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Guaranis da Ponta do Arado denunciam ataque a tiros nesta madrugada, na zona sul de Porto Alegre

Nesta manhã (11/1), recebemos a informação que por volta das três da madrugada, os Guaranis da Ponta do Arado, em Belém Novo, foram atacados a tiros.

Segundo relato do líder da comunidade, Timóteo, homens armados dispararam dezenas de tiros sobre os barracos e ameaçaram os indígenas de morte, caso eles não desocupem a área até domingo.

Timóteo também relata que as crianças e as mulheres entraram em pânico e as famílias estão muito amendrontadas.

Uma denúncia está sendo realizada agora pela manhã na Delegacia de polícia de Belém Novo. MPF e Funai também serão acionados para que atuem na garantia da segurança da comunidade.

No final de 2018, a Amigos da Terra, que vem acompanhando a situação dos guaranis, já havia divulgado a denúncia da comunidade frente o isolamento involuntário e sobre o monitoramento compulsório que vêm sofrendo por parte da Arado Empreendimentos Imobiliários.

Leia a matéria completa com mais informações no site do Amigos da Terra.

Projeto Resistência Kaingang – Diário de Viagem (dias 1 e 2)

Aqui começam as publicações que vão contar um pouco da jornada da equipe do projeto em setembro de 2018:

Dia 1 e 2: T.I Serrinha (RS) 24 e 25 de setembro: Sobre os passos de Alcindo Peni Nascimento… Primeiros momentos.

O primeiro dia da nossa estadia nas Terras Kaingang foi um dia de reencontros da companheira Iracema Gatén Nascimento com seus parentes que lutaram junto com ela e com seu pai Alcindo Peni Nascimento nas retomadas de Nonoai, Mangueirinha e Serrinha.

1--Iracema-e-Livia
Iracema Gáten Nascimento e sua prima Lívia Nascimento caminhando na T.I Serrinha

VII encontro dos Kujás: Danças de Poder Kaingang

Ao chegar no topo do Morro do Osso, Porto Alegre, começamos a sentir o cheiro característico da mistura entre mato e cocô de galinha – não, isso não é ruim. Nos aproximamos de um grande galpão no qual a multidão estava reunida.

O sibilar dos chocalhos e o grave ressoar das batidas ritmadas no chão construíam a atmosfera ritual.

Dentro do galpão de madeira com telhado de zinco, uma roda de espectadores assistia à apresentação da comunidade do Morro do Osso. Os Kaingang de vários cantos da região sul do Brasil compunham a maior parte dos espectadores e estavam presentes desde crianças de colo até lideranças mais velhas.

Os guerreiros e guerreiras que se apresentavam usavam cocares de penas e tinham seus corpos pintados para a batalha. Batiam com o cabo das lanças e com os pés descalços no chão.

Dançavam em uma grande roda que percorria boa parte do interior do galpão. Por vezes, formavam fileiras como que para marchar.

Cantavam no idioma Kaingang, reacendo o fogo da sabedoria milenar. Os líderes dos grupos geralmente cantavam uma frase que era respondida em coro pelos jovens guerreiros.

Além do grupo local, também admiramos a apresentação dos grupos de Votouro e Guarita, ambas do norte do Rio Grande do Sul.

Em uma fala após as apresentações, Douglas Kaingang ressaltou a importância do encontro dos Kujas (cunhãs no brasilês) para resgatar os conhecimentos tradicionais e valorizar a cultura Kaingang.

Segundo Douglas, o evento buscava “ressaltar a presença e a identidade Kaingang em Porto Alegre”. Além disso, também falou dos episódios atuais da política de extermínio que os Kaingang e demais grupos indígenas enfrentam há 500 anos.

Citou episódios recentes de violência sofridas pelos Kaingang nas aleias da Serrinha, Votouro e Passo Grande da Forquilha. Por fim, concluiu: “Esses encontros são importantes para nos fortalecermos em um momento difícil”.

Saúde Indígena

Dia 18 de outubro, em uma quinta feira nublada de primavera, indígenas das etnias Kaingang, Guarani e Charrua se reuniram em frente à sede do Ministério Público Federal, próximo ao Parque Harmonia.

esq para a direita Cacica Aquab, representante do povo Charrua e Iracema Gah Teh, liderança Kaingang

Após demandas das lideranças, o Ministério Público marcou a reunião com os indígenas e o diretor da Secretaria Especial da Saúde Indígena (SESAI) para discutir questões referentes à saúde.

João Carlos Padilha, Cacique representante dos Kaingang do Morro Santana

Em entrevista, o Cacique João Carlos Padilha declarou a principal reivindicação era a saúde indígena diferenciada, garantida pela constituição. O líder Kaingang denunciou que o Estado nunca cumpriu com os compromissos que firmou com os indígenas, tanto na questão da saúde quanto das demarcações de terra.

Iniciada a reunião, em um auditório congelante, os excelentíssimos senhores começaram suas teses. A ideia proposta da reunião era a de se ouvir os indígenas, mas os “brancos” falaram primeiro.

Márcio Godói Spíndola, Secretário Adjunto da Saúde Indígena, falou das dificuldades de logística que a SESAI enfrenta, além de reforçar  que a secretaria não pode interferir no município e no estado.

A reunião seguiu, com os “brancos” passando a palavra entre si. Enquanto isso, os indígenas davam sinais de querer falar. Cacique Saci, liderança da comunidade Kaingang de Vicente Dutra, era um dos indígenas que demonstrava claramente querer se manifestar.

Até que o cacique se levantou e caminhou em direção ao microfone

“No momento, estamos abrindo para fala de organizações”, tentaram lhe desencorajar.

Saci seguiu obstinado.

“Em um outro momento abriremos a fala para os indígenas…”, insistiram.

Mas o cacique prosseguiu e conquistou o microfone, como os indígenas fizeram com os poucos direitos que têm. Assim, inaugurou seu momento de fala.

Saci falou da importância do território para a saúde indígena. Na sua visão: “Para se fazer boa saúde indígena, é preciso fazer gestão territorial”.

O líder comentou que a saúde indígena precisa de autonomia e denunciou que muitas vezes os recursos eram mal gastos. Para ele, o dinheiro era gasto com outras questões e eram contratados profissionais desinteressados e que não respeitavam a cultura Kaingang.

Nesse sentido, Jaime Aldo, uma das lideranças Kaingang dos grupamentos Kaingang da zona sul de Porto Alegre, ressaltou a importância de se respeitar o modelo de vida das comunidades. Ele também denunciou a falta de moradia digna e de água.

“Estamos há 4 anos na área e não temos saneamento básico. Faz um ano que peço para a SESAI levar água potável”.

Antonio dos Santos, cacique Kaingang de São Leopoldo. Também falou em um forte tom de denúncia: “quantos caciques já morreram lutando?!”, questionou.

E ainda completou: “Tem que tirar a bandeira do congresso e colocar na mão do pajé, porque o Brasil é nosso!”.

Para Antonio, os caciques precisam de autonomia para decidir quem vai trabalhar na aldeia. Também atacou a burocracia que dificulta para que os jovens indígenas formados possam exercer a medicina nas aldeias.

Assim, os indígenas – com forte protagonismo Kaingang – deixaram claro que independente do governo que assuma em 2019, seguirão lutando pelos seus direitos.