Arquivo da categoria: Coluna

MAIS QUE UM JOGO – Política e futebol: o caso da elitização dos estádios

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Hoje quem faz a sua estreia é a frente colorada!

Política e futebol: o caso da elitização dos estádios

O futebol que foi, historicamente, um palco de e para as massas, vem cada vez mais sendo alvo das transformações que a lógica de acumulação do capital induz a tudo aquilo sob o qual se projeta. Esse processo acontece a passos largos especialmente no futebol brasileiro, desde um passado recente. E, nesse contexto, se faz necessária a organização de uma resistência frente a todas as consequências dessas mudanças, chamadas de “modernização” pelos desinformados ou mal-intencionados.

Até os anos 90, os estádios de futebol no Brasil eram ocupados pelo povo e era ambiente de festa. O nosso país, marcado historicamente pelas desigualdades sociais, era representado nas arquibancadas por todas as diferentes classes sociais. Um grande exemplo disto era o setor popular, a famosa “Coréia” do Beira-Rio, onde o valor do ingresso era meramente simbólico, quando não gratuito. A partir dos anos 2000, um processo de elitização no futebol brasileiro se instalou de forma definitiva. O Estatuto do Torcedor, Lei criada com a finalidade de proteger os direitos dos torcedores, foi utilizada até agora de maneira muito mais frequente para criminalizar e restringir o acesso de um segmento bem específico das torcidas: as torcidas organizadas e os torcedores mais pobres. Por proibir que sejam vendidos ingressos sem a possibilidade de assistir aos jogos sentado, acabou decretando o fim da Coréia e impondo um novo padrão, uma nova forma do próprio clube se relacionar com sua torcida, através do “torcedor-cliente” – a reificação do ato de torcer.

Esse processo atingiu seu ápice com a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Sob o pretexto de exigência da FIFA para a realização do torneio, os rudimentares estádios se transformaram em arenas luxuosas e repletas de cadeiras e gigantescos telões.  Para tal, maciços investimentos foram realizados, principalmente por grandes construtoras, o que modificou a dinâmica do próprio negócio futebol pois os novos estádios precisavam ser rentáveis para fazer jus às inversões realizadas. Resultado disso: ingressos caros à grande maioria e seleção de público, de forma a excluir os que não tem renda suficiente – os que não podem “consumir”. Assim, pela imposição de uma gestão capitalista, exclui-se uma grande parcela dos torcedores de participar e incentivar seu time. A esse processo tem se denominado elitização do futebol.

Mas como a história é feita pelas classes em contradição, um avanço em favor da lógica do capital não viria sem resistência: o que vemos é a proliferação de movimentos, torcidas, frentes contra esse modelo imposto. Movimentos que reivindicam uma maior diversidade na arquibancada, preços mais baixos – tanto para os ingressos como para as associações –, maior liberdade para torcer, dentre outras pautas, estão presente em quase todos os grandes clubes e seguem avançando nas arquibancadas e, mesmo que ainda timidamente, na institucionalidade dos clubes. A batalha, portanto, está posta: ou os torcedores e aficionados reivindicam para si a construção de alternativas e se organizam em torno das pautas que lhes tocam, ou feneceremos frente ao Padrão FIFA, a grande mídia e as oligarquias.  Esperamos que, essa coluna, revezada com eles, seja também, ferramenta para o espraiamento de um futebol popular, acessível e democrático.

Frente Inter Antifascista

*originalmente postado no site do Repórter Popular, link

A campanha eleitoral está com medo de discutir direitos sociais

Reformas urgentes e necessárias, como a política, a tributária e a agrária não têm o merecido destaque na atual campanha eleitoral

Nenhuma campanha eleitoral, então, pode servir de álibi para castrar dos direitos sociais. (Foto: Luis Macedo / Câmara dos Deputados)

Por Jacques Távora Alfonsin

As conquistas dos direitos sociais no Brasil, até as leis onde eles conseguiram previsão expressa, sempre foram marcadas por duas características históricas: uma forte pressão popular em sua motivação e defesa, marcada por sacrifícios multitudinários de trabalhadoras/es rurais e urbanas/os e outra bem mais forte de oposição jurídico-política do poder econômico e financeiro, tanto o sediado aqui como o de fora. O poder privado organizado em confederações de empresários sempre tratou de ocupar os três poderes do Estado, com presença capaz de comando, quando não pela formulação direta das leis, apoiada por presença majoritária no Poder legislativo, pela manipulação garantida ou comprada de aplicação daquelas, mesmo vigentes, que contrariem os seus interesses. Quando uma ameaça passe a oferecer risco de serem contrariados ou diminuídos na sua força de imposição, o golpe de estado, sempre à sua mão, ou recorre à violência militar, como em 1964, ou à uma “legalidade arranjada”, como em 2016, que aparentou cumprir uma Constituição vigente, mas fingiu não existir tudo quanto nela pudesse desautorizar o impeachment.

