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Heavy Hour 75 – 20.01.20 – Meioambienticídio

A Natureza como sujeito de direitos alterando a lógica antropocêntrica. Como isso afeta a vida nas cidades? Qual a importância dessa mudança para o enfrentamento das crises climáticas e humanitárias? Apenas um discurso político esvaziado nas práticas ou é um início de uma nova era? Mônica Meira, Leonardo Melgarejo e Renato Barcelos (por áudio), colegas do Coletivo Cidade Que Queremos, fazem o debate com a turma do Heavy Hour, que contou, além das pedradas sonoras que variam de Belchior à Rebaellium, com a provocação anárquica de Tinkamó e o momento ictiólogo do nosso âncora em um dilúvio de informações e denúncias!

O desafio está posto. Ou mudamos o comportamento ou seremos levados a um futuro distópico onde lama tóxica, incêndios sem fim, secas e enchentes se misturarão à políticos fazendo cosplay de Goebbels, e artistas de novela tratarão o racismo como fofuras de homens de bem… Ainda temos tempo ou o Anjo da Morte já está com suas asas abertas sobre nós?!

Setlist:
Molotov ft Anita Tijoux – Hit me
Rebaelliun – The Messiah
Belchior – Sujeito de Sorte
Revelation – Mother Earth
Rivadavia – Black Flag
Slayer – Angel of Death
Rush – Bravest Face

Lá no segundo hay: crônicas da peleia campeira em Lavras do Sul

Em Lavras existem dois distritos. A parte urbana fica no primeiro, e é lá que vive a maior parte dos 7.000 habitantes do município.  Já no segundo distrito predominam as campanhas.

Lá no segundo, na região das Três Estradas, um projeto de mineração de fosfato da empresa Águia Fertilizantes ameaça as águas, os campos, as pessoas e as formas de viver, produzir e se relacionar com a natureza. Enquanto no primeiro distrito existe apoio massivo ao empreendimento, no segundo hay luta e resistência.

Outra diferença importante entre os distritos está nos rios. Ao passo que o primeiro se abastece do rio Camaquã das Lavras, o segundo é banhado pelo arroio Jaguari, afluente do rio Santa Maria, que abastece Dom Pedrito, Rosário do Sul e São Gabriel.

É Justamente lá, na segundo distrito, que a Águia busca licença ambiental para minerar. A linha de frente desta peleia fica nas Três Estradas, nas cabeceiras do taquarembozinho- en las puntas del taquarembo chico, como diriam os castelhanos- que dá origem ao Rio Taquarembó para desaguar no Santa Maria.

Lá existe muito mais do que as frias páginas do Estudo de Impacto Ambiental relatam. Nossa equipe foi conhecer a região na qual a empresa quer construir a barragem de rejeitos. De lá trouxemos na alma um pouco da poesia das paisagens e da força dos que lutam.

Foto: Bruno Pedrotti

Lá no segundo hay las puntas del taquarembo chico.
Hay água buena de beber.

Hay campos y colinas que liberan la vision al infinito,
rompiendo los límites
y entreverando paisanos,
brazileños y castellanos.

Protegendo os rios
ou seguindo as ondas do relevo,
hay capões de mato.

Foto: Mário Witt

Hay corticeiras do banhado,
vime, camboim.
Hay veado campeiro,
sorro y coruja orelhuda.

Hay campos nativos da pampa,
Onde pastam vacas,
tordilhos e ovelhas.

Acima de tudo,
hay gente como a gente.

Hay pessoas que vivem
uma vida de qualidade,
respiram ar puro,
bebem água de verdade.

Foto: Mário Witt

Esses campeiros e campeiras
carregam uma longa história.

Contam
de quando a família
foi se chegando na campanha,
séculos atrás…

Lembram
dos mais velhos
que ensinaram:

as maneiras de laçar,
o cuidado
para andar no mato,

a ciência
de medir o gado,
e a lua pra domar.

Foto: Mário Witt

Aprendem e adaptam
suas técnicas com a experiência.
Constroem e reconstroem
a cultura gaucha
na lida campeira de cada dia.

Movimentam a economia,
produzindo carne de primeira-
com baixo impacto ambiental.

Contratam gente da região:
alanbradores,
esquiladores,
e tantos outros ofícios.

Todas estas vidas e histórias- como diversas outras ao longo da bacia do Rio Santa Maria- valem mais que os 6,5 milhões de toneladas de concentrado de fosfato que Águia Fertilizantes quer minerar.

O patrimônio cultural ameaçado vale mais que os 45 milhões de toneladas de calcário que também se quer tirar da terra.

Las Vidas y saberes, los manantiales cristalinos, los campos y los capões de mato necesitan protección.

São riquezas que vão permitir a vida de várias gerações. Não vale cambiar isso por alguns anos de empregos precários!Hay garantias de que a empresa, quando terminar com os minérios, vai deixar um ambiente saudável pros guris e gurias que virão?

Não.
E por isso se luta.