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Entrevista com Santiago

Neltair Rebés Abreu, conhecido como Santiago, é um cartunista de dar orgulho para qualquer gaúcho. É um dos melhores do mundo. Só isso já serve para explicarmos o porquê dele ser o nosso primeiro entrevistado. Mas, além disso, o Santiago é uma figuraça, um cara simples como o traço dele e sempre bem humorado. E a imprensa do Rio Grande do Sul, com exceção do Jornal do Comércio que contratou o cara, é de uma mediocridade e de uma ignorância atroz por boicotarem ele e os demais cartunistas talentosos que o nosso estado tem. Mas o seu Neltair é muito maior que qualquer jornalzinho metido a besta. E o Bodoqe oferece sempre as páginas para o seu talento, o que para nós é uma honra.
Participaram da entrevista a Fabiana, o Rafael, o André e o Pedro Metz. Ela foi realizada há algum tempo e aqui transcrevemos alguns dos melhores trechos. Bom proveito!

O INÍCIO
Eu desenhava desde menino. Quando vim para Porto Alegre, eu estava entre fazer o curso de jornalismo e o de arquitetura. Nesse tempo, comecei a fazer jornais estudantis e senti que havia um certo mercado para o humor, mas eu achava que não sabia fazer humor, só histórias em quadrinhos, com situações realistas. Depois descobri que eu tinha aquilo que chamam de verve, aquela coisa de tu criar situações engraçadas, pessoas que têm senso de humor. Aí não parei mais. Nesse tempo, comecei a publicar num espaço chamado Quadrão, uma página que o jornal Folha da Manhã, na década de 70, mantinha para iniciantes. Aquilo me deu um estímulo. Depois de um tempo fui contratado pela Folha da Tarde para fazer algumas ilustrações. E comecei a ganhar alguma coisa por aí. Botei a cara nisso e tornei minha profissão. Desisti do curso de arquitetura.

TINTIN
Eu sempre lia humor, gostava. Minhas influências na infância é Disney. Na adolescência eu comecei a ler Tintin, depois, aqueles humoristas da Revista Cruzeiro. Já na minha juventude apareceu o Pasquim, eu já conhecia o trabalho do Ziraldo, do Jaguar e tal. O meu desenho acho que é filhote do Hergê, do Tintin. Quando eu comecei a exercitar o humor, a minha linha era a clara, como se diz, o traço limpo, que é a escola dos belgas, do Tintin. Eu tive uma fase incrível que eu copiava o Ziraldo. Eu tinha cerca de 20 anos nessa época. Depois, consegui me livrar do Ziraldo, tanto que eu parti para um desenho bem diferente do dele.

PASQUIM
Quando eu iniciei na Folha da Tarde, comecei a me sentir mais seguro e arrisquei mandar algumas coisas para o Pasquim. O pessoal gostou e publicou. Fiquei entusiasmado e comecei a mandar com freqüência. Tive uma participação boa no Pasquim, lá por 77, 78 até a data de fechar. Fui colaborador habitual. Tinha desenhos que quando a Folha da Tarde não queria publicar, eu mandava para o Pasquim e saía e era um sucesso. Quando um desenho era negado pela chefia de um grande jornal naquela época, queria dizer que era um desenho bom, contundente, era crítico.

COOJORNAL
Eu era só ilustrador e às vezes fazia uma charge para o jornal. Eu ilustrava uma crônica do Luís Fernando Veríssimo. Quando surgiu a cooperativa eu me associei. O Coojornal foi uma reação imediata ao fechamento da Folha da Manhã, que foi um jornal muito livre, que marcou época por ser combativo. E com um padrão de jornalismo que nunca mais voltou a ter aqui no sul. E como era um jornal nessa linha, ele foi pressionado até que em 1975 todo mundo pediu demissão. E esse pessoal, que era uma nata do jornalismo jovem, com muita garra, com vontade de desafiar a ditadura ficou inconformado. Como já havia um embrião de uma cooperativa, esse pessoal se reforçou em torno dela.

REVISTA BUNDAS
Acho que o Ziraldo centralizou muito na pessoa dele, que é um senhor com mais de 70 anos. Ficou uma visão de pessoas mais velhas. Acho que ela tinha que ter um caráter mais renovado, eu não sei bem o que é… Algumas sessões feitas por cabeças mais jovens. Além disso, acho que ela foi atropelada também pela questão econômica. Tenho certeza que foi um boicote econômico das agências de propaganda. Os publicitários sempre gostam de se auto-elogiar, se dizem ousados… Aí quando surge uma revista Bundas, eles não botam anúncio porque dizem que é imoral, que é um palavrão… Onde está a ousadia desses caras então? Usaram a desculpa de que Bundas era um nome muito forte e o anunciante não queria se vincular a isso. Mas como é que os caras fazem anúncios com bebidas que tem muito mais que bundas, mais que sexo? A própria publicidade, às vezes, cai num mal gosto, com apelo sexual e tudo mais.

ESTADÃO
A experiência com o Estadão foi a mais terrível que eu já tive na minha vida. Fiquei nove meses mandando desenho daqui de Porto Alegre. Tinha que fazer três, quatro desenhos, pois os caras viam fantasmas em tudo que é coisa. Era cada análise mais maluca… Desenho que tinha um carinha de pé torto não podia porque a “sociedade dos pés tortos” iria reclamar… Então como fazer humor? O humor é extremamente livre, solto e irreverente. Humor é subversão, ele subverte as coisas. Fazer uma coisa comportadinha é o caminho para não ter graça nenhuma.

BOICOTE
Todo o Brasil elogia a qualidade dos cartunistas daqui. Tem o Moa, o Bier, o Edgar Vasques, o Juska, que são excelentes desenhistas. Como é que esses caras não estão nos jornais? Ninguém contrata esse pessoal. Por que? É por ignorância? Eles não sabem que tem essa mão-de-obra, que é barata e boa? Ou é muita ignorância ou é uma marcação em cima. Eu quero crer que os caras têm medo do humor por ele ser bem popular. Eles não conseguiram inventar ainda uma figura que tem de sobra na área do texto que são os “colunistas amestrados”. Não conseguiram inventar ainda o “cartunista amestrado”. Se bem que tem um que é até amestrado demais. Um amestrado que chega ser guardião dos interesses do patrão dele.

SÁBIAS PALAVRAS
Eu não posso pensar que nem o patrão. O negócio dele é outro. Ficam falando que o anunciante vai tirar o anúncio, mas ele precisa do veículo. Não tem que ficar cortejando o anunciante.

Aço e Carne

Adel Braga

Mesmo depois de ter feito aquilo dezenas de vezes, o carrasco ainda sentia-se desconfortável e triste. Sendo incapaz de eliminar seus sentimentos, ele teve que aprender a controlá-los. Para isso, ele dizia a si mesmo que não era ele quem matava. Considerava-se tão inocente quanto a lâmina – um feito de aço, o outro de carne, mas essencialmente iguais. O carrasco não mata, a lâmina não mata. Pensar que ela era sua cúmplice na inocência ajudava a tornar o trabalho mais simples, diminuindo seu desconforto.
Às vezes sentia que não era um bom profissional. Achava que não devia sentir nada pelos homens e mulheres que executava. Mas com o tempo acostumou-se consigo mesmo e descobriu que podia fazer seu trabalho com grande eficiência.
Aquele dia tudo aconteceu como sempre. As horas passaram em seu ritmo normal. Os sentimentos vieram de sua maneira costumeira, intensificando a medida em que a hora aproximava-se – não vieram nem mais nem menos intensos. Quando achou que era o momento, o carrasco soltou a corda que prendia a lâmina que, com a velocidade e frieza da luz do relâmpago, separou sua cabeça encapuzada de seu, agora inerte, corpo.

Somos

Jefferson Pinheiro

Eu sou a profissional do sexo com nojo do próprio corpo, vendo carinhos falsos como flores de plástico. Sou o rico que odeia o pobre. O pobre que odeia o rico. Sou o assassino fardado. O policial envergonhado da farda. Sou mais uma criança que morre de fome enquanto o mundo ri e se diverte. Sou o protesto na porta da fábrica. O sindicalista encomendado ao matador de aluguel. O homem-bomba aos pedaços antes da bomba. A menina com o rosto refletido no esgoto. Sou a deficiente na cadeira de rodas rasgando solitária as pedras da rua. O cara que saiu pra estuprar a garota após uma overdose de sexo pela TV. Sou o idoso que apodrece na fila do hospital público. A menina negra que só tem bonecas loiras pra brincar. Sou o voto nos filhos da puta que vende o futuro do país. O operário que não almoça. O rio poluído com os dejetos químicos das empresas. Sou o lobby de políticos pra favorecer latifundiários. O trabalhador mantido escravo na fazenda. A criança indígena assistindo desenho animado pela vitrine. A criança sem doce nem brinquedo que o noel esqueceu no Natal. Sou aquele que sofre em silêncio o que a vida lhe deu de presente. Sou os olhos fundos, gordos de lágrimas. Sou o cão sarnoso com a espinha quebrada a pau. O veneno no bucho do cão que desagradou ao vizinho. Sou o cego esperando ajuda pra atravessar a rua. A dignidade que não se quer enxergar no olhar do morador de rua. Sou a falta de oportunidade num país injusto. A menina que o pai vendeu ao gigolô. O menino pra quem você fechou o vidro. O cara comendo os restos do seu lixo. Sou a grávida descalça com um sorriso estranho, caminhando na chuva de inverno em meio ao trânsito. A menina que desmaiou de fome na escola. A seringa do pó. O sangue infectado com HIV. Sou a fatalidade que você atropela justamente quando encheu a cara de álcool. Sou mais um agricultor sob a lona, com bandeira e sem terra, plantado ao longo da BR 290. Sou mais um trabalhador sem trabalho, mais um número nas estatísticas. Eu sou o filho sem pai, a mãe sem marido, o pai sem mulher nem filho, sou mais uma família que se perdeu. O animal que nasceu pro abate sou dinheiro nas mãos de quem comprou a minha vida e vendeu a minha morte. Sou mais um menino sem teto, sem família nem governo que não tem pra onde ir e sobrevive de migalhas.A pobreza espancada e humilhada. Sou o medo na manhã do carcereiro, do presidiário, da visita íntima. Sou a manhã sem luz, presa, sufocada contra o tempo. O preconceito e o dinheiro na sentença do juiz. O suicida caindo do 17º desandar. A inundação das lágrimas que arrebentam com todas as portas e cavam todos os túmulos. A ligação que não foi feita, o abraço que não foi dado, a palavra de carinho que não foi dita, sou o gesto de amor que não se realizou. A cruz de braços abertos que vai se jogar do topo da igreja. Sou o suicídio da fé. A Constituição servindo ao pó na estante. A espinha na qual se alojou o projétil. O crânio prometido pra bala de fuzil. Sou a criança sem escola nem infância. O homem inventado por Deus, aprendo enquanto me arrebento. Sou o amor apodrecendo em frente à porta. Quem não tem pra onde correr. A resposta para o que você não quer perguntar, a explicação para o que você não quer saber. A esperança que se perdeu do futuro.

Mas também sou a consciência que não se apaga, a voz que não cala e o punho cerrado contra a tua cara. O jornalismo e a catarse que não têm preço e o suor dos que não desistem de lutar. Sou o que guarda o segredo da dor. O que está por trás do que ninguém entende. Sou eu, você e todos. Porque não exista quem não esteja no sofrimento dos outros nesse dia comum perdido no espaço e no tempo.