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Uma batalha pela preservação na zona sul de Porto Alegre

Organizações não governamentais e moradores da zona sul lutam pela preservação do arroio Espírito Santo e de sua mata ciliar. A construtora Maiojama, dona do terreno, pretende canalizar o arroio e lotear a área de mata – em um empreendimento chamado de loteamento Ipanema – para construir um condomínio de edifícios.

A área de 12,9 hectares de mata fica na divisa entre os bairros Ipanema e Espírito Santo e está sendo disputada judicialmente há cerca de 20 anos.

A licença ambiental para a obra foi emitida em 1996 pela Fepam.  Porém, no ano 2000, a sociedade civil se organizou e conseguiu que o Ministério Público impedisse o início da obra.

O Supremo Tribunal Federal se manifestou a favor do loteamento da empresa Maiojama, exigindo que a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smams) concedesse nova licença ao empreendimento este ano.

De uma sala em Brasília, os excelentíssimos senhores decidiram que não existe Mata Atlântica no local, e que por isso não se aplicam as leis de proteção ambiental desse bioma – apesar de diversos estudos já publicados de professores e doutores em meio ambiente atestarem com dados concretos a característica ambiental de Porto Alegre pertencer exatamente à Mata Atlântica.

José Paulo Barros, presidente da Sociedade de Amigos do Guarujá afirma que as instituições jurídicas deram sentenças baseadas em laudos de vinte anos atrás, quando havia outro plano diretor, outras leis e uma população diferente na cidade. Thiago Gimenez, conselheiro municipal do meio ambiente, explica que a zona sul sofreu uma grande urbanização nesses vinte anos, e que muitos ambientes naturais foram desmatados.

Por causa disso, á área do loteamento seria um dos últimos refúgios da vida selvagem na zona urbana de Porto Alegre.

José Paulo Barros conta ainda que as entidades estão buscando uma autorização para entrar na área com biólogos e instituições que possam realizar novos laudos. Já que a área abriga muitas espécies animais e vegetais em extinção,  o advogado entende que cortar esta mata se caracterizaria em um crime ambiental. Além disso, explica que o desmatamento da área agravaria o calor na cidade: “ São 12 hectares de mata fechada, isso serve como um refrigerador natural. Tirando aquela mata dali, o calor ficará ainda mais infernal. Ao longo de algumas décadas o impacto deve ser assustador”.

A canalização do arroio Espírito Santo, que atravessa a área de mata e deságua no lago Guaíba também é alvo de diversas críticas. Thiago Gimenez associa a canalização a enchentes e relata que muitas cidades estão descanalizando seus arroios para favorecer o escoamento da água. O conselheiro municipal do meio ambiente afirma que a região do arroio Espírito Santo é cercada por um banhado, que desempenha um importante papel de contenção da água. Canalizando o arroio e aterrando este banhado, Thiago entende que os alagamentos, que já são um problema na região, iriam se tornar ainda mais frequentes.

Outra questão que preocupa entidades e moradores do entorno é o trânsito. Quando os edifícios fossem vendidos, haveria um grande aumento no número de habitantes e de carros. Assim, os engarrafamentos na região tenderiam a piorar.

Pensando em todas estas questões, José Paulo Barros afirma que busca reverter este loteamento. O presidente da Associação de Amigos do Guarujá se coloca contra a política de emitir licenças ambientais sem levar em conta o bem-estar da população. Por fim, conclui: “ Na verdade, só se visa ao lucro”.

Empresa não apresenta projeto à comunidade

Para ouvir o ponto-de-vista da Maiojama e entender melhor o seu projeto para o local (quantos edifícios, com quantos andares e apartamentos), a equipe do Coletivo Catarse foi a uma reunião no Conselho Municipal do Meio Ambiente (COMAM) de Porto Alegre, no dia 29 de novembro, em que supostamente a empresa estaria presente.

Porém, a empresa não mandou nenhum representante, deixando a nossa equipe, os conselheiros do meio ambiente e os moradores da região que foram assistir à reunião sem saber exatamente o que a empresa deseja construir no local. O desabafo da conselheira Andrea Loguercio, representante da UFRGS, ilustra bem esta falta de informação sobre o projeto:

“Eu vim para cá na expectativa de que o empreendedor nos apresentaria o projeto. Não conheço o projeto. Fico confusa com um processo que parece ter nascido em 2015 e que agora descobri que nasceu na década de 1990. Volto para minha instituição, na qual faço o papel de representante, com mais dúvidas do que quando entrei”.

O Secretário Municipal do Meio Ambiente, Maurício Fernandes, deu a entender que não poderia impedir o empreendimento, visto que o STF se manifestou em favor da Maiojama. “Não compete a qualquer gestor descumprir decisão judicial. O gestor público também tem suas limitações”, declarou.

Licença está embargada

No momento, a licença de instalação está temporariamente suspensa por conta de uma decisão da juíza Nadja Zanella da 10ª vara da Fazenda Pública de Porto Alegre.

Em audiência de conciliação realizada no dia 5 de dezembro, a juíza julgou o processo  proposto pelas organizações da sociedade civil. Nadja decidiu que o município precisa complementar os documentos do processo. Depois disso, a documentação será examinada pela empresa, pelo município e pelo Ministério Público.

A decisão é uma vitória temporária para a preservação do local, porém, a batalha judicial irá continuar se desdobrando em 2019.

Para seguir a mobilização da comunidade, o Movimento Preserva Arroio Espírito Santo mantém uma página no Facebook (https://www.facebook.com/PreservaArroioES/) em que segue atualizando todos os passos de sua luta. Já a Maiojama publicou ao final de novembro uma nota, também no Facebook, defendendo seu ponto-de-vista: https://www.facebook.com/notes/maiojama/loteamento-ipanema-comunicado/2050617138348941/.

Projeto Resistência Kaingang – Diário de Viagem (dias 1 e 2)

Aqui começam as publicações que vão contar um pouco da jornada da equipe do projeto em setembro de 2018:

Dia 1 e 2: T.I Serrinha (RS) 24 e 25 de setembro: Sobre os passos de Alcindo Peni Nascimento… Primeiros momentos.

O primeiro dia da nossa estadia nas Terras Kaingang foi um dia de reencontros da companheira Iracema Gatén Nascimento com seus parentes que lutaram junto com ela e com seu pai Alcindo Peni Nascimento nas retomadas de Nonoai, Mangueirinha e Serrinha.

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Iracema Gáten Nascimento e sua prima Lívia Nascimento caminhando na T.I Serrinha

Enrico de Angelis, da Los Fastidios: à esquerda da cultura Skinhead

Antes do show da banda Los Fastidios em Porto Alegre, o Coletivo Catarse conseguiu entrevistar Enrico de Angelis, vocalista e único membro da formação original da banda.

Confira abaixo a conversa, na qual Enrico contou um pouco da história da banda, falou de política e mostrou uma visão à esquerda da cultura Skinhead.

Poderia contar um pouco sobre a história da banda e como vocês perceberam a situação política se modificar ao longo destes anos?

A banda nasceu em Verona. Verona é uma cidade no nordeste da Itália. A banda nasceu em 1991 e sou o único “sobrevivente” da formação inicial.

Não é fácil “sobreviver” com a Los Fastidios, se você conferir nossas datas da tour, vai ver que a banda toca ao vivo com frequência. Então tocamos muitos shows, e infelizmente não conseguimos sobreviver somente com a música. Não é fácil se organizar para tocar mais de 100 shows todo ano.

Assim, mudamos algumas formações ao longo do ano e no momento temos um grupo bom, formado não só por pessoas vindas de Verona. Mário, o guitarrista, é de Veneza. O baterista, Baqueta, é de Rovigo. Ciacio, o baixista, vem da Cércia na região da Emília Romanha (norte da Itália).

Como te falei, nossa banda toca muito ao vivo. Rodamos o mundo e agora estamos aqui na América Latina. Essa tour foi mágica: passamos duas semanas entre o México, Brasil e Chile. Hoje é última data da tour. Estou triste por isso, gostaria de poder ficar mais.

Você perguntou também da situação política…

Está muito difícil na Itália como em todos os lugares. Aqui no Brasil percebo que vocês também vivem um momento bem complicado.

Mas estamos aqui para dar nossa energia, nossa música para apoiar o movimento antifascista no Brasil. Esperamos que nossa música possa trazer uma energia positiva para as pessoas neste momento importante para o Brasil.

Na Itália, a situação não é muito diferente. Temos um governo de coalizão entre um partido recente chamado Movimento Cinco Estrelas, que tem integrantes de esquerda e direita. É um grande caos. pois querem fazer um partido do “Novo Milênio”, ou algo diferente da política tradicional, mas eles não são nada, pois não tem valores. Acredito que um partido político precisa de valores em comum para unir as pessoas, e eles não tem. Além disso, este partido fez uma aliança com outro extremamente racista, o Liga Norte.

No momento nosso primeiro ministro é uma pessoa terrível, ele é o homem que quer fechar todos os portos e deixar os refugiados que tentam chegar na Itália morrerem no mar. O problema, na Itália, como em toda a Europa, é que os partidos de extrema direita estão usando a situação dos refugiados.

Posso garantir a você que não existe realmente uma crise dos refugiados, porque na Europa temos espaço para todas as pessoas. Mas os partidos de direita estão usando a situação, que chamam de problema ou crise, para espalhar suas mensagens racistas fodidas; para criar uma situação de medo e pânico. É uma loucura, pois as pessoas absorvem este discurso e se sentem ameaçadas e passam a agir com raiva e ódio.

Acredito que se as pessoas conversassem com os refugiados, perceberiam que os imigrantes são ótimas pessoas. Por exemplo, em Verona temos um projeto que apoia um clube de futebol chamado Virtus Verona, que joga na terceira divisão.

Nosso time está recebendo refugiados no momento. Vivo numa cidade muito fascista, então é difícil; mas, sou muito orgulhoso do meu time, porque estão fazendo um trabalho importante acolhendo estes refugiados. Com estes caras, temos um pequeno grupo chamado Rude Firm que busca envolver os refugiados na vida das arquibancadas. Garanto a você que esta é a melhor experiência da minha vida.

Os refugiados são ótimas pessoas. Mas, o problema na Europa é que as pessoas têm medo da situação. Acho que a melhor maneira de superar isso, seria se sentar na mesa com os refugiados, conhecê-los, conviver com eles, compartilhar refeições com eles, como fazemos todos as semanas.

Se as pessoas conversassem com os refugiados, iriam entender que eles são pessoas como você e eu. Não existe crise de refugiados.

Também acredito que a Europa explorou a África por séculos. Acho que é hora de devolvermos algo a estas pessoas. Mas, muita gente na Europa não pensa como eu.

Então na Itália existe um grande problema, com essa situação de medo. Mas o problema não é só na Itália, em toda a Europa os partidos de extrema direita estão usando essa estratégia política do medo para se espalhar e crescer; e o problema é que eles realmente estão crescendo.

 Aqui no Brasil temos um senso comum que costuma associar os Skinhead à extrema direita. Poderia contar um pouco sobre a cultura Skinhead de uma perspectiva a esquerda?

Sim, isso acontece mundialmente…

Mas sobre a cultura Skinhead, eu poderia dizer que ela nasceu ao misturar diferentes culturas negras e brancas. Então, para mim, ser Skinhead significa ser realmente anti fascista, anti racista. As raízes do movimento são negras e brancas.

Infelizmente hoje, o movimento Skinhead é visto com maus olhos. Eu responsabilizo a grande mídia corporativa por isso. É muito fácil para eles: as pessoas dão mais atenção sobre notícias sobre quando os Boneheads – (cabeças de osso) pois não gosto de chamar esta gente de Skinhead – atacam os ciganos ou os imigrantes. Isso rende grandes notícias e audiência para essa mídia.

Ao mesmo tempo existem muitos Skinheads envolvidos nos movimentos anti fascista e anti racista. Mas, para a grande mídia isso não é importante: não é notícia. Assim, no final você pode ler muita coisa na grande mídia falando sobre os Boneheads fascistas.

Mas acho que os Boneheads fascistas precisam ir para a escola e estudar. Acho que eles perderam algo, que só sabem sobre os últimos anos e não olham para as raízes do movimento que dizem seguir.

Felizmente neste momento existem muitos livros e muito conteúdo de qualidade circulando na internet. Hoje você pode entender melhor a história e a verdadeira cultura do movimento Skinhead.

Eu acredito que o movimento Skinhead foi a primeira subcultura, ao longo do século passado,  a unir pessoas negras e brancas dentro da Europa.  Antes desse movimento, negros ficavam com os negros, e os brancos ficavam com os brancos. O movimento Skinhead foi a união.

