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Atlanta: this is America (1a temporada)

*pode conter spoilers

Uma obra de arte do artista Donald Glover (ator de seriado, de cinema pipoca, músico/rapper, produtor, diretor, criador). Atlanta é um caminhar naturalista no dia a dia de um rapaz que se torna produtor de seu primo, Paper Boi, um gangsta rapper, na periferia de uma grande cidade do sul dos Estados Unidos. A este ponto, cabe-se ressaltar que os personagens principais são negros, e o significado de a história acontecer no estado da Georgia não é ao acaso – ali, ao lado de Mississipi e Alabama, a sessessão se fez presente, e com vizinhança também das Carolinas do Norte e do Sul, faz-se um cinturão de alta densidade de populações negras, separando a branca e ensolarada Florida – do paraíso Miami -, do resto do país.

Com a primeira temporada disponível no catálogo Netflix, a cada episódio você vai se emaranhar em situações corriqueiras, mas muito bem contadas e que desenham uma metáfora satírica profunda sobre as raízes e naturalizações do racismo – e também, muito forte, do machismo – na sociedade estadunidense, que, se pode dizer, sim, reflete-se na nossa vida tupiniquim, visto que morais e costumes de lá são dissemidados pela cultura de massa aqui, muito bem programados.

Destaque para dois episódios, um em que o rapper está em um programa de televisão – o episódio inteiro é como se fosse o próprio programa -, numa mesa de debates, participando ao lado de uma personagem tipo psicóloga feminista (uma caricatura), ao mesmo tempo em que é confrontado pelas suas posições misóginas, eles são brindados com um caso de um rapaz negro que alega ser um homem branco nascido em um corpo de homem negro e que estava preparando sua transição. O episódio tem um final fantástico, flutuando entre a sátira crua e o sarcasmo narrativo.

O outro episódio, muito profundo, é o penúltimo dessa temporada (a segunda já rodou inteira nos EUA), quando o casal protagonista vai a um encontro comemorativo da abolição da escravatura no Texas (pra quem não conhece muito a história e cultura estadunidenses, o Texas é como se fosse o Rio Grande do Sul junto a Santa Catarina e Paraná, terra de agropecuaristas/ruralistas brancos, onde o racismo sempre foi muito evidente – e segue sendo praticamente uma instituição). O local é uma mansão aristocrática, onde moram o ricaço branco, doctor antropólogo da questão negra, fã invariável, e sua mulher…negra. Ali vão se expressar cenas das mais constrangedoras possíveis, que sedimentam a temática de todo o seriado e sublinham e atestam: quem assistir a Atlanta, de cabo a rabo, vai estar recebendo um inteligentíssimo compêndio crítico da luta de classes, do racismo e do machismo.

Segue o que eu considero um teaser hardcore do seriado Atlanta (apesar de nada a ver com a produção, mas metaforicamente falando), o clipe This is America, do rapper Childish Gambino a.k.a. Donald Glover:

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: comédia sarcástica
Temática Social: luta de classes, racismo e machismo
Público-alvo: pessoas que entendem linguagem de entrelinhas (metalinguagem) e estão por dentro do conflito étnico-social da atualidade em sociedades racistas e misóginas como as de cunho judaico-cristão, há também muitas referências à própria cultura estadunidense, então, quem conhece as peças de cultura de massa ianque acaba aproveitando um pouco mais, pessoas estudiosas do movimento hip hop, que foram na sua historicidade, da raiz ao rap ostentação, também vão curtir bastante
Roteiro: 
(simplesmente perfeito, constrói uma realidade que mescla o realismo, de personagens e situações verossímeis, com momentos e personagens hilários – em determinado momento aparece Justin Bieber…negro! Não é UM Justin Bieber, é O Justin Bieber e, ali, no universo de Atlanta, ele é um jovem negro)
Dramaturgia: 
(atuações, locações, situações, construções fílmicas incríveis)
Aprofundamento da Questão Social: 
(naquilo que se propõe, na delimitação da sua temática, perfeito, desde em expressões em discurso direto até mesmo na sutileza de algumas relações, muito inteligente mesmo)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

 

Filmografia Social – The Handmaid’s Tale: um conto fascista

*pode conter spoilers

Todos os textos que acabei lendo sobre o seriado The Handmaid’s Tale acabam usando o termo “distopia”. Usa-se esta palavra para se associar à ideia contrária a uma utopia, para descrever que aquele universo retratado é um inferno, uma sociedade e um mundo em que não se quer viver. Mas durante um dos últimos episódios da segunda temporada, quando da epopeia do nascimento de mais um bebê – algo realmente importante na diegética da série -, sob a atonicidade que me colocava observando a jornada da mulher protagonista da série, eis que a epifania chega: esta série não retrata uma distopia, mas uma utopia – a utopia do fascismo judaico-cristão, que, hoje, poderia-se dizer, a utopia bolsonariana.

As regras e leis de Gilead – o nome da nova nação, uma ditadura teocrática (fascista), que se insurge de um Estados Unidos fraticionado – seguem à risca os ensinamentos bíblicos, mas à risca mesmo. E quem mais sofre com a nova e insurgente sociedade estamental posta são as mulheres e os chamados traidores de gênero – sim, gays, enforcadas(os) em praça pública. As mulheres ocupam setores-chave da sociedade, as que se vestem de azul, as esposas, cuidam da casa; as que vestem bege, as Marthas, ajudam as esposas a cuidar da casa, são as empregadas; as que vestem marrom, as Tias, ajudam as esposas a cuidar do lar, pois colocam as que vestem vermelho, as Handmaids, mulheres férteis, em suas casas, na feição para seus Commanders – “comandantes”, quem diria – inseminá-las em seções de estupro ritualísticos. Claro, para além dos rituais, os Commanders, homens heterossexuais, que controlam o “novo” Estado com braço forte sob a égide da lei bíblica, usam as Handmaids como bem entendem, nos seus covis de suas casas, longe dos olhos das esposas e outros membros da sociedade – oras, eles podem, né.

É o triunfo da família, tradição e propriedade. Por que os homens têm que criar novas leis se o perfeito regramento está escrito há milênios já – basta segui-lo. E é isso que os cidadãos de Gilead fazem de suas vidas. São enforcados porque gostam de pessoas do mesmo gênero, tomam tiro e coronhada porque desobedecem o espectro definido pela casta de cima, perdem dedos e olhos se são pegos lendo algum livro…

A visão de The Handmaid’s Tale é a materialização audiovisual do ideário pregado por bolsonaristas – é realmente incrível, como um quadro de Michelangelo. Mulheres subjugadas, sem serem donas de seu corpo ou vontades, submetidas às regras de homens heterossexuais, comandantes militarizados e religiosos, patriarcas da moral e costumes, garanhões responsáveis pela normalidade imposta. E gays? Enforcados. Só não é mais perfeito porque no seriado a questão da raça não parece ser preponderante, os seguidores de Bolsonaro e Janaína Paschoal fizeram este “upgrade” nas suas utopias…

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: drama e suspense
Temática social: direitos humanos, direitos da mulher
Público-alvo: principalmente mulheres acima dos 16 anos, mas pessoas que se interessam em discutir estratificação social de maneira aprofundada podem achar incrivelmente útil independentemente de gênero (se bem que é possível que, por uma certa ignorância sarcástica, pessoas de ideologia de direita, fundamentalistas, possam achar o máximo Gilead e isso diverti-los)
Roteiro: 
(por vezes, as narrativas são longas demais, arrastadas, e soluções muito fáceis são encontradas para temas complexos, várias vezes também é possível perceber as saídas comuns empregadas também em outros seriados do gênero, há o apego numa figura heróica, estilo Rocky Balboa, que apanha, apanha e apanha, mas sempre triunfa ao final)
Dramaturgia: 
(perfeita, cenários, figurinos e atuações destacadíssimas, construção de imaginário figurativo completo, usa cenas fortes sem medo de parecer apelativo, usa a ternura sem medo de parecer piegas, as cenas de estupro ritualístico são sensacionais)
Aprofundamento da Questão Social: 
(assista para entender o que pensam os ideólogos teocratas de direita e para construir de maneira clara a metáfora da família baseada no patriarcado, na cultura machista e homofóbica)

Por Gustavo Türck.

– para ver a página do seriado no IMDb (Internet Movie Database), com trailer, clique aqui
– The Handmaid’s Tale é um seriado de um serviço de streaming estilo Netflix, chamado Hulu, mas é veiculado no Brasil pelo canal pago HBO, sendo fácil de encontrar em serviços de torrent como o Popcorn-Time com legendas em português
Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

Carijo na UNIPAMPA: conhecimento camponês e indígena na fabricação artesanal de erva-mate

O curso de Licenciatura em Educação do Campo, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), campus Dom Pedrito, promoveu a ação de extensão “Carijo na Unipampa: conhecimento camponês e indígena na fabricação artesanal de erva-mate”. O evento ocorreu de 18 a 21 de julho, sendo aberto ao público, onde fizeram-se todas as etapas do processamento da erva-mate e exibiu-se o documentário “Carijo, o filme”, de autoria do Coletivo Catarse, sediado em Porto Alegre.

A erva-mate foi buscada na cidade de Segredo, na região central do Estado do RS, a 400km de distância de Dom Pedrito, pois na região do pampa não se encontra a erva-mate nativa, tampouco cultivada. A cidade de Segredo chama mais atenção, pois lá acontecem todos os anos uma festa das sementes crioulas.

Conforme os coordenadores da ação, a professora Denise da Silva e o professor Moisés da Luz, a atividade objetivou resgatar e valorizar o conhecimento camponês e indígena tendo como prática ancestral e atual a fabricação artesanal de erva-mate, uma planta sagrada para os Guarani e matéria-prima. Esta prática detém uma gama de conhecimentos, de saber-fazer e de cosmovisões, concernentes a diversas dimensões do currículo da Educação do Campo, como cultura, ecologia, manejo agroecológico, agroflorestas, história, trabalho, autonomia, antropologia, sociologia, desenvolvimento rural, entre outros.

O evento teve visitação de professores e estudantes de escolas, da comunidade externa em geral e fez parte das aulas do curso de Educação do Campo. Depois de chegar a erva em Dom Pedrito, as atividades foram realizadas em mutirão, fazendo-se o sapeco, a secagem no carijo, o cancheamento e o soque. Devido a uma chuva na sexta-feira, a erva passou por dois momentos de secagem, um antes e outro após a chuva, por isso foram duas noites madrugando para fazer a secagem, resultando em uma erva especial e uma das melhores já fabricadas pela orientação do professor Moisés da Luz. “Aprendendo a fazer a própria erva-mate, carregada de história e cultura, o chimarrão degustado terá novos e ancestrais sentidos na formação educacional e cidadã”, concluem os professores.

*enviado por Moisés da Luz

– notícia no site Folha da Cidade, de Dom Pedrito, clique aqui
– notícia no site da Unipampa, clique aqui

Filmografia Social – Nanette: “Vou abandonar a comédia…”

*pode conter spoilers

A comédia stand up tem um histórico controverso. Não necessariamente de gostos – que, neste caso, nunca caiu muito bem para a plateia brasileira, tendo se difundido aqui principalmente em apresentações de “atores” de ideologia direitista cheias de preconceitos e agressões gratuitas, em nada se aproximando da perspicácia de uma ironia ou sarcasmo bem colocados. Este é um gênero que foi – e segue sendo – muito bem usado por negros estadunidenses que se utilizavam do poder do discurso e da retórica para jogar à sociedade ferozmente seus costumes e indignações mascaradas na sátira da crítica ao comportamento branco, médio. Aliás, mesmo tomando características de diversidade, sempre tem a aparência de um palco de catarses acerca dos comportamentos de vida de seus autores – o racismo, o machismo, o feminismo, as questões LGBT, as questões da gravidez, suicídio… Dá para se achar de tudo um pouco nos dias hoje. Mas é inegável a importância do papel histórico contemporâneo de resistência cultural da comédia stand up, de combate ao instituído no canhão da indústria cultural massiva que é os Estados Unidos.

Todo este raciocínio para ensejar o estímulo a se assistir uma obra de uma comediante…australiana.

Disponível no catálogo Netflix, de título Nanette, de autoria de Hannah Gadsby, ela produziu algo que literalmente pode se chamar de um “soco no estômago”. Um desafio à homofobia, à misoginia, ao feminismo – a sentimentos mais profundos que se possa imaginar que se tenha. Hannah construiu um roteiro lógico de apresentação que leva lentamente uma plateia a perceber que a sátira é muito mais forte do que parece, constrói em 60 minutos uma narrativa que envolve quem a assiste e faz você perceber que se está em algo sério “tarde demais” – uma armadilha, muitos poderiam classificar.

Assistir a essa peça é estimular a crítica à construção cultural homofóbica de matriz judaico-cristã, branca e de patriarcado. E não no macro, mas no micro. Hannah fala de sua vida pessoal – um clichê do stand up commedy -, conta situações muito particulares e leva a todos a sentirem a sua dor com singelos toques de ironia e risadas. Muito inteligente, muito profundo, muito sensível. Não apela nem mesmo agride – até mesmo a nós, homens brancos heterossexuais.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: comédia stand up
Temática social: questão LGBT
Público-alvo: todos os espectros acima de 16 anos, sendo um desafio a homofóbicos masculinos e femininos
Roteiro: 
(perfeito, recebe avaliação máxima porque surpreende em um gênero que se sustenta na sequência de clichês)
Dramaturgia: 
(muito difícil avaliar um stand up commedy, apesar de que o cenário é lindo na sua simplicidade, e Hannah “atua” muito bem migrando da comédia para o drama e apimentando com indignação sua apresentação)
Aprofundamento da Questão Social: 
(traz causa, consequência e perspectiva de como superar suas questões)

Por Gustavo Türck.

– o autor desta resenha foi estimulado por uma resenha de Tiago Barbosa, postada originalmente no site Diário do Centro do Mundo (aqui)
Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras