Tribunal de Cajamarca, região norte do Peru, 1994. Pesa no ar a insensatez.

André de Oliveira

– Você é terrorista? – pergunta o juiz.
– Não! Não sou terrorista.
– Mas você deve dizer que sim, que é terrorista, para que nesse momento fique em liberdade e possa estar sobre a proteção legal da Lei do Arrependimento!
– Mas não pode ser. Como posso dizer que sou terrorista, quando não o sou…

Coagida. Amedrontada. Sem conhecer as conseqüências reais da resposta “Sim, sou terrorista”. Pressionada pelo comissário de polícia de Cajabamba, povoado onde vivia, com recomendações de que seria a melhor escolha. Num turbilhão de confussões, Natividad Obeso, peruana refugiada na Argentina há 11 anos, deixa naquele momento uma marca profunda em sua vida: ser perseguida pela Justiça peruana por suspeita de crime que nunca cometeu.

Porto Alegre, 2005. Fora do Peru esquecida pelo mundo.

Só lhe resta agora denunciar sua condição oprimida e mobilizar solidariedade. Foi o que Natividad fez no painel “Refugiados”, do Fórum Social da Migrações, na tarde do domingo 23 de janeiro. Ergueu o braço no momento reservado à exposição de depoimentos. Denunciou. Porém não recebeu a solidariedade esperada. Sua voz era a súplica da ajuda. A resposta veio, lamentavelmente, pela perplexidade dos participantes. E a reação dela, o nó da angústia.

O silêncio refugiado de milhares de peruanas acusadas de terrorismo durante a ditadura militar de Alberto Fujimori permanece esquecido. Não há qualquer movimento organizado no Peru que logre reivindicar o fim de acusações mentirosas e defenda seus direitos fundamentais. Natividad e outras tantas peruanas estão lançadas ao destino trágico do abandono. Peregrinam em busca dum espaço humano de acolhida para resolver tantas injustiças. Peregrinam em busca da verdade.

Estas mulheres fazem parte do imenso contingente de pessoas obrigadas a abandonar o que as identifica e sustenta. Difícil de contar, mas o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ANCUR) estima em 17 milhões, só os que vivem em acampamentos. Outros números apontam 175 milhões de pessoas buscando sobreviver fora de seu país por conflitos variados.

São muitos. E são sós. O sentimento de solidão e afastamento domina a história de um refugiado. A intolerância reprime, distancia e isola. Cada caso tem seu sintoma degradante específico. O de Natividad é só um deles.

À sombra do Sendero Luminoso
O início da tormenta de Natividad está na bem sucedida aposta no negócio de revenda de cervejas nos povoados vizinhos à Cajabamba. O aumento dos lucros fez dela alvo fácil no regime de extorsão praticado pelo movimento armado peruano, que age com desenvoltura por esta região. Natividad sempre pagou regularmente o suborno exigido por medo. Mas o que incomodava os que a extorquiam era sua inserção comunitária durante a campanha para eleições municipais daquele ano. É que melhorar as condições de vida, para quem não necessita, só atrapalha é o que entendem os chefes do Sendero.

Numa noite, senderistas a capturaram e a levaram numa celebração em homenagem à Mão Tse-Tung. Na verdade se tratava de um julgamento popular. No banco dos réus, Natividad, sem entender nada do que se passava. A única lembrança é de que foi absolvida por seus conterrâneos e ordenada a desaparecer da festa imediatamente.

Natividad procurou a polícia para formalizar denúncia de seqüestro. O mesmo delegado, que meses depois aconselharia ela a assinar a confissão de terrorista, foi quem não aceitou sua queixa, sem explicar qualquer motivo.

Meses depois, chega à Cajabamba uma ordem de captura contra Natividad pela acusação de colaboração estratégica com o movimento Sendero Luminoso. O indiciamento partira de Leodan Alfonso Alcalde, condenado como terrorista arrependido e transformado em fonte de denúncia pelo órgãos de segurança pública. Detalhe: Natividad, até hoje, não tem a mínima noção de quem seja o sujeito.

Antes da chegada dos policiais, Natividad, mãe de quatro filhos, foge para um povoado distante, aluga uma casa, coloca sua mãe como guradião da família, foge para a Argentina, passa a sofrer discriminação étnica e social por ser imigrante e fica os próximos sete anos como fugitiva ilegal. Só em novembro de 2001 a Justiça Argentina emite sentença reconhecendo sua situação de refugiada.

