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População gaúcha lança comitê de combate à megamineração

Na noite de 18 de junho, mais de cinquenta entidades diferentes se juntaram no lançamento de um comitê de combate aos projetos de megamineração previstos para o estado.

Os movimentos e representantes da sociedade civil lotaram o auditório do CPERS Sindicato. O evento contou com uma fala de abertura dos anfitriões e das lideranças do comitê. Depois, Michele Ramos, do MAM e Eduardo Raguse da AMA Guaíba traçaram o panorama do estado, citando os 166 projetos em fase de pesquisa e os quatro grandes projetos que buscam licenciamento: Projeto Retiro, em São José do Norte; Projeto Fosfato, em Lavras do Sul; projeto Mina Guaíba em Eldorado do Sul e Projeto Caçapava do Sul.

Membros das comunidades vizinhas explicaram melhor cada situação local. Marcelo Paiakan- do Assentamento Apolônio de Carvalho, que combate o projeto Mina Guaíba- acusou a empresa de mentirosa. Para ele, a Copelmi não irá gerar empregos e desenvolvimentos, como ela divulga, muito menos recuperar as áreas mineradas.

Mário Witt, pecuarista e fotógrafo de Lavras do Sul, denunciou que, em seu município, a população e as autoridades foram cooptadas para defender o projeto. “Hoje, tu não pode se manifestar contra, tal é o clima de hostilidade que foi criado. As pessoas estão amordaçadas”, relatou.

Representando Caçapava do Sul, a advogada Ingrid Birnfeld, resgatou o início da luta contra a mineração de chumbo, zinco e cobre no município, que começou no ano de 2016. Denunciou também a atuação das empresas transnacionais nos processos de licenciamento: “existe uma violação metódica dos direitos fundamentais nesses processos de licenciamento. As audiências públicas são organizadas pelas empresas”.

Como as comunidades de São José do Norte, não conseguiram estar presentes, Michele Ramos do MAM trouxe o contexto da luta no município. Mais de vinte e cinco comunidades ameaçadas estão mobilizadas contra o projeto. No dia 8 de março deste ano, as mulheres destas comunidades organizaram uma caminhada que reuniu 300 pessoas contra a mineração de titânio na região.

Por fim, foram feitos encaminhamentos e sugestões para a audiência pública sobre a Mina Guaíba, no dia 27 de junho. O comitê também lançou um manifesto contra a mineração, que segue publicado na íntegra abaixo:

Manifesto do Comitê de Combate à Megamineração no Rio Grande do Sul: Sim à vida, não à destruição! 

Preocupadas com os impactos socioambientais de megaprojetos de mineração previstos para o Rio Grande do Sul, diversas entidades ambientais, sindicais, associativas e movimentos sociais se reuniram no último dia 29 de maio, na sede da APCEF/RS, em Porto Alegre, para a criação do Comitê de Combate à Megamineração no Rio Grande do Sul (CCM/RS). Um dos projetos é o Mina Guaíba, que está em processo de licenciamento para se instalar em uma área de 5.000 hectares nos municípios de Charqueadas e Eldorado do Sul. 

Nesse local, a mineradora privada brasileira Copelmi pretende extrair uma reserva estimada de 166 milhões de toneladas de carvão com baixo poder calorífico e alto teor de cinzas. O empreendimento tem alto impacto socioambiental: a reserva está na zona de influência da APA e Parque do Delta Jacuí, Zona Núcleo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, bem tombado pelo IPHAE como patrimônio cultural e paisagístico do RS, e a apenas 1,5 km do Rio Jacuí, responsável por mais de 80% da água que chega ao Guaíba, abastecendo Porto Alegre e parte da Região Metropolitana. 

O projeto prevê, dentre outros impactos, o rebaixamento do lençol freático, o desvio de arroios, ocasionará piora na qualidade do ar e expulsará diversas famílias de seus territórios, incluindo moradores do loteamento Guaíba City e agricultores do Assentamento Apolônio de Carvalho, responsável por importante produção de arroz agroecológico e com certificado orgânico. Outros três grandes projetos, de igual importância, atestam que o Rio Grande do Sul entrou definitivamente na mira das empresas mineradoras, com o apoio do Governo do Estado e de prefeituras, iludidos pelas promessas de geração de empregos e incremento nas suas receitas, como se a mineração fosse a nova boia de salvação da economia gaúcha. 

O projeto em estágio mais avançado é o Retiro, para o qual a RGM (Rio Grande Mineração) conseguiu licença prévia do Ibama para extrair titânio da faixa de areia localizada entre o Oceano Atlântico e a Lagoa dos Patos, no município de São José do Norte, no litoral sul gaúcho.         

Os demais projetos ainda buscam a licença prévia junto à Fepam, órgão de licenciamento estadual. Às margens do Rio Camaquã, em Caçapava do Sul, a empresa Nexa Resources (multinacional do Grupo Votorantim) tenta autorização para extrair zinco, chumbo e cobre de uma mina a céu aberto com vida útil de 20 anos. Em Lavras do Sul, o alvo da empresa Águia, através do projeto Três Estradas, é o fosfato; esse empreendimento inclui uma barragem de rejeitos e é de grande interesse do agronegócio. 

Em pleno século XXI, quando se acentua o debate sobre a crise climática e as ameaças à biodiversidade, às comunidades tradicionais, à qualidade de vida, e em suma ao futuro do planeta, transformar o Rio Grande do Sul em uma nova fronteira minerária e em um grande polo carboquímico nos posiciona na contramão da história! Existe uma tendência mundial de diminuição na exploração do carvão, porque a atividade coloca em risco tanto a saúde da nossa gente quanto o meio ambiente, já que o combustível é um dos maiores responsáveis por emissões de CO2, que provoca o efeito estufa. 

Além desses quatro projetos, ainda existem mais de 150 projetos de mineração em solo gaúcho, que, se conseguirem se instalar, poderiam elevar o RS ao patamar de terceiro estado minerador do país. Os impactos negativos na vida de indígenas, quilombolas, pescadores, assentados, pequenos agricultores, e moradores do campo e da cidade, ou seja, de todos nós, são altos demais.  Mas ainda há tempo de construirmos uma cultura de territórios livres de megamineração. 

É preciso garantir a realização de audiências públicas em todas as cidades envolvidas e, caso o governo queira levar adiante esses projetos de destruição, a decisão final deve ser do povo gaúcho, através de plebiscitos. Temos o direito de decidir, de maneira soberana, entre a vida ou a destruição! Fazemos um chamamento para que todas as entidades, movimentos e pessoas comprometidas com a defesa da vida e contra os impactos dos projetos de megamineração subscrevam este manifesto. Esta luta não é apenas das entidades ambientalistas, mas de todos que se importam com a vida.

Multidão na rua em Porto Alegre pela educação e contra Bolsonaro

Na noite de quarta feira (15/05) soaram os tambores da revolta popular em Porto Alegre e em todo o Brasil.  Na capital do Rio Grande do Sul, cerca de 30 mil pessoas participaram do grande ato noturno que foi da Esquina Democrática até o Largo Zumbi dos Palmares, no centro da cidade . Ao longo do dia também ocorreram diversas mobilizações na Faculdade de Educação (FACED UFRGS).

Manifestação passando pela Avenida Borges de Medeiros.

O movimento fez oposição aos cortes das verbas para as Universidades Federais e para o Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) anunciadas por Jair Bolsonaro e pelo ministro da educação Abraham Weintraub . Além disso, também se posicionou contra os ataques feitos pelo presidente à política de cotas e contra as ciências e universidades.

“Revolte-se. Salve a Educação do Bozo. Rebele-se”. Cartaz de Manifestante.

Os manifestantes também questionaram a prisão do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva e a reforma da previdência. Diversos movimentos sociais contrários a Jair Bolsonaro e suas políticas de governo estiveram presentes. Grupos anarquistas, sindicalistas,coletivos LGBTQ+, feministas, partidos de esquerda, movimentos negros, estudantes e professores universitários e secundaristas construíram o espaço de lutas coletivas.

Esta união de diversos segmentos deu corpo ao movimento e unificou diversos discursos contrários aos retrocessos da gestão do presidente.

“Uma só Luta! Contra a Reforma da Previdência e os cortes de Bolsonaro”. Cartaz de Manifestante

Resta saber como a pressão popular terá efeito no governo. Espera-se que, caso os grupos sigam mobilizados, se consiga reverter ou impedir decisões deste (des)governo ultra conservador.

