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Filmografia Social – Tudo o que eu vejo é você

Por trás do seus olhos (All I see is you), é uma metáfora sobre o que podemos ter de mais obscuro em todos nós. Conta a história de uma mulher chamada Gina, que volta a enxergar após conviver quase toda sua vida com a falta de visão, condição esta que a deixava completamente dependente de seu marido. As roupas, a rotina, a casa, tudo era a partir do olhar de James. O controle dele com a passividade dela fazia esse casamento dar certo para ambos. Até que um dia Gina faz uma cirurgia e volta a enxergar, e a medida que ia percebendo este mundo configurado por James, se tornava mais crescente o sentimento por mudanças.

O filme é esteticamente lindo pois mistura imagens de Bangkock, capital da Tailândia, onde se passa a trama, com momentos íntimos e poéticos do casal e especialmente de Gina, que se transforma a cada dia, atingindo um empoderamento que incomoda profundamente James. O enredo passa de uma história tenra e romântica para um drama psicológico denso, mostrando a face mais perversa dos personagens que passam a agir de forma questionável.

Chamo de metáfora pois pode acontecer em Bangkock, São Paulo, Porto Alegre ou qualquer cidade do interior do mundo onde o machismo se manifesta. A independência feminina é um afronte a ordem estabelecida pois, quando a mulher toma as rédeas de sua vida, as estruturas dominantes, que aprisionam a todos, caem. E é esse poder que amedronta tanto aos homens como às mulheres. Gina, neste contexto, representa a coragem para subverter, a “petulância” de buscar por liberdade.

Quando assisti a este filme acabei encantada por toda a arte que ele trazia nas imagens, edição e roteiro, é um filme extremamente belo, porém subestimei o seu poder. Acabei de vê-lo achando que era meramente um filme sobre um casal e me peguei meses depois pensando sobre seus muitos significados. Para mim, o cinema deve ser isso, uma bomba silenciosa que explode dentro da gente e nos modifica. Que assim seja, também, a luta de todas as mulheres.

NOSSA AVALIAÇÃO

Gênero: drama

Temática Social: opressão, protagonismo feminino
Público-alvo: pessoas que gostam de filmes intimistas, artísticos e com tempo dilatado. Parece ser voltado para mulheres, porém deveria ser visto por qualquer pessoa sensível que pensa sobre as relações entre homens e mulheres.

Roteiro:
Um roteiro original muito bem costurado e que faz a magia acontecer tempos depois de ser assistido.

Dramaturgia:
Filme de uma poesia incrível. Tudo é belo, as imagens e suas misturas, as atuações, toda a arte que envolve o enredo faz o espectador ficar de boca aberta e nos coloca dentro da mente desta mulher.

Aprofundamento da Questão Social:
Toca num ponto, ao meu ver, nevrálgico de uma sociedade machista, que é a sua desconstrução a partir do empoderamento feminino. Este é um caminho sem volta e, se enxergado desta maneira, é capaz de transformar radicalmente qualquer sociedade que vive sob essas regras. O tema da opressão fica muito evidente e o filme consegue trazer essa reflexão de uma forma muito profunda.

Por Têmis Nicolaidis

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras.

Filmografia Social – Mr Robot

Mais uma história de futuro distópico, como The Handmaid’s Tale – mas, no caso, poderia-se relativizar e dizer que é mesmo utópico… Mas por quê? Porque Elliot faz a revolução.

Um rapaz solitário, de realidade esquizofrênica, um gênio dos computadores, está no meio de um emaranhado que segura todo o sistema financeiro e político mundial. Elliot é um programador que passa a batalhar contra um império por dentro – mas por dentro mesmo, nas sequências de código que contrói e desconstrói, demonstrando que a liga da vida cotidiana do mundo real é muito mais virtual do que se imagina.

Mas as coisas acontecem mesmo é ali fora da tela e do sistema binário de zeros e uns, ali no escritório ele é acossado pelo chefe, em casa, tem dificuldades de se relacionar com a “família”… Aos poucos, vai-se desvendando um passado de violência que é a raiz de seus delírios atuais.

