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MAIS QUE UM JOGO – A violência policial no GRENAL 417

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Que a bola comece a rolar!

A violência policial no GRENAL 417

O GreNal 417 foi palco, mais uma vez, do mais baixo processo de criminalização do torcedor que estamos acompanhando jogo após jogo. Para este espetáculo temos diversos atores, vamos aos principais:

1. A Brigada Militar


Montando um esquema de segurança fadado a dar errado, a BM esquece das ideias de prevenção. Pelas ruas da cidade e no estádio, aquela que deveria proteger as pessoas e evitar os conflitos, cruza torcidas rivais, fomenta o conflito, tensiona o ambiente e provoca o caos. A partir disso age com truculência e abuso.

Na Av. Borges de Medeiros, tradicional caminho de torcedores colorados indo a pé pro estádio, na passagem da escolta de torcedores do Grêmio, a BM fazendo uso de tiros de borracha, bombas de gás e cacetes, “limpou” as ruas para os ônibus passarem. Para tanto, encurralou torcedores que simplesmente ficaram sem ter para onde ir, a não ser ali, usando de seus corpos como proteção.

No Parque Marinha do Brasil, gremistas circulavam livremente, colorados os escoltavam, tudo sob o olhar atento da BM, que não ajudava para evitar possíveis conflitos. Num determinado instante, quando colorados protegiam gremistas que caminhavam entre a centena de colorados que ali estavam, a BM decidiu por colocar todos para correr, ainda que nada que necessitasse de sua intervenção ocorresse, pois até a escolta dos gremistas colorados faziam com mais cuidado. No ímpeto de reprimir, um policial caiu da moto, sozinho, e foi o estopim para que a BM invadisse o Parque Marinha do Brasil, a cavalo, a pé e de moto, colocando todos e todas as torcedoras em desespero. Mulheres, crianças, jovens e idosos, sendo reprimidos por estarem confraternizando.

No Bar Coreia, tradicional ponto de encontro da torcida colorada para assistir ao jogo, a BM circulava a cavalo pelo meio dos torcedores, sem motivo algum. Deixava a tensão no ar. Tensão que culminou com mais uma ação truculenta, que causou correria, medo e violência na torcida que apenas desejava comemorar a vitória sobre o rival.
Somado a isto, o fato de que os agentes cobrem o rosto e usam farda sem nome, o que impede que sejam identificados, inclusive por imagens.

2. A imprensa

Quando noticia os fatos ocorridos, a imprensa os trata como conflito entre torcida e BM, quando este conflito é impossível diante dos meios que as partes dispõem. Nenhum questionamento sobre o esquema de segurança armado para o clássico é feito. Nenhum questionamento sobre a origem dos fatos é investigada. Sobre a repressão ocorrida no Parque Marinha, inicialmente noticiou-se que um torcedor teria derrubado um policial da moto (versão da BM), após mudou-se para o fato de que um gremista era agredido (versão do delegado), mas quando será dada voz à torcida que ali estava? Quando as mulheres que correram por estarem fazendo nada serão ouvidas? Quando as crianças que choravam pela violência que sequer conseguem entender serão ouvidas?

O processo de criminalização passa por esta ideia vendida de que a torcida causa tumultos fazendo com que a policia tenha que agir, quando um papel mais investigativo constataria que o processo nasce errado já nos gabinetes pré jogo.

3. O Juizado do Torcedor/MP

O órgão que carrega ser do torcedor no nome, mas que não o protege, não o ouve, não o defende. Jogo a jogo as ações equivocadas da BM se repetem sem que nenhuma atitude seja tomada. Os torcedores encaminhados ao Juizado do Torcedor sofrem punição imediata, incontáveis jogos sem poder ir ao estádio são aceitos por quem muitas vezes não praticou fato típico algum, mas aceita por medo, por não ter segurança diante das forças do estado e do judiciário. Ainda que digam que nada fizeram, é a BM que possui o que se chama de “fé pública”, mesmo que sequer sustente versões no tempo entre o fato e a notícia ser publicada, como vimos no caso do policial que teria sido derrubado da moto mencionado anteriormente.

