A sorte do Papai Noel é que rena não bebe gasolina


Por Rodrigo Navarro:

O espírito do Natal está entre nós. A comitiva do Papai Noel chegou ao Porto e foi recebida com grande festa domingo à noite. No ano passado não deu pra vir, mas desta vez ele não decepcionou.

O Bom Velhinho e sua turma não vieram de ônibus. A passagem da Lapônia até a Europa brasileira, também conhecida como o estado mais politizado do país, parece que não é tão cara, mas aqui dentro, na capital do continente, a coisa tá feia. Nesses tempos de crise, pra fazer a festa, a prefeitura do Melo contou com uma parceria grandiosa: Carrefour.

O Beto não pôde participar.

Carrefour
(1) No começo do século/milênio, o Carrefour esteve envolvido em um escândalo de receptação de produtos roubados, particularmente aparelhos de celular. (2) Em 2020, um promotor de vendas morreu durante o trabalho em Recife. A loja não só não foi fechada, como o corpo colaborador da empresa, no jargão do mundo corporativo, foi deslocado para um canto, coberto por guarda-sóis e caixas de papelão pra não atrapalhar o tráfego. “Tá lá o corpo estendido no chão…” (3) Em 2019, a Justiça do Trabalho de Osasco proibiu o Carrefour de usar o sistema de “filas eletrônicas” para disciplinar a ida dos/das… colaboradores/as ao banheiro. (4) Também em Osasco, um ano antes, um cachorro de rua que “incomodava” na loja foi envenenado, espancado e morto por um… colaborador do Carrefour. (5) Em São Bernardo do Campo, certa feita, em 2018, um homem, negro e com deficiência física, foi agredido verbal e fisicamente, inclusive com ofensas raciais, por ter aberto uma lata de cerveja dentro da loja. A afirmação de que pagaria a cerveja não o livrou do espancamento. (6) Numa época de Natal como esta, mas em 2017, colaboradores/as foram demitidos/as por pedirem remuneração por trabalho realizado em feriados. (7) De novo em Osasco, em 2009, um homem, cuja cor da pele é (preencha a lacuna)_, foi agredido por seguranças/colaboradores do Carrefour por supostamente ter roubado um carro no estacionamento da loja. Detalhe: ele era dono do carro. São 7 fatos, mas, como em algumas linguagens populares 7 é conta de mentiroso, vou citar mais um pra fechar 8: o assassinato do Beto em 2020, que provocou uma campanha empreendida pelo Carrefour, e até criou um site: navamosesquecer.com.br. Bacana essa iniciativa, mas ela vai restituir a vida ao Beto e a dignidade aos montes de pessoas agredidas dentro das lojas por esses motivos fúteis, a maioria das quais, por medo ou outro motivo, não denunciam as agressões? A campanha vai trazer de volta à vida o cachorrinho que cometeu o abuso de andar solto nas dependências da loja? A campanha vai trazer de volta a vida das pessoas que morreram simplesmente para terem seus celulares roubados e depois revendidos ao Carrefour? O Carrefour é isso, e vai precisar muita campanha pra mudar. Mas muita campanha mesmo!

O prefeito e o bom velhinho
Eu estive domingo na Redenção e vi quando ele chegou, trazendo uma mensagem de paz, de solidariedade e tudo aquilo que o espírito natalino representa, ou melhor, que as lojas de presentes querem que ele represente. Para alguns bons corações, realmente esta é a razão e a lógica do Natal: tempo de paz e esperança. E também de se banquetear com perus e farofas, claro, afinal ninguém é de ferro. Só que quando eu fui pra casa, nos caminhos que levam até o Menino Deus a paz virou revolta e a esperança se esvaiu, porque vi um monte de “acampamentos” de pessoas que moram nas ruas e que certamente não vão receber a visita do velhinho que não esquece de ninguém. E muito menos comer peru na noite de 24. O velhinho esquece sim. Mas esquece só dos pobres, na maioria pretos, que são os que morrem na mão (e nos cacetetes) de alguns dos colaboradores do Carrefour, que patrocina a festa da prefeitura. Mas não é só o Noel que esquece, o próprio prefeito também esquece. Esquece, por exemplo, das pessoas que têm dificuldades para pagar a passagem de ônibus, e por “esquecer”, passa a máquina nas isenções. Interessante saber, neste ponto, que o secretário que cuida dessa área, a da mobilidade, que certamente não anda de ônibus, já andou dormindo na cadeia há alguns anos por suspeita de envolvimento em corrupção. Na época ele era secretário do meio ambiente, o que sugere que a distribuição dos cargos no primeiro escalão não responde a critérios técnicos. Aliás, por seus secretários a cidade-sorriso não faz jus ao nome. O então prefeito de Santa Maria na época da tragédia da Kiss, e atual secretário de planejamento de POA, disse em depoimento no júri que a prefeitura não teve culpa de nada, porque o que aconteceu foi só um incêndio: “Prefeitura não tem nada a ver com extintor, espuma, barra de contenção” foi o que ele disse. O que ele andará planejando na pasta pela qual responde agora? As mais de duas centenas de pessoas que foram carbonizadas naquilo que o ex-mandatário considera ter sido “só” um incêndio, também não poderão receber o Papai Noel. Nem em Porto Alegre, nem na Boca do Monte.

Diante do caos que a sociedade brasileira vive, diante do desgoverno fascista que comanda a nave brazilis, em cuja onda o prefeito Melo surfou pra se eleger, diante de milhares de pessoas que não têm o que comer, promover uma festa pra receber o velhinho, que de bom não tem nada, e levar algumas crianças da Restinga pro palco da Redenção, tudo isso patrocinado por um grupo miseravelmente capitalista e racista como o Carrefour, é uma hipocrisia de proporções gigantescas. Em vez de bancar o prefeito bonzão nas costas do velho bonzinho, o chefe do paço municipal deveria estar cuidando da cidade e das pessoas que vivem nela. Principalmente daquelas que estão morrendo nela pelo sucateamento dos postos de saúde e hospitais públicos, onde os trabalhadores e trabalhadoras fazem milagres diariamente para salvar vidas e não têm aumento de salário há muito tempo; o prefeito deveria estar pensando nas crianças que estudam na rede pública, que passaram esses tempos de pandemia sofrendo na pele a falta de condições dignas de estudo, não obstante o trabalho heroico das professoras e professores, categoria das mais desvalorizadas desse país desumano; o prefeito bolsomelo (ou seria melonaro?) deveria estar pensando não nos filhos dos donos das empresas de ônibus, que pra esses o Papai Noel vem de saco bem cheio, mas nos filhos das pessoas que vão ter inúmeras dificuldades para pagar a passagem do ônibus depois dos cortes que ele fez por covardia (ou seriam outros interesses?) e medo de meter a mão no vespeiro, como o Olívio Dutra fez há algumas décadas, salvando a Carris, que agora o prefeito quer vender/doar pra iniciativa privada. É nisso que o prefeito deveria estar pensando e não nesse papo furado da imagem de um Papai Noel bonzinho e caridoso. Imagem fake, porque ele só é bonzinho pros ricos, nos pobres ele cospe, já o disseram os Garotos Podres.

Mea Culpa
Eu vou assumir a minha parcela de hipocrisia e dizer que desde criança, por conta de antigas tradições familiares, participo dessa ilusão do Bom Velhinho, e de certa forma transmiti isso às minhas filhas. Não vou me isentar, faço parte dessa mentira também. Mas há muito tempo não compro nada no Carrefour. E também faz tempo que sei que o Papai Noel não anda de ônibus e que trenó não usa gasolina.


Rodrigo Navarro Lins de Aguiar é técnico do Ministério Público da União desde 1994, mesmo ano em que se formou em Direito, na Ritter dos Reis. Fez Especialização em Direitos Humanos e Trabalho na Escola Superior do Ministério Público da União (2019/2020) e, no Instituto Brasileiro de Estudos, Pós-Graduação Lato Sensu em História e Cultura Afro-brasileira. Foi diretor da Seção Sindical-RS do Sindicato dos Servidores do MPU entre 2017 e 2018 e colabora, sem cargo , com o Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no RS. Colabora em Coletivos e escreve em alguns blogs e espaços de debates políticos.

#23

2 comentários em “A sorte do Papai Noel é que rena não bebe gasolina

  • 15/12/2021 em 16:36
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    Revoltante e esclarecedor ao mesmo tempo. Natal sempre é tempo de reflexão e este texto me ajudou muito a refletir sobre o que estamos vivendo. Parabéns.

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  • 16/12/2021 em 10:47
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    “a maioria das quais, por medo ou outro motivo, não denunciam as agressões?”

    Arrisco dizer que o outro motivo é a certeza de que a “justissa” não funciona a favor do pobre contra o rico (assim como o VAR não funciona contra Flamengo e Corinthians), e a denúncia, ainda que motivada, será transformada em retaliação covarde e desleal a quem ousar insurgir-se contra os poderosos.

    Resposta

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