Mr. Robot é um seriado que está em sua terceira temporada, pasas no canal USA, mas é fácil de ser encontrado em aplicativos de torrent como Popcorn Time entre outros – com legendas em português, inclusive. Indispensável para entender, sim, as relações de poder atuais com o uso da tecnologia e como isso acaba por influenciar diretamente as vidas de todos.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: ficção científica/drama existencial
Temática Social: solidão, assédio, opressão social
Público-alvo: pessoas que curtem filmes como V de Vingança e Clube da Luta, que entendem de programação, de sistemas integrados, ou que se interessem por grandes conspirações e a derrubada de grandes corporações que dominam governos
Roteiro: 
(a história é confusa, porque Eliot é confuso, e o roteiro conseguiu expor isso majestralmente, só não leva os cinco sois catárticos em razão de que a complexidade atingida dificulta por vezes entender a linha temporal dos acontecimentos – e isso pode ser aborrecedor)
Dramaturgia: 
(fantástica! A estética é das melhores já realizadas, com enquadramentos que poderiam ser considerados ridículos em qualquer oficina de produção audiovisual, mas que funcionam e dizem muito sobre o ambiente que se quer retratar. As atuações do personagem principal, Elliot – Sam Esmail, o Fred Mercury do recém lançado Bohemian Rapsody -, e seu “pai” – Christian Slater, sim! – são absurdas, mas todos estão muito bem, inclusive personagens secundários que normalmente seriam insonsos)
Aprofundamento da Questão Social: 
(esta avaliação é interessante, pois considero não dar os cincos sois pela mesma razão que não daria os 3, há um aprofundamento das questões relacionadas a assédio e solidão no seriado, mas é sutil, é preciso um olhar muito atento e, ao mesmo tempo que isso pode passar despercebido exatamente por não ser mais superficial na trama, tem ação no subconsciente de quem assiste e faz tocar mais fundo)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

Filmografia Social – Matilda é uma pessoa e não uma filha…

Talvez o pior tipo de abandono seja aquele sem ruptura de presença. Onde exista todas as condições para uma pessoa ser amada, acolhida e respeitada por outro, que, por sua vez, opta por rejeitá-la. Pode-se dizer que é um sadismo dos mais requintados, um poder que se exerce, que se é esfregado na cara e que deixa marcas profundas. Muitas vezes esse abandono não é percebido, mas corrói silenciosamente e passa a ser causador de muitos outros problemas. Outras vezes, vira uma ira descontrolada sendo a mais barulhenta das revoltas. Porém, para Matilda foi diferente.

Esta fábula delicada, com pitadas de terror, conta a história desta pequena gigante que, a partir do seu abandono, descobre seu grande poder.

Matilda é uma criança esquecida por sua família ignorante. Sua mãe passa os dias no Bingo, e seu pai é um trambiqueiro que compra peças de carros roubados e conserta usados vendendo-os a preços superfaturados. Desde muito cedo, a menina aprendeu a se virar sozinha, cozinhar, ler e escrever e, no meio dos pais e do irmão, que só se importam com seus universos particulares, passou a dominar sua vida, aguentando constantemente ofensas e violências. Um dia, muito tempo depois de já ter lido muitos livros que tirava sozinha da biblioteca pública, implorou para o pai a colocar numa escola, já que estava com 6 anos – e seus pais acreditavam que tinha 4! Enfim, Matilda conseguiu ingressar numa escola dirigida por uma mulher tão opressora quanto sua família, porém com uma professora amável e incentivadora, a única que vê em Matilda o grande fenômeno que ela é. Todo estímulo negativo que a menina recebe, ela canaliza e transforma em um superpoder que movimenta, apenas com seu olhar, objetos e pessoas. Com isso e com sua inteligência excepcional, consegue dar uma lição na diretora e em seus pais no estilo Another Brick in the Wall, fazendo um levante de crianças, também oprimidas por este mesmo sistema. Afinal de contas, ela aprendeu, observando seu entorno, que se uma pessoa é má, merece uma lição.

