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Uma luta gaúcha para além do folclore

Setembro é um mês de excitação descontrolada em Porto Alegre. Celebrando uma suposta revolução, patrões constroem galpões naquele parque elitizado ou no pátio dos shoppings. Na última semana, passamos pelo ápice desta celebração. Adeptos desta festa colocaram sua melhor fantasia de gaúcho e se reuniram para tomar chimarrão e assar churrasco nestes ambientes artificiais.

Enquanto isso, homens e mulheres lutavam pela sobrevivência da pampa e das culturas e formas de viver (o ano todo, não só em setembro ou no dia 20) que se constroem neste bioma. Entre tantas ameaças (como monoculturas de soja, eucalipto e pinus), os mega projetos de mineração tem se destacado como um enorme risco para o estado.

No dia 19, um evento do PGDR da UFRGS refletiu sobre as ameaças da mineração para as comunidades tradicionais do pampa. Já no dia 20, um grupo anônimo usou do laçador -um dos símbolos do gauchismo porto alegrense- para combater a megamineração. Estes dois fatos tiveram em comum a intenção de alertar a sociedade sobre o tema.

No evento do Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS) foi exibido o filme Dossiê Viventes- O Pampa Viverá e a exposição Luzes do Campo, do fotógrafo Mário Witt. Depois disso, realizou-se uma roda de conversa com Vera Collares, pecuarista familiar de Bagé; Daniel Vaz Lima, antropólogo da UFPEL e pesquisador da lida campeira; e Juliana Mazurana, da Fundação Luterna de Diaconia (FLD) e articuladora do Comitê de Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa.

Vera Collares contou mais sobre a luta contra a mineração de chumbo no Rio Camaquã, registrada no documentário. A pecuarista relembrou do primeiro ato contra o projeto de extração de metais pesados da empresa Votorantim, em novembro de 2016.

Vera falou da necessidade de união das comunidades ao longo da bacia hidrográfica para que os que os municípios recusem estes projetos.  Pensando na importância da mobilização e nos riscos dos megaprojetos, bradou: “É lutar ou morrer. Se a mineradora se instalar ali, a 800 metros do Camaquã, vai contaminar toda a região”.

Daniel Vaz, por sua vez, contribuiu para a discussão com sua experiência no Inventário Nacional de Referências Culturais da Lida Campeira. O trabalho, realizado de maneira coletiva e participativa pela UFPEL em parceria com o IPHAN, reconheceu a pecuária no pampa como um patrimônio brasileiro. Segundo Daniel, o estudo revelou uma pampa mais diversa e complexa do que o estereótipo de campo vazio, comum nos relatórios produzidos por mineradoras.

Juliana Mazurana  apresentou o conceito de comunidades tradicionais definido pelo Decreto 6040 de 2007: “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas geradas e transmitidas pela tradição”.

Ela defendeu que os pecuaristas familiares se caracterizam como comunidade tradicional por conta da sua relação com os animais e com o território, das lidas diversas, do cuidado com a água, e da espiritualidade.

Depois, apresentou o Projeto Fosfato, de extração de fosfato e calcário em Lavras do Sul. “Toda a bacia vai ser afetada, pois tem barragem de rejeitos prevista. A barragem tem o dobro do volume da de Brumadinho”, denunciou. Recordou ainda que o impacto na vida das comunidades vizinhas já começa com a simples ideia de minerar. Segundo ela, cerca de 60 famílias já estão sendo impactadas pelo empreendimento da Águia Fertilizantes.

Na visão de Juliana, da Fundação Luterana de Diaconia (FLD) as empresas faltam com o respeito com as comunidades e trazem um fator de insegurança. Pensando na relação entre as comunidades tradicionais e a conservação do pampa, concluiu: “A conservação passa por todo um modo de vida”.

