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Filmografia Social: Mestre Borel- a ancestralidade negra em Porto Alegre

Certa vez ouvi alguém dizer que, para as culturas orais, os mais velhos são como os livros, pois carregam grande conhecimento e é com eles que se aprende.

Se isso for verdade, Walter Calixto Ferreira, conhecido como mestre Borel, era uma das mais completas enciclopédias para se pensar as religiões de matriz africana e diversas questões da história negra na Porto Alegre do século XX.

Me refiro a ele no passado, pois Mestre Borel faleceu no ano de 2011. Felizmente um pouco de sua sabedoria ficou registrada no documentário de Anelise Gutterres.

Além de contar a história pessoal do mestre e mostrar sua prática afro religiosa, o filme revela as transformações geográficas e sociais pelas quais a cidade de Porto Alegre passou no século passado.

Walter Calixto Ferreira nasceu em 1924 na cidade de Rio Grande. Com menos de 1 ano de idade, foi morar em Porto Alegre, justamente na região da ilhota.

Se você, assim como eu, conheceu uma Porto Alegre já aterrada, saiba que não foi sempre assim. Nas áreas centrais, havia diversos banhados, e o Arroio Dilúvio, que na época era um grande rio, separava os habitantes.

A memória de mestre Borel revela uma cidade na qual diversos arroios construíam arquipélagos e banhados. Nesses locais – dentre eles a Ilhota – moravam os negros de Porto Alegre.

Enquanto Borel fazia suas andanças, tendo morado no Rio de Janeiro durante alguns anos, Porto Alegre aterrava estas regiões centrais. Os negros, que residiam nestas áreas, foram removidos para o bairro Restinga.

Não por acaso, quando volta para Porto Alegre nos anos 1980, o mestre vai morar na Restinga. Lá, encontra diversos familiares e conhecidos da Ilhota, do Areal da Baronesa, da antiga Cidade Baixa.

Assim, fica perfeitamente exemplificado o processo racista e de gentrificação que removeu a população negra dos bairros centrais, como a Ilhota, e os colocou na Restinga, há mais de 20 quilômetros do centro da cidade.

Além de retratar este “embranquecimento” das áreas centrais da cidade, o documentário mostra as práticas religiosas afro-riograndenses. E neste âmbito, Borel é simplesmente mestre!

Não me considero um especialista em culturas de matriz africana, mas pelo pouco que sei, estas culturas valorizam as origens. Tanto que, neste contexto, é comum usar o termo “raiz” como adjetivo positivo. Por exemplo, um reggae raiz, um samba de raiz.

Como mostra o documentário, a avó de Borel veio da Nigéria e era Yoruba. Assim, a família manteve viva a religião dos Orixás, que sempre fez parte de sua tradição.

Mas não foi “somente” isso que lhe rendeu o título de mestre. O filme resgata muito bem a dedicação de Borel, que passou boa parte da sua vida fortalecendo a religião.

Esta dedicação se evidencia também nas cenas em que o mestre toca tambor. Tendo tocado desde a infância, Borel desenvolveu um método de usar as pontas dos dedos de uma mão- numa carícia suave- que constrói um som único.

O canto em Yoruba e os trajes religiosos também são maravilhosos. É claro que não são meramente estéticos; possuem significados dentro da prática afro religiosa. Mas, quem não participa destas religiões, e aqui me insiro novamente, pode simplesmente se deixar maravilhar com as cenas em que Borel toca seu tambor e canta para os Orixás.

Assim, o documentário é lindo e também tem potencial de alimentar muitas reflexões. Quem participa de religiões de matriz africana certamente vai aprender e se identificar mais, porém os leigos também podem pensar diversas questões.

O retrato das mudanças na cidade é incrível, pois não é um relatório frio e só com informações. Pelo contrário, é um testemunho de quem viveu a situação muito bem ilustrado com imagens antigas da cidade.

 

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário
Temática Social: religiões de matriz africana.
Público-alvo: Livre para todos os públicos.
Roteiro: 
Segue a linha do tempo da vida de Borel. Há algumas idas e voltas- a narrativa começa em Porto Alegre, depois vai para o Rio de Janeiro e depois volta para Porto Alegre- mas que seguem a trajetória pessoal do mestre e são bem costuradas.
Dramaturgia: 
Relatos orais, cenas antigas, imagens de rituais religiosos, planos em que o mestre toca tambor e canta sozinho. Todos estes elementos e alguns outros dão o sabor de africanidade imprescindível a um filme como este.
Aprofundamento da Questão Social: 
Apesar de mostrar a remoção dos negros das zona centrais de Porto Alegre, o foco do filme é a vida do mestre e sua prática religiosa. Justamente por isso, a questão social não é tão aprofundada. Mesmo assim é bem interessante para se iniciar uma reflexão ou discussão em grupo.

Por Bruno Pedrotti

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras

Sublime em Porto Alegre

Era quinta feira, dia 13  de setembro de 2018. O Opinião estava lotado de gente diversa, que misturava fãs de rock e de reggae. Todos olhavam ansiosamente para o palco, no qual um telão anunciava a atração da noite: Sublime with Rome, produzido pela Abstratti.

Pra quem não conhece, a banda vem da Califórnia e fez um grande sucesso nos anos 90 ao misturar punk, reggae e ska. Porém, pouco antes do lançamento do álbum “Sublime”, que tornou a banda mundialmente conhecida, o vocalista e guitarrista Bradley Nowell morreu de overdose de heroína. Em 2009 a banda se reuniu com o vocalista Rome Ramirez, originando o Sublime with Rome.

O show começou de forma simples e súbita: Rome surgiu no canto do palco e pegou o microfone. Gritos e aplausos tomaram o ambiente enquanto o telão subiu e revelou os outros integrantes da banda se preparando em seus instrumentos.

Eric Wilson, único membro da formação original do Sublime, testava o baixo enquanto fumava um cigarro. Tinha um jeito de quem está “cagando”, de alguém que já olhou a morte nos olhos tantas vezes que já não consegue fingir que se importa com as banalidades da vida.

Carlos Verdugo comandava a bateria. Sem camisa e exibindo uma infinidade de tatuagens, o jovem punk completava o trio que assumia o palco. Contou o tempo freneticamente e o som começou.

O hardcore californiano abriu o show e dominou a sonoridade. A banda tocou clássicos do início da carreira – como Wrong Way e Santeria – e também músicas mais recentes, como Panic, e buscou mesclar punk, reggae e ska.

Mas o punk se sobressaiu bastante. Nas músicas que deveriam ser somente reggae – como o cover de Legalize-it -, a bateria soava quadrada e com pouco swing. Bumbos repicados em excesso também quebraram um pouco a atmosfera dos reggaes.

Por outro lado, o ritmo do show foi bem interessante. A alternância ajudou a manter o clima sempre novo e cativante. A sensação era de uma viagem de skunk californiano, que às vezes embalava suave ou assumia tons frenéticos de ansiedade e paranóia.

Vale parabenizar a banda, que passou de reggaes lentos até skapunks alucinantes numa fração de segundo, de forma sincronizada e bem ensaida.

A interação de palco também foi um ponto a se destacar. Rome, cheio de entusiasmo, instigava a galera a cantar e participar. Em um momento, vendo que grande parte do público registrava o show com o celular, desceu do palco e tirou selfies com os fãs.

Infelizmente, não houve shows de abertura. Não sei se foi uma escolha da produção para que o show acabasse mais cedo ou uma exigência da banda principal, mas o certo é que bandas locais – como ButiaDub e Afroentes, que fazem reggaes autorais de altíssima qualidade – não tiveram a chance de mostrar seu trabalho ao grande público do Opinião.

Enfim, a noite foi  legal;  deu pra curtir, bater cabeça e viajar um pouco…

Sublime with Rome Porto Alegre (2018)

*fotos de Billy Valdez

Chamas da inquisição atual queimam as bruxas da História

Viralizou nas redes a triste notícia do incêndio na instituição de pesquisa mais antiga do Brasil. O fogo queimou o Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, junto com 20 milhões de obras — entre elas o acervo de meteoritos e de botânica, fósseis humanos e animais, registros de culturas indígenas e reinos africanos.

A perda científica e de conhecimento é inestimável, mas também é triste ver mais uma confirmação de que o Brasil segue no mesmo modelo colonialista de inquisição: queimar a diversidade nativa para impor uma monocultura.

E não adianta culpar o PT ou a esquerda pelo que aconteceu, já que uma rápida pesquisa aponta justamente para o contrário. Segundo dados disponíveis no portal do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), os investimentos em museus cresceram 980% entre 2001 e 2011, período que abrange maioria do período das gestões Lula e Dilma.

Ao analisar, ainda, informações disponíveis no Siga Brasil, portal do orçamento do Senado Federal, se nota que a maior queda no orçamento anual do Museu acontece no ano de 2015. No ano de 2014, quando Dilma se reelegia, o orçamento anual do museu foi de 1 milhão e duzentos e 11 mil reais. Já em 2015, momento em que o golpe estava sendo articulado, o orçamento caiu para 750 mil reais.

No cenário político pós golpe, vale ressaltar a PEC 241. A proposta de emenda constitucional aprovada no final de 2016 congelou por vinte anos as despesas do governo com gastos sociais. Assim, o país não pode incrementar investimentos em saúde, educação e cultura pelos próximos 18 anos.

Pensando dessa forma, pode-se entender o incêndio no Museu como mais uma das consequências do golpe. E, cabe ressaltar que, apesar de toda a midiatização do episódio e da comoção construída a partir disso, o que queimou já seria uma cultura morta.

Não é querer menosprezar o episódio — é uma merda que o fóssil de Luzia, com toda sua antiguidade e importância para as pesquisas sobre as migrações para o continente americano, tenha queimado —, mas Luzia já está morta. Enquanto isso, por todo o Brasil, vemos denúncias de guardiãs e guardiões da cultura viva sofrendo diversos ataques.

É uma pena que tenhamos perdido registros de culturas indígenas já extintas, mas não seria também produtivo nos mobilizarmos para proteger as etnias que restam? Para que estas não virem fósseis a serem queimados em um outro museu em outro futuro apocalíptico como o de agora?

Na Amazônia, estamos vendo seguidamente denúncias de garimpo e desmatamento dentro de terras indígenas. No Mato Grosso do Sul, o Estado brasileiro está retirando as crianças Guarani Kaiowá de suas mães e colocando-as para adoção. Com isso, o Estado está literalmente assassinando as culturas vivas ao agir para impedir sua continuidade seja retirando as crianças ou destruindo as florestas.

E estes são só alguns exemplos…

Temos também denúncias de intolerância religiosa contra religiões afrobrasileiras — inclusive por parte do Estado por meio de tentativas de proibir os sacrifícios rituais dessas religiões.

Ou seja, a velha inquisição segue a todo vapor e não queima apenas museus, mas também as pessoas que lutam pela sobrevivência de culturas não individualistas. O que vemos no Brasil é a continuação do colonialismo e do extermínio, e o Museu foi apenas o exemplo mais espetacular e, justamente por isso, midiatizado por aqueles que nunca o valorizaram.

*cartum de Carlos Latuff (@LatuffCartoons)

**texto produzido por Bruno Pedrotti sob supervisão do Coletivo

Caravana de Solidariedade Internacional pela Nicarágua: o papel do movimento feminista na luta

Está passando por Porto Alegre, do dia 30/08 até 01/09, uma caravana de ativistas da Nicarágua denunciando as violações de direitos humanos por parte do governo de Daniel Ortega. Nesta sexta feira, a equipe do Coletivo Catarse conversou com Ana Marcela, nicaraguense que mora em Porto Alegre há mais de vinte anos e uma das criadoras do comitê de solidariedade com a Nicarágua.

Antes do evento “Movimento feminista na Nicarágua e a luta contra o autoritarismo”, realizado na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FACED/ UFRGS) contou um pouco sobre a situação da crise humanitária que o país está vivendo. Ela relembrou a revolução Sandinista, que permaneceu no poder por dez anos durante a década de 1980.

O presidente que exerceu este mandato nos anos 1980 — Daniel Ortega — voltou ao poder em 2006. Porém, na visão de Ana, Ortega teria mudado muito e nesta nova fase estaria se reelegendo de maneira inconstitucional e “ construindo um governo muito repressor, muito autoritário baseado na chantagem e no medo”.

Segundo Ana, mesmo tendo retirado vários direitos da população, o presidente usa um discurso de esquerda para confundir as pessoas e se manter no poder. Outra denúncia de Ana Marcela é sobre a repressão. Ela acontece contra diversos tipos de protesto, mas os movimentos feministas “tem sido alvo de repressão constante nesses últimos dez anos”. Dentre diversas denúncias, o presidente Daniel Ortega é acusado de ter violentado sexualmente sua enteada ao longo de vinte anos.

Porém, a situação do país se agravou a partir de abril deste ano. A população foi a rua protestar contra uma tentativa de reforma da previdência decretada por Ortega. O governante reprimiu as manifestações não só com a polícia mas também com “grupos paramilitares”.

A repressão gerou mais protestos: a população construiu barricadas, ocupou universidades e construiu diversos espaços de resistência não armada. Porém, a repressão foi se tornando cada vez mais violenta. De acordo com Ana Marcela, desde abril já se contabilizam mais de 400 mortos, além de desaparecidos, feridos, pessoas presas de maneira arbitrária e pessoas migrando.

Neste contexto, organizou-se uma caravana para divulgar a situação do país internacionalmente e pressionar o presidente a deixar o poder. Para saber mais e ajudar acesse https://solidariedadecomnicaragua.com/. A entrevista completa com Ana Marcela pode ser ouvida no programa Heavy Hour do dia 31/08, disponível no site do Coletivo Catarse.