Este desenrolar da história é contado com muitos exageros, forças sobrenaturais e fatos inexplicáveis para o bom senso de quem gosta de filmes em que tudo deve ser factível, porém Matilda é a própria metáfora. Matilda é o furacão silencioso que inicia naquele lugar mais íntimo e solitário que habita em qualquer um de nós, mas que poucos têm a coragem de acessar. Matilda é aquela criança não planejada que os pais não tem paciência ou aquela planejada, mas que serve só para ser mostrada, que seus pais não sabem por onde começar a educar. Ela é a criança deste século que já fala por si e sabe escolher sozinha e que adultos não sabem como lidar com isso. É também a inocência transformadora e sincera que arrebata e que ninguém deveria perder na vida, nem aos 100 anos de idade.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero:
fantasia/comédia
Temática Social: abandono, família, escola
Público-alvo: um filme para crianças, daqueles para assistir comendo pipoca com a família no fim de semana.
Roteiro: 
(bem construído dentro da proposta de um filme de fantasia. Engraçado, perspicaz. Como não procura tirar o riso fácil, ser bobinho, prende adultos também. Além da parte cômica, existem muitas cenas tensas que são muito bem feitas e lembram filmes de terror)
Dramaturgia: 
(o filme tem grandes atores como Danny DeVito – que também dirige -, Rhea Perlman e Pam Ferris. Figurinos e cenários bem produzidos, é um daqueles filmes que remonta filmes clássicos de Hollywood)
Aprofundamento da Questão Social: 
(pontuada do início ao final do filme. Começando com a chegada da família do hospital e que eles a esquecem no carro, até a última cena em que a própria Matilda elabora seus papéis de adoção e seus pais biológicos assinam, passando sua guarda à professora. Eles não enxergam sua inteligência, a mandam fechar o livro e ver televisão, ou, simplesmente ignoram suas necessidades em detrimento de qualquer bobagem. Isso tudo colocado sempre de uma maneira bem exagerada, porém, como muitas vezes vemos absurdos reais e pensamos: “se colocassem isso num filme, diriam que é um absurdo”, talvez o termo não seja exagerado, mas, como falei no texto acima, a própria metáfora desta questão social)

 

Por Têmis Nicolaidis

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Filmografia Social – Cavalo dado não se olha os dentes

Bojack Horseman é uma daquelas animações incríveis. Um monte de gente acharia idiota, sem sentido, pelo simples fato de ser um desenho – como Os Simpsons, por boa parte de sua existência -, fazendo com que muitos perdessem uma obra feita para a reflexão profunda do ser – e entrega isso na sua vinheta de abertura de cada episódio.

A bizarrisse de se misturar personagens que são humanos com seres bípedes animalescos – o personagem principal é um cavalo! -, fazê-los relacionarem-se sexualmente e intimamente nos transes psicossociais deve deixar quem vive dentro dos conceitos de certo e errado impostos pela sociedade judaico-cristã de cabelo em pé.

O fato é que esta é uma tática muito inteligente. Ela distancia o público que assiste da realidade forte que propõe. Ela bestializa relações que passam a ser absurdas para que o subjetivo de quem recebe a mensagem não se identifique diretamente com o que se está assistindo e permita que camadas sensíveis do raciocínio sejam acionadas. A catarse existe, mas não tão violenta.

Porque o tema da série é abandono e solidão. E, talvez, hoje, Álvares de Azevedo e Casemiro de Abreu pudessem ser tranquilamente os roteiristas de seus episódios.

Bojack é um ator de televisão ultrapassado, mas megafamoso por seu protagonismo em um seriado familiar que se passou nos anos 1990. Ele tenta retomar uma carreira que se esvai no esgoto de relações do mundo das celebridades de Hollywood. Há um entrelaçamento de vários personagens e de suas também complicadas vidas, mas, ao mesmo tempo, um tanto superficiais – assim como demanda este tipo de estória.

É poético. Há arquétipos e episódios incríveis, finais apoteóticos, psicodélicos – destaque para um que finaliza com Bojack em uma estrada, dirigindo um conversível, com trilha sonora infalível de Nina Simone, e o episódio da eulogia da morte de sua mãe.

Já são 5 temporadas no catálogo Netflix.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: animação
Temática Social: solidão, abandono, drogadição
Público-alvo: adultos com mais de 30 anos, para entender plenamente a sagacidade do humor sarcástico e das autorreferências, é indispensável o conhecimento da cultura pop estadunidense – mãe da cultura pop brasileira – e do inglês (não assista dublado!). Mas, sim, brasileiros podem se autorrefereciar tranquilamente, basta modificar mentalmente o cenário hollywoodiano para o globodiano
Roteiro: 
(o roteiro é um chiste hollywoodiano autorreferenciado, já foi visto em tantas produções diferentes ao longo das últimas décadas – filhotes de Orson Welles -, mas consegue dar poética à uma sátira sarcástica usando elementos bizarros que faz sentido e salta aos olhos)
Dramaturgia: 
(a animação e a performance dos que dão as vozes – e vida – aos personagens é sensacional. Bojack Horseman não precisou deixar os personagens amarelos e com quatro dedos para se distanciar do “real”, a série explorou graficamente uns 3 degraus da escada da abstração e literalmente desenhou seu universo com traços bem feitos, fazendo com que o bichos e pessoas realmente parecessem como tais numa projeção de duas dimensões incrível)
Aprofundamento da Questão Social: 
(a metalinguagem é tão profunda que estouraria a cotação que nos propomos)

Por Gustavo Türck

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Filmografia Social – O Grande Tambor precisa bater!

Num momento em que se inicia o mês da Consciência Negra e que se elege presidente um racista confesso, nada mais certo que indicarmos uma produção nossa: O GRANDE TAMBOR.

Neste documentário em longa-metragem, denso, forte, há uma jornada que começa contando a história de um instrumento que foi a base do samba considerado gaúcho, mais cadente, mas que foi sumindo a partir da década de 1970 pela massificação cultural e pela “carioquização” do carnaval nacional. A partir disso, vamos retornando no tempo e observando as origens da ocupação do povo negro no território gaúcho – uma violenta narrativa de escravidão e genocídio, com sequestro de sua prática religiosa para consecução de objetivos mercadológicos do ciclo do charque.

O Grande Tambor recupera a ideia de que a Revolução Farroupilha não foi revolução coisa nenhuma e detalha o papel decisivo do infame Duque de Caxias – um herói da horda fascista vitoriosa no último pleito presidencial – no massacre de Porongos, apresentando a carta enviada aos comandantes brancos do batalhão conhecido como Lanceiros Negros.

Uma viagem de desmistificação. Assista atento, aberto a ouvir muita informação e prováveis contrapontos ao que você sempre entendeu como certo.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário etnográfico
Temática Social: racismo
Público-alvo: gaúchos interessados em sua história, pessoas de outros estados que acreditam que o Rio Grande do Sul é a Europa do Brasil e que aqui não há negros, músicos interessados em percussão, pessoas que gostam de carnaval e samba
Roteiro: 
(o caminho é bem delineado, a jornada vai detrás para frente no tempo e descortina as camadas históricas da contribuição do povo negro na cultura e realidade do Rio Grande do Sul e Brasil, mas pela duração pode ser considerado muito massante)
Dramaturgia: 
(a fotografia não é das melhores, com diferenças entre câmeras e personagens, sem definição de linguagem, o áudio também demandaria melhor tratamento, o filme parece esteticamente não finalizado, mas isso tudo pela opção de se valorizar o conteúdo, que tem uma boa construção emotiva, de momentos de respiro para reflexão e vários ápices catárticos)
Aprofundamento da Questão Social: 
(a razão da existência deste filme é exatamente ser uma obra que aprofunda a questão do racismo na construção histórico-cultural do Rio Grande do Sul, é pleno neste sentido)

Assista ao filme:

Confira todo o material do projeto aqui no site, clique aqui.

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras