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20 de novembro: o que pensaria Zumbi do presidente Bolso

Por Jacques Alfonsin (originalmente publicado no Blog Direito Social, aqui)

Em 20 de novembro se recorda em todo o Brasil – algumas cidades até como feriado – o assassinato do negro Zumbi, líder do quilombo de Palmares, situado na Serra da Barriga, Estado de Alagoas, no dia 20 de novembro de 1695. Ali vivia multidão de negras/os fugidas/os da escravidão, numa época em que essa condição de vida e sujeição, para a população negra, recebia apoio da própria lei.

Na linguagem africana ioruba, quilombo significa habitação (!), como adverte um opúsculo da Cehila, “A historia dos africanos na América Latina”, publicado pela Vozes em 1988. Desde a escravidão, portanto, a liberdade dos negros simplesmente para exercerem o direito de livremente morar em uma casa, já contava com a oposição branca, a mesma publicação concluindo com amargura: “Até hoje os bairros populares das grandes cidades latino-americanas mantêm essa função de proteger os que são perseguidos pelas leis dos brancos senhores.”

Não se tem como deixar – se de identificar a multidão negra e pobre das favelas de hoje nesta conclusão, vítimas das ações judiciais possessórias de expulsão e repressão.

É o que surpreende em algumas opiniões do novo presidente do Brasil sobre as/os quilombolas, reiteradas desde que exercia o seu mandato de deputado e mesmo depois, já em campanha eleitoral. De tão grosseiras e debochadas, já levaram-no a uma condenação por danos morais à comunidade quilombola e negras/os, como a rede TVT vem mostrando por meio do You tube, desde 3 outubro de 2017.

Ele foi absolvido da acusação de racismo, posteriormente, por um recurso ajuizado pela sua defesa. O site da revista Exame, porém, em publicação datada de 13 de julho deste ano de 2018, repete algumas das afirmações feitas pelo agora presidente do Brasil:

“Eu fui em um quilombo em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”, afirmou o deputado. Bolsonaro disse ainda que os quilombolas da comunidade “não fazem nada” e “nem para procriador eles servem mais”.

Como o novo presidente costuma incentivar também o uso das armas, seu nome se presta para uma comparação, diante desses acréscimos notoriamente incompatíveis com a condução política do Poder Executivo do país para o qual foi eleito. Bolso é uma utilidade do nosso vestuário próprio para cada pessoa levar consigo qualquer coisa que se considere necessária para ser usada em tempo e lugar onde a gente se encontre. No caso do presidente, a arma parece ser de primeira necessidade e, pela sugestão do gesto que ele sempre faz abrindo a mão com os dedos polegar e indicador em riste, apontando para qualquer direção, ela deve ficar bem a essa mão de ser usada. Mesmo por pequena e disfarçada que possa ficar num bolso.

O Brasil vai ser presidido, portanto, por um bolso de políticas públicas que, até agora, já tomou posição bem visível e perversa. Um branco, como é o nosso caso, quase certamente não tem como refletir fielmente o que um negro libertário como Zumbi, se vivo fosse, hoje honrado como herói, pensaria do presidente Bolso, que leva no bolso da sua alma sentimentos tão baixos, preconceituosos, próprios de uma desumanidade orgulhosa de torna-los públicos, hostilizando, ofendendo e humilhando uma população inteira de gente pobre e negra.

Tudo faz crer que os bolsos armados e cheios de ódio da bancada ruralista contra indígenas e quilombolas, vão ficar muito mais cheios de dinheiro, assim como os das transnacionais que vendem os venenos da terra e da gente da terra, esbulham áreas indígenas e quilombolas, avançam sobre o que ainda nos resta de espaços físicos de liberdade desse povo pobre, tudo quanto ainda abriga a água pura dos nossos aquíferos. O muito que o nosso Código Florestal já concedeu, também, para a dizimação das nossas florestas vai seguir o mesmo destino.

Essa munição antipopular tem poder explosivo severamente oposto aos direitos sociais e ambientais, prevenindo que vai ser carregada no bolso das políticas públicas que vêm por aí. Todo o acervo legal, arduamente conquistado no passado em defesa dos direitos do povo quilombola e indígena do Brasil, se não for revogado por futuros projetos do presidente Bolso, encaminhados a um Congresso servil, vai ser muito bem vigiado e guardado em outro bolso: o do poder político-jurídico do Judiciário. Essa possibilidade está prevista pela escolha de um juiz para o Ministério da Justiça.

À vista do deboche que o presidente Bolso faz das/os quilombolas, esse povo que se prepare para resistir, como Zumbi resistiu. Os novos quilombos onde vive hoje certamente não vão contar com qualquer apoio de quem foi eleito para – aí a hipocrisia dessa falsa democracia que nos é impingida – defender os seus direitos sociais, entre eles, exatamente o do quilombo-habitação.

Pode servir-lhes de balisa para sua rebeldia cidadã aquela sempre lembrada advertência de Marilena Chauí sobre como se deve enfrentar a acusação que pesa sobre o povo pobre de ser ele mesmo o responsável pelas sucessivas “crises” sob as quais o país vive periodicamente. Do jeito mesmo que o poder econômico-político do tempo de Zumbi, diferenças de tempo e lugar a parte evidentemente, fez com ele e seus seguidores :

“Uma crise nunca é entendida como resultado de contradições latentes que se tornam manifestas pelo processo histórico e que precisam ser trabalhadas social e politicamente. A crise é sempre convertida no fantasma da crise (grifos da autora), irrupção inexplicável e repentina da irracionalidade, ameaçando a ordem social e política. Caos. Perigo. Contra a “irracionalidade”, a classe dominante apela para técnicas racionalizadoras (a célebre modernização”), as tecnologias parecendo dotadas de fantástico poder reordenador e racionalizador. Contra o “perigo”, representado sempre pela manifestação explícita das classes populares, os dominantes partem em busca dos agentes “responsáveis pela subversão”, isto é, iniciam a caça às bruxas que ameaçam a “paz nacional” e a “união da família brasileira”. Finalmente, contra o “caos”, a classe dominante invoca a necessidade de “salvação nacional”. A “união da família brasileira” (isto é, um elemento de espaço privado definido como elemento central do espaço público) e a “salvação nacional” conduzem, via de regra, à “pacificação nacional”, isto é, aos golpes de Estado e às ditaduras (velhas ou “novas”). Numa palavra, a preservação do que poderia ser público e contraditório se faz negativamente por redução ao privado (a “família brasileira”) e à indivisão (a “pacificação nacional”). Como se observa, o autoritarismo político se organiza no interior da sociedade e através da ideologia; não é exceção nem é mero regime governamental, mas a regra e expressão das relações sociais”. (“Conformismo e resistência. Aspectos da cultura popular no Brasil”, Brasiliense: 1986, p. 60/61)

A consciência negra dos seguidores de Zumbi sabem disso. Não esconderá no bolso, como faz o presidente Bolso, qualquer conformismo com a sua estratégia de administração pública, fielmente retratada nesse aviso antecipado de Chauí. Ética, jurídica e politicamente, vai se inspirar na resistência daquele negro herói, vai ser digna do sangue que ele derramou generosamente em defesa de seu povo, não permitindo confundir-se a liberdade como um favor ou licença de branco.

MAIS QUE UM JOGO – Os ataques racistas contra Fabiano Baldasso

Em tempo de disseminação de notícias e boatos através das redes sociais, recebemos fotos do CTG Sentinelas do Pago, na cidade de Marau, que no último dia 16 recebeu um evento consular do Internacional com a presença do comunicador Fernando Baldasso.

Muito embora consideremos o que o Baldasso faz há anos peça de propaganda através de polêmicas de baixa qualidade, e portanto passe longe de jornalismo, repudiamos veementemente este ataque a sua figura no sintomático xingamento “Macaco Puto” que consegue tristemente a façanha de ser uma ofensa racista e homofóbica ao mesmo tempo.

Não importa a lenda, estória ou origem mítica que de algum modo faria com que chamar de “macaco” os torcedores e torcedoras do nosso rival Internacional (que “magicamente” neste caso em especial) não teria conotação racista porque em qualquer lugar do mundo, chamar alguém de “macaco” é e sempre será racismo.

Infelizmente, temos que reafirmar o óbvio um milhão de vezes: macaco é um xingamento racista, não importa a desculpa ou voltas que se dê para tentar legitimar o termo.

Assim como “puto” não é folclore do futebol, mas reafirmação da homofobia arraigada em nossas sociedades e em nossas cabeças.

Após o ato de vandalismo, os responsáveis pelo evento colorado cobriram as mensagens com bandeiras do clube. O caso foi registrado na Delegacia de Pronto Atendimento que investigará o caso. O Consulado do Grêmio em Marau emitiu nota de repúdio e classificou a atitude como não representativa do torcedor tricolor, que “preza pelo respeito acima de qualquer rivalidade”, além de colocar-se a disposição para prestar esclarecimentos.

Lamentamos o episódio porque amar o Grêmio passa longe de ser racista e homofóbico – mesmo que porventura isso se dê de modo inconsciente. Somos o clube de Lupicínio Rodrigues, Everaldo e da Coligay.

Respeitem nossa história, o Grêmio é do povo e o povo é diversidade.

Movimento Grêmio Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

Deus nos livre do deus do presidente

por Jacques Távora Alfonsin (originalmente publicado no Sul 21)

O presidente Jair Bolsonaro vem reafirmando, com muita ênfase, de que Deus está “acima de tudo”. Autoriza pensar-se que o seu governo vai se inspirar em Deus, alguém por ele conhecido, no qual ele acredita e pretende obedecer.

A história tem mostrado uma declaração desse tipo revelar-se muito perigosa. O risco se encontra em como se identifica Deus, onde e quando Ele se faz Presente e se manifesta, do que ama ou desgosta, que tipo de poder exerce, se esse poder deve ser aceito até pela pessoa que não acredita nem na sua existência.

Segundo os precários limites da nossa razão, dos nossos sentimentos herdados social e culturalmente, das influências a que estamos sujeitas/os, da nossa convicção de que só nós possuímos de fato a verdade sobre Ele e só nós não somos guiados por ideologia, é preciso reconhecer humildemente que a gente pode se enganar feio. O Deus que entendemos conhecer pessoalmente pode ser muito diferente do que se pensa e no lugar dele podemos estar erigindo um altar para outros até de forma inconsciente. Basta lembrar-se a devoção e a adoração que se presta ao dinheiro, ao mercado, ao partido, à ciência, às artes, às igrejas, às instituições, às leis, às autoridades, às modas, aos costumes, às ideologias, etc…

Queimar hereges já foi prática até da Igreja católica no passado, uma forma desgraçada de se impor um conhecimento e uma obediência a um deus que podia ser tudo menos deus. Foi em nome desse fervor purista de deus – do qual parece se sentir sacerdote, juiz e oficial de justiça o presidente – que se transformou Deus em carrasco e, em nome dele, todo o poder político da instituição religiosa aliada à romana e oficial da época, prendeu, processou e assassinou Jesus Cristo.

Caricaturas de Deus não faltam, portanto, e a chance de se auto afirmarem como divindade constitui uma tentação de difícil resistência, conforme o uso com que se possa contar com elas. Explorar a imagem de Deus para colocá-lo acima de tudo, como prega o presidente eleito, não está fácil saber a quem ele se refere. Pelo que está apresentando como futuras diretrizes do seu governo, está parecendo uma hábil manobra de colocar Deus completamente desencarnado da nossa história, um ausente que só aparece quando exercita a sua autoridade com violência punitiva. Uma estratégia de revelação oportunista e muito utilizada, por sinal, por toda/o a/o política/o só interessada/o em se aproximar do povo para melhor controla-lo por duas formas muito conhecidas: no atacado, torna-lo alheio às suas dores e sofrimentos, pois no céu será premiado por isso; no varejo, não permitir sua conscientização sobre as verdadeiras causas das injustiças que sofre, emburrecê-lo e aliená-lo de tal modo que a dominação sobre ele o sujeite resignado à fatalidade de sua condição humana de pobreza e miséria.

Um apoio extra terrestre assim, sobrenatural, envolto em mistério, um deus polícia, vigilante, rigoroso, armado de poder para “justificar” o uso da violência, serve bem para isso. Pelas metas das políticas públicas que o presidente tem publicado o seu deus tem manifestado preferências opostas a de outros entes adorados como deuses.

Se apenas Jesus Cristo, reconhecido como Deus por grande parte da humanidade, for comparado com o deus do presidente, a distância pode ser medida em anos luz. Desde a notória preferência dEste pelas/os pobres, puras/os, perseguidas/os, caluniadas/os, encarceradas/os, gente “com fome e sede de justiça”, manifestada nas famosas bem-aventuranças; desde as provas que servirão de base para um “juízo final” sobre a conduta de cada pessoa, não por sua riqueza, nem pela extensão de suas terras e sua autoridade, mas sim pelo bem que tiver feito à gente faminta, migrante sem lugar para se abrigar, doente ou aprisionada.

É essa multidão necessitada que o deus do presidente quer libertar e salvar? – Pelo contrário. Já deixou claro que “no que depender dele”, essa porção de povo vai é sofrer o peso da sua autoridade. O direito de se armar, inclusive para matar, ao qual se refere com frequência alarmante, passa por aí, mesmo contra o que ordena a Constituição Federal. Abre mais ainda a porta para aquela espécie de aplicação da lei, como acontece muito frequentemente até hoje, viciada por preconceitos históricos desde a sua origem, contra gente pobre. É uma porta antecipadamente impedida de juízo contrário às distorções que se introduzem na interpretação do ordenamento jurídico inteiro do país, para reduzi-lo à completa impotência de ser sequer cogitado quando, pelo menos na letra, sustenta direitos humanos fundamentais sociais, e contraria os reais fatores de poder de mando garantido, como os do capital e do mercado.

O deus segurança para apoiar esses dois, por mais que se disfarce, é mesmo o deus do presidente. Sua política de segurança pública pode chegar ao que já tinha sido previsto há muito tempo e a mídia noticia diariamente:

“A acumulação de capital resultante é realizada contra os outros e jamais pode ser transformada na segurança da vida de todos. A própria busca de tal segurança já romperia o elemento constituinte da sociedade burguesa.” {…} “Uns não podem dormir porque têm fome e os outros não podem dormir porque têm medo dos que têm fome.” (in “A idolatria do mercado”, Assmann, Hugo e Hinkelammert, Hans. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 454)

O deus do presidente, por tudo isso, se assemelha bastante ao dos escribas e fariseus hipócritas denunciados por Jesus Cristo, que “amarram fardos pesados e os colocam nas costas dos outros, mas eles mesmos não os ajudam, nem ao menos com um dedo, a carregar esses fardos. Tudo o que eles fazem é para serem vistos pelos outros.” (Evangelho de São Mateus, 23, 4-5).

Um deus dessa espécie hipócrita e farisaica precisa ser desmascarado. Quem tem fé convém não só rezar ao seu Deus que dele nos livre, mas trate de se mexer em caminhada e oposição contrária, pois se o primeiro não passa de um ídolo fiel ao ódio e à morte, qualquer Outro exige enfrentá-lo fiel ao Amor e à Vida.

*Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

MAIS QUE UM JOGO – O mascote que prega peças

Saci do Ziraldo, a cara do Inter

No dia 31 de outubro comemoramos o dia do Saci. É uma forma de lembramos das nossas lendas, do nosso folclore; em dias de halloween pra todos os lados, celebrar o Saci é celebrar a memória de uma brasilidade que vemos se esvair nem tão lentamente assim.

O Saci é o mascote do Inter. Esse fato é cheio de significados. O Inter tem uma história ligada às camadas mais populares da população portoalegrense, desde sua fundação, quando seu campo de treinos e jogos estava em meio às comunidades negras da cidade. Isso foi um dos motivos centrais da imensa popularidade do Clube, já que muitas das pessoas que moravam por ali paravam para ver e se afeiçoavam pelo esporte e pelo time. A ligação com o Saci tem seus primeiros registros ainda na década de 40, quando da formação do Rolo Compressor, time cheio de jogadores negros e que pregava peças nos adversários, tal qual o mítico personagem. Nessa época o Inter era conhecido como o Clube dos Negrinhos. Também é dessa época a incorporação de elementos do carnaval nas nossas arquibancadas. Trabalho do também lendário Vicente Rao, era motivo de chacota por parte dos rivais. Era coisa de crioulo, diziam eles.

Nossa história segue e o Saci é incorporado definitivamente através da arte do genial Ziraldo, em uma série de desenhos retratando os mascotes dos grandes clubes brasileiros. Era mais uma mostra do quanto o Inter era do povo.

Saci branco nunca mais!

Recentemente tivemos alguns criativos dirigentes que quiseram acabar com essa história. Os motivos seriam que o Saci tem uma perna só e ainda por cima levava um cachimbo. Desconfio que a verdadeira natureza dessa problema reside na cor do mascote. Em 2016, a RBS colocou o famoso saci branco bombado, para ilustrar a comemoração do título gaúcho daquele ano. Pegou muito mal. Ainda bem!! A resposta veio forte e o Conselho do Clube, por iniciativa do Movimento Povo do Clube, incluiu o Saci no estatuto do Inter. Ele é o Mascote oficial e ponto!

No mês onde celebramos a consciência negra no Brasil, nós, Colorados, celebramos também nosso mascote, uma figura lendária que é um amálgama das culturas que aqui se encontraram. Para nós significa nossa identidade. O saci é negro, com uma perna só, alegre, participativo, um símbolo de onde viemos e do que queremos ser para sempre!

Frente Inter Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

É urgente mobilizar alternativas contra um governo violento.

“Está aberta a possibilidade de o Brasil passar a viver sob um governo extraordinariamente violento”. (Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil)

Jacques Távora Alfonsin (originalmente publicado aqui)

Quando a ditadura imposta ao país pelo golpe militar de 1964 já dava sinais de esgotamento, em consequência de sua crescente desmoralização, desprestígio interno e externo, há notícia de o general Figueiredo, o último dos presidentes daquele período histórico, ter dito “eu prendo e arrebento”. Era uma dura resposta a um interlocutor que o inquiriu sobre se a retomada da democracia, então reivindicada fortemente pelo povo, interromperia, enfim, aquele regime de exceção. Com esta ênfase, pretendia ele demonstrar a sua disposição de garantir essa volta à “normalidade”…

Jair Bolsonaro, pelo que tem dito e feito, faz apologia pública desse tipo de autoridade, quando elogia o golpe de 1964, o modelo de governo que os militares impuseram ao Brasil, e quando lembrou um conhecido torturador daquela época, Carlos Alberto brilhante Ulstra, ao dar o seu voto favorável ao impeachment da presidenta Dilma.

Eleito, está revelando ao que veio, ao estilo de Figueiredo. No que depender dele, como vem reafirmando a toda hora, “não tem mais demarcação de terra indígena”, “é favorável à posse de arma”, está “inspirado em alguns estados dos Estados Unidos para, “em havendo uma invasão, ter direito a atirar no invasor”, certamente se referindo a defesa das/os latifundiários; sobre as superlotações dos presídios disse que a cadeia, “se tiver recursos, você amplia”. “Se não tiver recursos, amontoa.” “…vai botando para dentro.” “Se não tiver recursos, lamento. Você vai ter de amontoar esses caras lá.” Sobre a possibilidade de alunas/os gravarem as aulas de suas/seus professoras/es “o professor tem de se orgulhar disso aí. Só o mau professor se preocupa com isso aí.” (Entrevista a Band TV, concedida ao Datena, e transcrita na ZH de 6 deste novembro).

Embora essas afirmações possam ser enquadradas como ilegais e, inclusive, inconstitucionais, dentro ou fora de cada contexto, isso não preocupa o presidente eleito, porque elas contam com uma aprovação entusiasmada de quem votou nele. A defesa dos direitos humanos fundamentais sociais, direta ou indiretamente hostilizada por essas promessas “públicas” (?), conta com essa maioria, seja porque ela tem medo, sente-se ameaçada, só vê e ouve notícia ruim, seja por ignorância ou indiferença para com o grande número de vítimas potenciais dos propósitos que o presidente manifesta.

Está aberta a possibilidade de o Brasil passar a viver sob um governo extraordinariamente violento, baseado na presunção de culpa e não de inocência. Será suficiente alguma suspeita para incriminar qualquer pessoa, tudo aquilo com que sonha, enfim, o abuso de autoridade. Se isso já acontece agora de maneira disfarçada, pode vir a público como se fosse virtude pública.

O extermínio do povo indígena, da forma como o país sabe se verificar desde a chegada dos portugueses por aqui, se já acontecia com a invasão das suas terras, vai contar agora com um apoio oficial para eliminar a fraquíssima capacidade de defesa com que ele conta. O direito de se generalizar a possibilidade de utilização de armas de forma indiscriminada vai multiplicar os riscos inerentes ao desvio costumeiro que já se faz delas. Nem se pode descartar o incremento que essa medida vai proporcionar ao crime organizado, já que este – as ocorrências policiais o comprovam – tem no roubo de armas, uma das modalidades mais empregadas para arranja-las de graça.

O direito de matar, em nome da propriedade da terra, ainda mais tomando como exemplo os Estados Unidos, sabidamente um dos países mais violentos do mundo, vai repetir os massacres classistas e racistas lá ocorridos com frequência, matando gente pobre, negra, inocente, em escolas, igrejas, reuniões massivas de povo. Os protestos públicos que reúnem multidões de sem-terra e de sem-teto, nos conflitos que a CPT e outras organizações populares denunciam todos os anos aqui no Brasil, vão ser reprimidos a bala e com violência redobrada.

Amontoar presas/os, como se faz com o gado, vai nos fazer retornar à idade média, quando a pena e o castigo não tinham outra função que não a de favorecer a vingança, humilhar e maltratar. Estimular estudantes a dedurar professoras/es, então, é uma trágica imitação do que as ditaduras deixaram atrás de si, como uma das mais trágicas fases da história da humanidade. Qualquer aluna/o, adolescente ou universitária/o, indisposta/o contra professoras/es, por qualquer razão, poderá exercer o seu poder de censura, até inventando o que possa ser considerado docência puramente ideológica ou partidária, para leva-las/os à delegacia de polícia. Vem aí um novo DOPS.

A defesa dos direitos agora já em vias de serem sacrificados, por tudo isso, é de uma urgência inadiável, embora pareça impossível tal o rumo que a paranoia coletiva, apoiado nesta liderança, vem tomando. É em momentos como esse, não obstante, que a coragem de resistir necessita unir todas/os as/os brasileiras/os contrárias/os à poderosa maré autoritária e arbitrária ora tomando impulso.

A segurança, não há quem negue, é um direito humano fundamental individual e social merecedor de todo o respeito. Na medida em que os valores da sua defesa e proteção são absolutizados, todavia, ela se transforma em fetiche e fetiche, como se sabe, escapa facilmente de qualquer racionalidade ou razoabilidade.

Do modo como o presidente está lidando com ele, o pretexto de defender algumas pessoas, pode licenciar até a morte de outras. Sobre esse efeito perverso, Franz Hinkellammert escreveu “As armas ideológicas da morte” em 1981 (traduzido para o português em 1983 pela editora Paulinas), advertindo:

“No processo de sua absolutização, os valores se invertem. O “não matarás” se inverte em “deixa morrer”. O “não roubarás” se inverte em “deixa o homem morrer, explorando-o”. A absolutização do valor é a exigência da morte do homem para que viva o valor. O valor se transforma na expressão de um fetiche”…{…} “A destruição dos fetiches é, portanto, ao mesmo tempo a destruição da absolutização dos valores. É recuperação da liberdade humana para ir gerando valores que correspondem à vida humana real. Isso significa declarar os valores como dependentes em última instância da produção e reprodução da vida real.” (páginas 334/5).

Do jeito que o presidente interpreta os valores da segurança, bastando para isso lembrar-se o que diz sobre as/os indígenas e sobre a propriedade, ele absolutiza um fetiche, um ídolo ao qual deve ser oferecida em sacrifício a vida e a reprodução real desse direito de todas as pessoas que possam ser vítimas das políticas públicas que ele pretende administrar sobre o povo indígena e o direito de propriedade.

Justamente por parecer impossível oferecer-se resistência contra essa acentuação do (des)governo sob o qual o país está vivendo desde 2016, que a urgência de se colocá-la em ação concreta impõe-se necessária. É o que os movimentos populares, a aglutinação de poder ético e político contrário a tal (des)mando podem oferecer, em defesa dos direitos sociais, sem concessão de espaço ao divisionismo e à vaidade, pelo lado da sua organização ativa, e sem trégua ao arbítrio oficial, ainda que disfarçado de democracia, pelo lado do governo. O Brasil é republica e não império.