Imagens: Billy Valdez
Texto: Bruno Pedrotti

Videoativistas mobilizados pelo direito de filmar

Entre os dias 3 e 6 de maio, ativistas, comunicadores e jornalistas de todas as regiões do Brasil se reuniram em Niterói RJ para o encontro R2R- pelo direito de filmar, produzido pela Witness Brasil.

Além de refletir sobre o direito de filmar e como os diferentes coletivos usam este direito para ajudar suas comunidades, o grupo também compartilhou suas vivências e desafios enfrentados.

(Foto: Mayara Donaria)

No primeiro dia, sábado (4/05/2019) os coletivos Craco ResisteTulipa Negra falaram sobre suas experiências de atuação denunciando a violência policial na cracolândia, em São Paulo. Na sequencia, os coletivos das favelas do Rio de Janeiro (Coletivo Papo Reto, Redes da Maré, Datalabe) apresentaram seus projetos e de resistência e comunicação popular contra a guerra aos pobres.

No segundo dia (domingo 5/05/2019), o protagonismo foi transferido para as regiões norte e nordeste. O jornalista Raphael Castro, de Belém do Pará, denunciou o extermínio da juventude negra e periférica em sua cidade e a contaminação causada pela mineradora norueguesa Hydro Alunorte na cidade de Barcarena. A Agência de Notícias Jovens Comunicadores da Amazônia e o Coletivo Jovem Tapajônico destacaram a importância de uma comunicação sobre a amazônia feita pelas pessoas que vivem na região, além de de denunciarem a violência contra as mulheres e os danos ambientais causados por agrotóxicos usados em monoculturas para exportação.

(Naiane Queiroz da  Agência de Notícias Jovens Comunicadores da Amazônia. Foto: Mayara Donaria)

Ainda no segundo dia, a Rede Rocheda deu um exemplo de união de coletivos. Coletivo Motim, Coletivo Nigéria e Coletivo Zóio apresentaram uma Fortaleza que, apesar da violência policial, consegue mobilizar cultura e arte em suas periferias.

Nos dois dias, no período da tarde, os participantes do evento se reuniram em quatro grupos de trabalho temáticos: vídeo como prova, arquivamento, mídias sociais e fake news. Assim, com a ajuda de materiais de apoio da Witness Brasil, os grupos conseguiram refletir coletivamente e estudar formas práticas de capacitar ainda mais suas atuações locais.

(Grupo de trabalho em atividade. Foto: Mayara Donaria.)

Por fim, no último dia de evento (segunda feira, 6/05/2019), os coletivos se dividiram em três grupos para conhecer diferentes locais no Rio de janeiro: Complexo do Alemão, Aldeia Maracanã e Morro da Providência. A equipe do Coletivo Catarse visitou o Morro do Alemão, no Complexo do Alemão.

Guiados por David Amen, do Instituto Raízes em Movimento, subimos escadarias e andamos por becos e vielas. Escutamos a perspectiva local desta comunidade (uma das 15 favelas que compõe o complexo) e soubemos de outras violações de direitos que acontecem na comunidade (além da violência do Estado), como remoções, falta de saneamento básico e construção sem consulta de obras como o teleférico do Alemão- que não funciona desde 2016.

(Vista do Morro do Alemão, Complexo do Alemão/RJ. Foto: Bruno Pedrotti.)

A partir do evento, os diferentes coletivos puderam trocar experiências criar e fortalecer redes e laços de amizade e trabalho.  Percebemos que, apesar de todas as diferenças regionais, enfrentamos problemas muito semelhantes (mineração, agrotóxicos, violência do Estado…).Nós da Catarse esperamos poder contribuir na construção de parcerias, difundindo as diversas perspectivas de cada local e construindo coletivamente conteúdos capazes de conectar as narrativas contra hegemônicas das cinco regiões do país.

Texto: Bruno Pedrotti

Imagens: Mayara Donaria e Bruno Pedrotti

 

Heavy Hour 15 – 14.11.18 – Vamos falar de racismo? De novo?! Sim, porra!!!

Um programa com o coordenador estadual da UNEGRO, Dilmair Monte. Papo sobre a Grande Marcha Zumbi Dandara, dia 20/11, e mais uma sugestão do Livreiro Bolivar, A Liberdade É Uma Luta Constante, de Angela Davis. Estamos total novembro… Ah! E novidades na criação da Rede Heavy Hour! Vamos a Pelotas e Santa Maria!

