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MAIS QUE UM JOGO – Política e futebol: o caso da elitização dos estádios

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Hoje quem faz a sua estreia é a frente colorada!

Política e futebol: o caso da elitização dos estádios

O futebol que foi, historicamente, um palco de e para as massas, vem cada vez mais sendo alvo das transformações que a lógica de acumulação do capital induz a tudo aquilo sob o qual se projeta. Esse processo acontece a passos largos especialmente no futebol brasileiro, desde um passado recente. E, nesse contexto, se faz necessária a organização de uma resistência frente a todas as consequências dessas mudanças, chamadas de “modernização” pelos desinformados ou mal-intencionados.

Até os anos 90, os estádios de futebol no Brasil eram ocupados pelo povo e era ambiente de festa. O nosso país, marcado historicamente pelas desigualdades sociais, era representado nas arquibancadas por todas as diferentes classes sociais. Um grande exemplo disto era o setor popular, a famosa “Coréia” do Beira-Rio, onde o valor do ingresso era meramente simbólico, quando não gratuito. A partir dos anos 2000, um processo de elitização no futebol brasileiro se instalou de forma definitiva. O Estatuto do Torcedor, Lei criada com a finalidade de proteger os direitos dos torcedores, foi utilizada até agora de maneira muito mais frequente para criminalizar e restringir o acesso de um segmento bem específico das torcidas: as torcidas organizadas e os torcedores mais pobres. Por proibir que sejam vendidos ingressos sem a possibilidade de assistir aos jogos sentado, acabou decretando o fim da Coréia e impondo um novo padrão, uma nova forma do próprio clube se relacionar com sua torcida, através do “torcedor-cliente” – a reificação do ato de torcer.

Esse processo atingiu seu ápice com a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Sob o pretexto de exigência da FIFA para a realização do torneio, os rudimentares estádios se transformaram em arenas luxuosas e repletas de cadeiras e gigantescos telões.  Para tal, maciços investimentos foram realizados, principalmente por grandes construtoras, o que modificou a dinâmica do próprio negócio futebol pois os novos estádios precisavam ser rentáveis para fazer jus às inversões realizadas. Resultado disso: ingressos caros à grande maioria e seleção de público, de forma a excluir os que não tem renda suficiente – os que não podem “consumir”. Assim, pela imposição de uma gestão capitalista, exclui-se uma grande parcela dos torcedores de participar e incentivar seu time. A esse processo tem se denominado elitização do futebol.

Mas como a história é feita pelas classes em contradição, um avanço em favor da lógica do capital não viria sem resistência: o que vemos é a proliferação de movimentos, torcidas, frentes contra esse modelo imposto. Movimentos que reivindicam uma maior diversidade na arquibancada, preços mais baixos – tanto para os ingressos como para as associações –, maior liberdade para torcer, dentre outras pautas, estão presente em quase todos os grandes clubes e seguem avançando nas arquibancadas e, mesmo que ainda timidamente, na institucionalidade dos clubes. A batalha, portanto, está posta: ou os torcedores e aficionados reivindicam para si a construção de alternativas e se organizam em torno das pautas que lhes tocam, ou feneceremos frente ao Padrão FIFA, a grande mídia e as oligarquias.  Esperamos que, essa coluna, revezada com eles, seja também, ferramenta para o espraiamento de um futebol popular, acessível e democrático.

Frente Inter Antifascista

*originalmente postado no site do Repórter Popular, link

MAIS QUE UM JOGO – Respeito aos adversários no futebol para combater o fascismo

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Que a bola comece a rolar!

Respeito aos adversários no futebol para combater o fascismo

Recentemente, o DCE da UFRGS promoveu um encontro entre Grêmio Antifascista, Tribuna 77, Inter Antifascista e O Povo do Clube. O tema da conversa e troca de experiência foi a mercantilização do futebol e como resistir, em meio à dominante lógica do capitalismo sob o neoliberalismo que propõe gerir todos âmbitos da vida, da família ao estado, perante a perspectiva empresarial do superávit e extração de valor de todas relações.

Há um âmbito ético-simbólico neste encontro que ressaltaremos neste nosso debut na coluna: o rival enquanto adversário e não inimigo. Encontrarmo-nos novamente com coletivos do Internacional é uma afirmação ética de todas as partes nas quais não renunciamos nossa rivalidade, mas sim nos recusamos a odiar um ao outro.

Reunião entre torcidas da dupla GRENAL no DCE da UFRGS

Em tempos de conservadorismo crescente e grande projeção de determinado candidato neofascista à presidência da República, conviver e tratar o outro com respeito em sua diferença é um ato político e neste sentido afirmamos nossa percepção do que é fascismo.

Para além do fascismo institucionalizado por estados autoritários, acreditamos que há dispositivos fascistas no plano micro, ou seja, fascismos que dizem respeito à formação de valores e perspectivas subjetivas em cada sujeito (algo que o filósofo Gilles Deleuze e o psicanalista/esquizoanalista Félix Guattari denominaram microfascismo). Os microfascismos são processos que tornam a diferença algo a ser negada: no plano do futebol, o rival deixa de ser visto como adversário – estímulo para o crescimento de si – para tornar-se inimigo a ser eliminado.

Microfascismos operam na criação de relações binárias do tipo nós x eles, onde cada grupo possui características essenciais e universais, por exemplo: “todos os gremistas são racistas” e “todos colorados são homofóbicos”. Estes exemplos não buscam negar que essas práticas tristemente aconteçam entre torcedores de ambos os clubes, o que negamos é que seja característica universal e comum a todos gremistas e colorados serem respectivamente racistas e homofóbicos.

Afirmamos que o antifascismo é uma pauta acima de clubismos, e encontrarmos os rivais para trocar experiências e construir ideias e perspectivas já é em si um modo de combater o fascismo em sua modulação clubista. Por isso, saudamos todas e todos que compreendem que o inimigo não está só nas estruturas do estado e seus autoritarismos, mas também dentro de nós.

Antifascistas do mundo, uni-vos!

Movimento Grêmio Antifascista

*originalmente publicado no site Repórter Popular, link