Talvez este seja o motivo pelo qual os fascistas tentam sabotar o movimento: porque acho que eles vem este movimento como realmente perigoso. Porque acredito que o movimento Skinhead foi o início de um novo movimento, de uma nova subcultura internacional. Mas, ao mesmo tempo, os fascistas tentam destruir este movimento, porque essa união é muito perigosa para eles.

Enrico de Angelis,
vocalista da banda Los Fastidios.

Entrevista: Bruno Pedrotti
Imagens: Billy Valdez

Saúde Indígena

Dia 18 de outubro, em uma quinta feira nublada de primavera, indígenas das etnias Kaingang, Guarani e Charrua se reuniram em frente à sede do Ministério Público Federal, próximo ao Parque Harmonia.

esq para a direita Cacica Aquab, representante do povo Charrua e Iracema Gah Teh, liderança Kaingang

Após demandas das lideranças, o Ministério Público marcou a reunião com os indígenas e o diretor da Secretaria Especial da Saúde Indígena (SESAI) para discutir questões referentes à saúde.

João Carlos Padilha, Cacique representante dos Kaingang do Morro Santana

Em entrevista, o Cacique João Carlos Padilha declarou a principal reivindicação era a saúde indígena diferenciada, garantida pela constituição. O líder Kaingang denunciou que o Estado nunca cumpriu com os compromissos que firmou com os indígenas, tanto na questão da saúde quanto das demarcações de terra.

Iniciada a reunião, em um auditório congelante, os excelentíssimos senhores começaram suas teses. A ideia proposta da reunião era a de se ouvir os indígenas, mas os “brancos” falaram primeiro.

Márcio Godói Spíndola, Secretário Adjunto da Saúde Indígena, falou das dificuldades de logística que a SESAI enfrenta, além de reforçar  que a secretaria não pode interferir no município e no estado.

A reunião seguiu, com os “brancos” passando a palavra entre si. Enquanto isso, os indígenas davam sinais de querer falar. Cacique Saci, liderança da comunidade Kaingang de Vicente Dutra, era um dos indígenas que demonstrava claramente querer se manifestar.

Até que o cacique se levantou e caminhou em direção ao microfone

“No momento, estamos abrindo para fala de organizações”, tentaram lhe desencorajar.

Saci seguiu obstinado.

“Em um outro momento abriremos a fala para os indígenas…”, insistiram.

Mas o cacique prosseguiu e conquistou o microfone, como os indígenas fizeram com os poucos direitos que têm. Assim, inaugurou seu momento de fala.

Saci falou da importância do território para a saúde indígena. Na sua visão: “Para se fazer boa saúde indígena, é preciso fazer gestão territorial”.

O líder comentou que a saúde indígena precisa de autonomia e denunciou que muitas vezes os recursos eram mal gastos. Para ele, o dinheiro era gasto com outras questões e eram contratados profissionais desinteressados e que não respeitavam a cultura Kaingang.

Nesse sentido, Jaime Aldo, uma das lideranças Kaingang dos grupamentos Kaingang da zona sul de Porto Alegre, ressaltou a importância de se respeitar o modelo de vida das comunidades. Ele também denunciou a falta de moradia digna e de água.

“Estamos há 4 anos na área e não temos saneamento básico. Faz um ano que peço para a SESAI levar água potável”.

Antonio dos Santos, cacique Kaingang de São Leopoldo. Também falou em um forte tom de denúncia: “quantos caciques já morreram lutando?!”, questionou.

E ainda completou: “Tem que tirar a bandeira do congresso e colocar na mão do pajé, porque o Brasil é nosso!”.

Para Antonio, os caciques precisam de autonomia para decidir quem vai trabalhar na aldeia. Também atacou a burocracia que dificulta para que os jovens indígenas formados possam exercer a medicina nas aldeias.

Assim, os indígenas – com forte protagonismo Kaingang – deixaram claro que independente do governo que assuma em 2019, seguirão lutando pelos seus direitos.

Filmografia Social: Mestre Borel – a ancestralidade negra em Porto Alegre

Certa vez ouvi alguém dizer que, para as culturas orais, os mais velhos são como os livros, pois carregam grande conhecimento e é com eles que se aprende.

Se isso for verdade, Walter Calixto Ferreira, conhecido como mestre Borel, era uma das mais completas enciclopédias para se pensar as religiões de matriz africana e diversas questões da história negra na Porto Alegre do século XX.