4. A diretoria do clube

Entra gestão, sai gestão, e o maior patrimônio do clube segue sendo desrespeitado e criminalizado sem que o clube faça absolutamente nada. Os torcedores são convocados pelo Presidente a fazerem churrasco no Parque Marinha, mas quando as famílias são literalmente varridas por cavalos e cassetetes, nenhuma nota pública em defesa da sua torcida é feita. A narrativa de que é a torcida que provoca os conflitos é aceita sem nenhum questionamento, as decisões da BM e do MP sobre o que pode ou não ocorrer são acatadas sem que se discuta e se defenda a festa da torcida. Cada vez mais esses dois órgãos ditam as regras do que os colorados e coloradas podem ou não fazer EM SUA PRÓPRIA CASA. E os com poder de decisão se calam a isso. E se calam a toda repressão que a torcida enfrenta para poder empurrar o time em cada partida.

Estamos cansados e cansadas de sermos criminalizados por querer torcer. Por nos ditarem regras de como e quando podemos nos manifestar. Cansados de enfrentar em nossos corpos a dor do despreparo e do descaso de todos com a torcida.

  

FRENTE INTER ANTIFASCISTA

*originalmente publicado aqui

A violência é a garantia única de segurança?

Por Jacques Alfonsin (originalmente publicado no Blog Direito Social, aqui).

A segurança é dos mais lembrados direitos humanos fundamentais sociais na campanha eleitoral deste ano. Jair Bolsonaro, o candidato líder das intenções de voto nas pesquisas onde fique ausente o nome do ex-presidente Lula, está fazendo da violência a garantia maior desse direito. Não da violência própria da sanção legal, a cargo do Estado de direito, mas sim da violência sujeita ao arbítrio de cada eleitor/a. A arma tem sido apregoada por ele como instrumento necessário de defesa pessoal, a ser acessada o mais livremente conforme a vontade individual de quem a deseje.

Não escondeu o alvo escolhido para identificar-se quem é considerado como responsável por ameaçar essa segurança. Aí aparecem as/os pobres em geral, gente sem-terra, indígena, quilombola e, no elenco abrangente de outras classes sociais, também defensoras/es de direitos humanos, mulheres, grupos LGBT. O paradoxo reside no fato de as vítimas do ódio deste candidato à presidência da República quase todas vivem em permanente insegurança, sofrendo exclusão de ordem social e econômica, desprezadas e violentadas por preconceitos históricos da mais variada origem, discriminadas por desigualdades criadas e mantidas em guetos classistas, culturais, ideológicos, religiosos, amorais e imorais de toda a espécie.

Em “Crime, polícia e justiça no Brasil” – coletânea de estudos organizada por Renato Sergio de Lima, José Luiz Ratton e Rodrigo Ghiringuelli de Azevedo (Ed.Contexto, SP, 2014) – José Vicente Tavares-dos-Santos denomina violência difusa aquela que se encontra disseminada em toda a sociedade partindo de grupos de poder-saber com capacidade para impor coação, força, “dano que se produz em outro indivíduo ou grupo social, seja pertencente a uma classe ou categoria social, a um gênero ou etnia.” “Revela-se como um procedimento de caráter racional, o qual envolve, em sua própria racionalidade, o arbítrio, na medida em que o desencadear da violência produz efeitos incontroláveis e imprevistos.” “Essa relação de excesso de poder configura, entretanto, uma relação social inegociável porque atinge, no limite, a condição de sobrevivência, material ou simbólica, do vitimizado pelo agente da segurança, configurando o oposto das possibilidades da sociedade democrática contemporânea.”

De sociedade democrática o candidato Bolsonaro já provou não ter qualquer apreço. Quando deu seu voto favorável ao impeachment da presidenta Dilma prestou homenagem a Carlos Alberto brilhante Ulstra, um conhecido torturador que esteve a serviço da ditadura imposta ao país em 1964. Não se deu conta ou disfarçou que, estivesse o país sob ditadura, ele mesmo talvez já tivesse sofrido a cassação do seu mandato, não por cínico respeito a qualquer formalidade legal, mas sim por ordem de um militar com poder de mando superior ao dele.

Não faltará quem, com tão grande número de brasileiras/os manifestando vontade de votar neste candidato, está vencida qualquer mácula do seu passado, anistiado o seu presente pela “legitimidade” fundada no apoio desse número.

