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Heavy Hour 67 – 25.11.19 – Para saber bem o que está acontecendo no Chile e latinoamerica

Heavy Hour das profundezas do caso chileno, de 1973 e de agora, desde os anos 80 e das lutas contra 30 centavos de peso nas passagens e os 30 anos de abuso contra a vida das populações. Lutas no Chile e na América, lutas que reverberam por várias instâncias: das barricadas anarquistas dos Linhas de Frente e seus perros matapacos até a institucionalidade de um Juiz de Garantia, figura diferenciada no modelo de justiça chileno. Na sede do Coletivo Catarse, recebemos Daniel Urrutia, chileno e juiz, que nos traz a narrativa direta de vários fronts – oficiais, históricos, de ruas e pessoais, e colabora para uma maior compreensão dos processos de ataque em nossa terra. Agradecemos novamente aos Juristas pelas Democracia e convocamos a toda gente a acompanhar essa narrativa pelo Heavy Hour e também no site do Coletivo Catarse, onde transcrevemos toda a conversa com Daniel. É textão? É! Mas quem quiser se informar por memes da internet vai construir sua manipulação e nós, do Coletivo e do Heavy Hour, trabalhamos pela emancipação através da informação!

Setlist:
Erasmo Carlos – É preciso dar um jeito meu amigo
Eu Acuso! – Nações
La Pozze Latina – Las Casitas del Barrio Alto
Mercedes Sosa – Duerme negrita
2x – La Fuerza Policial
Ratos de Porão – Canto Libre

Entrevista com Daniel Urrutia Laubreaux, juiz de garantia em Santiago do Chile, sobre o contexto socio-político latinoamericano!

Após três programas Heavy Hour seguidos, dedicados à geopolítica latinoamericana, o Coletivo Catarse recebeu na sua sede o juiz de garantia chileno e mestre em estudos latinoamericanos, Daniel Urrutia Laubreaux. Esta entrevista foi realizada pelo time do Heavy Hour no intuito de aprofundar reflexões e entender por um lado – desde uma perspectiva político-judicial, geopolítica e social – os acontecimentos recentes que deixam entrever o terrível incremento do fascismo e do racismo colonial. Por outro, também, a dignidade transformando-se em corpo e ação nas ruas do Equador, Haiti, Chile, Bolívia e, mais recentemente, Colômbia, onde milhares de pessoas, sob o som dos cacerolazos, entoam cantos para o renascer de uma América Latina livre de opressores e verdugos, para uma América Latina indígena. Estes ventos que atravessam a cordilheira sopram inspiração e rebeldia. Desde aqui, sede do Coletivo Catarse, deixa-se a palavra para Daniel, que surpreende os integrantes do coletivo: será que um juiz pode ser, também… revolucionário?!  Agradecemos também a presença de Mauro Cahum da AJD (Associação dos Juízes pela Democracia). 

Coletivo Catarse: Podes nos explicar qual é a função do juiz de garantia?

DU: São os juízes que vem as matérias penais no país, e se chama garantia porque a Constituição lhes dá aos juízes de garantia, justamente, garantir os direitos das pessoas durante o procedimento penal. Vim ao Brasil para participar de uma palestra sobre independência judicial e justiça de liberação. Esse é o conceito que vamos tratar de expor durante o encontro nos escritórios da Escola da Magistratura do Trabalho aqui em Porto Alegre.

CC: Podes nos contar então um pouco do contexto chileno?

DU: Acho que é importante assinalar em relação ao Chile que nós vivemos uma ditadura muito cruel a partir do ano 1973, quando assassinam o presidente Salvador Allende e a muitas pessoas e instauram-se 17 anos de um regime ditatorial absoluto no qual os militares abandonam sua tradição nacionalista e a entregam ao comando econômico da Escola de Chicago, que são basicamente os alunos da Universidade Católica do Chile que vão para Chicago, discípulos de Milton Friedman. Eles voltam ao Chile no ano 1976, 1977 e convencem Pinochet de aplicar o que eles denominam “O ladrilho” que era um livro de prescrições que explicava como devia ser a economia em um mundo neoliberal. De fato, o Chile se converte no experimento do neoliberalismo basicamente porque a ditadura se encarregou que ninguém pudesse reclamar. Então, fundam, a partir dos anos 80, uma situação na qual tudo é privatizado, todos os serviços do Estado são privatizados, se vendem todas as empresas que haviam passado anos, que se podiam conseguir por parte do Estado, da cidadania e são entregues e vendidas a preço muito baixo justamente a membros da elite que estavam com a ditadura. Por isso nós denominamos atualmente a ditadura de ditadura cívico-militar, porque não somente foram os militares senão também muitos civis que ajudaram a instalar esse modelo de espoliação, de expropriação de todo o capital inclusive. Então esta situação na qual se gera um sistema de abuso permanente das grandes massas, das elites sobre as grandes massas do Chile.

CC: Quando falas da elite, estas te referindo somente à burguesia nacional?

DU: Eu acho que é importante que isso está numa tradição latino-americana, ou seja, os impérios foram sucessivamente explorando a região, então, partimos com Espanha e Portugal que exploram a região e logo a criação das repúblicas aeras que denominava Bolívar, então o que temos? Temos grupos pequenos que são brancos, homens heterossexuais, que dominam conjuntamente com representantes do Império de turno, que neste momento podemos denominar como transnacionais que fazem uma aliança para poder conseguir a dominação dos vastos setores tanto dos recursos naturais, basicamente através da exploração dos commodities e pelo tanto manter a população num ambiente de somente utilizar sua capacidade de trabalho, mas numa marginalidade constante para poder explorá-los.

CC: Na transição para a democracia, não houve nenhuma quebra radical com o modelo econômico implementado durante a ditadura…

DU: Claro, acontece que o modelo neoliberal se instalou e neste sentido houve uma revolução, mas ao revés, ou seja à direita, no sentido de instalar este sistema de dominação muito mais claro, muito mais evidente, no qual todos os bens públicos foram entregues ao privado para efeito justamente de conseguir enriquecer pequenos espaços. De fato tanto assim como noutros países da região, que são certas famílias que controlam a parte econômica, então no caso chileno se fala de 7 famílias que são as donas do capital, que são as donas das empresas e que coincide com que o governo militar lhes entregou em concessão ou diretamente em propriedade essas empresas produtivas. De fato, por exemplo, existe uma que se chama Soquimich que é entregue ao genro de Pinochet e ele se converte numa das pessoas mais ricas do país. Piñera, que é o atual presidente, durante os anos 80, a ele foi entregue a concessão dos cartões de credito quando chegaram, então sua fortuna se baseia nesta modelo no qual, ele leva o plástico dos cartões e a ele se lhe dá a concessão dos cartões de crédito,  um capital que está feito diretamente pelo ditador. Então, este modelo de exploração se vê em todos os aspectos da vida. Então as aposentadorias, o irmão do presidente atual, de sobrenome Piñera, evidentemente, ele cria o sistema de fundo de pensões, nós o conhecemos como AFP, o sistema de administração de fundo de pensões. Isso foi em 1980 e ele promete que este novo sistema de capitalização individual, ou seja, quer dizer que todo teu trabalho durante a vida, todos os meses, tens que obrigatoriamente tirar uma porcentagem, mas isso vai num fundo individual, não coletivo. Então, a promessa, era que no ano 2020, as pessoas que haviam começado nos anos 80 a fazer a capitalização individual iriam se aposentar com 100% do último salário que tinha recebido, o qual é absolutamente falso.  As pensões atualmente não estão chegando nem ao 50% do último salário, pelo tanto, quando as pessoas se aposentam, caem na pobreza. A maioria das pessoas no Chile, ao se aposentar, cai na pobreza. Então os fundos de pensões não é um sistema de administração das pensões dos trabalhadores, na realidade é um sistema de poupança forçado para que estes fundos que pertencem aos trabalhadores sejam ocupados pelas mesmas 7 famílias através das ações, porque, com o fundo de pensões o que fazem é que entregam esse dinheiro na bolsa.

CC: ou seja que especulam com o dinheiro das pensões dos trabalhadores…

DU: Exatamente, e além disso, na bolsa onde vão? Nos bancos. Então, os bancos lhes emprestam dinheiro aos mesmos trabalhadores então, meu dinheiro, como trabalhador, se peço um crédito, a banca vai me emprestar com interesses altíssimos quando no fundo esse é o meu dinheiro. Então é um negócio tremendo para os donos dos fundos de pensões que são os mesmos das 7 famílias. Então não é um sistema de pensão senão que um sistema, no fundo, é um sistema de financiamento das elites. É absolutamente terrível entendê-lo a partir deste ponto de vista, que o que tem feito durante 30 anos, é roubar a grana dos trabalhadores e das trabalhadoras.

CC: Em relação às universidades, aqui estão querendo acabar com a universidade pública….

DU: Sim, isso que fizeram no fundo de pensões, se replica na saúde, na educação, no transporte, em todos os âmbitos da vida, se replica que se entrega a privados, a administração, o uso, a propriedade, inclusive na propriedade da água.

CC: Justo, a semana passada, estevimos falando da guerra da água na Bolívia…

DU: que conseguiram no ano de 2002, expulsar esse modelo que Mesa e outros queriam instalar. Esse modelo, no ano 1982, se aprova o código de águas no Chile e justamente o que diz a Constituição é que a água pertence a todos, pertence ao Estado ou a todos os chilenos. Então, hoje em dia temos, por exemplo, o caso de um ministro de governo de Sebastian Piñera, que tem a propriedade de 30.000 litros de água por segundo. Ele, pessoalmente, na sua propriedade tem 30.000 litros de água por segundo. Entendamos que nos anos 80, estávamos em ditadura, não é que a cada pessoa lhes passaram 2 litros de água, senão que disseram: eu quero, eu quero, eu quero. Levantaram a mãos os da elite porque lhes avisaram que se ia a repartir a água, se ofereceu por parte do Estado. O Estado ditador lhes entregou em concessão, por exemplo ENDESA, a filial espanhola, lhe cederam a propriedade de lagos completos no sul do Chile que além disso pertencem aos indígenas. A constituição diz que a água é de todos, mas as concessões as entregaram em propriedade, então podem vender, então que aconteceu: se criou um mercado da água. Agora tem umas coisa tão absurdas que pelas mudanças climáticas tem tido muito pouca chuva em setores que antes não eram desérticos e agora estão se desertificando, estamos falando a 200/100 km da capital de Santiago onde o Estado, para que as pessoas possam beber água, tem que comprar a água aos mesmos a quem se lhes entregou em concessão. Então é absolutamente absurdo e a elite tem tido a desfaçatez de dizer: “não tenho problema, mas me paguem”. Ou seja, “me expropria a água mas me paguem a preço de mercado.” Então quando se lhe deu em concessão nos ano 80 usufruíram e usufruem o que o Estado lhes deu neste mercado da água que tem-se criado.

CC: Quando nos anos 90 acontece o processo de redemocratização, não se pensa, não se consegue levar a cabo um processo revolucionário? Porque tinha vários grupos revolucionários atuando ainda naquele momento…

DU: Sim, a ver. A queda da ditadura se conseguiu justamente por um consenso no qual se cria um grupo que se chama a Concertação de Partidos pela Democracia e essa concertação tinha um programa de governo que justamente era acabar com o sistema neoliberal, dotar de uma nova constituição e fazer mudanças profundas.

CC: Quais foram os partidos que formavam a Concertação?

DU: Desde a Democracia Cristã, passando pelo Partido Socialista, pelo Partido pela Democracia que era um partido cindido do socialista, o Partido Radical. Havia 27 partidos, a Esquerda Cristã, o Partido Humanista. Todos se juntaram para tirar o ditador. Se consegue e logo se fazem eleições livres e chega um democrata cristão. Chega à presidência Patricio Aylwin que é conhecido porque ele diz: “bom, vamos fazer justiça na medida do possível”. Alusões aos direitos humanos sobretudo. E tudo é “na medida do possível”. O problema é que não tinha nada impossível, obviamente, e o possível, em realidade foi bastante reduzido. Então, as mudanças que se quiseram fazer, não se fizeram. E a defesa de estes políticos que estavam nesse momento, os representantes dos partidos era que se fizessem mudanças profundas os militares de novo tomariam o poder.

CC: E alguns militares inclusive não foram julgados neste momento dos crimes cometidos ou sim?

DU: Sim. A ver. É importante assinalar que 20 anos pelo menos depois de ter terminado a ditadura, tem um julgamento mais sério. Então aí cai o chefe da polícia secreta e ao menos 200 perpetuadores militares que são condenados. Podemos discutir se estas condenações são curtas, longas, tem uma serie de situações, mas o certo é que são condenados. Se constrói uma prisão especial para eles, mas é uma prisão. O problema é que todos os presos deveriam ter essa prisão especial, porque se supõe que deve ser condições humanas para todos, mas as outras prisões não são assim.

CC: É, as prisões dos pobres não têm essas condições não…

DU: Não, não. Então se produz um processo no qual o poder judicial consegue realizar condenações mas é muito longo no tempo. Pinochet, de fato, esquivou de sua responsabilidade alegando que estava louco, demente, mas ficou em prisão domiciliar na sua casa e faleceu de velho na sua casa, processado pelos delitos. Então, não há justiça, não há justiça, mas é o que acontece. Os partidos atraiçoam o afã revolucionário de acabar com a Constituição, fazem isso na medida do possível e terminam administrando o modelo neoliberal e inclusive aprofundando o modelo. Todos estes políticos que alguma vez foram exilados, torturados, quando voltam, se acomodam à administração e terminam muitos deles, por exemplo, sendo diretores das empresas que tinham sido entregues por Pinochet aos privados. Então são nomeados diretores, com um salário bastante importante e pelo tanto renunciam a mudar as coisas porque estão acomodados e isso chega até os dias de hoje.  Então, o que acontece no 18 de outubro é que os estudantes secundaristas que têm 14, 15, 16 anos, frente a um aumento de 30 pesos chilenos na tarifa do metrô – estamos falando de menos de um dizimo de dólar – a consigna foi: “não são 30 pesos, são 30 anos” de abuso e eles estabelecem essa campanha de evadir: “não pagar é outra forma de lutar”. Então, evadem o metrô. Rapidamente o que aconteceu é que são vários os secundaristas que fazem isso ao mesmo tempo em Santiago e a reação do governo foi fechar as estações, então se produziu um caos. Fecham as estações e o que acontece é que os secundaristas e outras pessoas que vão se somando rompem as portas das estações e ingressam igualmente às estações e então a resposta do governo foi ordenar a repressão por parte de Carabineros [equivalente a BM aqui só que não são militares] e começa a se produzir um caos maior. Rapidamente acontece que tem um caos que ninguém esperava, ou o governo pelo menos não se esperava e se produz o colapso da cidade de Santiago. O transporte, as pessoas não tinham como se transportar. Tem protestos multitudinários imediatamente e o governo ordena em dois ou três dias, o decreto de estado de emergência e diz que o encarregado do exército – porque isso indica que tudo ficou sob tutela do exército através de um general de zona – e diz que ele pode ordenar o toque de recolher. Eu acho que isso é importante assinalar porque, embora talvez não se possa entender bem, mas o estado de emergência é o primeiro passo, depois tem o estado de sítio, logo de assembleia, tem o estado de guerra e resulta que tem uma divergência constitucional muito importante porque tem que ver com responsabilidades posteriores do presidente, neste caso que no estado de emergência não se podia decretar o toque de recolher. Então o exército decreta o toque de recolher, saem os militares nas ruas, mas há umas horas nas quais se produz, que não tem policiais nas ruas, a polícia se retira e estamos falando de 3,4,5 horas entre as 2 da tarde e as 8 da noite quando não tem forças de segurança. E ali se produz a queima de ao menos 19 ou 20 estações de metrô, se queima completamente a estação. Então há uma investigação na qual a pergunta é quem queima as estações? E se, em realidade se deixou que se queimaram, então porquê? Porque ingressam os militares e os militares não vão cuidar das estações, o qual é muito estranho porque todos os que saibam algo de estratégia militar sabem que uma das primeiras coisas que os militares fazem é assegurar as vias do transporte, então é muito estranho que os militares não tenham ido às estações de metrô. Então se queimaram as estações e isso justifica, no fundo, vem a justificar a repressão, mas o governo, o presidente chama e convoca uma declaração onde diz que o país está em guerra. Ele diz que está em guerra contra um inimigo poderoso, então se produz uma situação muito complexa, tem 7 dias de toque de recolher, a partir das 6 da tarde, se proíbe que as pessoas caminhem nas ruas. Uma situação muito complexa, isso produz ao menos 20 pessoas mortas, 5 diretamente por disparos militares, por disparos de arma de guerra. Os demais aparecem mortos em incêndios em saques.

CC: O que nós recebemos como informação foi que estas pessoas que foram encontradas nos incêndios tinham sido mortas antes, assassinadas e logo, jogadas nestes incêndios para fazer desaparecer os corpos.

DU: Tem que ser muito responsável com as coisas que se dizem, isso está em investigação. Então tanto pode ser que efetivamente seja assim, como não.

CC: O mesmo tu dizes sobre denúncias de centros clandestinos de tortura?

DU: A mesma situação, a ver, eu não sei se é necessário ter centros de tortura quando tens os centros normais de detenção onde os podem torturar igual, então tem uma situação na qual, evidentemente, a desinformação e a situação que está acontecendo faz que as pessoas assinalam que pode existir essa situação, porque nós vivemos uma ditadura muito cruenta onde efetivamente estava cheio de centros de detenção ilegais então é muito razoável que se pensa que vai voltar a se repetir a situação, então isso é parte das investigações que se estão fazendo atualmente. Eu pessoalmente tive que ir justamente por uma situação de um centro de detenção que se falou que era de tortura, no Centro de Santiago, na estação de metrô Baquedano, ao menos, nós, com a força pública, irrompemos no lugar, não tinha detidos por exemplo.

CC: Mas não seria possível que eles soubessem da sua chegada?

DU: É pouco provável que tenha acontecido. Mas é parte da investigação. Agora, que existam centros de detenção e tortura, ou seja, centros de tortura clandestinos, eu, responsavelmente tenho que dizer que é pouco provável, o que não quer dizer que não seja possível. Porque se tu quer torturá-los na delegacia para que o vai fazer clandestinamente, embora quisesses desaparecê-los, também não há, e isso é responsável dizer que não há uma política de desaparição.

CC: Bom, nas redes sociais, vimos circular por exemplo uma lista de 13 mulheres desaparecidas, com seus nomes e sobrenomes…

DU: Pelo menos até a semana passada, de 130 pessoas que dizia-se que estavam desaparecidas, o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH), cujos funcionários fizeram um labor incrível em campo, eles mesmos assinalaram que não haviam pessoas desaparecidas exceto uma ou duas que ainda não se encontravam. Então, da situação na qual se diz que há muita gente desaparecida, isso eu devo dizer que não é verdade.

CC:  E como se fazem estas investigações?

DU: O que acontece é que o INDH o que faz através dos seus funcionários, é que eles recebem informações e todos informamos se tem alguém desaparecido. Então o que faz o instituto é se comunicar com as pessoas através das redes sociais e falar com a pessoa a ver se está e onde está, se foi detido, se não foi detido. Têm acesso aos registros de detenção, então muitas vezes o que acontece é que efetivamente tem pessoas que foram para o protesto e não aparecem, se faz a denúncia e acontece que aparece detida em outro lugar e se encontra no registro público. É uma situação na qual, até o momento, não tem uma circunstância em que se possa dizer que há uma situação estendida de desaparições de pessoas. Ou seja, durante horas sim, não se sabia onde estavam mas logo, aparece a situação na qual efetivamente se corrobora que a pessoa esteve detida em algum lugar e logo foi deixada em liberdade ou fica presa, dependendo da investigação no caso particular. Tem gente que se encontra detida com processos penais em prisão pública.

CC: Quantas pessoas estão detidas agora?

DU: Tem tido múltiplas detenções, mais de 2000 pessoas detidas em geral, inclusive mais, mas a informação que eu tenho até o início de semana é que há umas 500 pessoas que estão detidas em relação a esta situação e que ficaram em prisão preventiva sobretudo nas regiões. Muitas delas têm que ver com participação em saques de supermercados e coisas assim. Não todos e não todas estão acusadas de participar de manifestação, de protestar, mas, alguns estão imputados por danos. O que acontece é que o governo invocou a lei de segurança interior do Estado pelo qual estes processos se tornam mais complexos porque as penas aumentam por causa da lei de segurança do Estado. Tem gente que está em prisão preventiva mas o importante é que estão com defensor público ou privado em prisões públicos e não estão atualmente, sujeitas nem a tortura, nem a nenhuma situação, exceto o que significa estar nas prisões latino-americanas o que já significa uma situação degradante. Eu quero ser muito claro, neste mês há violações graves aos direitos humanos, são sistemáticas e efetivamente foram produzidas pelos agentes do Estado, então temos neste caso mais de 20 assassinatos ou mortos, vai ter que se definir na investigação também mas há diretas indicações de militares, e não todos os militares que dispararam estão presos.

CC: Mas todos foram identificados?

DU: Sim, eu diria também que há mais de 400 querelas, ou seja, denúncias em tribunais com nomes e sobrenome a respeito de casos de tortura, casos de torturas sexuais onde justamente é o INDH que toma os testemunhos e faz uma pequena investigação para saber do que se trata, quem foi, qual foi o oficial. Têm muitos vídeos, porque atualmente todos gravam o que acontece, a maioria das coisas podem ser gravadas sobretudo na via pública, pelo tanto tem muita informação que permite sustentar as acusações contra os agentes do Estado. Esses processos estão sendo levados por fiscais do Ministério Público que ao menos até agora dá garantia de seriedade, vamos ver porque não levamos nem um mês. Mas, pelo menos o que se percebe é que tem uma vontade de levar adiante e clarificar os fatos, pelo menos levar adiante aqueles agentes do Estado que cometeram as violações aos direitos humanos. De fato, por exemplo, em um colégio, um liceu de meninas, ingressaram força de carabineiros com a escopeta antidistúrbios e dispararam a queima-roupa nas meninas,  meninas de 15 anos, 14 anos. Este funcionário foi separado da instituição, era o maior da comissaria, nem mais nem menos, era o encarregado da comissaria e é separado das suas funções e ficou em prisão noturna em seu domicilio por uma parte, impossibilitando-o de sair do país além da proibição absoluta de se aproximar das vítimas e das famílias, mas não ficou em prisão preventiva.

CC: Ou seja quem dispara a queima-roupa a meninas não ficou em prisão preventiva mas tem 500 pessoas que protestam legitimamente e que se encontram em prisão preventiva?

DU: Para ser honesto, as acusações que pesam sobre as pessoas não são somente acusações de manifestação, ou seja, quer dizer que estão acusados de participar em saques.

CC: Sim, mas um saqueio, dentro de um país que, como tu mesmo explicastes, funciona basicamente como uma empresa e onde existe um nível tremendo de exploração, não é justo fazer um saqueio?

DU: Eu sou representante do Estado também e pelo tanto não vou afirmar isso aqui porque quero chegar a meu país e não estar preso.

Mauro Cahun : Eu gostaria de fazer uma pergunta porque sempre, no Brasil e acredito que também nos demais países de América Latina se fez uma divulgação que o Chile é o modelo, o modelo do bem estar social, de tudo funcionando, as coisas estando as mil maravilhas, agora estes protestos evidenciam que não era aquilo que se dizia ser, o que saiu errado, o que que gerou essa inconformidade da população geral no Chile?

DU: O que acontece é que era para a elite, ou seja, este era o modelo, o modelo funcionava para o 10%, 5% da população. Mas o resto, a maioria da população não tinha capacidade de participar de esse bem-estar então é isso que produz o estalido social, é a acumulação dos abusos por parte dos governos, por parte da elite, por parte dos empresários que exploram ao povo e em um determinado momento, o povo falou: “já basta, até aqui chegamos. Não vamos a continuar a suportar a continuação da espoliação.” Isso é o que produziu o estalido e assim se denomina, é um estalido social que o governo tenta, através da repressão, controlar e não conseguiu.

CC: E podes nos falar um pouco de esta denúncia que foi realizada em contra do próprio presidente Piñera?

DU: Sim, isso tem uma acusação constitucional que está contemplada na Constituição da ditadura que se refere justamente à possibilidade de fazer um juízo político a altas autoridades do Estado e entre eles ao presidente da República, mas isso é responsabilidade política. De toda maneira, existe uma querela ante meu tribunal, justamente por responsabilidade penal à qual eu, evidentemente, não vou me referir, porque sou um dos juízes que vê o tema. Em relação à causa política sim, está nas mãos da câmara de deputados que têm que apresentar, ao menos 10 deputados têm que apresentar um escrito onde a câmara de deputados aparece como acusador e o senado como jurado político.

CC: Como está composto o senado no Chile?

DU: O que acontece é que as eleições, o espectro político é um espectro no qual creio que tem-se voltado aos 3 terços aproximadamente. Me refiro a que o senado está a um terço na direita, um terço de algo que se poderia denominar como centro e um terço que é de esquerda, mais ou menos, era o que tradicionalmente no Chile, os espectros distribuíam estes cargos no senado e no congresso. Até a última eleição o que tínhamos era uma amarra da ditadura que era o sistema binominal de eleições que o que fazia era que as duas maiores coalizões elegiam um de cada um em uma circunscrição o qual assegurava o empate. Agora, e foi uma conquista da administração de Michelle Bachelet foi mudar este sistema de eleição a um sistema proporcional, mais ou menos. Agora isso permite, permitiu a entrada por exemplo, da Frente Ampla, isso permite que não seja duas coalizões que controlem, que não seja uma de direita sobre representada que é justamente o que acontecia antes das eleições passadas e o congresso atualmente está com esta distribuição dos três terços. Obviamente, inclusive o partido comunista consegue mais assentos, Camila Vallejo, Karol Cariola, etc. então, conseguem assentos que antes não podiam ter conseguido porque se perdiam porque não conseguiam ser parte das duas coalizões grandes.

CC: Vimos nas ruas gente pedindo uma nova Constituição, poderias nos falar um pouco mais de como se desenvolve esse assunto no seu nível institucional?

DU: Eu não sei se nas ruas estava a nova Constituição como uma das petições assim: “queremos uma nova Constituição porque esta Constituição está ruim.” Não o vejo assim. O que ocorre é que o que a rua diz é que basta do abuso, o que acontece é que para terminar com o abuso tu tens que mudar a Constituição. São coisas diferentes. Claro, de isso se agarra a direita para dizer que ninguém está pedindo uma nova Constituição, então, que não se mudem as regras do jogo, mas resulta que tu não podes por exemplo mudar o sistema de pensões porque está na Constituição, está amarrado para o benefício da elite. Então, os reclamos que podem ser setoriais, ou seja são setoriais entre aspas porque afeta à maioria da população, mas o reclamo de saúde, o reclamo de meio ambiente, ou reclamos dos povos originários, o reclamos das pessoas pobres, justamente se tu somas tudo, dá a ver que se deve mudar as regras do jogo. O pedido de mudanças das regras do jogo é terminar com os abusos e isso é uma nova Constituição.

CC: Mas existe um diálogo com os representantes do Estado para chegar a uma mudança da Constituição?

DU: É muito difícil porque a rua não tem, a rua é todos e ninguém. Porque não há representantes.

CC: Mas não tem certa organização desde as ruas mediante assembleias populares?

DU: Mas isso passou, podemos reconhecer depois de um mês e o que houve foram cabildos, assembleias territoriais, sim,  não é que exista uma organização. Ou seja, de que há articulação sim, mas antes de isso também havia, mas é muito difícil porque não se assume como em um movimento de massa etc. onde há um partido que leva esta situação por exemplo, não sei, como a vanguarda organizada, não existe nada disso, o qual também dá uma perspectiva distinta a esta explosão popular. Podemos ler que exista uma vanguarda que leva a isso, ao menos não estão reconhecidos, ou não se sabe, não se reconhece. Atualmente, nós temos muitas informações, o twitter, o Instagram, o Facebook, etc. vão vendo, por exemplo, aparecem os chamados a se juntar, alguém os têm que fazer. Bom este alguém, não se sabe quem é.

CC: É bem parecido com o que está passando em França com os Coletes Amarelos, uma forma de organização diferente que também nasce de um “basta já de abusos”, claro, estamos falando de um contexto muito diferente mas também os pedidos giravam em torno do “basta de miséria social, estamos com raiva e queremos que Macron se vá e mudar de forma estrutural as coisas”, E depois de um ano, ainda tem movimento.

DU: Sim, eu acho que ali tem um tema, a Frente Ampla faz dois, três dias e sua líder natural que é Beatriz Sánchez, a ex-candidata na última eleição vai  à Praça Itália e a expulsam da Praça Itália. Então não são os partidos tradicionais que, no qual também a Frente Ampla cai, embora de tradicional não tenha nada porque não tem nem dois anos, mas estão todos mais ou menos fora… obviamente a direita está fora da rua, ou seja, não poderia aparecer ninguém da direita na rua. De fato, tentaram, o partido republicano em formação, acho que assim se chama, que é de José Antônio Kast, que é um fascista que estava tentando capitalizar por exemplo, isso dos coletes amarelos, ele chama a que se organizem em defesa da propriedade, e isso gerou outra situação.

CC: Bom aí se deu outro significado aos Coletes Amarelos.

DU: Então, por sorte não funcionou. Tem certos setores populares que pensavam que iam entrar em suas casas, então se organizaram para defender mas em realidade todos rapidamente se deram conta que não era aí o assunto, sem prejuízo que tem gente que acredita que possa ser assim…

CC: Faço parte de alguns grupos que pensam a questão do futebol como um meio de transformação política e para nós chamou muito a atenção o posicionamento de alguns jogadores, jogadores famosos da seleção do Chile. A gente viu a questão dos torcedores organizados, das barras, da barra da Garra Blanca, torcedores de La U, se organizando para ir junto com a galera, como que tu enxerga isso? A gente aqui nunca imaginaria isso, aqui no Brasil, jogadores desse nível de  Seleção,  de se manifestarem tão fortemente, primeiro não querer jogar e depois num jogo da seleção, fazer aquele gesto tão simbólico de tapar, o que repercute isso?

DU: Geralmente, os jogadores de futebol são de setores popular, são pessoas que têm dinheiro porque jogaram futebol mas senão estariam na droga, estaria no narcotráfico. Porque essa é a realidade das periferias no país. Então, eles se deram conta que esse sistema de abuso também não pode continuar porque assumem que suas famílias tiveram sorte, porque podem ter luxo, viagem, mas não é o que acontece com as pessoas da sua população, com seus amigos, quando vêm a seus amigos da infância, estão presos, estão na droga, estão em uma situação ou precarizados sem possibilidade de , ou provavelmente eles mesmos têm que estar ajudando quando alguém da família, dos vizinhos, e claro, ele tem e podem aportar mas resulta que alguém fica doente aqui no Chile, em Santiago e resulta que tem que fazer um bingo, fazer algo para conseguir o dinheiro porque se tu não tens dinheiro, tu morres, porque não há saúde, não há saúde pública. Então, os jogadores tiveram esta percepção ou essa sensibilidade porque é algo que vêm em seu lugar de origem. Não todos, a maioria, mas também, os torcedores, ou seja, as barras, as barras do Colo-Colo, a barra da Universidad de Chile também são de extração popular e inclusive organizaram assembleias territoriais nas quais discutem acerca do que tem que ser mudado, então o fizeram em Praça Itália, inclusive, ou seja, Piñera, conseguiu que a barra do Colo Colo e a barra da U de Chile estejam juntas, então isso se chama como um milagre deste processo. Faz um mês estavam disparando, e agora, o que acontece por exemplo é que em Praça Itália se deu isso de que acima do cavalo que é de um general que está ali no lugar central, um dia se subiu a Garra Blanca, estava aí acima a bandeira e no outro dia estava a Universidade do Chile e se alternavam, de forma assim comunitária.

CC: Não achas que esta união de vários sectores da população, inclusive de time de futebol tem que ver, talvez de forma contraditória, com um incremento da repressão que terminou por unir em vez de dispersar às pessoas?

DU: O primeiro é que todas as pessoas de classes populares no Chile sabem que os abusos são generalizados. Então, há uma sensação de abuso generalizado por isso quando se diz: “não são 30 pesos, são 30 anos” é porque tudo é abuso, então isso é o primeiro. O segundo, efetivamente, do lado que o Estado queira, através da repressão, ou do terror, justamente, se eu vou te disparar na cabeça para que, ou percas um olho, ou fiques com a marca, é justamente para fazer com que não saias a protestar.

CC: Sim, com certeza, mas não houve um efeito contrário às intenções do governo, porque estamos vendo que as pessoas seguem nas ruas, que não estão com medo, até rebatizaram a Praça Itália de Praça da Dignidade…

DU: Bom, efetivamente isso tem sido assim. Então tem uma situação agora que isso possa significar que outra coisa, não sabemos, é que a rua foi o que puxou os limites do possível e pelo tanto os setores políticos tiveram que chegar a um acordo que tiveram que fazer uma nova Constituição. Agora vêm as armadilhas posteriormente que é outra situação. Se desmobiliza, bom não passou nada, os políticos voltam às suas coisas etc. e começam tudo de novo neste sistema de mudar para que tudo siga igual, que seguro já estão fazendo, não pode haver ingenuidade. Porque é muito chamativo quando revisamos em internet a declaração quando terminam depois de dois dias de trabalho às 3 da manhã, terminam a assinatura de um acordo, todos os setores políticos, a cara dos representantes da UDI, União Democrática Independente, que são da direita, é a cara de alguém absolutamente derrotado. Sacaram muito, fazem até memes com essas caras. Mas é porque evidentemente, em algum momento se dão conta que perderam, mas, perderam 30 anos de privilégios, Agora, quando vai ser isso, nos próximos 2 ou 3 meses, ou abril que seria a data do plebiscito que fixaram, abril que está à volta da esquina também.

CC: E este plebiscito que forma teria?

DU: O primeiro que tem que dizer é que isso é um acordo político que não há uma lei, ou seja até que haja um procedimento de lei onde isso se assine pelo congresso e seja lei da república, a reforma constitucional, porque isso é uma reforma à Constituição. Para reformar à Constituição, se precisa pelo menos 2 terços de todos os membros do senado, do congresso digamos. Isso não aconteceu, o que tem é um acordo político e de fato a informação agora é que tem dois setores da direita que estão tratando de embarcar, de dizer que não era tão assim. Então há setores da esquerda que dizem que os 2 terços são inaceitáveis e a direita. Os extremos, ao que parece, estão se juntando para dizer que não aconteça isso, uns porque dizem que é muito pouco e outros porque dizem que é muito. Então aí tem um problema no qual os espectros constitucionais têm dito, os dois terços não são neutros, ou sejam dois terços se precisam para fazer a reforma à Constituição que permita lhe perguntar ao povo, isso são os dois terços. Mas o outro dois terços a que se refere, não é a mesma coisa, é quando se eu já não tenho Constituição como assembleista tenho que tomar uma decisão junto a todos os assembleístas, porque tem que escolher se é assembleia constituinte ou é mista, ou seja com políticos de carreira e assembleistas escolhidos, ou somente assembleistas escolhidos, isso está dentro do acordo que ainda não se assinou, não tem nada assinado e é isso o que dizem as ruas: Não ganhamos nada, até o momento não se tem ganhado nada. Mas é diferente, acho que é importante assinalar, é diferente os 2 terços porque primeiro, precisas 2 terços de todos os setores políticos para reformar à Constituição que permita perguntar ao povo o plebiscito, então não se fez nada. Só tem um acordo político. E logo, na assembleia, já estando em estado da assembleia, a situação é que isso é de todos os assembleistas para que fique algo na Constituição. Os dois tercio de uma maioria que não pode ser uma maioria simples porque estamos falando da Constituição e se supõe que são as novas regras do jogo para todos e a ideia é que todos estejam maiormente representados. O tema dos dois tercio, ao parecer, há um consenso ao menos entre os especialistas que é razoável ter aos 2 tercio ao momento de discutir dentro da assembleia. Então, ou tem uma confusão ao respeito dos 2 terços ou se não dizes que é que há um poder de veto em respeito a um dos terços. Sim, mas ao revés, também podia ser que signifique que faça a diferença entre que a água volte a ser propriedade de todos ou não. Então não está fácil o panorama e há uma confusão e desta confusão se estão aproveitando alguns setores. Um porque talvez queiram avançar mais e é muito entendível, mas eu, acho que haja possibilidade no país de estabelecer, por exemplo, assembleias territoriais que digam: “nós somos os representantes do povo, e isso se faz desta maneira porque isso é uma revolução”, o que vai acontecer é que vão sair os militares, que não estão na assembleia e que são mais de 40.000 pessoas armadas e vai acabar tudo, e não vamos ter nada.

CC: E a relação dos militares chilenos com Estados Unidos?

DU: Estados Unidos, e isso é importante assinalar, é responsável justamente por manter o status-quo para que eles se beneficiem. Não há nenhuma novidade no que estou dizendo. Na América Latina, EUA atua através da doutrina Monroe de aí para adiante e em relação aos exércitos, EUA mantêm cooperação, a operação UNITAS, o Comando Sul, etc, que está com suas bases em Honduras, Colômbia, todos os países têm suas bases de EUA, inclusive Chile e Argentina.

CC: Acabamos de ganhar a nossa agora, nós não tínhamos e agora temos.

DU: claro, ou o fazem diretamente como em Colômbia, ou em Centro América em Honduras, ou o fazem através da OTAN, ou Nações Unidas através de operações de paz, isso é o caso chileno. Então quando acontece esta situação da queima do metrô e o presidente chileno diz que estamos em guerra contra um inimigo poderoso, ao outro dia, sai o secretário de Estado norte americano, o criminoso Pompeo, que diz: “Nós temos informação que são os russos os que estão fazendo isso, então Almagro [Luis Almagro, secretário geral da OEA], outro criminoso, corrupto, sai dizendo que são cubanos e venezuelanos. Isso a essa altura é absolutamente FALSO. É, tanto porque ao analise dos vídeos, porque tudo está gravado, lamentavelmente o que tem é que uns meninos que se organizaram do Colo Colo e foram queimar uma estação, por exemplo, é o que tem no vídeo é que o menino entra com uma camiseta do Colo Colo. Então, ele não é venezuelano, ele, não é cubano, também ninguém de Venezuela, nem de Rússia escreveu em russo para dizer que companheiro, não sei, Ilitch, vai e queime a estação, não. Agora, tem que ver se teve organização maior, ou não, mas isso é outro tema. Mas o que é certo é que EUA e Luis Almagro tentaram levar água ao seu moinho geopolítico. Então, isso a essa altura, é falso, de fato, os fiscais que levam a investigação, o Ministério Público no Chile é autônomo constitucionalmente, ou seja, não é parte do governo. Então, os que investigam os delitos não são parte do governo, isso é bastante importante, porque a um dos fiscais que estão investigando isso dos incêndios, lhe perguntaram, lhe falaram: e a informação, o presidente falou que eram venezuelanos, cubanos, falou que tem uma minuta, de fato publicou-se uma minuta do governo que dizia que eram venezuelano e cubano porque acreditaram nos gringos, então porque os gringos dizem a Piñera que são venezuelanos e cubanos e ele acredita, porque é um imbecil, porque no fundo que é o que temos, ou seja, dos criadores de há armas de destruição massivas em Iraque, agora são cubanos e venezuelanos que queimam as estações de metrô de Santiago. Ou seja, qualquer pessoa, razoavelmente, entende que é uma estupidez. Ou pelo menos me demoro um pouco para saber se é verdade, não chego no outro dia e digo que é o que está acontecendo. Incomodaram à senhora de Piñera porque falou que era como uma invasão alienígena o que estava acontecendo. Então, ali há uma situação na qual evidentemente EUA está tentando, como falamos, levar água ao seu moinho e através de seus bispos, neste caso, Luis Almagro, corrupto Almagro, está tentando também levar água ao seu moinho, então é uma situação complexa e quando se vê o que acontece na Bolívia é mais preocupante e mais inaceitável ou seja há informação que o que está acontecendo na Bolívia está financiado diretamente por grupos de evangélicos norte-americanos.

CC: Logo que começaram os protestos no Chile, o povo ir para rua, aqui, o governo de direita, se aproveitou para fazer um balão de ensaio, ou seja, aqui vamos precisar de um novo AI 5, do fechamento do regime. Os milicos que estão no governo, que estão no poder já se arvoram dentro mais ou menos daquela linha do tipo, ah, são russos, cubanos, venezuelanos, e a gente precisa se cuidar também já mais ou menos fazendo um balão de ensaio que isso talvez tenha que ocorrer aqui no Brasil, uma ruptura, mais do que a gente já tem, justamente para defender o Estado deste tipo de situação, ali depois a gente vê isso acontecer na Bolívia. Vemos por exemplo, o presidente constantemente elogiar o Pinochet e ontem mesmo saiu uma notícia que a ALESP, um deputado quer fazer uma homenagem ao Pinochet, como que isso reverbera, como que vocês enxergam isso?

DU: Eu acho que assistimos a uma impressionante reconfiguração do fascismo em latino América, e é muito preocupante, porque não sei se faz 4 meses, um ano, podíamos, na Bolivia, pensar no que está acontecendo. No caso chileno é distinto, se produz outro fenômeno que não tem a ver com o tema boliviano, mas isso também tem ido, quando miramos centro- América, também podemos observar que são os mesmos padrões. Honduras, o caso de Honduras que tem sido sempre o porta-avião de EUA na região com a base de Palmerola. Honduras se sustenta por um regime teocrático, narcotraficantes e evangélicos que estão se dando as mãos com o departamento norte americano, afirmando ali não sei que coisa. O irmão do presidente hondurenho foi recentemente condenado por tráfico em EUA e ele se mantém no poder, quando nada se faz em Honduras sem o beneplácito da embaixada gringa. Então, a pergunta é o que há detrás? E lembrem que Evo, o tema da reeleição a tira de Honduras, Evo replica o processo de Honduras para poder ir à reeleição, não sei se o conhecem.

CC:  O do direito a ser reeleito?

DU: Sim. O mesmo que fez Juan Orlando Hernández em Honduras faz um ano, dois anos, o fez Evo depois.

CC:  E tu, como juiz, que pensas do processo levado a cabo por Evo Morales na Bolívia ?

DU: A ver, Evo produz uma revolução indígena e isso é um processo indiscutível, indesmentível e são os indígenas no poder.

CC: que é uma coisa que nunca aconteceu antes…

DU:  E isso produz uma irrupção da margem e produz-se então um deslocamento das linhas do possível em Latino América, que era que os marginais, os pobres, os indígenas estão no poder. Evidentemente, isso causou um “irritamento” da classe “branca”, ou que se dizem brancos, que finalmente termina, primeiro em tratar da cisão de Santa Cruz e de outro, que se produz faz uns anos atrás, que Evo consegue controlar, evidentemente soltando muito para os empresários mas por outro lado é política.

CC: Acordos com os criadores de gados, a queima da Chiquitania…

DU: Tinha que ser feito? Isso choca evidentemente com outras coisas, sim, mas é política e é governabilidade finalmente. E além disso, quando houve mortos com Evo, de repressão, ou seja sendo honestos, não sei talvez podemos falar de um, dois ou três, não sei, poderíamos ver esses 12 anos para revisar…

CC: Houve sim, inclusive indígenas….

DU: Sim, sobretudo com o tema do TIPNIS, mas não é a indiscriminada repressão. Então produz-se esta situação e eu acho, honestamente, que o erro de Evo foi se assegurar na reeleição, ou seja, Evo comete o erro de seguir com o caudilhismo e não soltar quando, por exemplo, Cristina Fernández teria podido fazer a mesma coisa, mas diz, não, não, vou de vice-presidente e justamente foi uma jogada mestra porque permite recuperar o poder e ela igual está dentro do poder. Não é a presidenta mas está dentro. Por outro lado, nos perguntamos, mas Evo, a que olhou? Olhou o exemplo de Correa, que nomeia a Lenin [Lenin Moreno] que o traiu, traiu a todo o povo. O que passa é que processos revolucionários são processos revolucionários e isso no caso de Bolívia é muito evidente, mas o que acontece que Bolívia, o MAS, primeiro se suja as mãos com corrupção, não tem muito que assinalar, o MAS gera uma casta de funcionários burocratas com altos indícios de corrupção. Agora, se cria uma burguesia nova, é coisa de ir Al Alto, imagino que vocês têm podido viajar a Bolívia, tem uma arquitetura nova Aymara, então se produz que há melhores condições econômicas. Está bem, mas outra coisa é assegurar o processo em um tema de caudilhismo torcendo a vontade popular. Ao fim, quando fez o plebiscito lhe falaram que não. Então se te dizem que não, até aí chegas, tem a humildade, mas assegura o processo, ou seja, Choquehuanca, ou mesmo Garcia Linera, não sei.

CC: Mas então, porque não assegurou a transição?

DU: O factor equatoriano.

CC: Teve medo da sua própria gente?

DU: Sim, claro. “Evo es pueblo”. Então somente Evo é povo.

CC: Como uma forma de se agarrar ao poder…

DU: Sim, mas por outro lado também temos que ser justos, implicam com ele porque é índio.

CC: Claro!

DU: Primeiro que ninguém lhe diz, não sei quanto tempo leva Merkel no poder, mas Merkel deve levar uns 12 anos pelo menos, mas é alemã! É branca!

CC: Fiquei com uma pergunta, quando falavas que nos protestos no Chile havia um certo rechaço aos partidos políticos tradicionais nas ruas de Santiago ao mesmo tempo em que se vê uma grande representatividade dos símbolos Mapuche e uma destruição dos símbolos materiais do colonialismo, vimos à estátua de Pedro de Valdivia cair, entre outras, como tu enxergas essa articulação. Sinto que há um certo desejo de criar uma sociedade nova e uma organização política que não passe pela estrutura política partidária.

DU: A ver, primeiro a Frente Ampla nasce na crítica ao sistema político tradicional, se eleva nesta parte ou consegue entrar criticando justamente tanto à direita como à Concertação, ou à Nova Maioria, que denominou ante o governo Bachelet. Então, a esquerda tradicional lhe reclama que são umas criancinhas, que são ingênuos etc, mas que tiveram mais visão que todos os outros, e a Frente Ampla reclama que os velhos de esquerda se acomodaram. O outro que é interessante, que saltou e que tu estás dizendo é que o povo está muito mais próximo dos povos originários, neste caso dos Mapuche, que as elites. A elite rechaça ao indígena e o povo está composto por indígenas, o povo chileno. Então, que é o que acontece, podemos ver uma coisa que se viu em redes, quer dizer, o mesmo que tem acontecido com os Mapuche todo este tempo, quer dizer, a repressão que permanentemente se faz contra os Mapuche, os inventos da polícia, a repressão da polícia, as montagens da polícia, agora o fazem contra todos, agora sim, acreditamos nos Mapuche que viveram isso que nós estamos vivendo agora, eles tinham razão. Então, nós resistimos mas há quem leva resistindo faz 500 anos, que são os Mapuche. Por isso aparecem tantas bandeiras Mapuche, porque tem uma reivindicação da resistência da luta dos indígenas chilenos.

CC: da nação Mapuche.

DU: perdão, não são chilenos, dos Mapuche no Chile que é distinto. No território que se chama Wallmapu.

CC: E uma das suas reivindicações justamente foi que se se chega a criar uma nova Constituição, poderiam ter sua autonomia territorial garantida?

DU: A ver, no mundo indígena como em muitos outros lugares, tem gente para todo digamos, e tem grupos que reivindicam independência, outros, autonomia, a outros lhes dá o mesmo. No Chile, os Mapuche são mais de um milhão e meio de pessoas, há alguns que são urbanos, e que justamente são urbanos pobres e outros que são rurais que têm comunidades e outros que são rurais e que não vivem em comunidades, uns que são evangélicos, e outros que são católicos e outros que não são nada e assim. Então, há uma dispersão, agora, aos grupos mais políticos dentro dos Mapuche, ao menos esta autonomia territorial.

CC: A CAM [Coordinadora Arauco-Malleco] por exemplo.

DU: Claro, a CAM, eu não escutei eles falarem em processo independentista em principio mas sim de autonomia. O Conselho de Todas las Tierras com Aucán Huilcamán, sempre foi mais criticado pelos funcionários internacionais, os incomodam aí, muito. Aucán e esta organização planteou agora o auto-governo, então vamos ver qual é a situação, o claro é que há dispersão como em qualquer outro povo e nação. Tem muitos caminhos e muitos interesses também. Mas pode ser que a CAM e o Conselho de todas las Tierras se juntem ou não, mas sim, existe uma situação, pelo menos, de reivindicação. Agora, os Mapuche estão silenciosos neste processo, entre outras coisas porque eles precisam tempo para suas coisas, porque as conversam, as escutam, e na forma e na cosmovisão Mapuche, é primeiro escutar então não vão sair às ruas a gritar agora.

CC: Mas também houve vários protestos em Temuco organizados por coletivos Mapuche.

DU: Sim e não. Porque os que protestam sempre vão a protestar, mas eu te estou falando da comunidade, as comunidades estão escutando porque essa é sua maneira de atuar então, vão demorar talvez, ou talvez vão fazer outra coisa. O importante é que façam eles o que tenham que fazer de acordo ao que eles queiram fazer e não que venha alguém a dizer para eles como eles têm que fazer as coisas. Porque efetivamente, aconteceu essa situação. Grupos de esquerda tentaram se meter no território e eles são os que têm que tomar suas decisões desde seus conhecimentos e desde suas formas ancestrais. São eles que resistiram 500 anos, os grupos de esquerda revolucionários não levam nem 100, o que importa aqui é o processo de autonomia e se alguém que queira ajudar, bem-vindo, sempre que seja aceitado, porque se chega alguém e lhe diz: isso se faz assim, os vão a tirar.

CC: Sim e está bem que o tirem…

DU: E tem que ser assim mesmo.

 

Heavy Hour 66 – 18.11.19 – O Império contra-ataca!

Eles querem tudo, sempre, e, na realidade, na América Latina, o império nunca deixou de estar com a iniciativa para os assaltos em cima dos povos, territórios, riquezas naturais… Por algum tempo, parecia estar dormindo, mas Tio Sam tem paciência e, principalmente, muitos aliados e aliadas nessas terras de veias abertas. Depois de conversar sobre Venezuela, Chile, Bolívia e Brasil, precisávamos falar sobre o grande pai do norte, aquele que se arvora de polícia do mundo. No Estúdio Monstro, o time do Coletivo Catarse recebeu Guilherme Kranz, que é editor do Esquerda Diário, e, por áudio, mais uma contribuição do professor venezuelano Pablo Quintero, aumentando o nível de esquerdopatia e paranoia conspiratória de quem vive tão longe de deus e tão perto dos Estados Unidos.

Setlist:
America – A horse with no name
Neil Young – Rockin’ In The Free World
Hempadura – Liberdade
Paura – Gas Diplomacy
Molotov – Frijolero
Sakim de Kola – Vô Mito
David Bowie – This Is Not America
Malvina – The Anomie
Calle 13 – Latinoamerica

Heavy Hour 64 – 05.11.19 – 64 é agora!

Para cada projeto de ditardozinho furreco e seus AI 5, um Carlos Marighella e uma Marielle a lutarem pelo Brasil!

Em pleno aprofundamento do Estado de Exceção, que ataca, caça e mata indígenas, negros e negras, pobres das periferias, e permite que o presidente e sua trupe adulterem provas de crimes a olhos nús, sem que nada seja realmente colocado em seu caminho, o Heavy Hour traz essa discussão e também a memória do inimigo número 1 da última ditadura – Carlos Marighella, que nos inspira e nos avisa que, contra a violência do Estado, temos de ser fortes e reativos!

No Estúdio Monstro, a Defensora Pública Mariana Cappelari e o Historiador/Diretor Laurence West falam de seus desafios diários nos trabalhos em presídios e escolas, com o Direito e a História, contra o obscurantismo que nos obriga, esquerdistas revoltados, a defender a constituição como se fosse nossa tábua de salvação.

Clementine Tinkamó, Bruno Pedrotti, Marcelo Cougo e Gustavo Türck tocam mais um Heavy Hour, enquanto ainda é possível, nessa terra de mistérios e milícias.

Setlist:
Racionais MC’s – Carlos Marighella – Mil Faces de um Homem Leal
Chico Buarque e Milton Nascimento – Cálice
Violeta Parra – Miren como sonríen
Kae Guajajara – Espelho, espelho meu
Rage Against The Machine – Killing In The Name
Eu Acuso! – Choque de Ordem
Kreator – Pleasure to Kill
King Tubby – Jah Jah Dub