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Filmografia Social: LA 92, a cronologia do racismo contemporâneo

Este é um filme que DEVE ser assitido por todos. É uma história a ser contada a explicar as revoltas de 1992, que tomaram conta de Los Angeles, após a absolvição de 5 policiais que espancaram quase até a morte o cidadão Rodney King.

King é negro. A ação dos racistas foi totalmente filmada, uma sessão brutal contra uma pessoa indefesa e já rendida, que jamais ameaçou – impossível que não fossem condenados e presos, só que não. Estamos falando de policiais brancos contra uma pessoa negra. A lógica (até hoje) é a de que nada aconteça, afinal, o sistema é feito para proteger os brancos da ameaça negra. Mas de tão absurda que foi a decisão da justiça estadunidense, de tão evidente que a situação se punha pelo vídeo apresentado, tal escracho de realidade tomou por revolta uma população inteira. E eles foram às ruas e fizeram o que podiam naquele momento – finalmente se tornaram a ameaça negra.

Mas o filme é mais completo do que simplesmente o relato de 1992. Ele volta no tempo e paraleliza outras situações evidentes de racismo institucional ocorrendo nos Estados Unidos desde a metade do século XX. Constroi um caminho lógico – e óbvio – da fabricação desses conceitos e caminhos que acabam por explodir naquele ano. E você vai ficar refletindo, pensando em como as coisas incrivelmente se repetem e não modificam em um espaço de quase 100 anos, tentando imaginar, enfim, quando estourará a nova bomba desse tipo de conflito.

Por que insistir em trazer essas histórias dos Estados Unidos? Porque é imprescindível entender que no Brasil é EXATAMENTE a mesma coisa. Hoje, há um personagem perigoso, que representa uma mentalidade, prestes a assumir o controle do país – vencendo a eleição ou não. Os atos de racismo se espalham pelo país, e o sistema de justiça é incapaz de frear este nonsense, fazendo, inclusive, parte da tragédia – o branco STF inocenta o personagem de virar réu em caso evidente de racismo, uma juíza manda algemar uma advogada negra em pleno exercício de sua profissão, juíza inocenta e elogia o trabalho de 3 policiais que assassinaram uma criança negra de 11 anos… E os exemplos reais não vão cessar.

Lá, Donald Trump é este personagem. Os movimentos que vieram junto a ele são os mesmos daqui. A construção educativa e sociocultural do Brasil é a mesma implementada nos states, apenas com algumas décadas de diferença. E ISSO NÃO É OBRA DO ACASO.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário
Temática Social: racismo
Público-alvo: TODO MUNDO acima dos 10 anos
Roteiro: 
(modelo clássico de documentário estadunidense, poderia ser cansativo, mas a sequência e costura dos fatos é muito bem realizada, a ponto de você ouvir no início uma narrativa imaginando ser de 1992 até se revelar que era na realidade os anos 1960)
Dramaturgia: 
(cenas fortes, cenas antigas, texturas de televisão em preto e branco e colorido esmaecido, que configuram uma linha dramatúrgica que dá sentido ao que se objetiva)
Aprofundamento da Questão Social: 
(dá para entender bem onde se promove e se constroi o racismo institucional, que segura numa escravocracia evidente toda uma população)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

 

Filmografia Social – Big Mouth

Todas mães e pais presentes nas vidas de seus filhos vão passar por alguns momentos íntimos no mínimo interessantes. Lembrando inversamente, quando passamos por algumas fases, lá na nossa juventude de descobertas, há um período em que as coisas eram controladas por constrangimentos – estes, dogmatizados em fundamentalismos religiosos e de moral (de cuecas), tomavam características punitivas e faziam que uma fase como a entrada na adolescência pudesse se tornar um verdadeiro inferno.

E a sexualidade segue sendo um tabu. No momento em que o Brasil está, talvez a tendência seja piorar e muito para um bom grupo da população, porque a polarização política de momento está mostrando bem claramente que pelo menos uns 20% de pessoas não quer nem saber de discutir diversidade, opções, desejos e afins com crianças que precisam entender o mundo em que se está entrando. Não, preferem que se dê a eles um manual de bons costumes escrito há milênios, em contexto completamente abjeto e nem um pouco semelhante ao que estamos, quiçá até mesmo ficcional, e que se virem com os verbetes de certo e errado e que sejam punidos se cometerem deslizes. A isso se chama castração.

Big Mouth, disponível no catálogo Netflix, entra aqui como uma luva. Não há como não se identificar com a obra. Um desenho que segue um grupo de jovens entrando em fase de puberdade – apresentando dois demônios (masculino e feminino) que não estimulam os pequenos a fazer nada a não ser responderem a seus desejos e os deixam inclusive confusos -, é o tesão pelo tesão, não é uma questão de gênero. E os garotos e garotas vão descobrindo esta fase e se experimentando, sem pudores, cheios de dilemas comuns.

Quisera eu ter tido a oportunidade de assistir a esta série nos anos 1990…

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: comédia/animação
Temática Social: sexualidade, infância e adolescência
Público-alvo: por nostalgia e por momento, mães e pais com filhas e filhos em fase de crescimento, por óbvio, as filhas e filhos em fase de crescimento (dos 10 aos 15 anos)
Roteiro: 
(sagacidade, ironias e muito sarcasmo bem aplicados)
Dramaturgia: 
(animação simples, justificada e com uma interpretação de vozes de um grupo muito bom de comediantes estadunidenses)
Aprofundamento da Questão Social: 
(a sexualidade ser tratada na infância, em fase de puberdade, é extremamente importante, Big Mouth apresenta um discurso fácil de se entender e retira pesos de assuntos profundos, vai longe em alguns momentos, mas mostra também que às vezes as coisas podem se resolver de uma forma muito simples e que “monstros” nem sempre são monstruosos)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras