Carijo na Lomba Grande

No último final de semana de março, dias 26 e 27, coletivos e grupos se reuniram na Lomba Grande, distrito rural entre Novo Hamburgo e São Leopoldo, para um Carijo. A vivência foi proposta para seguir semeando os conhecimentos e práticas ancestrais  da produção artesanal de erva mate – que têm origem indígena e seguem sendo realizados em aldeias como a Ka’amirindy (em Camaquã) e Yvyty Porã (Aldeia Serra Bonita, em Riozinho) –  e foi ministrada pelo biológo Moisés da Luz.

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O local que recebeu a carijada tinha diversos usos, o que acabou dando um tom singular à produção artesanal ali realizada. O organismo agrícola da Família Bühler, além de receber as podas da cidade e sediar o Banco de Tempo da Lomba Grande, também possui duas quadras de futebol onze, tendo sido o carijo montado ao lado de uma delas. No sábado, enquanto a erva estava sendo sapecada, dois times locais se aqueciam no campo. O apito inicial levantou a preocupação com o risco de a bola atingir a estrutura do Carijo ou cair no fogo.

Uma lona foi montada entre o Carijo e o campo, protegendo também do vento e reforçando a barreira natural do pé de jambolão que guardava a estrutura. Assim, as atividades seguiram lado a lado sem conflitos, em um encontro entre a prática indígena e o esporte popular. Se, de um lado, os grupos envolvidos no carijo passaram a acompanhar os lances do jogo, a caminho do vestiário os jogadores brincavam “Quer um chimarrão de verdade? amanhã tu vai ver a erva que o pessoal está secando ali do lado”.

Vinda de Santa Maria do Herval, Dois Irmãos e Sapiranga, a erva foi para o Carijo por volta das 16 horas de sábado. Com as folhas secando ao fogo, os grupos montaram suas barracas no acampamento atrás de uma das goleiras do campo. Com o cair da noite, o braseiro aqueceu os corpos e a vivência seguiu embalada pelo músico Zé Martins, do grupo Unamérica, que cantou histórias de louvor à terra e ao trabalho campesino acompanhado do seu violão. Na madrugada, a lua minguante nasceu na forma de um sorriso, iluminando o restante da ronda.

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De manhã, após 17 horas na brasa, a erva estava seca. Feitos os primeiros mates do dia, amassando as folhas direto do carijo para as cuias,  começaram a surgir os questionamentos sobre a logística para as etapas seguintes: cancheamento e soque. O soque do Coletivo Catarse (adquirido com recursos do Projeto Roda Carijo) estava do outro lado do campo de futebol.

Para se fazer esse transporte sem perder erva mate pelo caminho, foi pensada uma solução inesperada até para os carijeiros mais experientes da equipe: serrar a estrutura do carijo do chão e carregá-la para perto do soque. De tão esdrúxula, a empreitada funcionou perfeitamente. Com a chegada do Carijo, foram estendidas lonas e esculpidos facões de madeira para o cancheamento.

Cancheada a erva, começou o trabalho do soque, retomando suas atividades depois de cinco anos parado. Para demonstrar as diferenças no sabor de cada moída, a erva foi socada em diferentes níveis, produzindo lotes de moída grossa, pura folha e moída fina. Como o motor do soque estava dando sinais de superaquecimento – justamente pelo tempo parado – o processo foi interrompido faltando pouco menos da metade do total que foi seco no Carijo. O imprevisto serviu também de oportunidade para dar continuidade ao processo, difundindo também a prática ancestral indígena no ambiente urbano, já que o Coletivo Catarse irá chamar um evento na Comuna do Arvoredo – centro histórico de Porto Alegre – para socar o restante da erva.

Para além do produto final – uma erva defumada com sabor suave que demora a “lavar” – a carijada cumpriu a função ancestral que lhe é tão característica: juntar pessoas e grupos em um processo de trabalho manual e coletivo. Vale lembrar que encontros como esse foram interrompidos ou reduzidos durante os dois últimos anos em função da pandemia. Justamente por isso, o encontro teve o importante papel de aproximar novamente uma rede que não pode ser apenas virtual.

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De nossa parte, agradecemos a todas e todos que participaram do encontro, principalmente às organizações que se comprometeram em produzir o evento: o Araçá – Grupo de Consumo Responsável, a Agrofloresta Garupá, Produtos Biocêntricos e Circular Alimentos, o organismo agrícola da Família Bühler e o Banco de Tempo Lomba Grande. Saudamos Moisés da Luz e todos os outros parceiros de longa data que tivemos o prazer de reencontrar e todas as novas amizades e possíveis parcerias semeadas durante a vivência.

Para quem chegou há pouco nessa roda e quer acessar mais materiais sobre o Carijo, sugerimos também a cobertura do encontro feita pelo Extra Classe, a cartilha de montagem e secagem de erva mate no Carijo, o livro “Carijo: saber cultural do Rio Grande do Sul, símbolo de resistência e conhecimento indígena e camponês na fabricação artesanal de erva mate” e o documentário longa metragem “Carijo, o filme”:

 

Fotos: Billy Valdez, Têmis Nicolaidis
Texto: Bruno Pedrotti.

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