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Filmografia Social – Big Mouth

Todas mães e pais presentes nas vidas de seus filhos vão passar por alguns momentos íntimos no mínimo interessantes. Lembrando inversamente, quando passamos por algumas fases, lá na nossa juventude de descobertas, há um período em que as coisas eram controladas por constrangimentos – estes, dogmatizados em fundamentalismos religiosos e de moral (de cuecas), tomavam características punitivas e faziam que uma fase como a entrada na adolescência pudesse se tornar um verdadeiro inferno.

E a sexualidade segue sendo um tabu. No momento em que o Brasil está, talvez a tendência seja piorar e muito para um bom grupo da população, porque a polarização política de momento está mostrando bem claramente que pelo menos uns 20% de pessoas não quer nem saber de discutir diversidade, opções, desejos e afins com crianças que precisam entender o mundo em que se está entrando. Não, preferem que se dê a eles um manual de bons costumes escrito há milênios, em contexto completamente abjeto e nem um pouco semelhante ao que estamos, quiçá até mesmo ficcional, e que se virem com os verbetes de certo e errado e que sejam punidos se cometerem deslizes. A isso se chama castração.

Big Mouth, disponível no catálogo Netflix, entra aqui como uma luva. Não há como não se identificar com a obra. Um desenho que segue um grupo de jovens entrando em fase de puberdade – apresentando dois demônios (masculino e feminino) que não estimulam os pequenos a fazer nada a não ser responderem a seus desejos e os deixam inclusive confusos -, é o tesão pelo tesão, não é uma questão de gênero. E os garotos e garotas vão descobrindo esta fase e se experimentando, sem pudores, cheios de dilemas comuns.

Quisera eu ter tido a oportunidade de assistir a esta série nos anos 1990…

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: comédia/animação
Temática Social: sexualidade, infância e adolescência
Público-alvo: por nostalgia e por momento, mães e pais com filhas e filhos em fase de crescimento, por óbvio, as filhas e filhos em fase de crescimento (dos 10 aos 15 anos)
Roteiro: 
(sagacidade, ironias e muito sarcasmo bem aplicados)
Dramaturgia: 
(animação simples, justificada e com uma interpretação de vozes de um grupo muito bom de comediantes estadunidenses)
Aprofundamento da Questão Social: 
(a sexualidade ser tratada na infância, em fase de puberdade, é extremamente importante, Big Mouth apresenta um discurso fácil de se entender e retira pesos de assuntos profundos, vai longe em alguns momentos, mas mostra também que às vezes as coisas podem se resolver de uma forma muito simples e que “monstros” nem sempre são monstruosos)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

 

Mad Men: os maus homens

*pode conter spoilers

Um seriado de homens grosseiros, machistas, fumantes e alcoólicos nada anônimos. Um mundo chauvinista do meio da propaganda estadunidense nos anos 1960 – assistir a um episódio pode ser um grande desafio. Não cheguei a medir, mas não creio que se passe mais de 1 minuto na série sem que alguém acenda um cigarro ou sirva-se de um drink – cowboys e on the rocks para todos os lados.

São 7 temporadas disponíveis no catálogo Netflix, esta resenha delimita-se a comentar o conjunto até a metade da quinta.

Até o terceiro ano, a narrativa nos embebia e não fazia nuvem de fumaça com os acontecimentos dos anos 1960 de uma Nova Iorque cosmopolita e explodindo no marketing agressivo. Passa-se por uma eleição que Nixon perde para Kennedy, as influências que Jacqueline Onassis e Marilyn Monroe passam a ter na vida das americanas – entre tantos outros aspectos interessantes que montam um cenário que não parece muito ser um pano de fundo, mas, sim, dão a impressão que o personagem principal de Mad Men não são loucos homens, mas o próprio Estados Unidos.

Isso torna-se bastante interessante, porque se está em um ambiente que se está tentando a todo o custo “vender, vender e vender!” sem escrúpulo algum – bem, creio não ser muito diferente do mundo publicitário atual, não é mesmo? Mas para quem busca algum tipo de informação sobre massificação cultural ou estratificação de uma sociedade modelo e dominante, as referências apresentadas são muito interessantes, sim. Mesmo que as mensagens estejam não tão explícitas, e o seriado sirva também para alimentar o ego de misóginos e seres desprezíveis, pois romantiza personagens e relações de exploração, sem necessariamente “penalizar” o mau – típico clichê das estorietas estadunidenses.

