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Carijo nos fundos da forqueta

Era Lua Minguante, e o tempo estava bom em Maquiné:
nem muito frio nem muito quente, com pouca umidade. Saímos do Mato Dentro, espaço agroflorestal e de ensaios da banda ButiaDub, e cruzamos o rio algumas vezes até chegar na casa do “Cachorro”.

Luciano Corbellini, dono do apelido e da propriedade,
já nos recebeu carregando os ramos da erva podada. Sob a orientação do mestre Moisés da Luz, um dos grandes nomes do projetos carijo, e na companhia dos amigos começamos a preparar a erva.

Foi um carijo pequeno e aconchegante: instalamos lonas
ao redor do galpão para evitar os ventos da madrugada e num grupo de oito pessoas carijamos cerca de quinze quilos de erva. Apesar de quantidade pequena, a erva ficou com um sabor suave como as lembranças do churrasco, dos sambas e toques de capoeira que rolaram.

Confira abaixo alguns registros:

Carijo na floresta da Forqueta

Bataclã FC – Capitalismo & Esquizopoesia

Vídeo promocional do espetáculo Bataclã FC – Capitalismo e Esquizopoesia.

“Doc Cênico da Bataclã FC 2018 a partir de textos de Deleuze Guattari, Eduardo Galeano, Victoria Santa Cruz, Gioconda Belli, Mário Pirata e canções de Richard Serraria com performance de Lorena Sanchez. Gravado no Espaço Cultural 512 em Porto Alegre”.

Imagens: Gustavo Türck e Têmis Nicolaidis
Edição: Têmis Nicolaidis

www.bataclafc.com.br

Tulipa – Leve e despretensiosa

Texto: Têmis Nicolaidis
Revisão e fotos: Gustavo Türck

Tulipa Ruiz em Porto Alegre, no Opinião, em 21 de julho de 2018.

Casa tradicional de shows da capital gaúcha, local de bailes de arromba, rock and roll, festas até terminar a noite. E esta apresentação se iniciou às 21h, terminando antes das 23h, porque depois viria outra função… Fiquei imaginando um ambiente de baile, num salão bonito ou mesmo ao ar livre, um espaço vazio ao centro destinado a um arrasta pé, mesas ao redor e numa das extremidades o palco. Fiquei imaginando que aquele show da Tulipa Ruiz bem que poderia estar acontecendo neste clima, merecia isso. Meia luz, coloridos, sombras e panos. Mas era ali, no palco italiano.

Nem por isso deixei de curtir o som, que ia do forte ao delicado com vocais incríveis e arranjos lindos. Apesar de estar apresentando um novo trabalho, o trio, composto por Tulipa Ruiz, Stéphane San e Gustavo Chagas, apresentou versões muito interessantes das músicas de outros álbuns, como Pedrinho que abriu o show. Defino o som dela como preciso e despretensioso, aquele que se coloca para fazer o almoço, faxina a casa ou curtir o nada num dia de chuva, por isso me agrada.

A vontade era de dançar abraçadinho, de curtir a levada, de sentir o momento, de formar um baile. Tulipa contou que esse trabalho surgiu da necessidade de, em tempos de apocalipse, olhar no olho de quem está próximo e produzir, ritualizar. De fato, senti na condução do show, através das músicas, a ritualística, que poderia ser potencializada com uma iluminação mais intimista, já que ela é uma grande intérprete. Não é só voz, é presença e força, sem falar de um estilo inconfundível na maneira de cantar. Basta poucos minutos para saber quem é. Acho esta uma característica bem interessante em tempos de cultura pasteurizada, de identidades seriadas, quando já se fez e viu de tudo.

Me identifico mais com a sonoridade fácil das músicas dela do que propriamente com o público que a segue ou até mesmo com a narrativa das músicas, que em alguns momentos parecem que representam um universo mais particular do que universal. Senti bastante falta de uma quebra no tom da levada do show, que até o fim se manteve romântico, dançadinho, calcado naquela formação de trio. Ainda assim, foi uma bela noite, deu pra sair bem, leve, feliz. A ritualística cumpriu o seu papel, e no outro dia o mundo continuava lá, me deu impressão de ser possível atravessar o apocalipse apesar de tudo.

Carijo na UNIPAMPA: conhecimento camponês e indígena na fabricação artesanal de erva-mate

O curso de Licenciatura em Educação do Campo, da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), campus Dom Pedrito, promoveu a ação de extensão “Carijo na Unipampa: conhecimento camponês e indígena na fabricação artesanal de erva-mate”. O evento ocorreu de 18 a 21 de julho, sendo aberto ao público, onde fizeram-se todas as etapas do processamento da erva-mate e exibiu-se o documentário “Carijo, o filme”, de autoria do Coletivo Catarse, sediado em Porto Alegre.

A erva-mate foi buscada na cidade de Segredo, na região central do Estado do RS, a 400km de distância de Dom Pedrito, pois na região do pampa não se encontra a erva-mate nativa, tampouco cultivada. A cidade de Segredo chama mais atenção, pois lá acontecem todos os anos uma festa das sementes crioulas.

Conforme os coordenadores da ação, a professora Denise da Silva e o professor Moisés da Luz, a atividade objetivou resgatar e valorizar o conhecimento camponês e indígena tendo como prática ancestral e atual a fabricação artesanal de erva-mate, uma planta sagrada para os Guarani e matéria-prima. Esta prática detém uma gama de conhecimentos, de saber-fazer e de cosmovisões, concernentes a diversas dimensões do currículo da Educação do Campo, como cultura, ecologia, manejo agroecológico, agroflorestas, história, trabalho, autonomia, antropologia, sociologia, desenvolvimento rural, entre outros.

O evento teve visitação de professores e estudantes de escolas, da comunidade externa em geral e fez parte das aulas do curso de Educação do Campo. Depois de chegar a erva em Dom Pedrito, as atividades foram realizadas em mutirão, fazendo-se o sapeco, a secagem no carijo, o cancheamento e o soque. Devido a uma chuva na sexta-feira, a erva passou por dois momentos de secagem, um antes e outro após a chuva, por isso foram duas noites madrugando para fazer a secagem, resultando em uma erva especial e uma das melhores já fabricadas pela orientação do professor Moisés da Luz. “Aprendendo a fazer a própria erva-mate, carregada de história e cultura, o chimarrão degustado terá novos e ancestrais sentidos na formação educacional e cidadã”, concluem os professores.

*enviado por Moisés da Luz

– notícia no site Folha da Cidade, de Dom Pedrito, clique aqui
– notícia no site da Unipampa, clique aqui