Arquivo da categoria: Cultura

Rede de Artistas faz vigília pela vida dos espaços culturais públicos de Porto Alegre

Leia o Manifesto da Rede MOVE:

LUTO PELO TEATRO!

Em DEFESA DA VIDA dos Espaços Culturais!

Porto Alegre, cidade que se orgulha de sua variada produção cultural, tem testemunhado o fechamento de teatros tradicionais e o sucateamento de espaços culturais. O Teatro de Câmara Túlio Piva, o Centro Cenotécnico e a Usina do Gasômetro encontram-se fechados e sem previsão de abertura; a construção da Terreira da Tribo e do Teatro Elis Regina permanecem só na promessa. O Auditório Araújo Vianna foi entregue à iniciativa privada e se tornou um espaço inacessível aos artistas locais.

Arte e cultura são fundamentais para toda a sociedade. Criam diálogos, confrontam ideias, produzem experiências de encontro com o outro. Ajudam a diminuir o índice de violência e colaboram na promoção da SAÚDE e o BEM-ESTAR SOCIAL. A cultura também faz parte da ECONOMIA das cidades, com geração de empregos e receita, incluindo diversos setores como técnicos, restaurantes, serviços de segurança, limpeza, turismo, entre outros.

MOVE – Rede de Artistas de Teatro de Porto Alegre

Se a cultura perde, perdemos todos e todas.
Apoie esta causa, ela também é sua!

Acompanhe a programação dos espetáculos ligados a MOVE pelo site: https://www.redemove.com.br
#redemove #movepoa #moveteatro

MOVE – Rede de Artistas de Teatro de Porto Alegre

Os ucranianos da Jinjer em Porto Alegre

Na última quinta-feira, 6 de dezembro, a capital dos gaúchos recebeu, num evento da Abstratti Produtora, o show da banda ucraniana Jinjer, que excursionou pela América Latina nos meses de novembro e dezembro.

Mas quem é Jinjer?

Eles são uma banda de um país desmembrado da antiga União Soviética, no qual, hoje, a direita está no comando – e uma direita bem aos moldes estadunidense/israelense -, e uma onda fascista vem crescendo cada vez mais. Ou seja, um país mergulhado em crise já faz alguns anos (hmm… essa história parece bem familiar), e há uma disputa política explícita entre Rússia e União Europeia/EUA bem feia.

Mas onde a banda Jinjer se enquadra nisso? Pode ser no fato de a vocalista Tatiana Shmailyuk ser vegana e atéia, ou com suas letras mesmo não sendo diretamente de cunho politico, mas com sentido bem contestador contra certas opressões, e até mesmo em algumas entrevistas ela ser a favor de uma sociedade sem fronteiras, mais humana e igual – isso faz pensar que eles possam ser enquadrados em uma posição mais para a “anarcoesquerdopatia”…

Também pesquisando um pouco mais sobre a banda nesse contexto político, descobre-se que, em 2015, eles participaram de festivais na Rússia, onde foram muito bem vistos e notados, mas, ao retornar para a Ucrânia, uma onda de nazifascistas começou a perseguir e ameaçá-los, inclusive tendo alguns shows cancelados.

Mas a banda vem numa crescente desde sua estreia em 2009, sendo notada e arrecadando críticas positivas e trilhando caminho sem medo de se reinventar a cada álbum lançado – mesmo que pareçam estar em busca do seu metal, pois fazem um estilo heavy metal progressivo, rápido, melódico e agressivo ao mesmo tempo, com pitadas de groove e reggae que se escutam nos sons.

E Porto Alegre pode conferir o porquê deles serem uma banda que vem se destacando na cena metal, com seu power trio instrumental fenomenal, preciso, cheio de técnica e rápido com muita energia. O baixista é um monstro e, ao mesmo tempo, chamava o público pro agito. E o vocal da Tatiana?! Até parecia que se estava escutando o álbum direto do CD, uma voz linda que oscilava do vocal limpo e cantado aos grunidos rasgados, uma front womem de respeito.

Sobre o show, foi fácil notar a falta de “pogos” e “circle pits”, houve alguma coisa muito tímida e desengonçada apenas – segundo Elisa Diehl Roleziera, agitadora de “pogos”, “os metaleiros não sabem pogar”. De fato, o público desse show foi bem interessante, com alguns metaleiros daqueles que só balançam cabelos, loucos por músicas com técnicas, em outro lado, aquela galera new metal das antigas e uma nova geração afim de pular e fazer roda, e a galera bem da grade, de uma nova safra de frequentadores de shows que apenas levantavam o celular parecendo estar apenas querendo capturar os momentos do show para compartilhar em suas redes sociais e não vivenciar o momento. Isso já virou uma rotina nos shows e às vezes até ajuda a compor fotos… Mas, no geral, foi um público meio morno, mas que interagia com a banda sempre que solicitado.

O repertório preencheu 1 hora, o que pareceu de bom tamanho, afinal, não era uma dessas superbandas – mas quem esteve presente com certeza curtiu, pois o som estava lindo, alto e se conseguia ouvir perfeitamente os vocais e a pressão do instrumental sem agredir os ouvidos, isso é uma maestria que poucos operadores conseguem realizar em uma banda de som pesado.

O único ponto baixo mesmo do show e que certamente a banda não curtiu nem um pouco foi o fato do seu merchandising ter ficado preso no Uruguai…

Jinjer em Porto Alegre

(clique nesta foto  para ir à galeria)

*texto e fotos de Billy Valdez
**um agradecimento especial à amiga fotógrafa Aline Jechow, que emprestou um cartão de memória, porque o cabeção aqui foi para o show sem conferir seu equipamento

O Rock que morreu? Ou o público que envelheceu?

Começo este texto/cobertura de evento com esta pergunta do título, pois há tempos ouvimos coisas como “o rock morreu”, “o rock vive”, “o rock não morreu”… Aí sempre nos questionamos e buscamos provar que o rock está vivo, sim. E, de fato, ele nunca vai morrer enquanto existir, pelo menos, uma pessoa neste mundo que tenha um pensamento controverso com certos “padrões” da sociedade conservadora, porque sabemos que rock não é só música é atitude.

Pois bem, sobre o rock já falamos – e sobre o público?! Será que envelheceu mesmo?

Claro que sim, assim como as bandas vão envelhecendo, melhorando, se profissionalizando, o público também vai amadurecendo, afinal, somos seres humanos (ainda). Mas e o que isso tem a ver? Afinal, um público mais velho, pela lógica, seria aquele público que trabalha, consequentemente, compra merch das bandas e frequenta mais os shows pagos, certo? Certo! E isso, de fato, acontece… Mas, aí, por que vemos um evento como o 5º Rolê HC, que rolou em São Leopoldo, com boa divulgação, com pessoal trabalhando junto como promoter e com lineup de bandas boas da região – como Lapso de Insanidade, Hempadura e Boca Braba Hardcore, e mais a Baysidekings, banda do estado de São Paulo, da cidade de Santos, e que tem um nome forte no meio hardcore -, e o evento teve menos da metade de público que a casa suporta… Como se explica isso? O erro é da produção, bandas, bar? Muitas vezes, sim, mas, nessa questão, não há dúvidas de que foi do público.

Muito se escuta: “não vou porque o evento termina tarde, não tem como voltar”; “estava chovendo”; “muito longe”; “já fui no de ontem”… Pois, de fato, o evento foi tarde da noite, a primeira banda começou a tocar meia noite, e a última, quase 3h da manhã e terminou era quase 4h. Horário normal para um sábado à noite, mas não mais para um público velho que reclama demais e que até entraria de graça e não compareceu.

E muitas vezes os eventos começam cedo, mas quem diz que esse público chega cedo? Se é que comparece ao evento, pois muitas vezes o evento é aos domingos e começa pela tarde, terminando cedo da noite – aí o pessoal não vai: “trabalho no outro dia”; “era muito cedo”…

Se os eventos fossem como a 15 ou 20 anos atrás, quando as bandas, a maioria, era ruim e mal sabia o que estava fazendo no palco, o equipamento era horrível – e quando tinha equipamento bom as bandas pareciam piores porque não sabiam regular -, até se entenderia. E, pior, nessas épocas, a galera ia e virava a noite, muitos nem entravam nos shows, mas ficavam na frente tomando um “trago”, a distância e o horário não eram o problema. Mas, aí, claro, o público envelheceu, o corpo não aguenta mais o pique, a vontade de ficar em casa no Netflix e redes sociais é grande, como quando eram jovens e a vontade de estar na rua com os amigos era mais forte e se tinha energia de sobra pra farrear a noite toda e no dia seguinte ir para o arco da redenção tomar mais um trago e contar histórias do sábado a noite.

Então, e o público mais jovem? Porque ele não compareceu? Talvez porque hoje a alternativa de festas e locais de concentração seja maior e os produtores/membros de bandas mais “velhas” não conhecem esses lugares e não os frequentam… Será isso um problema?

Talvez sim. Porque não adianta só culpar a falta de espaço na mídia, porque nunca houve espaço para o rock underground na mídia.

As bandas e alguns produtores estão unidos, existem eventos fantásticos e com grande qualidade, mas na hora do evento é sempre uma surpresa: será que vai ter público? Muitas vezes são sempre os mesmos, muito pouco se vê pessoas desconhecidas… E, então, como se conquista a galera que vai a shows de bandas de grande porte que rola dia da semana às 22h? Como se renova o público pagante das bandas underground?

Bom…

Aconteceu nesse início de dezembro o 5º Role HC, evento que a banda Boca Braba Hardcore promove anualmente e, nesta edição, trouxe para o RS a banda Baysidekings, de Santos, que, além do show principal, no sábado, arrumou um show na sexta-feira na Minor House, em Porto Alegre, show com entrada gratuita e ainda rango vegano liberado.

