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Heavy Hour 57 – 17.09.19 – A censura está aí! Bem desenhada…

Recebemos representantes da GRAFAR (Grafistas Associados do Rio Grande do Sul) neste programa, 3 cartunistas que tiveram seus trabalhos censurados em uma exposição na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Aparentemente, Santiago, Hals e Rafael Corrêa entendem que podem – e devem! – xingar o excrecentíssimo presidente do Brazil livremente sem ter volta, oras bolas! Mas os baluartes do fascismo de bombachas, sr. Nagelstein e a filha do coronel Leal, não deixaram passar em branco e num canetaço protegeram a honra do Bozo acabando com a exposição. Resultado? Explodiu o interesse das pessoas pelas charges! Fantásticas e sagazes, aliás… No papo, também, de estúdio cheio e com muita pressa, o trio nos conta das suas histórias em outros momentos de censura e suas opiniões sobre o momento Charlie Hebdo que estamos enfrentando hoje em dia. (arte do programa feita sobre cartum de Rafael Corrêa)

Setlist bem adequado:
Blitz – Cruel, cruel, esquizofrenético blues
Titãs – Estado Violência
AC/DC – Let me put my love into you
Her – Five Minutes
Paulinho da Viola – Meu novo sapato
Marlyn Manson – Coma White
Odair José – Eu vou tirar você desse lugar

Entre poeira de carvão e estrondos de dinamite. Breve relato dos impactos da mineração em Arroio dos Ratos.

Alguns integrantes do Comitê de Combate à Mega Mineração no Rio Grande do Sul visitaram, nesse domingo (dia 15/09/2019), a cidade de Arroio dos Ratos. Os habitantes sofrem as consequências diárias da extração de carvão desenvolvida pela empresa Copelmi, que há aproximadamente dois anos retomou suas atividades no local.

O município é um lugar histórico de exploração de carvão, e os moradores mais antigos já estão acostumados com a mineração. Sueli, de 90 anos, relatou que seu marido trabalhou 30 anos pela empresa mineira. Antigamente, os trabalhadores desciam nas entranhas da terra dentro de “gaiolas”, ficavam o dia inteiro dentro das galerias e cavavam a golpe de picareta. Sueli inclusive lembra da morte de mais de 100 trabalhadores, colegas do seu antigo marido. Em 1936, uma enchente inundou completamente as galerias. Os trabalhadores foram afogados dentro da mina. O episódio faz parte da memória histórica e coletiva de Arroio dos Ratos.

Dejalmo Vieira dos Santos trabalhou 29 anos com a empresa Copelmi, hoje está com 61 anos, se aposentou por “invalidez” há 6 anos, sem receber nenhuma indenização por parte da empresa. Porém, como operador de máquina, ele teve a coluna machucada e sofreu de paralisia nos braços e nos dedos, devido aos esforços repetidos. Relatou à reportagem que costumava trabalhar mais de 8 horas sem pausa, tendo que “engolir a comida sentado na máquina”.

O pai da professora Bárbara Gomes, também moradora impactada pelo empreendimento da Copelmi, trabalhou durante 15 anos no posto mineiro de Santa Bárbara em Charqueadas. Enquanto medidor, ele era encarregado de entrar dentro da mina depois das explosões. “Tinha vezes que ele chegava, e minha mãe colocava um cobertor na cama, ele deitava, dormia uma hora e voltava a trabalhar. Ele chegava com a pele suja de carvão. Anos depois dele se aposentar, eu brincava de fazer massagem nas costas dele e saia dos poros dele aquela coisa preta do carvão”. Lembra a professora.

Os laudos médicos da empresa afirmavam que ele não tinha carvão no pulmão, porém, Bárbara viu seu pai sofrer de repetidas bronquites. “Laudo médico da empresa fica difícil de a gente acreditar” – aponta. Apesar de tantos anos dedicados à empresa, o pai de Bárbara não ganhou nenhuma indenização médica.

Hoje, ainda se sente o cheiro de enxofre pelas ruas da pequena cidade. Para os moradores do “bairro dos excluídos” – apelido dado por quem vive nessa comunidade a menos de 200 metros do empreendimento mineiro – a tranquilidade acabou. Desde que a empresa de mineração Copelmi retomou suas atividades de extração de carvão no local – há cerca de dois anos, os habitantes de Arroio dos Ratos sofrem com poeira, barulho, rinite e têm as suas casas rachadas por causa de explosões diárias de dinamite.

Rosana Beatriz Crescêncio da Silva mostra o piso do seu banheiro novinho, porém afundado e rachado.

Dejalmo comprou sua casa há menos de um ano, já tem rachaduras nas paredes e os vidros rebentados por causa das explosões.

Além disso, o barulho impede os moradores de descansarem, entre os estouros que fazem tremer as casas e o ruído dos caminhões no meio da noite, os habitantes de Arroio dos Ratos perderam o sono. “A casa treme, a gente se assusta, tem poeira, uma poeira cinza-preta que fica na roupa” – relata Rosana. “Minha casa toda treme, os cachorros ficam horrorizados, e aquele barulho fica a noite inteira, aquele apito das rés das maquinas e caminhões” – explica Bárbara.

Rosana também comenta que, desde que a Copelmi retomou suas atividades, ela e seu marido sofrem com ataques agudos de rinite e bronquite devido à poeira tóxica do carvão.

Antes de se instalar, representantes da empresa visitaram algumas casas e tiraram mais de 120 fotos – esse foi o único contato que os moradores tiveram com a empresa. Apesar de morar a menos de 200 metros das escavações, a sensação geral é a de que a empresa nunca considerou a vida dessas pessoas como suficientemente importantes para serem levadas em conta.

O lugar onde a empresa cava dia e noite sem parar era  um espaço de sustento e lazer dos habitantes de Arroio dos Ratos. Na “Barreira” ou no “esqueleto”, como era conhecido pelos moradores, o pessoal ia pescar, tomar banho e curtir o arroio. Bárbara relata: “Começaram [os empreendedores] destruindo uma parte histórica, que seria o esqueleto, uma coisa que tinha no meio da fazenda que é perto da minha casa. Meu pai cruzava a fazenda para ir pescar no arroio, agora não tem como entrar lá, eles não deixam entrar, como meu pai e todo mundo fazia para ir pescar, curtir o arroio”.

Um dos comerciantes da cidade nos relatou que até a festa da melancia parou nos últimos anos por causa da mineração. E a atividade da Copelmi também trouxe um grande desequilibro ecológico. Os bichos que moravam no lugar das escavações tiveram que fugir do empreendimento buscando refúgio nas casas dos moradores e no antigo lugar onde costumava ser realizada a festa. A invasão de cobras, que fogem das explosões e das máquinas, impossibilita até hoje a realização desse importante evento cultural da cidade.

Além disso, a promessa dos empregos também não se realizou. A maioria dos trabalhadores não são de Arroio dos Ratos. Existem denúncias de que a Copelmi tenha até contratado uma empresa de ônibus para levar e trazer seus trabalhadores dos municípios vizinhos. Rosana relata uma realidade que muitos moradores do município vivem: “Não deu emprego não, eu estou saindo daqui para ir para Charqueadas para trabalhar porque aqui não tem”.

Dessa maneira, o município de Arroio dos Ratos está se transformando pouco a pouco em uma cidade dormitório, na qual os moradores resistem entre poeira de carvão e estrondos de dinamite. Teme-se, dessa forma, que Arroio dos Ratos seja um exemplo do tipo de situação que se poderá viver também em Eldorado do Sul se o projeto de licenciamento da Mina Guaíba for aprovado pela FEPAM.

*reportagem de Clementine Tinkamó (texto) e Bruno Pedrotti (fotos)

Heavy Hour 56 – 09.09.19 – Quando os ricos invadem as áreas dos pobres…

Os bacanas estão de olho na Bonja! E não é para auxiliar a comunidade, é para desalojar as pessoas de lá! Porto Alegre, como qualquer grande cidade, “sofre” com a especulação imobiliária. Sofre, assim, entre aspas, porque sua administração joga contra a população. Conversamos, portanto, com duas representantes da resistência na Bom Jesus, Cris Medeiros, moradora do local e conselheira tutelar, e com a advogada Rosa, também moradora, sobre as invasões – sim! – de corporações privadas que querem retirar mais de 80 famílias de um local onde moram há mais de 30 anos para seguir seu empreendimento imobiliário – vulgo condomínio de bacana. Falamos também sobre a Grécia, onde, em Atenas, a polícia se prepara para demolir com um bairro autogestionado, praticamente anarquista, que não segue o ordem burocrática das coisas – fascismo em seu mais puro estado. Contribuições de Roberto del Monte no assunto, lutador social e curioso, mais Sinistro Parrhesia, direto da Grécia. Clementine, a antropóloga, sugere ainda 4 filmes sobre o tema: Não vivamos mais como escravos; Eu luto, logo existo; O amor e a revolução; e A cidade era nossa. Todos tem no Youtube…

Setlist:
Roberto del Monte – Cotravi Tierra Liberada
Make Believe – Leave me alone
Killah P – I won’t cry, I won’t fear
Wolf Down – Flames of Discontent
Matheu Corrêa – Meu black é rock
Chico César – Pedrada
Negra Jaque – 80 Motivos
Jefferson Airplane – White Rabbit

Heavy Hour 55 – 03.09.19 – O judiciário atenta contra a democracia!

A frase título deste programa não vem da boca dos esquerdopatas que comandam a atração, mas, sim, de um juiz, o convidado João Ricardo Costa, participante do Juízes pela Democracia, que, juntamente com o policial militar da reserva e ativista do Policiais Antifascismo, Airton Garcez, suportaram cerca de 2 horas na presença de uma rapaziada provocativa. Aliás, não só isso, deixaram o boquirroto do nosso âncora meio sem palavras e o poliana Marcelo Cougo meio desconcertado – só Billy Valdez mesmo que foi o que ele sempre é: lacônico. Mas o papo foi legal, regado a muita cachaça Caipora e os drinks fantásticos de Clementine, a antropóloga – fugitiva deste programa (medo da poliça?!) -, fomos desde a discussão do papel da polícia e da justiça na democracia até a reflexão de que é o poder coercitivo que mantém a merda existente hoje. João e Airton – sem essas de vossas excelências, inclusive – se dispuseram a nos ouvir e a serem de certa forma pressionados em suas funções, mas trouxeram suas perspectivas e não pipocaram em fazer a autocrítica de suas profissões e de darem as suas opiniões. Prova de que a arma do Estado não necessariamente é sempre contra o seu povo…

Setlist provocativo:
Hempadura – 5 Tiros
Ozzy Osbourne – Crazy Train
O Rappa – Ninguém regula a América
Allen Toussaint – Bright Mississippi
Motorcaveira – Idiocracia
Ratos de Porão – Farsa Nacionalista
The White Buffalo – The House of The Rising Sun

Audiência Pública sobre o projeto de mineração “Mina Guaíba” acontece no Ministério Público Estadual em Porto Alegre

Nessa terça-feira à noite, 20/08, o MPE-RS abriu suas portas para a realização de uma audiência pública em Porto Alegre para tratar do projeto da Mina Guaíba. Essa exigência foi feita às autoridades estatais por parte do Comitê de Combate à mega-mineração que demandou ao MPE que os moradores de Porto Alegre pudessem se pronunciar a respeito desse projeto que tantos impactos poderá trazer ao cotidiano dos moradores da capital. A sociedade gaúcha ainda aguarda que a FEPAM marque uma audiência pública na cidade como parte do processo de licenciamento ambiental.