Me refiro a ele no passado, pois Mestre Borel faleceu no ano de 2011. Felizmente um pouco de sua sabedoria ficou registrada no documentário de Anelise Gutterres.

Além de contar a história pessoal do mestre e mostrar sua prática afro religiosa, o filme revela as transformações geográficas e sociais pelas quais a cidade de Porto Alegre passou no século passado.

Walter Calixto Ferreira nasceu em 1924 na cidade de Rio Grande. Com menos de 1 ano de idade, foi morar em Porto Alegre, justamente na região da ilhota.

Se você, assim como eu, conheceu uma Porto Alegre já aterrada, saiba que não foi sempre assim. Nas áreas centrais, havia diversos banhados, e o Arroio Dilúvio, que na época era um grande rio, separava os habitantes.

A memória de mestre Borel revela uma cidade na qual diversos arroios construíam arquipélagos e banhados. Nesses locais – dentre eles a Ilhota – moravam os negros de Porto Alegre.

Enquanto Borel fazia suas andanças, tendo morado no Rio de Janeiro durante alguns anos, Porto Alegre aterrava estas regiões centrais. Os negros, que residiam nestas áreas, foram removidos para o bairro Restinga.

Não por acaso, quando volta para Porto Alegre nos anos 1980, o mestre vai morar na Restinga. Lá, encontra diversos familiares e conhecidos da Ilhota, do Areal da Baronesa, da antiga Cidade Baixa.

Assim, fica perfeitamente exemplificado o processo racista e de gentrificação que removeu a população negra dos bairros centrais, como a Ilhota, e os colocou na Restinga, há mais de 20 quilômetros do centro da cidade.

Além de retratar este “embranquecimento” das áreas centrais da cidade, o documentário mostra as práticas religiosas afro-riograndenses. E neste âmbito, Borel é simplesmente mestre!

Não me considero um especialista em culturas de matriz africana, mas pelo pouco que sei, estas culturas valorizam as origens. Tanto que, neste contexto, é comum usar o termo “raiz” como adjetivo positivo. Por exemplo, um reggae raiz, um samba de raiz.

Como mostra o documentário, a avó de Borel veio da Nigéria e era Yoruba. Assim, a família manteve viva a religião dos Orixás, que sempre fez parte de sua tradição.

Mas não foi “somente” isso que lhe rendeu o título de mestre. O filme resgata muito bem a dedicação de Borel, que passou boa parte da sua vida fortalecendo a religião.

Esta dedicação se evidencia também nas cenas em que o mestre toca tambor. Tendo tocado desde a infância, Borel desenvolveu um método de usar as pontas dos dedos de uma mão- numa carícia suave- que constrói um som único.

O canto em Yoruba e os trajes religiosos também são maravilhosos. É claro que não são meramente estéticos; possuem significados dentro da prática afro religiosa. Mas, quem não participa destas religiões, e aqui me insiro novamente, pode simplesmente se deixar maravilhar com as cenas em que Borel toca seu tambor e canta para os Orixás.

Assim, o documentário é lindo e também tem potencial de alimentar muitas reflexões. Quem participa de religiões de matriz africana certamente vai aprender e se identificar mais, porém os leigos também podem pensar diversas questões.

O retrato das mudanças na cidade é incrível, pois não é um relatório frio e só com informações. Pelo contrário, é um testemunho de quem viveu a situação muito bem ilustrado com imagens antigas da cidade.

 

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário
Temática Social: religiões de matriz africana.
Público-alvo: Livre para todos os públicos.
Roteiro: 
Segue a linha do tempo da vida de Borel. Há algumas idas e voltas- a narrativa começa em Porto Alegre, depois vai para o Rio de Janeiro e depois volta para Porto Alegre- mas que seguem a trajetória pessoal do mestre e são bem costuradas.
Dramaturgia: 
Relatos orais, cenas antigas, imagens de rituais religiosos, planos em que o mestre toca tambor e canta sozinho. Todos estes elementos e alguns outros dão o sabor de africanidade imprescindível a um filme como este.
Aprofundamento da Questão Social: 
Apesar de mostrar a remoção dos negros das zona centrais de Porto Alegre, o foco do filme é a vida do mestre e sua prática religiosa. Justamente por isso, a questão social não é tão aprofundada. Mesmo assim é bem interessante para se iniciar uma reflexão ou discussão em grupo.

Por Bruno Pedrotti

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras