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Heavy Hour 54 – 27.08.19 – sobre o direito à cidade

As cidades não ficam inviáveis da noite para o dia. Há planos para isso. Projetos de décadas, que modificam a dinâmica e a paisagem urbana drasticamente. Porto Alegre, metrópole, espelha um modelo de crescimento e pasteurização comum a outras cidades grandes pelo país – cada vez menos uma urbe para se passear, caminhar, curtir espaços públicos, cada vez mais a cidade do carro, do lazer privado, do manual de relações de apenas um tipo de sociedade. Perde-se a cultura local, perde-se a diversidade da população. Trouxemos para falar do tema João Volino, delegado da Região 1 de Planejamento e vice-presidente da Amacais, Pedro Araújo, também delegado da Região 1 de Planejamento e integrante da Comissão Cidades do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), e Silvio Jardim integrante do Coletivo Cidade Que Queremos. Pois saibam que “eles”, os que mandam na cidade, já lotearam toda a nossa orla do Rio, ããã… Lago… Não! Estuário(?) Guaíba, e dificilmente você faz parte desses planos. A não ser que se encaixe no modelo casa-carro-shopping-carro-trabalho-carro-shopping…

Setlist:
Deborah Finocchiaro e Gustavo Petry – Zero Grau
Hempadura – As Sombras dos Prédios no Morro
Fito Paez – La ciudad liberada
Santana – Singing winds, crying beasts
Pearl Jam – Do the evolution
Sepultura – Politricks
Atahualpa y us Panquis – Todo mundo saca
Chico Science & Nação Zumbi – Da lama ao caos
Black Sabbath – Spiral Architect

Oficina no Quilombo dos Alpes: mankala

No ano de 2018, o Coletivo Catarse foi convidado para filmar uma série de oficinas realizada no Quilombo dos Alpes. As atividades foram desenvolvidas pelo  Núcleo de Estudos Geografia e Ambiente da UFRGS (NEGA/UFRGS) em parceria com a Associação Quilombo dos Alpes D. Edwirges para atender as crianças e jovens da comunidade.

Registramos quatro oficinas: árvore genealógica, horta, mankala e territórios negros. Os vídeos resultantes deste acompanhamentos serão divulgados semanalmente nos canais do Coletivo Catarse e na página do Quilombo dos Alpes no Facebook.

O segundo vídeo, mankala mostra um dos jogos mais antigos da humanidade sendo repassado aos moradores do quilombo. Ernani Freitas, do  Núcleo de Estudos Geografia e Ambiente da UFRGS (NEGA/UFRGS), conduziu a oficina.

Por meio do jogo da mankala,  os jovens foram incentivados a exercitar o raciocínio lógico de maneira lúdica. Depois de algumas rodadas, foram convidados a refletir sobre como os valores afro civilizatórios se apresentavam na atividade.

Os jovens encontraram todos os valores e também se envolveram com o jogo. Observando diversas partidas, notamos que o placar nunca variavam muito: empates ou vitórias por um ou dois pontos eram comuns, enquanto vitórias por mais de quatro pontos eram raras. Mais do que um jogo competitivo, percebemos a mankala como um jogo colaborativo.

Quando se começava com tipos diferentes de sementes, como feijão e milho, era comum que os dois jogadores terminassem a partida com as sementes misturadas. Ficamos imaginando se, nos primórdios da humanidade, o jogo também não era uma maneira de diferentes pessoas e grupos trocarem sementes.

Nesta oficina, diversos conhecimentos foram exercitados. Não arrisco dizer o que vai ou não florescer, mas o certo é que as sementes foram plantadas.

“Eles não querem cobertura da imprensa”diz o promotor de Justiça e Meio Ambiente a pedido do sindicato de produtores de agrotóxicos

A equipe de reportagem do Coletivo Catarse não conseguiu participar da reunião entre apicultores da articulação APISBIO e o promotor Alexendre Saltz, em Porto Alegre. Atendendo a um pedido do Sindiveg (Sindicato Nacional da Industria de Produtos para Defesa Vegetal), o promotor de Justiça e Meio Ambiente não deixou o repórter acompanhar a reunião.

O encontro foi marcado para discutir a questão da mortandade de abelhas causada por agrotóxicos no Rio Grande do Sul. Além de nossa equipe, cerca de dez pessoas de diferentes partes do estado também não conseguiram entrar na reunião, pois não haveria espaço para todos na sala.

O apicultor Marcelo Cogo, do município de Santiago/RS, falou sobre a falta de receptividade encontrada. “Estamos bem representados pelos que conseguiram entrar, mas é uma situação”. 

Jairo Diefenbach, professor no Instituto Federal Farroupilha de São Vicente do Sul, mostrou uma opinião diferente: “Talvez seja efeito de um mal entendido”, declarou.

