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Usuários do GAPA/RS lançam jornal sobre HIV/AIDS

O GAPA/RS – Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS do Rio Grande do Sul está lançando a primeira edição do jornal Mais Expressão de Vida. Escrito por pessoas que vivem e convivem com HIV/AIDS, o principal objetivo do projeto é ampliar a informação sobre o tema e sensibilizar as pessoas atingidas pela epidemia da AIDS para a adoção de atitudes positivas. Mas também estimular o protagonismo dos usuários da ONG, qualificando-os para atuarem como multiplicadores de hábitos, informações e atitudes relativas à epidemia, tornando-os sujeitos ativos na luta por direitos e construção da cidadania.

Catarse promove oficinas de comunicação
Em encontros semanais, o grupo recebe orientação de jornalistas da Catarse sobre produção de textos e fotos, debate sobre assuntos relacionados ao HIV/AIDS, escolhe as pautas e realiza entrevistas. O principal diferencial deste jornal é justamente ser escrito por quem conhece por dentro a realidade de viver e conviver com HIV/AIDS, e isso se expressa nos textos. Cada edição conta com um encarte especial produzido por populações específicas, falando sobre suas particularidades. Neste primeiro número foi abordada a situação das travestis.

A distribuição dos exemplares
O jornal é distribuído gratuitamente pelos próprios autores das matérias em locais onde a população busca informação ou atendimento para HIV/AIDS, como nas salas de espera nos Serviços de Saúde ou em outras ONGs.

A Catarse também é responsável pelo projeto gráfico, diagramação e edição do jornal.

Contatos para entrevistas e debates:
GAPA/RS – Fone: 3221.6363 – E-mail: gapars@terra.com.br
Coordenadora do projeto: Grazielly Giovelli
Assessoria de imprensa: Catarse – Coletivo de Comunicação
F: 3012.5509

Catarse finaliza reportagem cinematográfica sobre Sepé e a luta por terra pelos movimentos sociais


Kuaray do Sul é uma reportagem cinematográfica de 55 minutos produzida pela Catarse a partir da Assembléia Continental Guarani – 250 Anos de Sepé Tiaraju (http://www.projetosepetiaraju.org.br/), ocorrida em fevereiro de 2006 em São Gabriel/RS.

O audiovisual está pronto e deve ser lançado em breve. Foi contratado pela Via Campesina e teve financiamento da Fundep – Fundação de Desenvolvimento, Educação e Pesquisa da Região Celeiro.

Depoimento de líder kaiowá

A Catarse publica aqui trecho de uma fala da professora guerreira, índia da comunidade Kaiowá Guarani (MS), Léia, seu nome. Foi pronunciada durante os dias do encontro, que reuniu indígenas do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Numa das noites, ocorreu a exibição de um documentário (da equipe do Centro de Mídia Independente de Goiânia) sobre a expulsão dos kaiowás de Nhanderu Marangatu, sua terra ancestral, em operação da Polícia Federal, seguindo determinação do, então, ministro do Supremo Tribunal Federal, Nélson Jobim, de dezembro de 2005.

As cenas de violência e intimidação do poder de Estado impressionam. A força das imagens entristeciam, machucavam e atordoavam os pensamentos dos que tem ainda a sensibilidade de se perguntar como pode o branco não parar nunca de destruir a vida dos índios.

Léia foi convidada para comentar a situação no local, as repercussões da expulsão, com o assassinato de seu irmão de povoado, Dorvalino, após tomar 3 tiros de um segurança contratado pelo fazendeiro que tomou posse das terras. Dorvalino havia entrado na área que era de sua comunidade para colher mandioca, que ele próprio e seus irmãos haviam plantado para servir de alimento à comunidade. Algumas crianças, na beira da estrada há oito dias, estavam em processo de desnutrição.

E Léia falou:
– A gente já sabia que tudo isso ia acontecer. Y para isso não acontecer, a gente tentou sair pacificamente, por que se a gente resistisse, ali, dentro da nossa casa, dizendo que nós não íamos sair, que a gente ia permanecer, a gente ia perder muito mais pessoas. E para não perder nenhum pai, nenhuma mãe… Que as mulheres elas são muito mais corajosas, elas enfrentam os coisas mais de frente. Y quando vai falar ou se segura. Então tudo isso a gente pensou… y a gente pensou sair, assim, pacificamente. Mas mesmo assim a gente passou um sufoco, com a chegada da polícia, tudo. Y o que mais doeu com a gente, na comunidade inteira, foi o que aconteceu, com a morte do Dorvalino… Pra que a gente não perdesse… A gente não estava esperando mais, já eram mais de 8 dias que nós estávamos ali, no meio do caminho, ali, perto da rodovia, passando todos os problemas e as dificuldades… Y o sofrimento era incomparável. Y mesmo assim os fazendeiros não tiveram a tranqüilidade de ver a gente ali, com nosso sofrimento… Eles queriam ver mais sofrimento ainda na gente… Y mataram o Dorvalino ali, onde ele estava inseguro, né? – por que indefeso, ele não estava esperando esse tipo de coisa. Y acabaram matando ele ali, tirando a vida dele, assim, sem ele poder se defender. Então foi uma coisa assim que, como diz o Anastácio, cada um de nós está mesmo para morrer. Y a gente vai perdendo a nossa vida assim, lutando pela terra… Y como já estamos aqui também lembrando da morte do Sepé… Nós que somos liderança de coração, de sangue, de luta, que luta, realmente, para vencer e ver vitória futura, mesmo que não seja agora… Aqueles líderes que dizem: eu sou líder, eu vou lutar, chegarei até o fim. Y nós que pensamos na gente, de dizer, que se sentimos como liderança… Quero dizer para isso para todas as lideranças que se consideram líder indígena, aqui, agora, é… que sintam isso de coração, de lutar pelos interesses da sua comunidade, pelos interesses dos povos que você quer que sejam vitoriosos e não do seu interesse. Por que lutar por terra não é um interesse de um líder, mas interesse de comunidade, de um povo resistente que, até agora, mesmo a gente sabendo que morreram várias pessoas, vários líderes, como o Sepé… Talvez antes do Sepé houveram vários outros que morreram sempre na luta. Tivemos… Eu não sei se existe outros guarani que já morreram… Eu vou citar os nomes de líderes indígenas que já morreram na luta por interesse do povo e não pelo seu interesse. Como Marçal de Souza, que gritava e dizia: não somos animais, para vocês nos massacrarem e tirarem nossos direitos, queremos justiça. Naquela época o Marçal já gritava: queremos a justiça e até agora a gente não teve justiça. Com certeza, todos os líderes que já morreram gritaram à justiça, mas para nós, indígena, nunca tiveram justiça. Nunca. Até agora eu não vejo e não ouço dizer que existe justiça para as coisas que acontecem contra indígena. Nós já perdemos aqui, dos nossos guarani, vários líderes. As outras etnias também já perderam vários líderes, como o Xicão Xucurú y os outros. Y a gente tem que estar sempre firme. Eu não me sinto um líder, não posso dizer que eu sou um líder, mas eu quero ser. Y sinto que o povo precisa de cada um de nós que estamos aqui. Que o nosso povo precisa da gente. Se nós estamos dizendo, aqui agora, representando o povo guarani, temos que ser representante em tudo. Até mesmo lutando até a morte, como o Sepé, por que as pessoas que estão contra a gente não procuram aquelas pessoas que estão lá, na comunidade, procuram o líder. E para ser líder tem que ter coração. E se não tiver coração jamais será líder. Temos que ter coração. Yandé!

Em seguida, Léia continuou seu discurso, agora falando em guarani, por mais 25 min. Até agora, este branco que vos escreve não conseguiu traduzir a fala para português, não entende nada de guarani. Desculpas. Principalmente, à Léia.

As últimas informações que chegam de Nhanderu Marangatu dão conta de que no final de semana de 31 de março à 2 de abril, dois policiais foram mortos pelos índios kaiowás. Invadiram a acampamento improvisado de beira de estrada, dano tiros para o alto. Iriam investigar a denúncia de que integrantes desta etnia iniciaram um processo de ocupação em um terreno localizado em uma localidade conhecida como Porto Cambira. Outra versão diz que os policiais invadiram o acampamento na busca de um foragido da polícia, sem qualquer vínculo com os índios.

Reportagem publicada no Diário Vermelho diz: “é considerável o ambiente de revolta entre os guarani-kaiowá. Expulsos de suas terras, forçados a viver ao lado de um poço d’água contaminada, junto com os animais de propriedade do fazendeiro que cercou a região onde viviam seus ancestrais, há milênios, e diante da morte e da doença dos últimos remanescentes de uma nação, a figura da autoridade policial é hoje um estigma entre os moradores do acampamento”.

Seis kaiowás foram detidos. Existem outros índios foragidos. A comunidade em pânico. É a vida de bicho dos tristes Kaiowás.

Veja o blog do filme em www.kuaraydosul.blogspot.com.

* Foto de Daniel Cassol.