Será? O fundamento de um governo legítimo tem de ser avaliado de acordo com a espécie de poder que ele pretenda impor à nação. A um poder baseado na opressão e na repressão como o defendido por Bolsonaro até pode garantir “segurança”, mas uma segurança não de todas/os mas só para os grupos que compartilhem da sua ideia de governo. O passado já demonstrou que, mais cedo ou mais tarde, até a facada agora desferida contra ele, comprova como isso semeia o seu próprio fracasso. Já em 1980 (!), quando a ditadura militar, pelo candidato tão louvada, já começava a desconfiar de si própria, a identificação desse fracasso era feita em arguta e competente denúncia:

“Um poder, representante de interesses de certos grupos que detêm a concretude do domínio, não sobreviverá se não encontrar uma justificativa mais ou menos operatória que redunde na aceitabilidade mínima por parte dos grupos que se encontram fora da esfera de decisão. Por isso, todo o Estado legal pretende ser legítimo. Ora, a legitimidade assim encarada nada mais é do que uma justificativa, uma medida a mais para a manutenção de um grupo no poder, uma extensão da força. No fundo, assim entendida, a legitimidade seria a força substitutiva da força física para impor a aceitação. Nenhum poder sobrevive tão somente usando a força física, pois ela é ambígua, podendo haver o risco dos funcionários da violência, eles mesmos, enquanto grupo, tomarem o poder. Ela é cara, desgastando brutalmente o orçamento do poder formal. Ela é perigosa, pois, de arma na mão, pode perceber que o outro lado que “tem razão.” (“Direito, poder e opressão”, Roberto Armando Ramos de Aguiar, ed. Alfa-Ômega, p.62)

De arma na mão o agressor de Jair Bolsonaro seguiu-lhe o conselho. Além de fazê-lo vítima de si próprio, demonstrou todo o perigo presente na sua destemperada campanha, servindo para avisar suas/seus eleitoras/es sobre o comando de quem pretendem submeter o Brasil e o seu povo.

MAIS QUE UM JOGO – “Já libertamos a América, libertemos as mulheres a amarem”

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Que a bola comece a rolar!

Já libertamos a América, libertemos as mulheres a amarem

O dia 29 de Agosto marcou o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Convidamos a Raisa Rocha, gremista, sócia, jornalista e lésbica, a dar a visão dela sobre uma data que infelizmente ainda é ignorada por muitos.

***

Pausa na euforia desta loucura chamada Grêmio (a noite da terça-feira 28/8 – quando o Grêmio eliminou o argentino Estudiantes de La Plata nos pênaltis após marcar um gol nos acréscimos do segundo tempo – ainda ecoa na memória) para honrar o convite dos compas da Grêmio Antifa e falar sobre o dia da VISIBILIDADE LÉSBICA. Tema tabu, ainda mais no universo do futebol, que só pode ser tratado de uma maneira: salientando as INvisibilidades diárias que inundam as existências das mulheres que amam mulheres.

Para tal, escolhi relatar brevemente um infeliz acontecimento que, por ironia do destino, ocorreu
num dia de jogo do nosso tricolor.

Numa noite de Copa, dessas que tanto amamos, na nossa Arena, estava eu com minha inseparável amiga de vida e de arquibancada. Juntas desde o Olímpico Monumental, colecionamos escalações, eliminações, vitórias memoráveis, traves, imortalidades, promessas, glórias e taças. Dessas duplinhas que só podem ser melhores amigas ou… namoradas. E era esta a dúvida de um certo carinha que nos rondava sempre que podia. Este fulano, na verdade, achava mesmo que nosso caso era namoro. O relevante aqui é que a convicção sobre a nossa relação não o impediu de tentar beijar (naquele estilo clássico, à força) uma de nós. Sim, na cara da outra. Sim, na cara da suposta companheira. Sim, na minha frente, ele tentou beijar a minha mulher!

Não era, mas e se fosse? A atitude do fulano não é erro de percurso nem culpa da cerveja. A atitude do fulano materializa a invisibilidade plena que trouxe no início desta postagem. E ele o fez porque é ainda mais duro o peso do machismo e do patriarcado nas mulheres que ousam não estarem a serviço do  prazer dos homens.

A não ser que você conheça alguma de perto, a mulher lésbica possível é aquela do filminho que se assiste de porta fechada ou aquela do tipo “machorra”, nenhuma outra mais. Invisibilizada historicamente nos mitos culturais, na literatura e nas artes, sem referências entre figuras públicas. Invisível inclusive na comunidade LGBTQ+, sem eventos ou caminhadas oficiais, sem apelo midiático para suas pautas e manifestações. Invisível no sistema de saúde, público ou privado, que não sabe como cuidá-la porque ela “não transa”. Invisível e vulnerável porque ignorados os inúmeros e  crescentes assassinatos por lesbofobia. Invisíveis porque pecaminosas, traidoras porque se negam à maternidade (mentira!), a mais sagaz escravidão do patriarcado. Invisíveis mesmo que fora do armário, fadadas a andarmos e vivermos com as eternas “amigas”.

E o Grêmio haver com isso? Bem, na contramão do nosso país, em retrocessos e perdendo seus pedaços pelo caminho, o Grêmio se reconstrói e vive momento alto de sua gloriosa história. Até tentam nos abalar, diminuir nossa caminhada, criam problemas onde não há… Mas pela nossa alma mística, pelo nosso amor inabalável, pelos pés dos nossos guris e sangue dos nossos guerreiros imortais vestimos o continente sul-americano inteiro de respeito em azul, preto e branco.

A nós, gremistas antifascistas, provemos que aprendemos com as derrotas e com as dores e que sabemos a força da nossa união. Que sabemos que, não fossem os ídolos negros, a dedicação e as vozes das mulheres nas arquibancadas, não teríamos reerguido o nosso Grêmio. Já libertamos a América, libertemos as mulheres a amarem.

*originalmente publicado aqui

Chamas da inquisição atual queimam as bruxas da História

Viralizou nas redes a triste notícia do incêndio na instituição de pesquisa mais antiga do Brasil. O fogo queimou o Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, junto com 20 milhões de obras — entre elas o acervo de meteoritos e de botânica, fósseis humanos e animais, registros de culturas indígenas e reinos africanos.

A perda científica e de conhecimento é inestimável, mas também é triste ver mais uma confirmação de que o Brasil segue no mesmo modelo colonialista de inquisição: queimar a diversidade nativa para impor uma monocultura.

E não adianta culpar o PT ou a esquerda pelo que aconteceu, já que uma rápida pesquisa aponta justamente para o contrário. Segundo dados disponíveis no portal do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), os investimentos em museus cresceram 980% entre 2001 e 2011, período que abrange maioria do período das gestões Lula e Dilma.

Ao analisar, ainda, informações disponíveis no Siga Brasil, portal do orçamento do Senado Federal, se nota que a maior queda no orçamento anual do Museu acontece no ano de 2015. No ano de 2014, quando Dilma se reelegia, o orçamento anual do museu foi de 1 milhão e duzentos e 11 mil reais. Já em 2015, momento em que o golpe estava sendo articulado, o orçamento caiu para 750 mil reais.

No cenário político pós golpe, vale ressaltar a PEC 241. A proposta de emenda constitucional aprovada no final de 2016 congelou por vinte anos as despesas do governo com gastos sociais. Assim, o país não pode incrementar investimentos em saúde, educação e cultura pelos próximos 18 anos.

Pensando dessa forma, pode-se entender o incêndio no Museu como mais uma das consequências do golpe. E, cabe ressaltar que, apesar de toda a midiatização do episódio e da comoção construída a partir disso, o que queimou já seria uma cultura morta.

Não é querer menosprezar o episódio — é uma merda que o fóssil de Luzia, com toda sua antiguidade e importância para as pesquisas sobre as migrações para o continente americano, tenha queimado —, mas Luzia já está morta. Enquanto isso, por todo o Brasil, vemos denúncias de guardiãs e guardiões da cultura viva sofrendo diversos ataques.

É uma pena que tenhamos perdido registros de culturas indígenas já extintas, mas não seria também produtivo nos mobilizarmos para proteger as etnias que restam? Para que estas não virem fósseis a serem queimados em um outro museu em outro futuro apocalíptico como o de agora?

Na Amazônia, estamos vendo seguidamente denúncias de garimpo e desmatamento dentro de terras indígenas. No Mato Grosso do Sul, o Estado brasileiro está retirando as crianças Guarani Kaiowá de suas mães e colocando-as para adoção. Com isso, o Estado está literalmente assassinando as culturas vivas ao agir para impedir sua continuidade seja retirando as crianças ou destruindo as florestas.

E estes são só alguns exemplos…

Temos também denúncias de intolerância religiosa contra religiões afrobrasileiras — inclusive por parte do Estado por meio de tentativas de proibir os sacrifícios rituais dessas religiões.

Ou seja, a velha inquisição segue a todo vapor e não queima apenas museus, mas também as pessoas que lutam pela sobrevivência de culturas não individualistas. O que vemos no Brasil é a continuação do colonialismo e do extermínio, e o Museu foi apenas o exemplo mais espetacular e, justamente por isso, midiatizado por aqueles que nunca o valorizaram.

*cartum de Carlos Latuff (@LatuffCartoons)

**texto produzido por Bruno Pedrotti sob supervisão do Coletivo

MAIS QUE UM JOGO – Política e futebol: o caso da elitização dos estádios

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Hoje quem faz a sua estreia é a frente colorada!

Política e futebol: o caso da elitização dos estádios

O futebol que foi, historicamente, um palco de e para as massas, vem cada vez mais sendo alvo das transformações que a lógica de acumulação do capital induz a tudo aquilo sob o qual se projeta. Esse processo acontece a passos largos especialmente no futebol brasileiro, desde um passado recente. E, nesse contexto, se faz necessária a organização de uma resistência frente a todas as consequências dessas mudanças, chamadas de “modernização” pelos desinformados ou mal-intencionados.

Até os anos 90, os estádios de futebol no Brasil eram ocupados pelo povo e era ambiente de festa. O nosso país, marcado historicamente pelas desigualdades sociais, era representado nas arquibancadas por todas as diferentes classes sociais. Um grande exemplo disto era o setor popular, a famosa “Coréia” do Beira-Rio, onde o valor do ingresso era meramente simbólico, quando não gratuito. A partir dos anos 2000, um processo de elitização no futebol brasileiro se instalou de forma definitiva. O Estatuto do Torcedor, Lei criada com a finalidade de proteger os direitos dos torcedores, foi utilizada até agora de maneira muito mais frequente para criminalizar e restringir o acesso de um segmento bem específico das torcidas: as torcidas organizadas e os torcedores mais pobres. Por proibir que sejam vendidos ingressos sem a possibilidade de assistir aos jogos sentado, acabou decretando o fim da Coréia e impondo um novo padrão, uma nova forma do próprio clube se relacionar com sua torcida, através do “torcedor-cliente” – a reificação do ato de torcer.

Esse processo atingiu seu ápice com a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Sob o pretexto de exigência da FIFA para a realização do torneio, os rudimentares estádios se transformaram em arenas luxuosas e repletas de cadeiras e gigantescos telões.  Para tal, maciços investimentos foram realizados, principalmente por grandes construtoras, o que modificou a dinâmica do próprio negócio futebol pois os novos estádios precisavam ser rentáveis para fazer jus às inversões realizadas. Resultado disso: ingressos caros à grande maioria e seleção de público, de forma a excluir os que não tem renda suficiente – os que não podem “consumir”. Assim, pela imposição de uma gestão capitalista, exclui-se uma grande parcela dos torcedores de participar e incentivar seu time. A esse processo tem se denominado elitização do futebol.

Mas como a história é feita pelas classes em contradição, um avanço em favor da lógica do capital não viria sem resistência: o que vemos é a proliferação de movimentos, torcidas, frentes contra esse modelo imposto. Movimentos que reivindicam uma maior diversidade na arquibancada, preços mais baixos – tanto para os ingressos como para as associações –, maior liberdade para torcer, dentre outras pautas, estão presente em quase todos os grandes clubes e seguem avançando nas arquibancadas e, mesmo que ainda timidamente, na institucionalidade dos clubes. A batalha, portanto, está posta: ou os torcedores e aficionados reivindicam para si a construção de alternativas e se organizam em torno das pautas que lhes tocam, ou feneceremos frente ao Padrão FIFA, a grande mídia e as oligarquias.  Esperamos que, essa coluna, revezada com eles, seja também, ferramenta para o espraiamento de um futebol popular, acessível e democrático.

Frente Inter Antifascista

*originalmente postado no site do Repórter Popular, link