O professor explicou que fez a viajem até Porto Alegre para participar da reunião por acreditar na importância do tema. “Eles, como apicultores, são produtores de um alimento de altíssima qualidade. São os primeiros a sentir os efeitos danosos dos agrotóxicos”, concluiu.

Os apicultores ouvidos relataram diversos problemas causados pelos agrotóxicos. Além da mortandade das abelhas, também denunciaram a dificuldade de “pegar” novas caixas (iniciar novos enxames em um local).

Claudio Camboim, apicultor de Charqueadas,  denunciou as monoculturas como outro mal que afeta as abelhas: “Não tem uma carqueja. São 6 meses com um só vegetal no solo”. 

Os produtores de mel também comentaram a proposta do Sindiveg (Sindicato Nacional da Industria para Defesa Vegetal) que seria tratada durante a reunião. Segundo eles, os representantes dos produtores de agrotóxicos estão sugerindo a criação de um aplicativo que avise aos apicultores quando os químicos serão aplicados nas lavouras.

Renato Barcelos, representante da APISBIO explicou o debate em torno do aplicativo: “Não há como discutir a viabilidade de uma ferramenta dessas sem analisar ela do ponto de vista prático. Se ela realmente é eficaz ou não. Vai ser mais um paliativo para mascarar o uso de agrotóxicos, que está acabando com a biodiversidade”.

Renato lembra ainda que as empresas já fizeram a proposta desta ferramenta e comenta o resultado: “Ela se mostrou absolutamente inviável quando aconteceu a contaminação no município de Mata e Santiago em outubro do ano passado”.

Para os apicultores consultados, o aplicativo é considerado inviável. “Alguns dos venenos que eles usam ficam ativos na natureza por até 60 dias. O que faríamos com as abelhas durante este tempo todo?”, questiona Marcelo Cogo, apicultor do município de Santiago.

Jairo Diefenbach, professor no Instituto Federal Farroupilha de São Vicente do Sul, reforçou que os problemas causados pelos agrotóxicos não se resumem a produção de mel. “Estamos trabalhando com um dos efeitos em uma atividade, em um tipo de produto. Na apicultura, no produto mel; mas afeta todo o ambiente”. 

O professor citou como exemplo a morte de pássaros, borboletas e outros polinizadores. Pontuando a presença destes produtos químicos na alimentação e na água, resgatou os riscos para a saúde humana: “temos muitas doenças que se manifestam nas pessoas que não sabemos as causas. Não temos nem noção do alcance desses produtos na nossa vida”.

Alternativas possíveis

O município de Cacequi era um entre tantos outros sofrendo com os efeitos nocivos dos agrotóxicos. Além dos apicultores, os produtores de uvas, oliveiras, melancias e nogueiras sofriam grandes prejuízos pelas substâncias químicas usadas pelos latifundiários da região.

Em abril de 2018, o Conselho Municipal do Meio Ambiente e o Conselho Municipal de Agricultura e Pecuária da cidade criaram uma lei de restrição de uso de agrotóxico. Foi restringido o uso do herbicida 2,4-D. Além disso, a lei ainda limitou  a aplicação com pulverizadores e proibiu a aplicação com aviões.

Alex Pedron Wancura, Secretário de Administração de Cacequi, comenta os resultados obtidos depois de um ano de criação e aplicação de lei: “cerca de 90 por cento dos problemas que tínhamos na apicultura e na fruticultura foram resolvidos”. 

O secretário aponta que além de criar a lei é preciso fazer um trabalho de fiscalização rígida por parte do município. Em Cacequi, esta fiscalização foi feita por meio de parceria entre a  Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente e a Emater.

Mesmo com os resultados positivos, Alex comenta que existe oposição a esta política: “Compramos uma briga. Os grandes produtores têm uma dificuldade de aceitar isso”.

O papel das autoridades e da imprensa corporativa na questão

Neste final de semana, um dos grandes veículos de mídia corporativa  de Porto Alegre publicou uma reportagem sobre a situação da mortandade das abelhas. O texto dava a entender que o Ministério Público Estadual estava trabalhando ao lado dos apicultores e que o aplicativo seria uma solução que iria beneficiar a todos.

O aplicativo não se apresenta como uma solução para os produtores de mel. Pelo contrário, é uma nítida tentativa do agronegócio manter tudo como está, com a chancela do poder público e a propaganda dos conglomerados de comunicação.

Inclusive, chegaram a citar a reunião da qual nossa equipe e produtores de mel de todo o estado foram barrados na quinta feira (dia 8/8). Ao contrário do que mostra o jornal, vivenciamos uma situação em que o poder público se colocou a serviço do agronegócio, responsável pelo envenenamento coletivo- que não afeta somente as abelhas.

Por isso, mais do que nunca, vemos que é preciso tomar uma posição. Temos que deixar bem explícito que o problema da morte das abelhas- e tantos outros problemas socioambientais causados pelos agrotóxicos- são urgentes e precisam de soluções reais e efetivas.

Aplicativos ineficazes não vão resolver o problema. Precisamos de proibições ou pelo menos regulamentações severas para o uso de agrotóxicos. Além disso,  o poder judiciário precisa responsabilizar civil e criminalmente os culpados pelos casos registrados de mortandade de abelhas por agrotóxicos no estado. Só assim será possível garantir as condições básicas para a produção de alimentos saudáveis, que contribuam para a saúde e qualidade de vida da população.

 

Reportagem e imagens: Bruno Pedrotti.

Heavy Hour 52 – 13.08.19 – Justiça para os povos da floresta? Pre$$ão de mineração e especulação imobiliária dobra qualquer lei…

Neste programa que temos mais apresentadores que convidados, que marca a volta de Billy Valdez depois de um mês na Nova Zelândia – e que ele não conta nada -, trouxemos pessoas pra conversar sobre as pressões que comunidades indígenas estão sofrendo com empreendimentos que apenas visam ao lucro. Guilherme Dal Sasso, cientista social e integrante da AEPIM (Associação de Estudos e Projetos com Povos Indígenas e Minoritários) e do Comitê contra Mineração, Julio Alt, advogado e representante do Conselho Estadual de Direitos Humanos, e simplesmente Juliano (sim, estamos num momento que é necessário esconder o nome de algumas pessoas em razão de perseguições), apoiador e ativista pela causa indígena, se complementam na reflexão de que empreendimentos e poder público não medem com qualquer juízo de valor as vidas indígenas. Simplesmente, aqui no Sul, Kaingangs e Guaranis não são sequer consultados quando se está falando em licenciamento para uma obra como a Mina Guaíba, que vai impactar diretamente em suas áreas. Mas resistir é necessário, em instituições falidas como a Justiça, que ainda persistem, e até mesmo fisicamente como em mobilizações da Ponta do Arado na zona sul de Porto Alegre. Contribui, ainda, com sua contextualização, Roberto Liebegott, do Conselho Indigenista Missionário, um lutador histórico pelos direitos dos povos originários no Brasil.

Setlist:
Katumirim – Aguyjevete
Atahualpa Yupanqui – Camino del Indio
Wolftrucker – Rock till you die
Tennessee Ernie Ford – Sixteen Tons
Inti-Illimani – En Libertad
Black Pumas – Colors
Sister Rosetta Tharpe – That’s All
Angelus Apatrida – You are next

Oficina no Quilombo dos Alpes: horta

No ano de 2018, o Coletivo Catarse foi convidado para filmar uma série de oficinas realizada no Quilombo dos Alpes. As atividades foram desenvolvidas pelo  Núcleo de Estudos Geografia e Ambiente da UFRGS (NEGA/UFRGS) em parceria com a Associação Quilombo dos Alpes D. Edwirges para atender as crianças e jovens da comunidade.

Registramos quatro oficinas: árvore genealógica, horta, mankala e territórios negros. Os vídeos resultantes deste acompanhamentos serão divulgados semanalmente nos canais do Coletivo Catarse e na página do Quilombo dos Alpes no Facebook.

O primeiro vídeo, oficina de horta, teve a participação da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade (SMAM) sob a orientação do geógrafo Carlos Henrique de Oliveira Aigner. O objetivo da oficina registrada foi contribuir para uma alimentação saudável na comunidade e resgatar os conhecimentos dos mais velhos sobre agricultura.

Sobre a Comunidade

O Quilombo dos Alpes é o maior quilombo urbano de Porto Alegre, com cerca de 58 hectares. Fica no morro da Glória, entre os bairros Cascata e Teresópolis.  Lá vivem cerca de oitenta famílias descendentes da vó Edwirges, uma escrava fugida que encontrou no morro dos Alpes um local seguro para viver e criar sua família.

Apesar de ter mais de um século, a comunidade só começou a se reconhecer como remanescente de Quilombo há 14 anos. Rosângela de Oliveira, conhecida como Janja, e sua filha Karina são lideranças centrais neste processo de busca por direitos e defesa do território.

Lá em cima, a impressão e de não estar em uma metrópole. A maioria das casas não tem grades ou cercas, as crianças sobem em árvores, as pessoas caminham pelos morros pelados ou pelos trechos de mata— nos quais vivem diversos animais, como preás e macacos pregos—, ouve-se pouco barulho de carros e é possível enxergar um vasto horizonte.

Com esta oficina, as diferentes organizações tiveram uma chance de aprender com a comunidade e contribuir para a preservação dos ambientes naturais do morro dos Alpes. É importante notar que este serviço ambiental já é realizado pelos moradores do local a pelo menos cem anos. Porém, o auxílio de entidades governamentais e a disponibilização de recursos e ferramentas de trabalho amplifica as ações dos quilombolas.