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MAIS QUE UM JOGO – Quilombo Lemos Resiste!

Faixa no estádio Beira Rio em solidariedade ao Quilombo Lemos

Quando a Frente Inter Antifascista foi formada, os objetivos principais eram, além de lutar por um ambiente sem preconceitos nas arquibancadas e contra a elitização do nosso Clube, estar ao lado da Classe trabalhadora e ao lado do nosso Povo contra as injustiças e opressões. Nesse ano que passou tivemos a oportunidade de avançar na nossa organização e influenciar algumas mudanças no Beira Rio. Participamos ativamente das marchas do #EleNão e com isso conseguimos envolver uma parte de nossa torcida nessa luta contra o fascismo, tão identificado na figura do capetão presidento.

Há alguns dias, houve um episódio que nos trouxe a uma nova mobilização: o ataque ao Quilombo dos Lemos, situado em um terreno atrás do Asilo Padre Cacique, vizinho do Beira Rio. As motivações para que a Diretoria do Asilo lute para retirar a família que ali está morando há décadas, que teve em sua matriarca e em seu patriarca trabalho de quase uma vida junto à Instituição, são difusas. Incluindo a sanha das grandes incorporadoras imobiliárias que enxergam nessa região uma mina de ouro. O que não é difuso é o discurso racista do Diretor do Asilo e nem a maneira truculenta e fora da lei com que os agentes do Estado invadiram e intimidaram os Quilombolas, já com titulação de reconhecimento bem encaminhada à Fundação Palmares.

Todo o envolvimento de lutadores sociais, movimento negro, apoiadores resultou numa vitória importante: a questão judicial foi levada para o âmbito federal, onde devem ser julgados esses casos envolvendo Quilombos em processo de reconhecimento. É vitória momentânea, mas deve ser comemorada e servir de incentivo para casos semelhantes.

Esse caso nos mobilizou como Frente. Houve solidariedade e luta em conjunto. Integrante fazendo vigília, doação de alimentos, apoio na comunicação, visibilidade através das redes sociais e, principalmente, estar juntos desse povo! Para nós,

O feito mais importante se deu no jogo contra o América Mineiro, quando levamos, junto com moradores do Quilombo, uma faixa alusiva à resistência da família Lemos. Para quem é da arquibancada, isso é sempre muito significativo. Além disso, marcar de vez a importância do futebol como espaço de lutas sociais. As Frentes Antifascistas formadas pelas torcidas de todo o Brasil tem um papel estratégico fundamental na resistência contra a opressão não só nos estádios mas também na sociedade como um todo. Ali, ao lado do Beira Rio, é nosso dever estar presente nessa luta. Temos de pensar nessa territorialidade que marca também a nossa cultura de torcedores e incorporar esse conceito às lutas sociais nos nossos bairros.

Frente Inter Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

Pelotas, a cidade do Tambor de Sopapo

Quando o Heavy Hour estreia nas ondas da RádioCom, 104.5 FM de Pelotas – ouça aqui! -, na mesma semana, a prefeitura da cidade a decreta Cidade do Tambor de Sopapo.

Parabéns aos mestres Giba Giba e Baptista! Parabéns a suas famílias e amigos, a tantos outros dessa história contada aqui, no filme O Grande Tambor:

Sabe-se que é um ato político, mas se soma ao de 2013, que instituiu a Medalha do Mérito Mestre Batista – clique aqui para ver o decreto.

Soma-se a tantas outras iniciativas que existem desde já praticamente uma década – e mais! E se está enxergando um ressurgimento, quem sabe uma redenção.

Que a história e o trabalho de todos siga neste passo, nesta batida!

20 de novembro: o que pensaria Zumbi do presidente Bolso

Por Jacques Alfonsin (originalmente publicado no Blog Direito Social, aqui)

Em 20 de novembro se recorda em todo o Brasil – algumas cidades até como feriado – o assassinato do negro Zumbi, líder do quilombo de Palmares, situado na Serra da Barriga, Estado de Alagoas, no dia 20 de novembro de 1695. Ali vivia multidão de negras/os fugidas/os da escravidão, numa época em que essa condição de vida e sujeição, para a população negra, recebia apoio da própria lei.

Na linguagem africana ioruba, quilombo significa habitação (!), como adverte um opúsculo da Cehila, “A historia dos africanos na América Latina”, publicado pela Vozes em 1988. Desde a escravidão, portanto, a liberdade dos negros simplesmente para exercerem o direito de livremente morar em uma casa, já contava com a oposição branca, a mesma publicação concluindo com amargura: “Até hoje os bairros populares das grandes cidades latino-americanas mantêm essa função de proteger os que são perseguidos pelas leis dos brancos senhores.”

Não se tem como deixar – se de identificar a multidão negra e pobre das favelas de hoje nesta conclusão, vítimas das ações judiciais possessórias de expulsão e repressão.

É o que surpreende em algumas opiniões do novo presidente do Brasil sobre as/os quilombolas, reiteradas desde que exercia o seu mandato de deputado e mesmo depois, já em campanha eleitoral. De tão grosseiras e debochadas, já levaram-no a uma condenação por danos morais à comunidade quilombola e negras/os, como a rede TVT vem mostrando por meio do You tube, desde 3 outubro de 2017.

Ele foi absolvido da acusação de racismo, posteriormente, por um recurso ajuizado pela sua defesa. O site da revista Exame, porém, em publicação datada de 13 de julho deste ano de 2018, repete algumas das afirmações feitas pelo agora presidente do Brasil:

“Eu fui em um quilombo em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”, afirmou o deputado. Bolsonaro disse ainda que os quilombolas da comunidade “não fazem nada” e “nem para procriador eles servem mais”.

Como o novo presidente costuma incentivar também o uso das armas, seu nome se presta para uma comparação, diante desses acréscimos notoriamente incompatíveis com a condução política do Poder Executivo do país para o qual foi eleito. Bolso é uma utilidade do nosso vestuário próprio para cada pessoa levar consigo qualquer coisa que se considere necessária para ser usada em tempo e lugar onde a gente se encontre. No caso do presidente, a arma parece ser de primeira necessidade e, pela sugestão do gesto que ele sempre faz abrindo a mão com os dedos polegar e indicador em riste, apontando para qualquer direção, ela deve ficar bem a essa mão de ser usada. Mesmo por pequena e disfarçada que possa ficar num bolso.

O Brasil vai ser presidido, portanto, por um bolso de políticas públicas que, até agora, já tomou posição bem visível e perversa. Um branco, como é o nosso caso, quase certamente não tem como refletir fielmente o que um negro libertário como Zumbi, se vivo fosse, hoje honrado como herói, pensaria do presidente Bolso, que leva no bolso da sua alma sentimentos tão baixos, preconceituosos, próprios de uma desumanidade orgulhosa de torna-los públicos, hostilizando, ofendendo e humilhando uma população inteira de gente pobre e negra.

Tudo faz crer que os bolsos armados e cheios de ódio da bancada ruralista contra indígenas e quilombolas, vão ficar muito mais cheios de dinheiro, assim como os das transnacionais que vendem os venenos da terra e da gente da terra, esbulham áreas indígenas e quilombolas, avançam sobre o que ainda nos resta de espaços físicos de liberdade desse povo pobre, tudo quanto ainda abriga a água pura dos nossos aquíferos. O muito que o nosso Código Florestal já concedeu, também, para a dizimação das nossas florestas vai seguir o mesmo destino.

Essa munição antipopular tem poder explosivo severamente oposto aos direitos sociais e ambientais, prevenindo que vai ser carregada no bolso das políticas públicas que vêm por aí. Todo o acervo legal, arduamente conquistado no passado em defesa dos direitos do povo quilombola e indígena do Brasil, se não for revogado por futuros projetos do presidente Bolso, encaminhados a um Congresso servil, vai ser muito bem vigiado e guardado em outro bolso: o do poder político-jurídico do Judiciário. Essa possibilidade está prevista pela escolha de um juiz para o Ministério da Justiça.

À vista do deboche que o presidente Bolso faz das/os quilombolas, esse povo que se prepare para resistir, como Zumbi resistiu. Os novos quilombos onde vive hoje certamente não vão contar com qualquer apoio de quem foi eleito para – aí a hipocrisia dessa falsa democracia que nos é impingida – defender os seus direitos sociais, entre eles, exatamente o do quilombo-habitação.

Pode servir-lhes de balisa para sua rebeldia cidadã aquela sempre lembrada advertência de Marilena Chauí sobre como se deve enfrentar a acusação que pesa sobre o povo pobre de ser ele mesmo o responsável pelas sucessivas “crises” sob as quais o país vive periodicamente. Do jeito mesmo que o poder econômico-político do tempo de Zumbi, diferenças de tempo e lugar a parte evidentemente, fez com ele e seus seguidores :

“Uma crise nunca é entendida como resultado de contradições latentes que se tornam manifestas pelo processo histórico e que precisam ser trabalhadas social e politicamente. A crise é sempre convertida no fantasma da crise (grifos da autora), irrupção inexplicável e repentina da irracionalidade, ameaçando a ordem social e política. Caos. Perigo. Contra a “irracionalidade”, a classe dominante apela para técnicas racionalizadoras (a célebre modernização”), as tecnologias parecendo dotadas de fantástico poder reordenador e racionalizador. Contra o “perigo”, representado sempre pela manifestação explícita das classes populares, os dominantes partem em busca dos agentes “responsáveis pela subversão”, isto é, iniciam a caça às bruxas que ameaçam a “paz nacional” e a “união da família brasileira”. Finalmente, contra o “caos”, a classe dominante invoca a necessidade de “salvação nacional”. A “união da família brasileira” (isto é, um elemento de espaço privado definido como elemento central do espaço público) e a “salvação nacional” conduzem, via de regra, à “pacificação nacional”, isto é, aos golpes de Estado e às ditaduras (velhas ou “novas”). Numa palavra, a preservação do que poderia ser público e contraditório se faz negativamente por redução ao privado (a “família brasileira”) e à indivisão (a “pacificação nacional”). Como se observa, o autoritarismo político se organiza no interior da sociedade e através da ideologia; não é exceção nem é mero regime governamental, mas a regra e expressão das relações sociais”. (“Conformismo e resistência. Aspectos da cultura popular no Brasil”, Brasiliense: 1986, p. 60/61)

A consciência negra dos seguidores de Zumbi sabem disso. Não esconderá no bolso, como faz o presidente Bolso, qualquer conformismo com a sua estratégia de administração pública, fielmente retratada nesse aviso antecipado de Chauí. Ética, jurídica e politicamente, vai se inspirar na resistência daquele negro herói, vai ser digna do sangue que ele derramou generosamente em defesa de seu povo, não permitindo confundir-se a liberdade como um favor ou licença de branco.

MAIS QUE UM JOGO – Os ataques racistas contra Fabiano Baldasso

Em tempo de disseminação de notícias e boatos através das redes sociais, recebemos fotos do CTG Sentinelas do Pago, na cidade de Marau, que no último dia 16 recebeu um evento consular do Internacional com a presença do comunicador Fernando Baldasso.

Muito embora consideremos o que o Baldasso faz há anos peça de propaganda através de polêmicas de baixa qualidade, e portanto passe longe de jornalismo, repudiamos veementemente este ataque a sua figura no sintomático xingamento “Macaco Puto” que consegue tristemente a façanha de ser uma ofensa racista e homofóbica ao mesmo tempo.

Não importa a lenda, estória ou origem mítica que de algum modo faria com que chamar de “macaco” os torcedores e torcedoras do nosso rival Internacional (que “magicamente” neste caso em especial) não teria conotação racista porque em qualquer lugar do mundo, chamar alguém de “macaco” é e sempre será racismo.

Infelizmente, temos que reafirmar o óbvio um milhão de vezes: macaco é um xingamento racista, não importa a desculpa ou voltas que se dê para tentar legitimar o termo.

Assim como “puto” não é folclore do futebol, mas reafirmação da homofobia arraigada em nossas sociedades e em nossas cabeças.

Após o ato de vandalismo, os responsáveis pelo evento colorado cobriram as mensagens com bandeiras do clube. O caso foi registrado na Delegacia de Pronto Atendimento que investigará o caso. O Consulado do Grêmio em Marau emitiu nota de repúdio e classificou a atitude como não representativa do torcedor tricolor, que “preza pelo respeito acima de qualquer rivalidade”, além de colocar-se a disposição para prestar esclarecimentos.

Lamentamos o episódio porque amar o Grêmio passa longe de ser racista e homofóbico – mesmo que porventura isso se dê de modo inconsciente. Somos o clube de Lupicínio Rodrigues, Everaldo e da Coligay.

Respeitem nossa história, o Grêmio é do povo e o povo é diversidade.

Movimento Grêmio Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

Audiovisual para transformar – Parte 2 – nos bastidores do documentário Cores ao Vento, navegando junto pela arte de Silvio Rebello

Num segundo módulo de oficina em Tapes, propusemos a produção de um documentário sobre a obra de Silvio Rebello. Uma realização Prefeitura e Secretaria de Educação e Cultura de Tapes, numa coprodução Coletivo Catarse, Clube da Sombra e Lagoa TV.
Silvio Rebello foi um artista plástico Tapense. Escultor, pintor, trabalhava com fotografia, projeção de imagens. O talento dele parecia não caber na cidade e, de fato, não coube. Tem obras dele espalhadas Brasil afora e em acervos de pessoas e artistas reconhecidos daqui também. Viveu na Bahia por algum tempo o que influenciou muito sua obra, inclusive trazendo motivos africanos e imagens ligadas aos orixás. Era uma pessoa que enxergava longe mas que estava muito perto de todos por ser extremamente humilde e simples. Parte da população desta pequena cidade não conhece o artista e sua obra, porém quem conhece o admira e ainda se transforma com o legado que deixou.

Assista ao documentário: Cores ao Vento – Navegando pela obra de Silvio Rebello

Como trouxe no outro relato, Tapes já foi, em algum tempo passado recente, uma rota artística bem frequentada por artistas plásticos, músicos, escritores. Em nossas investigações pela cidade, existe uma preocupação muito grande que esse resquício de memória desapareça. Silvio Rebello nos pareceu um registro muito significativo para dar início a salvaguarda dessa história.
A proposta era desenvolver um documentário curta-metragem sobre a obra de Silvio Rebello e um making of do filme. Parte do documentário e o making of realizamos através do segundo módulo da oficina de produção audiovisual, para que os jovens que participaram do primeiro módulo pudessem ter contato com uma produção audiovisual mais elaborada, que trouxesse um conteúdo artístico e se prestasse a ser mais livre e menos encaixotada aos padrões de documentário convencional.

A questão da falta de referências é muito forte nesses jovens. Ter acesso a internet não significa ter acesso a diversidade de conteúdos. Tivemos que, nos poucos dias disponíveis, desconstruir conceitos e enquadramentos, repensando a maneira que enxergamos e reproduzimos o entorno. Para poder filmar, primeiro observamos e isso por si só, já modifica. “Quando o cara não faz muita coisa ligado a cultura, o cara não dá bola. Quando o cara comeca a se ligar no audiovisual, hip hop…qualquer coisa que o cara começa a fazer, ligado a arte, o cara começa a dar valor a qualquer arte em si”, reflete João. Esse me pareceu o depoimento central da experiência desses jovens a partir das oficinas de audiovisual e de tantas outras que tem acontecido na cidade. O empoderamento é visível e a vontade de continuar produzindo também.

Todo o trabalho que fizemos em Tapes visava a autonomia criativa e produtiva dos envolvidos, mas me parece que o grande desafio desses jovens é como, sem o auxílio do poder público ou de terceiros, conseguir se mobilizar para realizar. Como entender que essa continuidade depende (também e principalmente) deles?

Penso que um bom início é rever o que eles fizeram  e acreditar que seja possível isso se repetir com ou sem ajuda. Hoje eles tem acesso fácil a ferramentas audiovisuais, as dominam inclusive, nasceram dentro de uma época em que essa linguagem é a principal, ou seja, eles tem tudo para serem protagonistas de suas próprias histórias, fictícias ou documentais, o que resta é uma questão de autoestima e isso, para mim, significa praticar, praticar, praticar….

Assista ao making of: Bastidores de um Documentário – Navegando Junto pela Obra de Silvio Rebello