O auditório lotado reuniu em grande maioria opositores ao projeto de mineração e ao polo carboquímico que pretende se instalar na região metropolitana de Porto Alegre caso o projeto seja aprovado. A promotora de justiça do Meio Ambiente, Ana Maria Marquezan, cedeu a palavra à Cristiano Weber que representou os interesses da mineradora Copelmi durante mais de 20 minutos de muitas especulações.

O que passou-se, então, a se chamar de “mentiras, reveladas por alguns convidados como o doutor em geociência, Rualdo Menegat, e a doutora em ciências, Marcia Käffer, que ressaltaram os perigos da instalação da mina de carvão para a saúde da população gaúcha que, caso o projeto seja aprovado, estaria exposta entre outras coisas a chuvas ácidas e a uma poluição do ar extremamente alta que chegaria a provocar uma série de problemas respiratórios como a asma ou até problemas neurológicos devido aos componentes químicos do carvão.

O membro do Instituto de Justiça Fiscal, João Carlos Loebens, apontou que a mina Guaíba iria efetivamente trazer benefícios, sim, mas do outro lado do oceano – para Suíça. O pesquisador lembrou que a empresa não deverá pagar quase nenhum imposto para o Estado, deixando o grande lucro para os empresários. Ele tomou como exemplo os benefícios da Vale que, em 21 anos de exercício, realizou mais de 320 bilhões de reais de benefícios (e alguns desastres). E ainda há, além disso, quem ouse clamar, como o engenheiro Luís Roberto Andrades Ponte, que o projeto da Copelmi irá “erradicar a pobreza”. Mas a população presente no auditório ressaltou em muitas manifestações que a pobreza foi historicamente criada por empreendimentos do tipo da Copelmi, que, atrás do discurso do “desenvolvimento”, escondem o esbulho territorial e suas terríveis consequências, reafirmando um ditado popular que diz que “a única coisa que o desenvolvimento desenvolveu até agora são as desigualdades”.

Quando a hora das manifestações públicas chegou, várias pessoas testemunharam sua experiência com a mineração. Moradores de Arroio dos Ratos expuseram as rachaduras e os resquícios de carvão nas suas casas, resultado de anos de exercício da mineração no local, exigindo que a empresa tomasse suas responsabilidades e indenizasse os moradores. Estes comentaram que toda indenização foi negada sob o pretexto que suas casas eram “mal construídas”. No que diz respeito à saúde, foi também apontado que após alguns habitantes e funcionários desenvolverem problemas respiratórios e comentar tal situação à empresa, seus representantes teriam negado se fazer cargo dos gastos sob o pretexto dos funcionários serem fumantes.

Outro problema sério apontado é que os relatórios da empresa sequer mencionam as comunidades indígenas que habitam e vivem desse território, descumprindo, assim, a convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho – uma expressão que pode subsidiar uma reflexão acerca de um racismo institucional permeando a lógica de atuação da empresa.

Da mesma maneira, equanto algum engenheiro pretende que a mina de carvão seja a solução para a “erradicação da pobreza”, uma moradora do loteamento Guaíba City lembra que era feliz até que ficou sabendo que uma mina quis se instalar no lugar onde ela mora: “Vamos a viver dependendo de um caminhão pipa para tomar um copo de água”, apontava.

Hoje, os moradores do loteamento Guaíba City e do assentamento do MST Apolônio de Carvalho vivem produzindo comida saudável para a sociedade, enquanto a mineradora Copelmi propõe transformar a região metropolitana de Porto Alegre em um local que vai receber os rejeitos de carvão…

A audiência encerrou à meia-noite.

Para mais informações: https://www.facebook.com/ComiteCombateMegamineracao/

*texto e foto: Clementine Tinkamó