Já temos o circo, nos falta o pão


Por Rodrigo Navarro:

O Brasil é uma fábrica de produção de escândalos políticos. Na história recente, pós-ditadura, de anões do orçamento a juiz Lalau, de PC Farias a Fabrício Queiroz, podemos escolher aleatoriamente um mês qualquer do calendário civil e encontraremos algum fato marcante de corrupção ou afim ocupando os noticiários. Salvo no carnaval, por óbvio, que a Folia de Momo é sagrada e ninguém é de ferro.

O que temos de diferente agora, então, com os bastidores (eufemismo para merda) do Ministério da (des)Educação chegando ao ventilador midiático? Nada, absolutamente nada, é só mais uma (série de) falcatrua que vai virar pizza. Se resultar em representação, o PGR estará de prontidão para o engavetamento. Esta nem é a primeira vez que aquela pasta ocupa o centro da vergonha governamental. É estatística: um ministro por ano, em média. Milton Ribeiro, um dos tantos homens de Deus que atuam nos escalões do Planalto messiânico, tal qual um profeta injustiçado, terá a sua cabeça oferecida em bandeja de prata (talvez ganhe um carguinho qualquer com vencimentos na casa dos seis digítos, como seu antecessor Weintraub) e os ânimos se acalmarão por alguns dias. Tudo dentro da mais perfeita normalidade distópica que estamos atravessando.

Enquanto isso, na medida em que a sede de justiça (e de escândalos) do povo é saciada, o ministério intocável continua… intocável. Ao longo dos 3 anos e meio de (des)governo, Paulo Guedes não foi atacado sequer uma vez pelo Jornal Nacional, o algoz máximo dos bolsonaros. Nem mesmo quando surgiu o (quase) escândalo das off shores que ele mantém em paraísos fiscais, para onde desvia dólares em permanente alta na sua gestão frente à pasta da economia. Por que razão o Chicaco Boy é blindado pela Globo?

Para a casa dos marinhos e os seus think thanks parceiros, pouco importam as evidências do envolvimento da família Bolsonaro na morte de Marielle ou na farra dos pastores na Educação. Enquanto a grande mídia se ocupa em entreter o povo com matérias bombásticas sobre investigações que não dão em nada, ou com a enfadonha leitura das notas e manifestos das instituições republicanas em repúdio a mais um escândalo da família miliciana, a autonomia do país é estraçalhada e setores estratégicos da economia são desmontados. Na era pré-bolsonaro, o trabalho foi feito pela farsa lavajatiana, comandada por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Dando seguimento, vieram as negociatas articuladas pelo inatacável ministro conhecido como posto ipiranga do bolsonarismo. Lembremos que pouco antes de Vlad Putin atiçar seu exército (já nem tão) vermelho na Ucrânia, Bolsonaro fez uma visita de cortesia ao Kremlin. Houve quem dissesse que ele lá esteve para evitar o conflito bélico. E, pior, acreditaram que ele conseguiu! Não foi assunto da mídia corporativa, todavia, a venda para uma empresa russa da maior fábrica de fertilizantes brasileira, em cuja construção a Petrobrás investiu alguns bilhões. Por que será? Antes disso, e certamente não por acaso, as obras da UFN3 (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III) haviam sido paralisadas pela Lava Jato, sob o comando de Sérgio Moro. O agro é pop…

A estratégia quase pueril de inviabilizar uma empresa pública para depois privatizá-la por preço vil (ia dizer preço de banana, mas a feira me desmentiria) é antiga, mas funciona perfeitamente no braZil de Bolsonaro, Guedes e Globo. E quando há algum risco que a pátria mãe tão distraída perceba que está sendo subtraída em tenebrosas transações, escolhe-se um ministro para rifar e arrefecer a sanha justiceira dos guardiões da moral e dos bons costumes. Foi assim com Ricardo Salles, Ernesto Araújo e o próprio Moro, entre tantos outros. A bola da vez é Milton Ribeiro. O único com salvo conduto é Paulo Guedes. O súper ministro não entra na roleta russa (sem trocadilho).

No braZil dos acordões com supremo, com tudo, a Globo e afins batem impiedosamente em Bolsonaro, que nunca cai, e, por trás da cortina enfumaçada, a boiada vai passando. Com isso, o circo está garantido no horário nobre, mas e o pão?


Rodrigo Navarro Lins de Aguiar é servidor do Ministério Público da União desde 1994. Em 1999 concluiu o curso de Direito na Ritter dos Reis e fez especialização em Direitos Humanos e Trabalho pela ESMPU (2020) e em História e Cultura Afrobrasileira pela Famart/INE (2021). Atuou no movimento estudantil nas décadas de 1980 e 1990 e no movimento sindical desde os anos 90. Em 2022 vai retomar o curso de Letras na UFRGS, interrompido em 2008. Participa de movimentos sociais e escreve em blogs e sites. Com a crônica “Uma rua que não há”, publicada neste site, obteve o 3º lugar no 17º Concurso Literário Mário Quintana, promovido pelo Sintrajufe em 2021. Acredita em um mundo melhor, sem bolsonaros.

#37

2 comentários em “Já temos o circo, nos falta o pão

  • 30/03/2022 em 06:47
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    Não existe escândalos de offshore muito.menos a metade destas marcas escritas. Fantoche do Lula querendo se achar o inteligente, a lei permite offshore desde que o dinheiro nao venha de lavagem fiscal. Como é de praxe do Lula e sua turma. Texto mais babaca impossível. Admiro um animal destes falar tanta abobrinhas e não saber das leis fiscais. Admiro a militância esquerdista burra como sempre. A inveja é um prato que se lambuza o cérebro de tal imbecilidade. Me faz perder tempo lendo uma asneira enorme destas. Até parece uma criança que não ganhou bico e quer contrariar as leis impostas. Muito mimimi e pouco embasamento jurídico. Gostaria de saber qual foi o trabalho de conclusão na Ritter que este cidadão do mal fez?

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    • 31/03/2022 em 14:12
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      Obrigado pelo seu comentário! Objetivo atingido! Em 1999 ainda não era exigido trabalho de conclusão.

      Resposta

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