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MAIS QUE UM JOGO – Copa Conquistadores da América

A América Latina teve sua história construída em cima de sangue, contradições, exploração e resistência. Séculos depois do Manifesto de Cartagena e do Cruce de Los Andes, mais uma vez a Coroa está levando o que é nosso.

Torneio mais importante do continente, a Libertadores da América homenageia em seu nome os líderes das guerras de independência do século XIX. Personagens que lutaram para a construção deste novo mundo, que apesar da escravidão e do extermínio dos povos originários, foi construído por uma mistura de cores, idiomas, crenças e culturas.

O futebol – esporte bretão cujas regras nasceram em universidades – também foi (re) construído e transformado no sul do mundo. O futebol sul-americano – que pode ir desde o jogo bonito brasileiro até o estilo de jogo renhido associado aos platenses – tornou-se uma daquelas coisas nossas, sudacas, nosso tesouro em uma terra onde muito da prata, do ouro, das pedras preciosas (e tantos outros recursos naturais) já foram saqueados. Como Eduardo Galeano conta em Futebol ao sol e à Sombra, foi graças à linguagem do futebol que trabalhadores expulsos do campo se entendiam com trabalhadores expulsos da Europa. “Linda viagem, a que havia feito o futebol: tinha sido organizado nos colégios e universidades inglesas, e na América do Sul alegrava a vida de gente que nunca tinha pisado numa escola”, escreveu o autor uruguaio.

Porém, eis que depois de levar nosso ouro e nossa prata, a Metrópole levou nosso futebol.

Quando a final do torneio que homenageia San Martín, Bolívar, O’Higgins, Artigas, Miranda e até mesmo o nosso brasileiríssimo Dom Pedro (isso sem falar de Manuela Sáenz, Juana Azurduy e tantos anônimos que fizeram deste continente algo possível) tem a sua final disputada na capital do mesmíssimo reino que por tantos anos rapinou este continente, uma final longe de sua gente e de suas cores, nos roubam o futebol.

Nos roubaram o futebol quando os estádios viraram arenas. Nos roubam o futebol quando futuras promessas não chegaram a estrear nas equipes principais, sendo levadas para clubes europeus com os quais não podemos competir financeiramente. Nos roubaram o futebol quando estabeleceram que os canais de televisão – e não os torcedores e clubes – decidiriam o horário das partidas. Nos roubam o futebol quando limitam a forma de torcer à determinados lugares no estádio. Nos roubam o futebol quando um ingresso custa três dígitos, mas não há nenhuma garantia de segurança ou comodidade. Nos roubaram o futebol e nos deixaram com um show adaptado ao gosto da metrópole, para o rei aplaudir de pé.

A violência no futebol não é uma exclusividade sul-americana, porém, o jeito como a Conmebol lidou com o problema é um reflexo da(s) crise(s) que tantos países do continente estão atravessando. Eles –Domínguez, Leoz, oPlatini, Infantino e tantos outros – vão seguir lucrando com um torneio cada vez mais espetacularizado cujas finais (únicas) serão disputadas preferencialmente bem longe do torcedor. Nós ficamos com a disputa da Conquistadores da América.

Movimento Grêmio Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

MAIS QUE UM JOGO – Os ataques racistas contra Fabiano Baldasso

Em tempo de disseminação de notícias e boatos através das redes sociais, recebemos fotos do CTG Sentinelas do Pago, na cidade de Marau, que no último dia 16 recebeu um evento consular do Internacional com a presença do comunicador Fernando Baldasso.

Muito embora consideremos o que o Baldasso faz há anos peça de propaganda através de polêmicas de baixa qualidade, e portanto passe longe de jornalismo, repudiamos veementemente este ataque a sua figura no sintomático xingamento “Macaco Puto” que consegue tristemente a façanha de ser uma ofensa racista e homofóbica ao mesmo tempo.

Não importa a lenda, estória ou origem mítica que de algum modo faria com que chamar de “macaco” os torcedores e torcedoras do nosso rival Internacional (que “magicamente” neste caso em especial) não teria conotação racista porque em qualquer lugar do mundo, chamar alguém de “macaco” é e sempre será racismo.

Infelizmente, temos que reafirmar o óbvio um milhão de vezes: macaco é um xingamento racista, não importa a desculpa ou voltas que se dê para tentar legitimar o termo.

Assim como “puto” não é folclore do futebol, mas reafirmação da homofobia arraigada em nossas sociedades e em nossas cabeças.

Após o ato de vandalismo, os responsáveis pelo evento colorado cobriram as mensagens com bandeiras do clube. O caso foi registrado na Delegacia de Pronto Atendimento que investigará o caso. O Consulado do Grêmio em Marau emitiu nota de repúdio e classificou a atitude como não representativa do torcedor tricolor, que “preza pelo respeito acima de qualquer rivalidade”, além de colocar-se a disposição para prestar esclarecimentos.

Lamentamos o episódio porque amar o Grêmio passa longe de ser racista e homofóbico – mesmo que porventura isso se dê de modo inconsciente. Somos o clube de Lupicínio Rodrigues, Everaldo e da Coligay.

Respeitem nossa história, o Grêmio é do povo e o povo é diversidade.

Movimento Grêmio Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

MAIS QUE UM JOGO – O mascote que prega peças

Saci do Ziraldo, a cara do Inter

No dia 31 de outubro comemoramos o dia do Saci. É uma forma de lembramos das nossas lendas, do nosso folclore; em dias de halloween pra todos os lados, celebrar o Saci é celebrar a memória de uma brasilidade que vemos se esvair nem tão lentamente assim.

O Saci é o mascote do Inter. Esse fato é cheio de significados. O Inter tem uma história ligada às camadas mais populares da população portoalegrense, desde sua fundação, quando seu campo de treinos e jogos estava em meio às comunidades negras da cidade. Isso foi um dos motivos centrais da imensa popularidade do Clube, já que muitas das pessoas que moravam por ali paravam para ver e se afeiçoavam pelo esporte e pelo time. A ligação com o Saci tem seus primeiros registros ainda na década de 40, quando da formação do Rolo Compressor, time cheio de jogadores negros e que pregava peças nos adversários, tal qual o mítico personagem. Nessa época o Inter era conhecido como o Clube dos Negrinhos. Também é dessa época a incorporação de elementos do carnaval nas nossas arquibancadas. Trabalho do também lendário Vicente Rao, era motivo de chacota por parte dos rivais. Era coisa de crioulo, diziam eles.

Nossa história segue e o Saci é incorporado definitivamente através da arte do genial Ziraldo, em uma série de desenhos retratando os mascotes dos grandes clubes brasileiros. Era mais uma mostra do quanto o Inter era do povo.

Saci branco nunca mais!

Recentemente tivemos alguns criativos dirigentes que quiseram acabar com essa história. Os motivos seriam que o Saci tem uma perna só e ainda por cima levava um cachimbo. Desconfio que a verdadeira natureza dessa problema reside na cor do mascote. Em 2016, a RBS colocou o famoso saci branco bombado, para ilustrar a comemoração do título gaúcho daquele ano. Pegou muito mal. Ainda bem!! A resposta veio forte e o Conselho do Clube, por iniciativa do Movimento Povo do Clube, incluiu o Saci no estatuto do Inter. Ele é o Mascote oficial e ponto!

No mês onde celebramos a consciência negra no Brasil, nós, Colorados, celebramos também nosso mascote, uma figura lendária que é um amálgama das culturas que aqui se encontraram. Para nós significa nossa identidade. O saci é negro, com uma perna só, alegre, participativo, um símbolo de onde viemos e do que queremos ser para sempre!

Frente Inter Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

MAIS QUE UM JOGO – O De León que sempre amaremos e o que esqueceremos

É impossível falar de Grêmio sem citar “El Capitán Hugo De León”, o lendário zagueiro uruguaio que ajudou a nos colocar no mapa do futebol mundial em 1983.

Nesta primeira Libertadores que vencemos em 83, contávamos com grandes jogadores e figuras que ficaram gravadas para sempre em nossa instituição e corações, sendo Renato Portaluppi o caso mais notório.

Entretanto, nenhuma imagem sintetiza tão bem a emergência do Grêmio FBPA no cenário nacional e latino-americano quanto De León segurando a taça que nos dava a América pela primeira vez enquanto um pequeno riacho de sangue desenhava em seu rosto uma daquelas imagens mágicas e raras que ficam para sempre gravadas em nossas mentes.

Hugo veio para o Grêmio em 1981, mesmo ano que a ditadura uruguaia organizou o “Mundialito”, torneio com os campeões do mundo que visava fortalecer a imagem do regime autoritário, e assim influenciar o povo uruguaio a referendar a continuação do mesmo em referendo que viria a ser realizado no ano seguinte de 1982 – e cujo resultado, felizmente, foi a vitória do “não”, marcando o início dos processos que conduziram o paisito de volta ao regime democrático.

Após vencer o Brasil na final da competição, o time uruguaio festejava a conquista com o público que havia invadido o gramado em êxtase e foi aí que De León confrontou o governo militar ao comemorar o título vestindo a camisa do Grêmio.

Hugo desagradou a ditadura ao celebrar a conquista com o uniforme do time brasileiro que ele se declarava torcedor, já que o evento tinha finalidades nacionalistas: o enredo de exaltação da ditadura uruguaia através da conquista do título foi desestabilizado pela icônica imagem do capitão De León beijando a taça vestindo a tricolor.

Aos jogadores, foi prometido pela junta militar um carro popular como prêmio, porém, pela atitude de enfrentamento de De León, ele e mais alguns atletas que atuavam fora do Uruguai não receberam a premiação.

O De León que sempre amaremos, portanto, é aquele do Mundialito que enfrentou, mesmo que talvez inconscientemente, a ditadura uruguaia.

O De León que sempre lembraremos é daquele capitão do nosso primeiro Campeonato Brasileiro em 1981, da Libertadores e do Mundial de 1983.

O Hugo de agora, talvez esquecido de como foi a ditadura em seu país – negligenciando como chegou, inclusive, a enfrentá-la – passou a declarar apoio ao neofascista, autoritarista, machista, racista e LGBTfóbico candidato Jair Messias Bolsonaro em seu twitter pessoal.

Ao Hugo de León de agora que serviu de cabo eleitoral e comemorou a eleição de um candidato tão afeito à ditadura (inúmeras são suas declarações de apoio e apreço pelo regime autoritário no Brasil) não reservaremos lugar em nossas memórias e corações.

Ao De León de 1981 até 1984, todo nosso amor, afeto e respeito.

Ao De León de 2018, nossa tristeza e esquecimento.

Movimento Grêmio Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

MAIS QUE UM JOGO – De engano em engano

Conselho Deliberativo do S.C. Internacional tornou inelegível, pelos próximos 10 anos e para qualquer clube esportivo, Vitório Píffero e outros 3 três dirigentes

Final do ano de 2014, 13 de dezembro, um sábado de clima instável em Porto Alegre. No pátio do estádio Beira Rio um grito ecoava: O campeão voltou, ôôôô! Era como um mantra. O Clube havia reinaugurado seu estádio havia poucos meses. Uma negociação complicada que chegou a envolver a então Presidenta da República, pois seria uma das praças da Copa do Mundo. Uma semana antes o Colorado conseguia sua classificação direta à Taça Libertadores da América. Sábado dia 13 de dezembro era o dia das eleições. Marcelo Medeiros representava a situação, que apesar de muitas críticas, entregou um estádio novo em folha e o time classificado no maior torneio continental. Do outro lado estava Vitório Píffero, para quem era destinado o canto, o mantra da volta do campeão…Muita gente alertava para os riscos dessa eleição. Não poucas vezes se ouviu que a intenção do grupo que se lançava como favorito era de se locupletar às custas do Clube. Não adiantava falar, pois o mantra era mais forte. Não sem um tanto de razão. Píffero foi Vice Presidente de Futebol e Presidente do Inter nos anos mais vitoriosos. Havia um sentido no mantra, o que tornava mais difícil abrir os olhos do sócios sobre os perigos que rondavam essa candidatura e seu grupo de apoio. A vitória de Píffero foi muito grande, com mais de 70% dos votos a favor. Grande também foi o estrago que tal gestão causou. Goleada histórica em GreNal, após demissão esdrúxula do treinador, rebaixamento inédito, aumento da dívida do Clube, perda da credibilidade, imagem comprometida perante os amantes do futebol, entre outras. Tudo isso regado a muito favorecimento pessoal com uso de cartões corporativos e saques em dinheiro vivo. Isso é que sabemos. O que supomos não podemos escrever. Mas um dia se saberá. Nessa semana que finda uma parte dessa dívida começa a ser paga com o julgamento via Conselho Deliberativo onde o Presidente e mais 3 Vices foram tornados inelegíveis por 10 anos em qualquer entidade esportiva. Também foi aprovado que o Inter vai buscar na justiça o ressarcimento dos prejuízos causados. A exclusão do quadro social tramita na Comissão de Ética do Conselho e ainda há o Ministério Público, onde podem acontecer muitos outros desdobramentos.

Agora fazemos um corte para as eleições no país. Um candidato dito mito, que hipnotiza seus seguidores, os quais parecem surdos, cegos e infelizmente não mudos, nada enxergam de antidemocrático, nada ouvem de homofóbico e racista, nada leem de machista e fascista, e tudo repetem de chavões maniqueístas e violentos. Diferente de Píffero, tal candidato nada fez de importante nos 30 anos de vida política a não ser enriquecer o seu bolso e o de seus filhos. Minto, fez sim: espalhou ódio por onde esteve. Nós Colorados tivemos nossa temporada no inferno e conseguimos nos recuperar com grande dificuldade. Ainda estamos na luta! Será que o Brasil vai conseguir se erguer depois que o fascismo tomar conta das instituições (não que ele não esteja arraigado em uma série de agentes) pelo voto? Pelo ódio, pela cegueira e pela intolerância? Mais uma vez se ouve as vozes do passado, não chamando pelo campeão mas pelo torturador que se constrói de fake news.

A luta ainda não acabou, temos dois dias pra evitar o pior. Mas seja qual for o resultado, as forças populares vão precisar se organizar desde baixo, como sempre foi, para enfrentar esse passado que apresenta por vezes em notícias mentirosas nas moderníssimas redes sociais em celulares e computadores e também na rua, onde seu estrago ultrapassa o nível do emocional e mental e vai definitivamente na carne.

Frente Inter Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.