A nossa democracia, portanto, exagera no mau gosto de maquiar demais o seu poder de sedução, sendo uma das principais provas disso o modo como trata os direitos sociais. A campanha eleitoral deste ano ofereceria aos partidos políticos e suas/seus candidatas/os uma extraordinária chance de se posicionarem sobre as contradições hoje presentes num regime como esse, de tão pouco respeito para com a participação popular efetiva sobre o que ele apelida de governo, cuja origem, admita-se ou não, elas teimam em mostrar que qualquer crise constitucional, aqui, é suficiente para recrudescer a velha luta de classes. Salvo melhor juízo, a propaganda política, divulgada na campanha deste ano, não está achando conveniente enfrentar esse problema, está mostrando muito mais medo de perder votos do que coragem de conquista-los e isso ao custo de concessões dos programas partidários a alianças com tanta afinidade como as existentes entre o gambá e a galinha. Em nome de uma futura e hipotética “governabilidade”, prefere mentir, não vai fazer o contrário daquilo que a propaganda afirma. Para não magoar ninguém, com poucas exceções, considera um despiste dessa espécie indispensável, um bom jogo de cintura para se garantir vitória nas eleições.

Assim, se a realização dos direitos sociais só pode ser garantida com justiça social, e essa não se verifica quando as necessidades humanas que os justificam e legitimam não passam da previsão em lei sem efeito na vida das pessoas, as causas dessa incapacidade e as condições da possibilidade de enfrentá-las e vencê-las é que deveriam estar ocupando com prioridade os debates das/os candidatas/os. Que essa injustiça não interesse àquelas/es integrantes dos partidos cúmplices do golpe institucional que impôs ao país o atual (des)governo não e de se estranhar, mas escamoteada até por quem se afirma de oposição é difícil de entender. Reformas das mais urgentes e necessárias, como a política, a tributária e a agrária, por exemplo, essenciais para garantir o acesso do povo ao exercício efetivo desses direitos, não têm merecido o destaque que mereceriam na atual campanha eleitoral. Quando isso chega a acontecer, vem enrolado num tipo de discurso ambíguo, hesitante, cheio daqueles truques próprios das generalidades suficientes para facilitar fugas posteriores do tipo “não fui bem compreendida/o”, assim mais aumentando do que respondendo as dúvidas do eleitorado.

Comportada nesse tipo de conduta, a propaganda eleitoral imita a publicidade enganosa, não deixa claro o porque, o quando e o como as necessidades humanas inerentes aos direitos sociais receberão reconhecimento, respeito, efetiva satisfação. Há uma “ética da necessidade” legitimando direitos humanos fundamentais sociais cuja urgência de atenção e atendimento acaba desconsiderada nesse modo político de prorrogação indefinida. Em 2004, a professora de filosofia política Cecilia Maria Pires publicou, pela editora da Unisinos, um estudo sobre “Ética da necessidade e outros desafios”, no qual se retrata com precisão a inadiável urgência de se enfrentar os desafios das necessidades humanas sem fazer das “definições normativas” uma barragem capaz de prorrogar indefinidamente a sua satisfação: “É uma ética que se pauta por valores de urgência social, que não tem o tempo da vida e da sobrevivência para se envolver com a formalidade, com o regramento convencional.

Postulo a ideia de que, nesse comportamento do excluído social, há valores desconsiderados pelas definições normativas, de bases universalistas ou discursivas”. “(…)Para que se compreenda a ética como uma experiência dos humanos, nem sempre conformados aos quadros lógicos dos imperativos categóricos”. “Esse imaginário caótico que identifico me induz a postular o conceito de ética da necessidade. Esse imaginário se apresenta reduzido às circunstâncias de falta, cujo pressuposto são a imanência, a imediatidade, a percepção de que há um corpo-consciência faminto, excluído da vida boa e justa e excluído da vida feliz” (p. 27).