Quem toca neste programa:
Bloco 1
Mangueira – samba enredo 2019 “Eu quero um Brasil que não está no retrato”
Sepultura – Symptom of the Universe
Tango Feroz – El Amor és más Fuerte

Bloco 2
Living Colour – Type
THC Core
Visão Vermelha – Sputiniks
Balboa Punch – Paying with the Life

Bloco 3
System of a Down – Chop Suey!
The Doors – The End live in Toronto 1967

Audiovisual para transformar – Parte 2 – nos bastidores do documentário Cores ao Vento, navegando junto pela arte de Silvio Rebello

Num segundo módulo de oficina em Tapes, propusemos a produção de um documentário sobre a obra de Silvio Rebello. Uma realização Prefeitura e Secretaria de Educação e Cultura de Tapes, numa coprodução Coletivo Catarse, Clube da Sombra e Lagoa TV.
Silvio Rebello foi um artista plástico Tapense. Escultor, pintor, trabalhava com fotografia, projeção de imagens. O talento dele parecia não caber na cidade e, de fato, não coube. Tem obras dele espalhadas Brasil afora e em acervos de pessoas e artistas reconhecidos daqui também. Viveu na Bahia por algum tempo o que influenciou muito sua obra, inclusive trazendo motivos africanos e imagens ligadas aos orixás. Era uma pessoa que enxergava longe mas que estava muito perto de todos por ser extremamente humilde e simples. Parte da população desta pequena cidade não conhece o artista e sua obra, porém quem conhece o admira e ainda se transforma com o legado que deixou.

Assista ao documentário: Cores ao Vento – Navegando pela obra de Silvio Rebello

Como trouxe no outro relato, Tapes já foi, em algum tempo passado recente, uma rota artística bem frequentada por artistas plásticos, músicos, escritores. Em nossas investigações pela cidade, existe uma preocupação muito grande que esse resquício de memória desapareça. Silvio Rebello nos pareceu um registro muito significativo para dar início a salvaguarda dessa história.
A proposta era desenvolver um documentário curta-metragem sobre a obra de Silvio Rebello e um making of do filme. Parte do documentário e o making of realizamos através do segundo módulo da oficina de produção audiovisual, para que os jovens que participaram do primeiro módulo pudessem ter contato com uma produção audiovisual mais elaborada, que trouxesse um conteúdo artístico e se prestasse a ser mais livre e menos encaixotada aos padrões de documentário convencional.

A questão da falta de referências é muito forte nesses jovens. Ter acesso a internet não significa ter acesso a diversidade de conteúdos. Tivemos que, nos poucos dias disponíveis, desconstruir conceitos e enquadramentos, repensando a maneira que enxergamos e reproduzimos o entorno. Para poder filmar, primeiro observamos e isso por si só, já modifica. “Quando o cara não faz muita coisa ligado a cultura, o cara não dá bola. Quando o cara comeca a se ligar no audiovisual, hip hop…qualquer coisa que o cara começa a fazer, ligado a arte, o cara começa a dar valor a qualquer arte em si”, reflete João. Esse me pareceu o depoimento central da experiência desses jovens a partir das oficinas de audiovisual e de tantas outras que tem acontecido na cidade. O empoderamento é visível e a vontade de continuar produzindo também.

Todo o trabalho que fizemos em Tapes visava a autonomia criativa e produtiva dos envolvidos, mas me parece que o grande desafio desses jovens é como, sem o auxílio do poder público ou de terceiros, conseguir se mobilizar para realizar. Como entender que essa continuidade depende (também e principalmente) deles?

Penso que um bom início é rever o que eles fizeram  e acreditar que seja possível isso se repetir com ou sem ajuda. Hoje eles tem acesso fácil a ferramentas audiovisuais, as dominam inclusive, nasceram dentro de uma época em que essa linguagem é a principal, ou seja, eles tem tudo para serem protagonistas de suas próprias histórias, fictícias ou documentais, o que resta é uma questão de autoestima e isso, para mim, significa praticar, praticar, praticar….

Assista ao making of: Bastidores de um Documentário – Navegando Junto pela Obra de Silvio Rebello