O 5º Role HC foi um evento lindo, que este ano correu em São Leopoldo, organização impecável, cronograma seguido à risca, Embaixada do Rock com atendimento sempre perfeito, equipamentos bons e muita qualidade dos shows das bandas convidadas – Lapso de Insanidade, Hempadura e os anfitriões do evento, Boca Brada HC.

Baysidekings surpreendeu muito, o show agradou bastante e as mensagens entre as músicas que o vocalista Milton mandou eram sempre muito boas, sem falar na humildade dos caras, foram muito receptivos e até presentearam uma galera com CDs, camisetas, posters, adesivos – é raro de ver isso.

Seguimos, na resistência, luta e ativismo.

Rolê Hardcore

Pelotas, a cidade do Tambor de Sopapo

Quando o Heavy Hour estreia nas ondas da RádioCom, 104.5 FM de Pelotas – ouça aqui! -, na mesma semana, a prefeitura da cidade a decreta Cidade do Tambor de Sopapo.

Parabéns aos mestres Giba Giba e Baptista! Parabéns a suas famílias e amigos, a tantos outros dessa história contada aqui, no filme O Grande Tambor:

Sabe-se que é um ato político, mas se soma ao de 2013, que instituiu a Medalha do Mérito Mestre Batista – clique aqui para ver o decreto.

Soma-se a tantas outras iniciativas que existem desde já praticamente uma década – e mais! E se está enxergando um ressurgimento, quem sabe uma redenção.

Que a história e o trabalho de todos siga neste passo, nesta batida!

Cordel do Fogo Encantado: a primeira vez do estagiário

Em uma tarde comum de trabalho no Coletivo Catarse, o estagiário colocou um reggae pra tocar. Lá pelas tantas, alguém comentou:

“Nossa, essa música lembra muito Cordel do Fogo Encantado”!

“Não sei que banda é essa, mas pode ser que tenha inspirado eles”, respondeu o estagiário.

“Não acredito que tu não conhece o Cordel do Fogo Encantado! É uma banda de Pernambuco que fez um baita sucesso nos anos 2000 e que tinha se separado, mas voltou este ano e vem tocar aqui em Porto Alegre dia 29 de Novembro no Opinião!” – esta colocação definitivamente despertou a curiosidade do estagiário.

“Vamos fazer uma cobertura e acho que seria muito legal também se tu ouvisse o primeiro álbum, que considero o melhor, pela primeira vez e descrevesse a experiência!” – o estagiário concordou, colocou um fone de ouvido e apertou o play…

Sinos e gritos iniciam o álbum Cordel do Fogo Encantado. A impressão é de um pesadelo apocalíptico no Sertão. Retirantes em uma carroça contam – no melhor estilo de teatro popular nordestino – suas histórias de vida e morte.

Começa uma batucada poderosa, mais tarde também se somam outros instrumentos de percussão como pandeiro, agogô e triângulo.

As músicas não se restringem ao clima sombrio, por vezes assumem tons alegres – remetendo a festas populares como São João – ou contornos românticos.

A forte presença de manifestações da cultura popular talvez seja um dos traços mais marcantes da obra. Além disso, elementos comuns a boa parte do país – como o pandeiro e o sabiá – trazem uma ideia de brasilidade muito forte.

As poesias de cordel – como “Aí se sesse” – que vão sendo declamadas entre e durante as músicas não só ajudam a quebrar o ritmo, mas também valorizam e difundem a sabedoria de grandes mestres contadores de histórias.

A natureza é tema recorrente de diversas canções: o vento, a pedra e o fogo são personagens de diversas histórias cantadas. A chuva e a seca são colocadas de forma a revelar uma terra de extremos. Por vezes a seca é devastadora; mas, quando vem, a chuva é tanta que até o boi nada.

Aliás menções como, o boi, o canavial e o carroceiro são comuns e vão revelando a vida no sertão.

O misticismo também é um traço extremamente marcante. O álbum passa uma ideia ritualística, como se evocasse os espíritos do sertão para que revelassem seus segredos mais profundos.

Nesse aspecto, percebe-se a influência de uma longa tradição de pajés, curandeiras e profetas. Figuras históricas e míticas como Antônio Conselheiro e o Rei Dom Sebastião também assinam as profecias declamadas:

“Herdeiros do novo milênio
Ninguém tem mais dúvidas
O sertão vai virar mar
E o mar sim
Depois de encharcar as mais estreitas veredas
Virará sertão

Antônio tinha razão
Rebanho da fé

A terra é de todos e a terra é de ninguém
Pisarão na terra dele todos os seus
E os documentos dos homens incrédulos
Não resistirão a Sua ira

Filhos do caldeirão
Herdeiros do fim do mundo
Queimai vossa história tão mal contada”

O álbum é sensacional, extremamente poético sem ser enfadonho ou elitista; muito pelo contrário. As culturas populares nordestinas ajudam a cantar as histórias de forma interessante e cativante. A alternância entre o tom profético apocalíptico, alegre, festivo e romântico faz com que o álbum não fique repetitivo.

Mas vale dizer que, pela ritualística e teatralidade, que ficam evidentes até mesmo em um som gravado, deve ser MUITO mais afudê ao vivo!