

Violeta era uma artista na acepção plena da palavra e tinha a exata noção da qualidade e valor da sua arte, que, como ela mesmo definia, emanava da relação que tinha com o seu povo. A cena em que o namorado suíço pergunta porque havia tantos quadros no quarto em que eles se hospedavam em Paris e ela responde dizendo para ele não se preocupar porque eles iriam vender todos, é antológica, principalmente pelo seu desfecho. O cara diz que o Louvre não admite que sejam feitas vendas fora do museu e ela, com a naturalidade de um gênio da arte, diz simplesmente: “bom, então vamos ter que vender lá dentro”.

A interpretação da atriz Francisca Gavilan, que inclusive interpreta as músicas, é de arrepiar. Os outros atores também são excelentes, então não há nada a dizer do filme que não seja elogio.

Não vou ficar falando mais, porque não sou crítico de cinema tudo o que posso fazer é dar a minha opinião e esta diz que o filme é imperdível.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 31/7/2012.”

Nota: o texto é de 2012 e naquela época eu ainda não dava a importância devida ao uso de linguagem inclusiva e não sexista.


Rodrigo Navarro Lins de Aguiar é técnico do Ministério Público da União desde 1994, mesmo ano em que se formou em Direito, na Ritter dos Reis. Fez Especialização em Direitos Humanos e Trabalho na Escola Superior do Ministério Público da União (2019/2020) e está fazendo outra Especialização, no Instituto Brasileiro de Estudos, em História e Cultura Afro-brasileira. Foi diretor da Seção Sindical-RS do Sindicato dos Servidores do MPU entre 2017 e 2018 e colabora, sem cargo , com o Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no RS. Colabora em Coletivos e escreve em alguns blogs e espaços de debates políticos.

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