Ou seja, aqueles que procuram enxergar para além do aparente, terão subsídios suficientes para observar o machismo e o racismo em sua essência, apesar de que, a partir da terceira temporada, Mad Men vá virando o fio paulatinamente, cada vez mais, para uma novela focada nas desventuras de seu personagem principal, o gênio criativo(?) Don Drapper – enche o saco mesmo e vai ficando cada vez mais difícil perceber a importância dos fatos que vão ocorrendo ao longo de uma década tão importante – a efusão da luta pelos direitos civis da população negra, a liberação sexual, o movimento pop culture, entre tantos outros -, que moldou um perfil sociocultural, o famoso american way of life, exportado como o ideal ao mundo todo. Infelizmente, então, aquilo que parecia ser um diferencial passa, enfim, a ser mero pano de fundo para uma narrativa piegas e cheia de truques típicos de um mero folhetim.

Eu assistirei até o final das 7 temporadas, vamos ver se vamos até a
Lua sem um câncer de pulmão ou de estômago…

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: drama
Temática Social: machismo, misoginia, alcoolismo, consumo de drogas, racismo, mais valia
Público-alvo: homens brancos de meia idade (para sentirem-se bem com seus próprios preconceitos), pessoas com interesse na construção sociocultural dominante e mulheres (para sentir raiva e perceber como a sutileza de algumas relações e ações permeia e mantém uma cultura de submissão)
Roteiro: 
(o primeiro terço muito bom, a partir de então, segue a “fórmula
mágica” folhetinesca)
Dramaturgia: 
(caracterização dos personagens e cenários é muito boa, mas o roteiro faz com que se repita muito situações, expressões, tipos…)
Aprofundamento da Questão Social: 
(vários temas importantes que vão paulatinamente ficando de lado para que a audiência passe somente a acompanhar a vida de Don Drapper)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

 

Moana: o contramito da princesa

*pode conter spoilers

Se soubéssemos, antes de ver nascer um filho, o tamanho da responsabilidade e da energia que é preciso para garantir, sem garantias, que este novo ser humano viva bem, talvez nós adultos não tivéssemos filhos.

Se eu fosse religiosa, talvez eu dissese a frase: Deus sabe o que faz. Como não sou, fico muito feliz por ter tido a oportunidade de ser mãe e ter de enfrentar todos os desafios e percaussos que a maternidade apresenta, isso me faz uma pessoa mais forte e mais evoluída. Se eu não fosse mãe, tenho certeza que também encontraria este caminho, já que não acredito que uma mulher só é completa se engravidar. Hoje em dia, a gravidez não é simplesmente natural, é uma questão de escolha, e isso deve ser respeitado. Coloco isso pois tem muito a ver com o que quero trazer neste texto – as imposições. Vivemos numa sociedade de imposições, muitas imposições. Tantas que às vezes paro e reflito o quanto elas são ultrapassadas e me sinto assistindo a um seriado da década de 60. Ainda somos mega machistas, assustadoramente, apesar de uma sutil evolução. Isso é especialmente preocupante quando se tem uma filha mulher.

Quando a gente gera uma criança e traz ela para este mundo, começamos a viver muitas alegrias, descobertas e euforias. Vemos também o controle sair totalmente das mãos. Ver minha filha falar que o sonho dela é ser uma princesa me causa arrepios e vai contra tudo aquilo que eu desejo para ela – a princesa da nossa referência cultural é branca, heterossexual, magra, passiva e delicada. Alguns podem falar que é muito radical da minha parte e que isso é só uma fantasia. Sim, seria se ao lado deste tipo de princesa tivessem outros tipos como a sapa, a gorda, a “feia”, a pobre ou uma princesa negra e até mesmo aquela que não pensa em ter um príncipe e não quer por convicção ter filhos. Aí, sim, ficaria mais tranquila em ouvir ela dizer que tem o sonho de ser princesa. Mas o perfil que reina e dita as regras do universo feminino infantil e provavelmente vai determinar a subjetividade dessas futuras mulheres e, também, o seu redor definitivamente é o “loira de olhos azuis”, rica e famosa, adorada.