Nenhuma campanha eleitoral, então, pode servir de álibi para castrar dos direitos sociais o poder que eles ainda conservem de garantir o respeito devido à ética da necessidade. Daí a urgência de se dedicar, com a coragem pressuposta para isso, a atenção e o cuidado indispensáveis sobre outra necessidade atual: o eleitorado do país não contribuir, por seu voto, com a cumplicidade daqueles partidos e candidatas/os interessadas/os em fazer das eleições o instrumento capaz de impedir qualquer efeito àquela ética. É o medo que as/os inspira, o medo de serem descobertos os reais motivos de disputarem o poder apenas pelo poder, uma forma de um estado de exceção permanecer mandando sob a aparência de democracia, o bem privado de poucas/os fingir que serve ao bem comum do povo. Disso o Brasil está farto e as próximas eleições podem nos livrar dessa indigestão.

MAIS QUE UM JOGO – Respeito aos adversários no futebol para combater o fascismo

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Que a bola comece a rolar!

Respeito aos adversários no futebol para combater o fascismo

Recentemente, o DCE da UFRGS promoveu um encontro entre Grêmio Antifascista, Tribuna 77, Inter Antifascista e O Povo do Clube. O tema da conversa e troca de experiência foi a mercantilização do futebol e como resistir, em meio à dominante lógica do capitalismo sob o neoliberalismo que propõe gerir todos âmbitos da vida, da família ao estado, perante a perspectiva empresarial do superávit e extração de valor de todas relações.

Há um âmbito ético-simbólico neste encontro que ressaltaremos neste nosso debut na coluna: o rival enquanto adversário e não inimigo. Encontrarmo-nos novamente com coletivos do Internacional é uma afirmação ética de todas as partes nas quais não renunciamos nossa rivalidade, mas sim nos recusamos a odiar um ao outro.

Reunião entre torcidas da dupla GRENAL no DCE da UFRGS

Em tempos de conservadorismo crescente e grande projeção de determinado candidato neofascista à presidência da República, conviver e tratar o outro com respeito em sua diferença é um ato político e neste sentido afirmamos nossa percepção do que é fascismo.

Para além do fascismo institucionalizado por estados autoritários, acreditamos que há dispositivos fascistas no plano micro, ou seja, fascismos que dizem respeito à formação de valores e perspectivas subjetivas em cada sujeito (algo que o filósofo Gilles Deleuze e o psicanalista/esquizoanalista Félix Guattari denominaram microfascismo). Os microfascismos são processos que tornam a diferença algo a ser negada: no plano do futebol, o rival deixa de ser visto como adversário – estímulo para o crescimento de si – para tornar-se inimigo a ser eliminado.

Microfascismos operam na criação de relações binárias do tipo nós x eles, onde cada grupo possui características essenciais e universais, por exemplo: “todos os gremistas são racistas” e “todos colorados são homofóbicos”. Estes exemplos não buscam negar que essas práticas tristemente aconteçam entre torcedores de ambos os clubes, o que negamos é que seja característica universal e comum a todos gremistas e colorados serem respectivamente racistas e homofóbicos.

Afirmamos que o antifascismo é uma pauta acima de clubismos, e encontrarmos os rivais para trocar experiências e construir ideias e perspectivas já é em si um modo de combater o fascismo em sua modulação clubista. Por isso, saudamos todas e todos que compreendem que o inimigo não está só nas estruturas do estado e seus autoritarismos, mas também dentro de nós.

Antifascistas do mundo, uni-vos!

Movimento Grêmio Antifascista

*originalmente publicado no site Repórter Popular, link

A greve de fome e a ONU tratadas como “cada macaco no seu galho”

Por Jacques Alfonsin

“Num ambiente política e juridicamente viciado como o Brasil está presenciando, a legitimidade dessa greve de fome já provou, por tudo isso, a sua oportuna razão de ser. É uma bem aventurada fome de justiça, que serve também para denunciar de forma heroica a outra, material, a de pão, que a partir de 2016 (!) voltou a roer o corpo de milhões de brasileiras/os pobres num Brasil que já tinha saído do mapa da fome”, adverte Jacques Távora Alfonsin, procurador aposentado do estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos.

Eis o artigo.

Quando um grupo de pessoas chega ao ponto de privar-se da comida por mais de três semanas, o risco de perderem a vida em defesa dos direitos pelos quais jejuam, torna-se iminente. Esse risco foi assumido por 5 brasileiros e duas brasileiras que se mantiveram em greve de fome.

Frei Sergio Goergen e Rafaela Alves, do Movimento dos Pequenos Agricultores(MPA); Luiz Gonzaga, o Gegê, da Central dos Movimentos Populares (CMP); Jaime AmorimZonália Santos e Vilmar Pacífico, todos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); e Leonardo Soares, militante doLevante Popular da Juventude, alguns chegaram a perder mais de 10 nos dias da greve sem se alimentar, conforme algumas notícias circulando pela internet. E por mais estranho que pareça, o seu protesto pleiteava fosse respeitado o mais elementar direito de as/os eleitoras/es de todo o país saberem se, afinal de contas, o Supremo Tribunal Federal vai, ou não, julgar o que tiver de julgar, das ações que ali tramitam, sobre se Lula deve ou não
ser posto em liberdade antes das eleições de outubro.

Nada fora, portanto, do tão lembrado devido processo legal. Com o agravante de que o candidato com chance de vencer as eleições até em primeiro turno, como já apontam pesquisas eleitorais, sofrer um dano irreparável – ele e as/os milhões que nele votariam – nos direitos próprios dessa possibilidade, invocados naquelas ações.

Supremo (STF) já julgou constitucional a prisão de uma pessoa condenada em segunda instância (tribunal), ainda no caso de ela ter arrazoado recurso legalmente cabível e contrário a tal decisão. Em linguagem jurídica ainda não ter ocorrido, portanto, a chamada “coisa julgada”, como a própria Constituição Federal (artigo 5º, LVII)) e o Código de Processo Penal (artigo 283) preveem. Uma das ações diretas de constitucionalidade (ADC), por exemplo, contraria este precedente, foi ajuizada no STF pelo Partido comunista do Brasil. Tramita sob nº 54 e pode ser acessado o seu andamento no site deste Tribunal. Ela pleiteia a mudança do entendimento anterior do Tribunal, fazendo valer a Constituição vigente, ou seja, reconhecido como de direito Lula poder responder em liberdade o julgamento do recurso que sua defesa interpôs contrário à condenação a ele imposta pelo Tribunal Regional Eleitoral da 4ª Região da qual decorreu a sua prisão.

Colocar na pauta de julgamento este processo ADC 54, então, só depende de um despacho da presidenta do STF, ministra Carmen Lucia. Se isso pudesse parecer inútil para ela ou para todo o Tribunal, diante do que o mesmo já decidiu anteriormente, nem os grevistas nem ela imaginariam que um fato novo apareceria suficiente para mudar todos os efeitos já considerados irreversíveis, aparentemente, para essa prisão e até para a candidatura do ex-presidente.

No dia 17 deste agosto o site 247 publicou: “O Comitê de Direitos Humanos daONU acaba de se pronunciar oficialmente e afirma que Lula tem direito de ser candidato a presidente. A ONU determinou ao Estado Brasileiro que “tome todas as medidas necessárias para permitir que o autor [Lula] desfrute e exercite seus direitos políticos da prisão como candidato nas eleições presidenciais de 2018, incluindo acesso apropriado à imprensa e a membros de seu partido politico” e, também, para “não impedir que o autor [Lula] concorra nas eleições presidenciais de 2018 até que todos os recursos pendentes de revisão contra sua condenação sejam completados em um procedimento justo e que a condenação seja final”.

Esse julgamento tem uma força jurídico-política extraordinária para aumentar a pressão sobre o Supremo no sentido de a última instância judicial do país não privar o seu eleitorado todo, sequer, de saber em quem mesmo deverá votar, com a certeza e a segurança indispensáveis para isso. Uma vitória espetacular de 7 brasileiras/os em greve de fome por justiça.

O Ministro Alexandre de Moraes, todavia, segundo noticiou o Globo dia 21 deste agosto, ouvido sobre o que, em linguagem técnico-jurídica é conhecido como “efeito vinculante” do julgado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU implicando
a obrigação jurídica de o Brasil respeitar a candidatura do ex-presidente Lula, deixou clara sua opinião contrária, até em tom de deboche: “Como diria a minha avó – cada macaco no seu galho” – {…} “não tem efetividade jurídica alguma.”

A resposta veio dura no dia seguinte, de acordo com a Rede Brasil Atual (RBA). O embaixador e ex-secretário geral do Itamaraty Samuel Pinheiro Guimarães disparou: “O ministro Alexandre de Moraes não é pessoa qualificada para integrar o STF. Inclusive, por dar declarações fora dos autos. Aliás, não está ele sozinho nessa atitude.” “Há um protocolo, um convênio sobre direitos civis e políticos que foi aprovado pelo Congresso Nacional, com relatório do deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), muito elogioso, inclusive criticando o governo à época em que foi aprovado por não ter tomado as providências antes. E foi aprovado por congressistas de todos os partidos.” “Guimarães faz referência à aprovação, em 2009, do Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, que tramitou pelas comissões de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, de Direitos Humanos e Minorias e de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos DeputadosHauly foi relator na Comissão de Relações Exteriores.”

Não se trata de uma simples recomendação do Comitê da ONU, como algumas vozes inclusive do primeiro escalão do (des)governo do Brasil alardeiam, abrindo espaço para ser aceita ou não e o perigo agora está em que a ignorância do Ministro Alexandre de Moraes sobre o efeito vinculante da determinação do Conselho de direitos humanos da ONU possa ser partilhada pelas/os demais ministras/os do STF. Ao repetir o ditado da sua avó, porém, mandando cada macaco para o seu galho, o ministro não se deu conta que acabou colocando a ele e a todas/as ministras dependuradas/os nesse galho como se todas/os fossem macacos.

Uma imagem tão infeliz como essa é lícito esperar-se que a impropriedade do seu juízo morra por aí, sem influir em mais ninguém. De quebra, o julgado pelo Conselho da ONU serviu para confirmar a legalidade e a constitucionalidade do despacho dado pelo juiz gaúcho Rogerio Favretto, que já tinha concedido habeas corpus ao Lula, sob razões similares ao da organização internacional. Sua coragem, diante do poder da onda habilmente criada pelo poderoso vozerio midiático e até de parte do Judiciário, sustentando inexistir mais qualquer possibilidade de reconhecimento de presunção de inocência de condenadas/os em segunda instância que tenham ajuizado recurso, recebeu apoio de, nada menos, que uma Organização internacional para exigir o contrário.

Deixa mudos os despachos judiciais posteriores que o desautorizaram, os do presidente do TRF4Thompson Flores e do juiz Sergio Moro, bem como a avalanche de críticas que ele recebeu posteriormente de toda aquela fração do poder público e privado servil à tese de se impedir a qualquer custo a candidatura do ex-presidente.

Num ambiente política e juridicamente viciado como o Brasil está presenciando, a legitimidade dessa greve de fome já provou, por tudo isso, a sua oportuna razão de ser. É uma bem aventurada fome de justiça, que serve também para denunciar de forma heroica a outra, material, a de pão, que a partir de 2016 (!) voltou a roer o corpo de milhões de brasileiras/os pobres num Brasil que já tinha saído do mapa da fome. Uma e outra só podem ser saciadas se todas as garantias devidas aos direitos civis, garantes de voto, e sociais, como o da alimentação, que lhes servem de efetivo conteúdo se traduzirem efetivamente na vida das atuais vítimas do desrespeito crescente desses direitos por aqui.

Isso poderia começar com o Supremo ouvindo e atendendo o mandado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, e a justa e legal exigência dos grevistas.

A burguesia elitista revelou toda sua baixeza contra Manuela D’Avila


Por Jacques Alfonsin

Manuela D´Avila é comunista. Foi campeã de votos, tanto para exercer o mandato parlamentar na Câmara dos deputados quanto para a assembleia legislativa do Rio Grande do Sul. Por aliança do seu partido PCdoB com o PT, abriu mão da sua candidatura à presidência da República este ano para ser vice de Fernando Haddad nas eleições de outubro.

Com um currículo desta envergadura, há de se convir que toda a mulher com tais credenciais, somadas ao fato de que não pesa contra ela qualquer suspeita de corrupção política, seria muito bem acolhida em qualquer ambiente público ou privado, partido, associação, clube, ou mesmo grupo de pessoas que costumam se reunir informalmente por simples espírito fraterno de amizade. Não foi o que aconteceu com a Manuela.

Conforme escreveu Paulo Germano no caderno Doc. da Zero Hora de 11/12 deste agosto, sob o título “O naufrágio da tolerância”, Manuela, seu marido Duca lindecker, sua família, não podem continuar frequentando as dependências, nem gozando da condição de sócios do clube Veleiros do Sul em Porto Alegre, para a qual tinham sido convidados pelo próprio Comodoro da entidade. Tudo resultante de uma pressão exercida por um grupo de outros sócios sobre a direção do mesmo:

“O que pesou é serem comunistas – diz um sócio do Veleiros que pediu para não ser identificado – cada um no seu quadrado. Cada um que procure o grupo que melhor se enquadre nos seus valores. Ou alguém pensa que eu seria bem recebido no Partido Comunista?”

Em pleno século 21, num clube que reúne pessoas de classe média e rica, ainda existe gente portadora de “valores”, como o quadrado que falou isso, convencida de que um apartheid desse tipo se explica e justifica por diferenças ideológicas e, ou, partidárias. Pensar-se que a defesa enfática de uma segregação dessa espécie, um complexo de superioridade desse tipo, um preconceito viciado pelo sentimento de que a diferença de pensamento e ação das/os outras/os é sempre inferior à própria, a ignorância, a parvoíce e a imbecilidade que se revelam aí não são traços remanescentes de uma herança imoral que ainda viceja nesse meio, é um risco do qual a sociedade toda precisa se prevenir.

Mesmo que a iniciativa dos sócios do Veleiros, incomodados com a presença da Manuela e de sua família ali – ao ponto de terem ameaçado a direção do clube de agirem judicialmente se não fossem ouvidos – não conte com a unanimidade das/os outras/os sócias/os, como revela Paulo Germano, o incidente constrangeu de tal forma o casal que esse tratou de impedir os desdobramentos previsíveis de uma queixa absurda como essa. Retirou-se espontaneamente, Manuela, inclusive, em silencio, assim poupando amigos e amigas de se envolverem em sua defesa.

O problema maior, entretanto, reside no fato de transparecer um certo orgulho na voz daquele sócio denunciante do casal, uma agressividade convencida de estar sendo posta a serviço de uma causa merecedora de concordância geral e aplauso. Essa falta de consciência crítica sobre a própria conduta caracteriza grande parte da burguesia elitista, cercada por interesses medíocres do tipo preservar diferenças sobre quantas/os considera “por baixo”, sob um juízo medido exclusivamente por dinheiro, assim garantindo, quando menos na aparência envernizada pelo que considera chique, uma existência servil a “valores” tão baixos como os que inspiraram a denúncia contra o mesmo casal.

Não é de hoje que o pragmatismo rasteiro dessa moral exclusivista de grupo fechado recebe reprimenda exemplar e muito apropriada, tanto para o sócio denunciante que não quis se identificar como para o grupo classista ao qual ele pertence, de regra dependente de cumplicidades secretas:

“A sociedade passa a ser regida por uma rede de normas nunca confessadas, mas frequentemente mais rigidamente aplicadas que as regras declaradas ou oficiais. Na questão dos direitos, por exemplo, a posse pura e simples de um direito não basta para vê-lo respeitado; precisa-se também da amizade ou cumplicidade com alguém que tenha algum poder sobre a efetivação do direito. Não acreditamos que o povo simples seja beneficiário desse tipo de comportamento; pelo contrário, ela pode não observar sempre uma lei que não foi feita para ele, que não lhe é adaptada, não deixa de ser vítima de outras classes. Não há remédio, porque esta grave corrupção do bem comum não é motivo de culpabilização mas de ufanismo por parte de seus adeptos e beneficiários.” (Lepargneur, Hubert, “O descompasso da teoria com a prática: uma indagação nas raízes da moral”, `Petrópolis, Vozes, 1979, p. 71/2).

Manuela e Duca, então, saem engrandecidos desse mau momento e os acusadores fechados no próprio quadrado, ao qual pretendiam despachar quem feria sua moral pretensiosa e exclusivamente subjetiva. Vão ter de suportar a consequência contagiosa quase certa e contagiosa do que fizeram. A imprudente generalização de que o Clube Veleiros do Sul só aceita em seu meio gente quadrada como eles, não sendo possível velejar por lá com um mau tempo desses. Assim, quem pretendia humilhar a deputada, seu marido, sua família, sai desse incidente humilhado.