Arquivo da categoria: Política

Pra não esquecer: Cine Marighella

No aniversário do assassinato de Carlos Marighella, segue uma coprodução do Coletivo Catarse com o Professor de História Laurence West, diretor do filme (Sinopse: Cine Marighella busca resgatar a memória de um herói brasileiro. A prisão do então deputado Carlos Marighella, em maio de 64, marca de forma intensa a trajetória de lutas do baiano que virou referência mundial na luta contra a opressão.).

Trailer:

Filme completo:

Heavy Hour sobre o tema:

Enrico de Angelis, da Los Fastidios: à esquerda da cultura Skinhead

Antes do show da banda Los Fastidios em Porto Alegre, o Coletivo Catarse conseguiu entrevistar Enrico de Angelis, vocalista e único membro da formação original da banda.

Confira abaixo a conversa, na qual Enrico contou um pouco da história da banda, falou de política e mostrou uma visão à esquerda da cultura Skinhead.

Poderia contar um pouco sobre a história da banda e como vocês perceberam a situação política se modificar ao longo destes anos?

A banda nasceu em Verona. Verona é uma cidade no nordeste da Itália. A banda nasceu em 1991 e sou o único “sobrevivente” da formação inicial.

Não é fácil “sobreviver” com a Los Fastidios, se você conferir nossas datas da tour, vai ver que a banda toca ao vivo com frequência. Então tocamos muitos shows, e infelizmente não conseguimos sobreviver somente com a música. Não é fácil se organizar para tocar mais de 100 shows todo ano.

Assim, mudamos algumas formações ao longo do ano e no momento temos um grupo bom, formado não só por pessoas vindas de Verona. Mário, o guitarrista, é de Veneza. O baterista, Baqueta, é de Rovigo. Ciacio, o baixista, vem da Cércia na região da Emília Romanha (norte da Itália).

Como te falei, nossa banda toca muito ao vivo. Rodamos o mundo e agora estamos aqui na América Latina. Essa tour foi mágica: passamos duas semanas entre o México, Brasil e Chile. Hoje é última data da tour. Estou triste por isso, gostaria de poder ficar mais.

Você perguntou também da situação política…

Está muito difícil na Itália como em todos os lugares. Aqui no Brasil percebo que vocês também vivem um momento bem complicado.

Mas estamos aqui para dar nossa energia, nossa música para apoiar o movimento antifascista no Brasil. Esperamos que nossa música possa trazer uma energia positiva para as pessoas neste momento importante para o Brasil.

Na Itália, a situação não é muito diferente. Temos um governo de coalizão entre um partido recente chamado Movimento Cinco Estrelas, que tem integrantes de esquerda e direita. É um grande caos. pois querem fazer um partido do “Novo Milênio”, ou algo diferente da política tradicional, mas eles não são nada, pois não tem valores. Acredito que um partido político precisa de valores em comum para unir as pessoas, e eles não tem. Além disso, este partido fez uma aliança com outro extremamente racista, o Liga Norte.

No momento nosso primeiro ministro é uma pessoa terrível, ele é o homem que quer fechar todos os portos e deixar os refugiados que tentam chegar na Itália morrerem no mar. O problema, na Itália, como em toda a Europa, é que os partidos de extrema direita estão usando a situação dos refugiados.

Posso garantir a você que não existe realmente uma crise dos refugiados, porque na Europa temos espaço para todas as pessoas. Mas os partidos de direita estão usando a situação, que chamam de problema ou crise, para espalhar suas mensagens racistas fodidas; para criar uma situação de medo e pânico. É uma loucura, pois as pessoas absorvem este discurso e se sentem ameaçadas e passam a agir com raiva e ódio.

Acredito que se as pessoas conversassem com os refugiados, perceberiam que os imigrantes são ótimas pessoas. Por exemplo, em Verona temos um projeto que apoia um clube de futebol chamado Virtus Verona, que joga na terceira divisão.

Nosso time está recebendo refugiados no momento. Vivo numa cidade muito fascista, então é difícil; mas, sou muito orgulhoso do meu time, porque estão fazendo um trabalho importante acolhendo estes refugiados. Com estes caras, temos um pequeno grupo chamado Rude Firm que busca envolver os refugiados na vida das arquibancadas. Garanto a você que esta é a melhor experiência da minha vida.

Os refugiados são ótimas pessoas. Mas, o problema na Europa é que as pessoas têm medo da situação. Acho que a melhor maneira de superar isso, seria se sentar na mesa com os refugiados, conhecê-los, conviver com eles, compartilhar refeições com eles, como fazemos todos as semanas.

Se as pessoas conversassem com os refugiados, iriam entender que eles são pessoas como você e eu. Não existe crise de refugiados.

Também acredito que a Europa explorou a África por séculos. Acho que é hora de devolvermos algo a estas pessoas. Mas, muita gente na Europa não pensa como eu.

Então na Itália existe um grande problema, com essa situação de medo. Mas o problema não é só na Itália, em toda a Europa os partidos de extrema direita estão usando essa estratégia política do medo para se espalhar e crescer; e o problema é que eles realmente estão crescendo.

 Aqui no Brasil temos um senso comum que costuma associar os Skinhead à extrema direita. Poderia contar um pouco sobre a cultura Skinhead de uma perspectiva a esquerda?

Sim, isso acontece mundialmente…

Mas sobre a cultura Skinhead, eu poderia dizer que ela nasceu ao misturar diferentes culturas negras e brancas. Então, para mim, ser Skinhead significa ser realmente anti fascista, anti racista. As raízes do movimento são negras e brancas.

Infelizmente hoje, o movimento Skinhead é visto com maus olhos. Eu responsabilizo a grande mídia corporativa por isso. É muito fácil para eles: as pessoas dão mais atenção sobre notícias sobre quando os Boneheads – (cabeças de osso) pois não gosto de chamar esta gente de Skinhead – atacam os ciganos ou os imigrantes. Isso rende grandes notícias e audiência para essa mídia.

Ao mesmo tempo existem muitos Skinheads envolvidos nos movimentos anti fascista e anti racista. Mas, para a grande mídia isso não é importante: não é notícia. Assim, no final você pode ler muita coisa na grande mídia falando sobre os Boneheads fascistas.

Mas acho que os Boneheads fascistas precisam ir para a escola e estudar. Acho que eles perderam algo, que só sabem sobre os últimos anos e não olham para as raízes do movimento que dizem seguir.

Felizmente neste momento existem muitos livros e muito conteúdo de qualidade circulando na internet. Hoje você pode entender melhor a história e a verdadeira cultura do movimento Skinhead.

Eu acredito que o movimento Skinhead foi a primeira subcultura, ao longo do século passado,  a unir pessoas negras e brancas dentro da Europa.  Antes desse movimento, negros ficavam com os negros, e os brancos ficavam com os brancos. O movimento Skinhead foi a união.

Talvez este seja o motivo pelo qual os fascistas tentam sabotar o movimento: porque acho que eles vem este movimento como realmente perigoso. Porque acredito que o movimento Skinhead foi o início de um novo movimento, de uma nova subcultura internacional. Mas, ao mesmo tempo, os fascistas tentam destruir este movimento, porque essa união é muito perigosa para eles.

Enrico de Angelis,
vocalista da banda Los Fastidios.

Entrevista: Bruno Pedrotti
Imagens: Billy Valdez

Lição de arrogância (ou: como descer à lama sem perder a empáfia)

Por Rodrigo Navarro, retirado originalmente do site Somos Todos Clube do Povo

Temos ouvido que ontem foi um dia histórico para o Sport Club Internacional e, mais do que isso, para o futebol brasileiro. Triste, muito triste. É lamentável que tenhamos chegado ao ponto de comemorar a punição de ex-dirigentes por atos de improbidade. Quem ganha com isso? Claro, diante de tudo o que aconteceu, comemora-se o que deve ser um marco no processo de moralização e transparência do clube, mas podemos nos alegrar em abstração? Eu não me alegro.

Os termos em que se deu a condenação dos ex-dirigentes já se tornaram públicos antes mesmo do fim da sessão do Conselho Deliberativo, portanto desnecessário “chover no molhado”. Da mesma maneira com os fatos que levaram a esse resultado. A torcida colorada já sabe o que o ex-presidente Píffero e os seus companheiros de gestão fizeram (e deixaram de fazer) para que lhes fosse imposta a sanção aplicada ontem. Ou melhor, a torcida sabe o que veio a público até agora, pois dizem pessoas melhor informadas que há mais, inclusive no âmbito das investigações promovidas pelo Ministério Público, mas nesse mérito nem vou entrar.

Eu quero me ater, neste momento, à atitude do ex-presidente Vitório Píffero. Imaginava-se que alguém que é levado ao plenário para responder acusações pesadíssimas que lhes foram feitas pelos seus pares (a Comissão Especial que investigou o caso) tivesse uma postura menos arrogante do que aquela a que nos acostumamos a ver. Erramos feio! O homem subiu à tribuna mais prepotente do que nunca. Em pouco mais de meia hora, disse diversas vezes que a única acusação que respondia era a de “saber de tudo”. E a sua defesa limitou-se à afirmação de que de nada sabia. Penso em esmiuçar um pouco mais essa “tese” de defesa, mas não encontro maneira, porque não há como extrair algo mais das palavras (não) ditas pelo ex-presidente. A ironia, que se constitui numa característica do dirigente punido, esteve presente na sua manifestação em muitos momentos. Ao dizer, por exemplo, que para algumas pessoas o custo de 100 reais para uma refeição pode ser considerado baixo, Píffero escancarou a sua inadequação para dirigir o Clube do Povo. E nem estou falando aqui da situação do país, em que milhões passam fome, me refiro apenas à condição de um homem que se manifesta diante de um plenário que hoje pode ser considerado plural, composto de pessoas de várias camadas sócio-econômicas. Respondendo diretamente a um conselheiro que se manifestou naquele momento, disse o ex-dirigente: “Depende do restaurante que tu vai.” Por aí se vê o pensamento elitista de alguém que já presidiu o clube mais popular do Rio Grande do Sul.

A maior surpresa, porém, para mim, estava reservada para o momento final da sua fala. Ao ter o seu pedido de prorrogação de tempo indeferido pela Mesa do Conselho, Píffero, notadamente nervoso, a tal ponto que o Marcelo Cougo e eu acharmos que ele poderia ter um mau súbito a qualquer momento, fez referência a mim, Rodrigo Navarro, ao conselheiro Arthur Caleffi e a um terceiro conselheiro, nomeado apenas como Guilherme, dizendo ter em mãos um B.O. (Boletim de Ocorrência), lavrado contra nós, por conta de suposto envolvimento e um processo de extorsão de um empresário que realizou serviços no Parque Gigante durante a sua gestão. Disse que teríamos exigido dinheiro desse empresário e ameaçado que se ele não “entrasse no esquema” (que esquema seria ele não disse), colocaríamos a Polícia Federal no encalço dele. Essa conversa teria acontecido num café localizado no Hospital de Clínicas. Mais sobre isso não posso falar, porque o que relatei aí é basicamente o que foi dito por ele.

É importante deixar bastante claro que o ex-presidente cometeu, no meu entendimento, o crime de calúnia, ao imputar a mim e aos outros dois conselheiros citados, uma conduta criminosa da qual não temos o menor conhecimento. Para ilustrar o absurdo das acusações, o conselheiro Caleffi e eu, embora sejamos colegas de Conselho, nos conhecemos pessoalmente na reunião de ontem. A gravidade da atitude do ex-presidente aumenta quando sabemos que a reunião de ontem foi transmitida ao vivo aos sócios e sócias – outro marco importantíssimo na história do clube, eis que esse procedimento foi adotado pela primeira vez -, e, segundo informações que obtivemos lá mesmo, a transmissão estava sendo vazada em tempo real para a imprensa. Ou seja, além de nos caluniar frente aos nossos colegas conselheiros e conselheiras, as acusações tiveram um alcance que sequer podemos mensurar neste momento. Obviamente, de minha parte, ele terá de responder por isso, da mesma forma que outras pessoas eventualmente envolvidas. Espero que os conselheiros Caleffi e Guilherme também o façam.

Não quero me alongar demasiadamente neste texto, que tem por objetivo apenas mostrar que o ex-presidente Vitório Píffero, além de continuar sendo a pessoa arrogante e prepotente que conhecemos e de ter gerido muito mal o clube na sua última passagem pela presidência, do que não deixa dúvidas a condenação de ontem, ainda agiu ontem como um caluniador e tudo isso diz muito do que aconteceu no Inter nos anos recentes que antecederam 2017.

#Ele não em Porto Alegre: ontem hoje e sempre

Presenciamos uma manifestação contra o candidato de extrema direita e notamos que esse movimento segue ganhando força.

Dia 29 de setembro, em um sábado quente e abafado, acompanhamos o ato contra o candidato fascista que concorre a presidência do país.

O que testemunhamos foi uma união sem precedentes.  Importante destacar o protagonismo das mulheres, que começaram a se articular contra as declarações machistas do candidato.

Mas a partir daí, se uniram à causa pessoas das mais diversas etnias, classes sociais, idades e identidades de gênero.

Durante a caminhada, notamos um clima de paz e harmonia.  Não percebemos nem mesmo as pequenas depredações comuns em protestos, como pichar ou virar latas de lixo.

Apesar da seriedade das reivindicações, o ato não tinha um clima violento. Pelo contrário, um trio elétrico e marchinhas davam um toque descontraído e de leveza:

“Olha como Luta essa mulher
Será que ela é?
Será que ela é?
Livre!”

O ato era combativo, mas o fazia com a elegância de quem se permite sentir raiva, porém se recusa a odiar seu oponente.

De tempos em tempos se ouvia ressoar o refrão:

“Ele… Não!”
“Ele… Não!”

Agora, depois de um primeiro turno assustador no qual o fascismo quase venceu, percebemos novamente e mais forte que nunca a união contra o candidato e seu discurso de ódio.

Pipocam atos em defesa da democracia no Facebook:

Um deles, marcado para as 18 horas de hoje (10 de outubro), convoca os estudantes a defender a universidade pública e a democracia. Outro, marcado para as 18 horas de amanhã (quinta feira 11 de outubro) defende a união das esquerdas contra o nazifascismo e o autoritarismo.

E esses são só alguns exemplos que aparecem na pesquisa da rede social…

Seja protestando, votando ou tentando reverter o voto daquele tio que pretende votar no candidato, entendemos que este momento é extremamente importante para se unir e apoiar o pouco que resta de democracia no Brasil.

Afinal, o candidato já se declarou contra as leis trabalhistas e inclusive afirmou que irá acabar com o décimo terceiro salário. Também se posiciona contra as cotas nas universidades, contra demarcações de terras indígenas e quilombolas, sem falar nos crimes de ódio e preconceito que propaga sempre que se pronuncia.

Assim, reafirmamos aquilo que cantamos no ato do dia 29 de setembro:

“ELE NÃO! ELE NUNCA!!”

Por Bruno Pedrotti