Mesmo assim, tivemos a sorte de ter uma filha numa época em que surgem iniciativas como os grupos Palavra Cantada e Mundo Bita. Sei que devem ter inúmeros outros, mas estes tornaram-se massivos e conseguiram emprestar novas letras, sons e cores para a infância, que antes só conhecia as mesmas músicas, que se não eram racistas, colocavam muito medo, falavam em agredir felinos ou em casamento – até onde eu sei, criança não namora, então, por que deveria sair cantando sobre casamento? Acho simplesmente desnecessário, mas, enfim, isso sempre foi cultural e passado por gerações. Parece besteira querer questionar isso. Assim como parece uma grande besteira querer mudar o foco da criança na hora de assistir televisão.

Pois é aí que entra Moana. Um filme da Disney, a fábrica de princesas. Confesso que até agora estou tentando entender a “pegadinha”…

Moana é a filha do chefe de uma tribo que habita uma ilha. É uma menina que nasceu predestinada a governar com uma regra bem clara: ninguém pode passar dos recifes, pois existe a maldição de que ninguém voltaria de lá. Então, a vida para o povo desta ilha só acontece ali, são auto-suficientes, cantam, dançam, se bastam. Mas Moana escuta um chamado que vem do mar, e isso é mais forte para ela. Tem uma relação muito forte com sua avó que, desde muito cedo, conta as histórias do além mar, a lenda de que Maui, um semi Deus, roubou o coração da Deusa da natureza, Te Fiti, e espalhou a maldição que ronda a região. Ela é a “louca” da ilha, porém guarda o segredo de que, na verdade, aquele povo sempre foi nômade antes dessa maldição chegar. Ela é a guardiã, também, do coração de Te Fiti, que chegou pelo mar quando Moana era um bebê. No auge da crise, quando os coqueiros começaram a adoecer, e os peixes sumiram, a avó de Moana a entrega o coração e diz para ela buscar Maui.

Moana vai. Contra tudo e todos.

É um filme lindo porque fala da transformação de uma menina em mulher. E, para isso, ela precisa ter muita coragem, principalmente porque, no início da aventura, ela enfrenta o patriarcado, algo que, na vida real, significa um grande peso. Largar a família, desobedecer o pai, sair atrás de incertezas… Porém essa força interna é alimentada por sua avó e ajudada por sua mãe – e isso é mais do que suficiente.

No que diz respeito ao Maui, a figura masculina principal do filme, não existe nenhuma tensão sexual entre os dois, a relação é de amizade e aprendizado, sempre com Moana puxando o barco, tomando a frente, forçando a barra. Ou seja, se não fosse Maui ela não conseguiria devolver o coração da Deusa, mas, se não fosse Moana, ele até hoje estaria numa ilha, náufrago, sozinho e sem poderes. Se esse desenho surgisse há algumas décadas talvez fosse um escândalo…

Moana é uma aborígene, não usa jóias, vestidos rosa ou sapatos. Mas, para mim, ela é a princesa mais linda que pode existir, porque ela é livre. E é esse tipo de princesa que eu gostaria que fosse um exemplo para a minha filha.

Ainda assim, existem muitos filmes de princesa tradicionais, quase todos na verdade. Moana é uma exceção.

O que a grande parte das pessoas não enxerga é que o conteúdo que chega até nossas crianças é altamente ideológico. Ensina que o branco é lindo. Sim, o branco é lindo, mas para ele ser lindo o negro não deve ser diminuído. A mulher é graciosa. Sim, a mulher é graciosa, mas essa graça não deve a deixar num pedestal de cristal imóvel somente esperando um príncipe e um filho para dar sentido a sua vida. O amor de um homem e uma mulher é emocionante. Sim, é emocionante, mas não deve ser o exemplo de amor mesmo para quem é homossexual. Existe uma violência nas entrelinhas da cultura, que serve para a perpetuação do machismo, e esse mecanismo só funciona porque inicia seu trabalho na infância, e essa violência é a redução da diversidade, intrínseca à humanidade e à natureza.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: animação/aventura
Temática Social: protagonismo feminino
Público-alvo: crianças a partir de 3 anos e seus pais e avós, tios e tias
Roteiro: 
(segue o padrão enlatado Disney, com final previsível)
Dramaturgia: 
(desenho perfeito, muito bonito mesmo, performance das vozes – em inglês – é fantástica, músicas – em inglês e português – são bem interessantes e “grudam” na mente)
Aprofundamento da Questão Social: 
(por carregar uma mensagem tão importante para crianças, em uma fase que muitos significados são impressos nas personalidades dos pequenos, e por estimular a família a modificar a cultura tradicional do mito da princesa)

Por Têmis Nicolaidis

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

 