Desde então passou a integrar a luta organizada dos militantes na Argentina. É presidente do grupo Mujeres Peruanas Unidas Migrantes y Refugiadas. Seu desejo é voltar para seu país. A ordem de captura desencoraja a tentativa de encarar os tribunais. O crime de terrorismo não tem prescrição no Peru.
Lhe restam quatro alternativas. Enfretar diretamente o processo judicial, o que significa sua imediata prisão. Apresentar uma defesa de inocência desde a Argentina, com uma chance muito reduzida de ser aceita, pois como poderá abrir um processo em que não haverá interrogatório. Levar o caso até a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Ou permanecer em Buenos Aires, determinada a esperar a dia em que a insensatez que pesa no ar abra um brecha a uma ajuda que chegaria na rua Jufre, sala 2, sede de sua organização. Natividad tem fé. É uma lutadora refugiada. Trabalhadora oprimida.

Uma criança morre a cada cinco segundos no mundo…

Fabiana Mendonça

E a família senta a mesa para o abençoado almoço, aos berros com os seus e em silêncio servil frente à televisão.
E a filha reclama com os pais pelo imperdoável ato de não poder consumir um produto qualquer novo, cheiroso, dentre tantos que a sociedade apresenta.
E o marido que briga com a mulher por ela ter se tornado parte da mobília e ela exige em troca que ele ainda seja a ilusão de um tal príncipe encantado tão vendido em histórias capitalistas-infantis.
E uma criança morre a cada cinco segundos no mundo…
E os governos e suas amigas empresas buscam mais controles e maior poder em outros territórios além-mar. E políticos “representantes” do povo, que em seus currículos jamais consultaram o interesse popular, criam leis e governam para si, para os amigos, parceiros e financiadores.
E o mundo é regido pelo poder financeiro, onde vidas são traduzidas em números, sentimentos são manipulados pela publicidade e tudo recebe um código de barras com seu valor pré-estabelecido. O dinheiro é sua religião dominante.
E uma criança morre a cada cinco segundos no mundo…
E numa mesa de bar um grupo de amigos bebe há várias horas e nem sequer se cogita em falar em crianças, muito menos naquelas que desfalecem em algum lugar do mundo.
E nos corredores do alto poder, crianças não entram, pois o lugar está abarrotado de quem dá mais, de ternos, gravatas e tailleurzinhos comprando ou vendendo a vida de mais uma dessas inocentes criaturas prematuramente arrancadas do mundo.
E ninguém fala sobre isso, não nasce um mísero rubor de vergonha na cara de nenhum santo cristão, ateu, ou seja lá que deus escolheu para seguir.
E não salta uma indignação sequer em algum peito que ainda tenha algum órgão a pulsar.
E uma criança morre a cada cinco segundos no mundo…
E não acorda memória nenhuma que lembre o que é ser criança. E essas que estamos fingindo desconhecê-las, no curso normal da vida têm seus corpos desprendidos das almas cedo demais.
E UMA CRIANÇA MORRE A CADA CINCO SEGUNDOS NO MUNDO!
E O QUE TU FAZ A CADA CINCO SEGUN-DOS DA TUA VIDA?

E algum título descreve essa situação?

Vem cá, por que tu me olha assim? Vejo medo em teus olhos e repulsa em tua expressão. Por que muda de caminho para não cruzar comigo? Tu desvia o olhar e finge que não me vê. Por que amaldiçoa minha existência? Em rodas de amigos finge compaixão e sozinho em teu egoísmo sente-se aliviado pelo assassinato de mais um dos meus?
Ei, olhe para mim. Mire bem meu rosto e seja franco contigo. Acredita que sou assim porque quero? Olhe para meus pés. Uso chinelos. Acha que não sinto frio no inverno? Acha que estou precariamente vestido porque quero? Crê que peço comida por gula? Que cheiro cola para tornar mais divertida a vida? A cola é o meu cobertor, o meu agasalho nas noites frias de um inverno sem piedade. Te incomodo porque urino em tuas calçadas e defeco em tuas praças? Meus filhos ranhentos não são dignos de brincar com os teus? Acaso os sonhos infantis não são os mesmos, recheados de super-heróis, grandes partidas de futebol, uma casa arrumadinha num futuro colo-rido? Todos fazem parte da mesma geração que nos sucederá. E onde está a diferença?
E tu, o que faz por mim? Crê que não tem responsabilidade sobre como vivo? Olhe para longe do teu umbigo. Também tenho umbigo. E tenho outras marcas de violência, outros buracos de bala, outras tentativas de me expulsarem deste mundo. E este mundo também não é meu? Também não mereço casa? Por que não me dá emprego? E por que não me educa?
Não me censure por ser a conseqüência da tua falta de ação. A cidade também é minha. As ruas também são minhas. Mas antes eu as tivesse como trilhas para bem viver. Antes eu as não usasse para dormir.
Sim, sou morador de rua.