É justamente este modo de vida da campanha, construído a partir da relação com os animais e com o campo nativo, que está ameaçado no estado visto como nova fronteira mineral brasileira. Infelizmente a causa parece não atrair tantos adeptos quanto a celebração anual que romantiza a cultura gaúcha. Neste sentido, vale parabenizar o grupo anônimo que tentou trazer esta relação para a sociedade justamente no dia 20 de Setembro.

A ação se deu logo no amanhecer desta data simbólica. O laçador amanheceu com um poncho amarelo com a frase “Não à megamineração, tchê!”, alertando os motoristas que passavam pelo local. Lembrando que a região metropolitana de Porto Alegre pode ser diretamente impactada pela maior mina de carvão da América Latina.

Para além do folclore e do romantismo, a população gaúcha segue na luta pelo ambiente e pelas culturas que se relacionam com ele.

Heavy Hour 57 – 17.09.19 – A censura está aí! Bem desenhada…

Recebemos representantes da GRAFAR (Grafistas Associados do Rio Grande do Sul) neste programa, 3 cartunistas que tiveram seus trabalhos censurados em uma exposição na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Aparentemente, Santiago, Hals e Rafael Corrêa entendem que podem – e devem! – xingar o excrecentíssimo presidente do Brazil livremente sem ter volta, oras bolas! Mas os baluartes do fascismo de bombachas, sr. Nagelstein e a filha do coronel Leal, não deixaram passar em branco e num canetaço protegeram a honra do Bozo acabando com a exposição. Resultado? Explodiu o interesse das pessoas pelas charges! Fantásticas e sagazes, aliás… No papo, também, de estúdio cheio e com muita pressa, o trio nos conta das suas histórias em outros momentos de censura e suas opiniões sobre o momento Charlie Hebdo que estamos enfrentando hoje em dia. (arte do programa feita sobre cartum de Rafael Corrêa)

Setlist bem adequado:
Blitz – Cruel, cruel, esquizofrenético blues
Titãs – Estado Violência
AC/DC – Let me put my love into you
Her – Five Minutes
Paulinho da Viola – Meu novo sapato
Marlyn Manson – Coma White
Odair José – Eu vou tirar você desse lugar

Entre poeira de carvão e estrondos de dinamite. Breve relato dos impactos da mineração em Arroio dos Ratos.

Alguns integrantes do Comitê de Combate à Mega Mineração no Rio Grande do Sul visitaram, nesse domingo (dia 15/09/2019), a cidade de Arroio dos Ratos. Os habitantes sofrem as consequências diárias da extração de carvão desenvolvida pela empresa Copelmi, que há aproximadamente dois anos retomou suas atividades no local.

O município é um lugar histórico de exploração de carvão, e os moradores mais antigos já estão acostumados com a mineração. Sueli, de 90 anos, relatou que seu marido trabalhou 30 anos pela empresa mineira. Antigamente, os trabalhadores desciam nas entranhas da terra dentro de “gaiolas”, ficavam o dia inteiro dentro das galerias e cavavam a golpe de picareta. Sueli inclusive lembra da morte de mais de 100 trabalhadores, colegas do seu antigo marido. Em 1936, uma enchente inundou completamente as galerias. Os trabalhadores foram afogados dentro da mina. O episódio faz parte da memória histórica e coletiva de Arroio dos Ratos.

Dejalmo Vieira dos Santos trabalhou 29 anos com a empresa Copelmi, hoje está com 61 anos, se aposentou por “invalidez” há 6 anos, sem receber nenhuma indenização por parte da empresa. Porém, como operador de máquina, ele teve a coluna machucada e sofreu de paralisia nos braços e nos dedos, devido aos esforços repetidos. Relatou à reportagem que costumava trabalhar mais de 8 horas sem pausa, tendo que “engolir a comida sentado na máquina”.

O pai da professora Bárbara Gomes, também moradora impactada pelo empreendimento da Copelmi, trabalhou durante 15 anos no posto mineiro de Santa Bárbara em Charqueadas. Enquanto medidor, ele era encarregado de entrar dentro da mina depois das explosões. “Tinha vezes que ele chegava, e minha mãe colocava um cobertor na cama, ele deitava, dormia uma hora e voltava a trabalhar. Ele chegava com a pele suja de carvão. Anos depois dele se aposentar, eu brincava de fazer massagem nas costas dele e saia dos poros dele aquela coisa preta do carvão”. Lembra a professora.

Os laudos médicos da empresa afirmavam que ele não tinha carvão no pulmão, porém, Bárbara viu seu pai sofrer de repetidas bronquites. “Laudo médico da empresa fica difícil de a gente acreditar” – aponta. Apesar de tantos anos dedicados à empresa, o pai de Bárbara não ganhou nenhuma indenização médica.

Hoje, ainda se sente o cheiro de enxofre pelas ruas da pequena cidade. Para os moradores do “bairro dos excluídos” – apelido dado por quem vive nessa comunidade a menos de 200 metros do empreendimento mineiro – a tranquilidade acabou. Desde que a empresa de mineração Copelmi retomou suas atividades de extração de carvão no local – há cerca de dois anos, os habitantes de Arroio dos Ratos sofrem com poeira, barulho, rinite e têm as suas casas rachadas por causa de explosões diárias de dinamite.

Rosana Beatriz Crescêncio da Silva mostra o piso do seu banheiro novinho, porém afundado e rachado.

Dejalmo comprou sua casa há menos de um ano, já tem rachaduras nas paredes e os vidros rebentados por causa das explosões.

Além disso, o barulho impede os moradores de descansarem, entre os estouros que fazem tremer as casas e o ruído dos caminhões no meio da noite, os habitantes de Arroio dos Ratos perderam o sono. “A casa treme, a gente se assusta, tem poeira, uma poeira cinza-preta que fica na roupa” – relata Rosana. “Minha casa toda treme, os cachorros ficam horrorizados, e aquele barulho fica a noite inteira, aquele apito das rés das maquinas e caminhões” – explica Bárbara.

Rosana também comenta que, desde que a Copelmi retomou suas atividades, ela e seu marido sofrem com ataques agudos de rinite e bronquite devido à poeira tóxica do carvão.

Antes de se instalar, representantes da empresa visitaram algumas casas e tiraram mais de 120 fotos – esse foi o único contato que os moradores tiveram com a empresa. Apesar de morar a menos de 200 metros das escavações, a sensação geral é a de que a empresa nunca considerou a vida dessas pessoas como suficientemente importantes para serem levadas em conta.

O lugar onde a empresa cava dia e noite sem parar era  um espaço de sustento e lazer dos habitantes de Arroio dos Ratos. Na “Barreira” ou no “esqueleto”, como era conhecido pelos moradores, o pessoal ia pescar, tomar banho e curtir o arroio. Bárbara relata: “Começaram [os empreendedores] destruindo uma parte histórica, que seria o esqueleto, uma coisa que tinha no meio da fazenda que é perto da minha casa. Meu pai cruzava a fazenda para ir pescar no arroio, agora não tem como entrar lá, eles não deixam entrar, como meu pai e todo mundo fazia para ir pescar, curtir o arroio”.

Um dos comerciantes da cidade nos relatou que até a festa da melancia parou nos últimos anos por causa da mineração. E a atividade da Copelmi também trouxe um grande desequilibro ecológico. Os bichos que moravam no lugar das escavações tiveram que fugir do empreendimento buscando refúgio nas casas dos moradores e no antigo lugar onde costumava ser realizada a festa. A invasão de cobras, que fogem das explosões e das máquinas, impossibilita até hoje a realização desse importante evento cultural da cidade.

Além disso, a promessa dos empregos também não se realizou. A maioria dos trabalhadores não são de Arroio dos Ratos. Existem denúncias de que a Copelmi tenha até contratado uma empresa de ônibus para levar e trazer seus trabalhadores dos municípios vizinhos. Rosana relata uma realidade que muitos moradores do município vivem: “Não deu emprego não, eu estou saindo daqui para ir para Charqueadas para trabalhar porque aqui não tem”.

Dessa maneira, o município de Arroio dos Ratos está se transformando pouco a pouco em uma cidade dormitório, na qual os moradores resistem entre poeira de carvão e estrondos de dinamite. Teme-se, dessa forma, que Arroio dos Ratos seja um exemplo do tipo de situação que se poderá viver também em Eldorado do Sul se o projeto de licenciamento da Mina Guaíba for aprovado pela FEPAM.

*reportagem de Clementine Tinkamó (texto) e Bruno Pedrotti (fotos)

Mobilização na frente da Fepam exige audiência pública da Mina Guaíba em Porto Alegre

Nesta sexta feira (dia 13/09/2019) das 11 até as 13 horas, entidades do Comitê de Combate à Megamineração no RS fizeram uma ação em frente a sede da Fepam, na avenida Borges de Medeiros 261. O grupo pressionou o órgão estadual para promover uma audiência pública do projeto Mina Guaíba (de mineração de carvão) na cidade de Porto Alegre. Além disso, também se manifestou contra a instalação de um polo carboquímico no Estado.

Além de informar a população que passava pelo centro de Porto Alegre conversando e usando caixas de som, os defensores do meio ambiente também coletaram assinaturas em um abaixo assinado. A organização do evento estima que centenas de pessoas tenham sido impactadas pela atividade ao passar pelo local, assim como os funcionários da Fepam que saiam em horário de almoço.

Diversos especialistas alertaram para os riscos socioambientais deste projeto que busca implementar a maior mina de carvão da América Latina a menos de vinte quilômetros da capital. Membros das comunidades impactadas também se manifestaram em defesa da agricultura orgânica praticada no local disputado pela mineradora.

Segue abaixo a cobertura ao vivo feita pela comunicação do Comitê de Combate à Megamineração no RS.

Negra Jaque: 80 Motivos

Lyric video realizado em parceria com o Coletivo Catarse.

Letra:
Com mais de 80 motivos pra jogar bem na sua cara
Ando aqui de pés descalços sobre o fio da navalha
Não vim pra explicar nada
Vim pra confundir sua mente
Subestimar aqui é de costume
Eu vim pra quebra correntes
Não vou ficar nessa cota, botamos o pé na porta
Mesmo com alvo nas costas, mostro aqui que eu não to morta
A mídia alimenta o medo, desligue o aparelho
Vire erva daninha vem pra pista desde cedo
Na época do fake News, o que vale são teus views
Teu sangue, tua luta interna ninguém sabe nunca nem viu
O rap perdido no beat, procurando o melhor hit,
não sabem não querem saber ,pra se posicionar tem que ter convite
sou da geração de 80, nos manos me diz violenta
mas pega a visão na situação ele não me representa

disseram que era pra eu viver, me encontro aqui muito viva
minha rima tem nada a temer
chego no pique da Queen Latifha
demônios que moram em mim
querem me chamar mas não sabem
sou iansã brisa do amanhã
vento, raios e tempestades
quando tu não é alvo aqui
é fácil dizer Marielle
a execução juiz promotor
e o lema e a bala que fere
quantos vão ter que morrer
Aqui nossas mães não suportam,
Ta na hora de aprender, que vidas negras importam
O bonde ta em formação temos brilhos em nossos olhares
Pega visão,sente a pressão
E o Brasil vai virar palmares

Direção Criativa : Fabiana Menini
Mix/Master: @noturno records

+ INFOS
Edição por Coletivo Catarse sobre imagens de arquivo de materiais próprios produzidos em frentes de resistências desde 2013.

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Instagram : @negrajaqueoficial
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