Atlanta: this is America (1a temporada)

*pode conter spoilers

Uma obra de arte do artista Donald Glover (ator de seriado, de cinema pipoca, músico/rapper, produtor, diretor, criador). Atlanta é um caminhar naturalista no dia a dia de um rapaz que se torna produtor de seu primo, Paper Boi, um gangsta rapper, na periferia de uma grande cidade do sul dos Estados Unidos. A este ponto, cabe-se ressaltar que os personagens principais são negros, e o significado de a história acontecer no estado da Georgia não é ao acaso – ali, ao lado de Mississipi e Alabama, a sessessão se fez presente, e com vizinhança também das Carolinas do Norte e do Sul, faz-se um cinturão de alta densidade de populações negras, separando a branca e ensolarada Florida – do paraíso Miami -, do resto do país.

Com a primeira temporada disponível no catálogo Netflix, a cada episódio você vai se emaranhar em situações corriqueiras, mas muito bem contadas e que desenham uma metáfora satírica profunda sobre as raízes e naturalizações do racismo – e também, muito forte, do machismo – na sociedade estadunidense, que, se pode dizer, sim, reflete-se na nossa vida tupiniquim, visto que morais e costumes de lá são dissemidados pela cultura de massa aqui, muito bem programados.

Destaque para dois episódios, um em que o rapper está em um programa de televisão – o episódio inteiro é como se fosse o próprio programa -, numa mesa de debates, participando ao lado de uma personagem tipo psicóloga feminista (uma caricatura), ao mesmo tempo em que é confrontado pelas suas posições misóginas, eles são brindados com um caso de um rapaz negro que alega ser um homem branco nascido em um corpo de homem negro e que estava preparando sua transição. O episódio tem um final fantástico, flutuando entre a sátira crua e o sarcasmo narrativo.

O outro episódio, muito profundo, é o penúltimo dessa temporada (a segunda já rodou inteira nos EUA), quando o casal protagonista vai a um encontro comemorativo da abolição da escravatura no Texas (pra quem não conhece muito a história e cultura estadunidenses, o Texas é como se fosse o Rio Grande do Sul junto a Santa Catarina e Paraná, terra de agropecuaristas/ruralistas brancos, onde o racismo sempre foi muito evidente – e segue sendo praticamente uma instituição). O local é uma mansão aristocrática, onde moram o ricaço branco, doctor antropólogo da questão negra, fã invariável, e sua mulher…negra. Ali vão se expressar cenas das mais constrangedoras possíveis, que sedimentam a temática de todo o seriado e sublinham e atestam: quem assistir a Atlanta, de cabo a rabo, vai estar recebendo um inteligentíssimo compêndio crítico da luta de classes, do racismo e do machismo.

Segue o que eu considero um teaser hardcore do seriado Atlanta (apesar de nada a ver com a produção, mas metaforicamente falando), o clipe This is America, do rapper Childish Gambino a.k.a. Donald Glover:

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: comédia sarcástica
Temática Social: luta de classes, racismo e machismo
Público-alvo: pessoas que entendem linguagem de entrelinhas (metalinguagem) e estão por dentro do conflito étnico-social da atualidade em sociedades racistas e misóginas como as de cunho judaico-cristão, há também muitas referências à própria cultura estadunidense, então, quem conhece as peças de cultura de massa ianque acaba aproveitando um pouco mais, pessoas estudiosas do movimento hip hop, que foram na sua historicidade, da raiz ao rap ostentação, também vão curtir bastante
Roteiro: 
(simplesmente perfeito, constrói uma realidade que mescla o realismo, de personagens e situações verossímeis, com momentos e personagens hilários – em determinado momento aparece Justin Bieber…negro! Não é UM Justin Bieber, é O Justin Bieber e, ali, no universo de Atlanta, ele é um jovem negro)
Dramaturgia: 
(atuações, locações, situações, construções fílmicas incríveis)
Aprofundamento da Questão Social: 
(naquilo que se propõe, na delimitação da sua temática, perfeito, desde em expressões em discurso direto até mesmo na sutileza de algumas relações, muito inteligente mesmo)

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

 

Filmografia Social – The Handmaid’s Tale: um conto fascista

*estamos repostando esta resenha em homenagem à nomeação da nova ministra das Mulheres, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. Aviso! Esta série contém spoilers do futuro do Brazil

Todos os textos que acabei lendo sobre o seriado The Handmaid’s Tale acabam usando o termo “distopia”. Usa-se esta palavra para se associar à ideia contrária a uma utopia, para descrever que aquele universo retratado é um inferno, uma sociedade e um mundo em que não se quer viver. Mas durante um dos últimos episódios da segunda temporada, quando da epopeia do nascimento de mais um bebê – algo realmente importante na diegética da série -, sob a atonicidade que me colocava observando a jornada da mulher protagonista da série, eis que a epifania chega: esta série não retrata uma distopia, mas uma utopia – a utopia do fascismo judaico-cristão, que, hoje, poderia-se dizer, a utopia bolsonariana.

As regras e leis de Gilead – o nome da nova nação, uma ditadura teocrática (fascista), que se insurge de um Estados Unidos fraticionado – seguem à risca os ensinamentos bíblicos, mas à risca mesmo. E quem mais sofre com a nova e insurgente sociedade estamental posta são as mulheres e os chamados traidores de gênero – sim, gays, enforcadas(os) em praça pública. As mulheres ocupam setores-chave da sociedade, as que se vestem de azul, as esposas, cuidam da casa; as que vestem bege, as Marthas, ajudam as esposas a cuidar da casa, são as empregadas; as que vestem marrom, as Tias, ajudam as esposas a cuidar do lar, pois colocam as que vestem vermelho, as Handmaids, mulheres férteis, em suas casas, na feição para seus Commanders – “comandantes”, quem diria – inseminá-las em seções de estupro ritualísticos. Claro, para além dos rituais, os Commanders, homens heterossexuais, que controlam o “novo” Estado com braço forte sob a égide da lei bíblica, usam as Handmaids como bem entendem, nos seus covis de suas casas, longe dos olhos das esposas e outros membros da sociedade – oras, eles podem, né.

É o triunfo da família, tradição e propriedade. Por que os homens têm que criar novas leis se o perfeito regramento está escrito há milênios já – basta segui-lo. E é isso que os cidadãos de Gilead fazem de suas vidas. São enforcados porque gostam de pessoas do mesmo gênero, tomam tiro e coronhada porque desobedecem o espectro definido pela casta de cima, perdem dedos e olhos se são pegos lendo algum livro…

A visão de The Handmaid’s Tale é a materialização audiovisual do ideário pregado por bolsonaristas – é realmente incrível, como um quadro de Michelangelo. Mulheres subjugadas, sem serem donas de seu corpo ou vontades, submetidas às regras de homens heterossexuais, comandantes militarizados e religiosos, patriarcas da moral e costumes, garanhões responsáveis pela normalidade imposta. E gays? Enforcados. Só não é mais perfeito porque no seriado a questão da raça não parece ser preponderante, os seguidores de Bolsonaro e Janaína Paschoal fizeram este “upgrade” nas suas utopias…

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: drama e suspense
Temática social: direitos humanos, direitos da mulher
Público-alvo: principalmente mulheres acima dos 16 anos, mas pessoas que se interessam em discutir estratificação social de maneira aprofundada podem achar incrivelmente útil independentemente de gênero (se bem que é possível que, por uma certa ignorância sarcástica, pessoas de ideologia de direita, fundamentalistas, possam achar o máximo Gilead e isso diverti-los)
Roteiro: 
(por vezes, as narrativas são longas demais, arrastadas, e soluções muito fáceis são encontradas para temas complexos, várias vezes também é possível perceber as saídas comuns empregadas também em outros seriados do gênero, há o apego numa figura heróica, estilo Rocky Balboa, que apanha, apanha e apanha, mas sempre triunfa ao final)
Dramaturgia: 
(perfeita, cenários, figurinos e atuações destacadíssimas, construção de imaginário figurativo completo, usa cenas fortes sem medo de parecer apelativo, usa a ternura sem medo de parecer piegas, as cenas de estupro ritualístico são sensacionais)
Aprofundamento da Questão Social: 
(assista para entender o que pensam os ideólogos teocratas de direita e para construir de maneira clara a metáfora da família baseada no patriarcado, na cultura machista e homofóbica)

Por Gustavo Türck.

– para ver a página do seriado no IMDb (Internet Movie Database), com trailer, clique aqui
– The Handmaid’s Tale é um seriado de um serviço de streaming estilo Netflix, chamado Hulu, mas é veiculado no Brasil pelo canal pago HBO, sendo fácil de encontrar em serviços de torrent como o Popcorn-Time com legendas em português
Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras