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Enrico de Angelis, da Los Fastidios: à esquerda da cultura Skinhead

Antes do show da banda Los Fastidios em Porto Alegre, o Coletivo Catarse conseguiu entrevistar Enrico de Angelis, vocalista e único membro da formação original da banda.

Confira abaixo a conversa, na qual Enrico contou um pouco da história da banda, falou de política e mostrou uma visão à esquerda da cultura Skinhead.

Poderia contar um pouco sobre a história da banda e como vocês perceberam a situação política se modificar ao longo destes anos?

A banda nasceu em Verona. Verona é uma cidade no nordeste da Itália. A banda nasceu em 1991 e sou o único “sobrevivente” da formação inicial.

Não é fácil “sobreviver” com a Los Fastidios, se você conferir nossas datas da tour, vai ver que a banda toca ao vivo com frequência. Então tocamos muitos shows, e infelizmente não conseguimos sobreviver somente com a música. Não é fácil se organizar para tocar mais de 100 shows todo ano.

Assim, mudamos algumas formações ao longo do ano e no momento temos um grupo bom, formado não só por pessoas vindas de Verona. Mário, o guitarrista, é de Veneza. O baterista, Baqueta, é de Rovigo. Ciacio, o baixista, vem da Cércia na região da Emília Romanha (norte da Itália).

Como te falei, nossa banda toca muito ao vivo. Rodamos o mundo e agora estamos aqui na América Latina. Essa tour foi mágica: passamos duas semanas entre o México, Brasil e Chile. Hoje é última data da tour. Estou triste por isso, gostaria de poder ficar mais.

Você perguntou também da situação política…

Está muito difícil na Itália como em todos os lugares. Aqui no Brasil percebo que vocês também vivem um momento bem complicado.

Mas estamos aqui para dar nossa energia, nossa música para apoiar o movimento antifascista no Brasil. Esperamos que nossa música possa trazer uma energia positiva para as pessoas neste momento importante para o Brasil.

Na Itália, a situação não é muito diferente. Temos um governo de coalizão entre um partido recente chamado Movimento Cinco Estrelas, que tem integrantes de esquerda e direita. É um grande caos. pois querem fazer um partido do “Novo Milênio”, ou algo diferente da política tradicional, mas eles não são nada, pois não tem valores. Acredito que um partido político precisa de valores em comum para unir as pessoas, e eles não tem. Além disso, este partido fez uma aliança com outro extremamente racista, o Liga Norte.

No momento nosso primeiro ministro é uma pessoa terrível, ele é o homem que quer fechar todos os portos e deixar os refugiados que tentam chegar na Itália morrerem no mar. O problema, na Itália, como em toda a Europa, é que os partidos de extrema direita estão usando a situação dos refugiados.

Posso garantir a você que não existe realmente uma crise dos refugiados, porque na Europa temos espaço para todas as pessoas. Mas os partidos de direita estão usando a situação, que chamam de problema ou crise, para espalhar suas mensagens racistas fodidas; para criar uma situação de medo e pânico. É uma loucura, pois as pessoas absorvem este discurso e se sentem ameaçadas e passam a agir com raiva e ódio.

Acredito que se as pessoas conversassem com os refugiados, perceberiam que os imigrantes são ótimas pessoas. Por exemplo, em Verona temos um projeto que apoia um clube de futebol chamado Virtus Verona, que joga na terceira divisão.

Nosso time está recebendo refugiados no momento. Vivo numa cidade muito fascista, então é difícil; mas, sou muito orgulhoso do meu time, porque estão fazendo um trabalho importante acolhendo estes refugiados. Com estes caras, temos um pequeno grupo chamado Rude Firm que busca envolver os refugiados na vida das arquibancadas. Garanto a você que esta é a melhor experiência da minha vida.

Os refugiados são ótimas pessoas. Mas, o problema na Europa é que as pessoas têm medo da situação. Acho que a melhor maneira de superar isso, seria se sentar na mesa com os refugiados, conhecê-los, conviver com eles, compartilhar refeições com eles, como fazemos todos as semanas.

Se as pessoas conversassem com os refugiados, iriam entender que eles são pessoas como você e eu. Não existe crise de refugiados.

Também acredito que a Europa explorou a África por séculos. Acho que é hora de devolvermos algo a estas pessoas. Mas, muita gente na Europa não pensa como eu.

Então na Itália existe um grande problema, com essa situação de medo. Mas o problema não é só na Itália, em toda a Europa os partidos de extrema direita estão usando essa estratégia política do medo para se espalhar e crescer; e o problema é que eles realmente estão crescendo.

 Aqui no Brasil temos um senso comum que costuma associar os Skinhead à extrema direita. Poderia contar um pouco sobre a cultura Skinhead de uma perspectiva a esquerda?

Sim, isso acontece mundialmente…

Mas sobre a cultura Skinhead, eu poderia dizer que ela nasceu ao misturar diferentes culturas negras e brancas. Então, para mim, ser Skinhead significa ser realmente anti fascista, anti racista. As raízes do movimento são negras e brancas.

Infelizmente hoje, o movimento Skinhead é visto com maus olhos. Eu responsabilizo a grande mídia corporativa por isso. É muito fácil para eles: as pessoas dão mais atenção sobre notícias sobre quando os Boneheads – (cabeças de osso) pois não gosto de chamar esta gente de Skinhead – atacam os ciganos ou os imigrantes. Isso rende grandes notícias e audiência para essa mídia.

Ao mesmo tempo existem muitos Skinheads envolvidos nos movimentos anti fascista e anti racista. Mas, para a grande mídia isso não é importante: não é notícia. Assim, no final você pode ler muita coisa na grande mídia falando sobre os Boneheads fascistas.

Mas acho que os Boneheads fascistas precisam ir para a escola e estudar. Acho que eles perderam algo, que só sabem sobre os últimos anos e não olham para as raízes do movimento que dizem seguir.

Felizmente neste momento existem muitos livros e muito conteúdo de qualidade circulando na internet. Hoje você pode entender melhor a história e a verdadeira cultura do movimento Skinhead.

Eu acredito que o movimento Skinhead foi a primeira subcultura, ao longo do século passado,  a unir pessoas negras e brancas dentro da Europa.  Antes desse movimento, negros ficavam com os negros, e os brancos ficavam com os brancos. O movimento Skinhead foi a união.

Talvez este seja o motivo pelo qual os fascistas tentam sabotar o movimento: porque acho que eles vem este movimento como realmente perigoso. Porque acredito que o movimento Skinhead foi o início de um novo movimento, de uma nova subcultura internacional. Mas, ao mesmo tempo, os fascistas tentam destruir este movimento, porque essa união é muito perigosa para eles.

Enrico de Angelis,
vocalista da banda Los Fastidios.

Entrevista: Bruno Pedrotti
Imagens: Billy Valdez

Saúde Indígena

Dia 18 de outubro, em uma quinta feira nublada de primavera, indígenas das etnias Kaingang, Guarani e Charrua se reuniram em frente à sede do Ministério Público Federal, próximo ao Parque Harmonia.

esq para a direita Cacica Aquab, representante do povo Charrua e Iracema Gah Teh, liderança Kaingang

Após demandas das lideranças, o Ministério Público marcou a reunião com os indígenas e o diretor da Secretaria Especial da Saúde Indígena (SESAI) para discutir questões referentes à saúde.

João Carlos Padilha, Cacique representante dos Kaingang do Morro Santana

Em entrevista, o Cacique João Carlos Padilha declarou a principal reivindicação era a saúde indígena diferenciada, garantida pela constituição. O líder Kaingang denunciou que o Estado nunca cumpriu com os compromissos que firmou com os indígenas, tanto na questão da saúde quanto das demarcações de terra.

Iniciada a reunião, em um auditório congelante, os excelentíssimos senhores começaram suas teses. A ideia proposta da reunião era a de se ouvir os indígenas, mas os “brancos” falaram primeiro.

Márcio Godói Spíndola, Secretário Adjunto da Saúde Indígena, falou das dificuldades de logística que a SESAI enfrenta, além de reforçar  que a secretaria não pode interferir no município e no estado.

A reunião seguiu, com os “brancos” passando a palavra entre si. Enquanto isso, os indígenas davam sinais de querer falar. Cacique Saci, liderança da comunidade Kaingang de Vicente Dutra, era um dos indígenas que demonstrava claramente querer se manifestar.

Até que o cacique se levantou e caminhou em direção ao microfone

“No momento, estamos abrindo para fala de organizações”, tentaram lhe desencorajar.

Saci seguiu obstinado.

“Em um outro momento abriremos a fala para os indígenas…”, insistiram.

Mas o cacique prosseguiu e conquistou o microfone, como os indígenas fizeram com os poucos direitos que têm. Assim, inaugurou seu momento de fala.

Saci falou da importância do território para a saúde indígena. Na sua visão: “Para se fazer boa saúde indígena, é preciso fazer gestão territorial”.

O líder comentou que a saúde indígena precisa de autonomia e denunciou que muitas vezes os recursos eram mal gastos. Para ele, o dinheiro era gasto com outras questões e eram contratados profissionais desinteressados e que não respeitavam a cultura Kaingang.

Nesse sentido, Jaime Aldo, uma das lideranças Kaingang dos grupamentos Kaingang da zona sul de Porto Alegre, ressaltou a importância de se respeitar o modelo de vida das comunidades. Ele também denunciou a falta de moradia digna e de água.

“Estamos há 4 anos na área e não temos saneamento básico. Faz um ano que peço para a SESAI levar água potável”.

Antonio dos Santos, cacique Kaingang de São Leopoldo. Também falou em um forte tom de denúncia: “quantos caciques já morreram lutando?!”, questionou.

E ainda completou: “Tem que tirar a bandeira do congresso e colocar na mão do pajé, porque o Brasil é nosso!”.

Para Antonio, os caciques precisam de autonomia para decidir quem vai trabalhar na aldeia. Também atacou a burocracia que dificulta para que os jovens indígenas formados possam exercer a medicina nas aldeias.

Assim, os indígenas – com forte protagonismo Kaingang – deixaram claro que independente do governo que assuma em 2019, seguirão lutando pelos seus direitos.

#Ele não em Porto Alegre: ontem hoje e sempre

Presenciamos uma manifestação contra o candidato de extrema direita e notamos que esse movimento segue ganhando força.

Dia 29 de setembro, em um sábado quente e abafado, acompanhamos o ato contra o candidato fascista que concorre a presidência do país.

O que testemunhamos foi uma união sem precedentes.  Importante destacar o protagonismo das mulheres, que começaram a se articular contra as declarações machistas do candidato.

Mas a partir daí, se uniram à causa pessoas das mais diversas etnias, classes sociais, idades e identidades de gênero.

Durante a caminhada, notamos um clima de paz e harmonia.  Não percebemos nem mesmo as pequenas depredações comuns em protestos, como pichar ou virar latas de lixo.

Apesar da seriedade das reivindicações, o ato não tinha um clima violento. Pelo contrário, um trio elétrico e marchinhas davam um toque descontraído e de leveza:

“Olha como Luta essa mulher
Será que ela é?
Será que ela é?
Livre!”

O ato era combativo, mas o fazia com a elegância de quem se permite sentir raiva, porém se recusa a odiar seu oponente.

De tempos em tempos se ouvia ressoar o refrão:

“Ele… Não!”
“Ele… Não!”

Agora, depois de um primeiro turno assustador no qual o fascismo quase venceu, percebemos novamente e mais forte que nunca a união contra o candidato e seu discurso de ódio.

Pipocam atos em defesa da democracia no Facebook:

Um deles, marcado para as 18 horas de hoje (10 de outubro), convoca os estudantes a defender a universidade pública e a democracia. Outro, marcado para as 18 horas de amanhã (quinta feira 11 de outubro) defende a união das esquerdas contra o nazifascismo e o autoritarismo.

E esses são só alguns exemplos que aparecem na pesquisa da rede social…

Seja protestando, votando ou tentando reverter o voto daquele tio que pretende votar no candidato, entendemos que este momento é extremamente importante para se unir e apoiar o pouco que resta de democracia no Brasil.

Afinal, o candidato já se declarou contra as leis trabalhistas e inclusive afirmou que irá acabar com o décimo terceiro salário. Também se posiciona contra as cotas nas universidades, contra demarcações de terras indígenas e quilombolas, sem falar nos crimes de ódio e preconceito que propaga sempre que se pronuncia.

Assim, reafirmamos aquilo que cantamos no ato do dia 29 de setembro:

“ELE NÃO! ELE NUNCA!!”

Por Bruno Pedrotti

Filmografia Social: Mestre Borel – a ancestralidade negra em Porto Alegre

Certa vez ouvi alguém dizer que, para as culturas orais, os mais velhos são como os livros, pois carregam grande conhecimento e é com eles que se aprende.

Se isso for verdade, Walter Calixto Ferreira, conhecido como mestre Borel, era uma das mais completas enciclopédias para se pensar as religiões de matriz africana e diversas questões da história negra na Porto Alegre do século XX.

Me refiro a ele no passado, pois Mestre Borel faleceu no ano de 2011. Felizmente um pouco de sua sabedoria ficou registrada no documentário de Anelise Gutterres.

Além de contar a história pessoal do mestre e mostrar sua prática afro religiosa, o filme revela as transformações geográficas e sociais pelas quais a cidade de Porto Alegre passou no século passado.

Walter Calixto Ferreira nasceu em 1924 na cidade de Rio Grande. Com menos de 1 ano de idade, foi morar em Porto Alegre, justamente na região da ilhota.

Se você, assim como eu, conheceu uma Porto Alegre já aterrada, saiba que não foi sempre assim. Nas áreas centrais, havia diversos banhados, e o Arroio Dilúvio, que na época era um grande rio, separava os habitantes.

A memória de mestre Borel revela uma cidade na qual diversos arroios construíam arquipélagos e banhados. Nesses locais – dentre eles a Ilhota – moravam os negros de Porto Alegre.

Enquanto Borel fazia suas andanças, tendo morado no Rio de Janeiro durante alguns anos, Porto Alegre aterrava estas regiões centrais. Os negros, que residiam nestas áreas, foram removidos para o bairro Restinga.

Não por acaso, quando volta para Porto Alegre nos anos 1980, o mestre vai morar na Restinga. Lá, encontra diversos familiares e conhecidos da Ilhota, do Areal da Baronesa, da antiga Cidade Baixa.

Assim, fica perfeitamente exemplificado o processo racista e de gentrificação que removeu a população negra dos bairros centrais, como a Ilhota, e os colocou na Restinga, há mais de 20 quilômetros do centro da cidade.

Além de retratar este “embranquecimento” das áreas centrais da cidade, o documentário mostra as práticas religiosas afro-riograndenses. E neste âmbito, Borel é simplesmente mestre!

Não me considero um especialista em culturas de matriz africana, mas pelo pouco que sei, estas culturas valorizam as origens. Tanto que, neste contexto, é comum usar o termo “raiz” como adjetivo positivo. Por exemplo, um reggae raiz, um samba de raiz.

Como mostra o documentário, a avó de Borel veio da Nigéria e era Yoruba. Assim, a família manteve viva a religião dos Orixás, que sempre fez parte de sua tradição.

Mas não foi “somente” isso que lhe rendeu o título de mestre. O filme resgata muito bem a dedicação de Borel, que passou boa parte da sua vida fortalecendo a religião.

Esta dedicação se evidencia também nas cenas em que o mestre toca tambor. Tendo tocado desde a infância, Borel desenvolveu um método de usar as pontas dos dedos de uma mão- numa carícia suave- que constrói um som único.

O canto em Yoruba e os trajes religiosos também são maravilhosos. É claro que não são meramente estéticos; possuem significados dentro da prática afro religiosa. Mas, quem não participa destas religiões, e aqui me insiro novamente, pode simplesmente se deixar maravilhar com as cenas em que Borel toca seu tambor e canta para os Orixás.

Assim, o documentário é lindo e também tem potencial de alimentar muitas reflexões. Quem participa de religiões de matriz africana certamente vai aprender e se identificar mais, porém os leigos também podem pensar diversas questões.

O retrato das mudanças na cidade é incrível, pois não é um relatório frio e só com informações. Pelo contrário, é um testemunho de quem viveu a situação muito bem ilustrado com imagens antigas da cidade.

 

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário
Temática Social: religiões de matriz africana.
Público-alvo: Livre para todos os públicos.
Roteiro: 
Segue a linha do tempo da vida de Borel. Há algumas idas e voltas- a narrativa começa em Porto Alegre, depois vai para o Rio de Janeiro e depois volta para Porto Alegre- mas que seguem a trajetória pessoal do mestre e são bem costuradas.
Dramaturgia: 
Relatos orais, cenas antigas, imagens de rituais religiosos, planos em que o mestre toca tambor e canta sozinho. Todos estes elementos e alguns outros dão o sabor de africanidade imprescindível a um filme como este.
Aprofundamento da Questão Social: 
Apesar de mostrar a remoção dos negros das zona centrais de Porto Alegre, o foco do filme é a vida do mestre e sua prática religiosa. Justamente por isso, a questão social não é tão aprofundada. Mesmo assim é bem interessante para se iniciar uma reflexão ou discussão em grupo.

Por Bruno Pedrotti

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

Sublime em Porto Alegre

Era quinta feira, dia 13  de setembro de 2018. O Opinião estava lotado de gente diversa, que misturava fãs de rock e de reggae. Todos olhavam ansiosamente para o palco, no qual um telão anunciava a atração da noite: Sublime with Rome, produzido pela Abstratti.

Pra quem não conhece, a banda vem da Califórnia e fez um grande sucesso nos anos 90 ao misturar punk, reggae e ska. Porém, pouco antes do lançamento do álbum “Sublime”, que tornou a banda mundialmente conhecida, o vocalista e guitarrista Bradley Nowell morreu de overdose de heroína. Em 2009 a banda se reuniu com o vocalista Rome Ramirez, originando o Sublime with Rome.

O show começou de forma simples e súbita: Rome surgiu no canto do palco e pegou o microfone. Gritos e aplausos tomaram o ambiente enquanto o telão subiu e revelou os outros integrantes da banda se preparando em seus instrumentos.

Eric Wilson, único membro da formação original do Sublime, testava o baixo enquanto fumava um cigarro. Tinha um jeito de quem está “cagando”, de alguém que já olhou a morte nos olhos tantas vezes que já não consegue fingir que se importa com as banalidades da vida.

Carlos Verdugo comandava a bateria. Sem camisa e exibindo uma infinidade de tatuagens, o jovem punk completava o trio que assumia o palco. Contou o tempo freneticamente e o som começou.

O hardcore californiano abriu o show e dominou a sonoridade. A banda tocou clássicos do início da carreira – como Wrong Way e Santeria – e também músicas mais recentes, como Panic, e buscou mesclar punk, reggae e ska.

Mas o punk se sobressaiu bastante. Nas músicas que deveriam ser somente reggae – como o cover de Legalize-it -, a bateria soava quadrada e com pouco swing. Bumbos repicados em excesso também quebraram um pouco a atmosfera dos reggaes.

Por outro lado, o ritmo do show foi bem interessante. A alternância ajudou a manter o clima sempre novo e cativante. A sensação era de uma viagem de skunk californiano, que às vezes embalava suave ou assumia tons frenéticos de ansiedade e paranóia.

Vale parabenizar a banda, que passou de reggaes lentos até skapunks alucinantes numa fração de segundo, de forma sincronizada e bem ensaida.

A interação de palco também foi um ponto a se destacar. Rome, cheio de entusiasmo, instigava a galera a cantar e participar. Em um momento, vendo que grande parte do público registrava o show com o celular, desceu do palco e tirou selfies com os fãs.

Infelizmente, não houve shows de abertura. Não sei se foi uma escolha da produção para que o show acabasse mais cedo ou uma exigência da banda principal, mas o certo é que bandas locais – como ButiaDub e Afroentes, que fazem reggaes autorais de altíssima qualidade – não tiveram a chance de mostrar seu trabalho ao grande público do Opinião.

Enfim, a noite foi  legal;  deu pra curtir, bater cabeça e viajar um pouco…

Sublime with Rome Porto Alegre (2018)

*fotos de Billy Valdez