Arquivo da tag: Memória

MAIS QUE UM JOGO – O mascote que prega peças

Saci do Ziraldo, a cara do Inter

No dia 31 de outubro comemoramos o dia do Saci. É uma forma de lembramos das nossas lendas, do nosso folclore; em dias de halloween pra todos os lados, celebrar o Saci é celebrar a memória de uma brasilidade que vemos se esvair nem tão lentamente assim.

O Saci é o mascote do Inter. Esse fato é cheio de significados. O Inter tem uma história ligada às camadas mais populares da população portoalegrense, desde sua fundação, quando seu campo de treinos e jogos estava em meio às comunidades negras da cidade. Isso foi um dos motivos centrais da imensa popularidade do Clube, já que muitas das pessoas que moravam por ali paravam para ver e se afeiçoavam pelo esporte e pelo time. A ligação com o Saci tem seus primeiros registros ainda na década de 40, quando da formação do Rolo Compressor, time cheio de jogadores negros e que pregava peças nos adversários, tal qual o mítico personagem. Nessa época o Inter era conhecido como o Clube dos Negrinhos. Também é dessa época a incorporação de elementos do carnaval nas nossas arquibancadas. Trabalho do também lendário Vicente Rao, era motivo de chacota por parte dos rivais. Era coisa de crioulo, diziam eles.

Nossa história segue e o Saci é incorporado definitivamente através da arte do genial Ziraldo, em uma série de desenhos retratando os mascotes dos grandes clubes brasileiros. Era mais uma mostra do quanto o Inter era do povo.

Saci branco nunca mais!

Recentemente tivemos alguns criativos dirigentes que quiseram acabar com essa história. Os motivos seriam que o Saci tem uma perna só e ainda por cima levava um cachimbo. Desconfio que a verdadeira natureza dessa problema reside na cor do mascote. Em 2016, a RBS colocou o famoso saci branco bombado, para ilustrar a comemoração do título gaúcho daquele ano. Pegou muito mal. Ainda bem!! A resposta veio forte e o Conselho do Clube, por iniciativa do Movimento Povo do Clube, incluiu o Saci no estatuto do Inter. Ele é o Mascote oficial e ponto!

No mês onde celebramos a consciência negra no Brasil, nós, Colorados, celebramos também nosso mascote, uma figura lendária que é um amálgama das culturas que aqui se encontraram. Para nós significa nossa identidade. O saci é negro, com uma perna só, alegre, participativo, um símbolo de onde viemos e do que queremos ser para sempre!

Frente Inter Antifascista

O Repórter Popular, em parceria com o Movimento Grêmio Antifascista e a Frente Inter Antifascista, lança esta coluna para falarmos de futebol e política, desde uma perspectiva mais progressista/à esquerda. Toda semana, um texto assinado pelas próprios coletivos, alternando uma semana entre colorados e gremistas. Texto publicado originalmente AQUI.

Audiovisual para transformar – Parte 1 – o primeiro contato

Este ano tive a oportunidade de ministrar, através da Secretaria de Educação de Tapes, 2 módulos de uma oficina prática de produção audiovisual na cidade. No princípio, a intenção era uma atividade que envolvesse apenas o uso de dispositivos celulares, porém, extrapolou as minhas mãos, e tomou uma dimensão que me faz refletir sobre o sentido da minha prática profissional e sobre minha responsabilidade enquanto comunicadora, educadora e artista.

No Módulo 1 da oficina, que passei a chamar de Oficina Prática de Produção Audiovisual “com-o-que-se-tem”, encontrei 2 turmas de jovens, uma do ensino fundamental regular e outra do EJA. Turmas de jovens adultos que estudam na rede municipal e que chegam na atividade sem ter muita noção do que iriam fazer ali.

Eu não conhecia a realidade de Tapes, muito menos desses jovens que, como em qualquer lugar do mundo, são muito desafiantes. Porém, tinha uma certeza, a vontade de despertá-los, a partir do audiovisual, um olhar mais sensível sobre o contexto que estão inseridos. Finalizar, ou não, uma peça audiovisual era secundário.

O que aconteceu na prática foram encontros onde conseguimos assistir e destrinchar conteúdos audiovisuais consumidos por nós, refletir sobre estética, linguagem, roteiro e gêneros. Realizamos dinâmicas, exercícios práticos de filmagem e edição. Percebi neles um foco e uma vontade de realização bem importante que me deu a segurança para arriscar propor a aventura de fazer um filme.

A turma da noite escolheu uma ficção de suspense e a do dia, um documentário. Em quatro encontros unificamos os conceitos dos grupos em relação a produção audiovisual e nos outros 6 encontros pré-produzimos, filmamos e editamos estes 2 filmes. Uma primeira experiência deste tipo para aqueles 24 jovens desta pequena cidade gaúcha, tão bela mas tão distante de aparelhos culturais como cinemas e teatros.

Mais importante que os detalhes dos processos, que tiveram muitas particularidades e curiosidades, foram as minhas surpresas. Encontrei um ambiente fértil para a  realização de trabalhos audiovisuais mesmo que os atores não tivessem muito a noção da complexidade que circunda a produção audiovisual. Foram lá e fizeram. Finalizamos um documentário de 17 minutos, A casa da última rua, que hoje, 2 meses depois do lançamento, já soma mais de 4 mil acessos(!) e, também, A vida de Kameyom, uma ficção de 5 minutos que não foi veiculada e ficou apenas acessível para os participantes da oficina.

Nessa minha experiência em Tapes, pude sentir que um dos fatores responsáveis pelo sucesso das oficinas é a qualidade da educação do município. Escolas com uma estrutura privilegiada e jovens com uma capacidade cognitiva incrível. Tinham iniciativa, demonstravam criatividade na solução de problemas, escuta e diálogo, qualidades que muitas vezes não encontramos em profissionais. Me surpreendi, pois encontrei jovens, na sua maioria, interessados. Alguns sem perspectiva, mas uma grande parte abraçando a oportunidade que pintava na sua frente. Isso me surpreende, pois eu imaginava que isso não fosse possível em pessoas de 15, 16 ou 17 anos. Em um grupo um pouco menor, não rolou somente o interesse, mas a vontade por mais. E isso é transformador. A cabeça de alguns ali naquela turma pode extrapolar os limites da cidade e de si mesmo, viram reconhecido o seu trabalho e passaram a enxergar a si e ao seu mundo de maneira diferente. Isso é um caminho sem volta.

No momento que percebemos o poder que o realizar uma peça que valoriza a nossa realidade tem, nos valorizamos também e se nos valorizamos, não nos deixamos escravizar tão fácil. Politicamente, esta é a razão pela qual governos de direita sucateiam a educação. Por isso a necessidade de se diminuir ou até mesmo acabar com iniciativas e estruturas culturais.

Tapes já foi, em algum tempo passado recente, uma rota artística bem frequentada por artistas plásticos, músicos, escritores. Acredito que um lugar tão abundante de belezas naturais e com essa ligação histórica com a arte, não perde do seu DNA a sua potência criativa. Me parece que só precisa daquela mão no queixo que vira o seu olhar para um outro lugar, onde estão coisas lindas, onde está sua verdadeira identidade cultural. Esse encontro me parece fundamental para se viver.

Assista A casa da última rua:

Do resultado deste primeiro módulo, partimos para uma nova proposta que seria o Módulo 2 da oficina. Esta é outra história que em breve compartilho por aqui.

Em breve: Audiovisual para transformar – Parte 2 – nos bastidores do documentário Cores ao Vento, navegando pela arte de Silvio Rebello

doc-silvio-rebello-capa

Estreia do documentário Cores ao Vento – navegando pela arte de Silvio Rebello

Hoje, 06/11/18, na cidade de Tapes, será lançado o documentário Cores ao vento – navegando pela arte de Silvio Rebello, uma realização da Secretaria Municipal da Educação e Cultura e a Prefeitura de Tapes, numa coprodução do Coletivo Catarse, do Clube da Sombra e da Lagoa TV.

O filme retrata num tom poético o universo colorido do artista plástico tapense, que dedicou sua vida a arte nas suas mais variadas formas. Transitou na escultura, pintura, fotografia e música. Retratava a paisagem da cidade de uma forma muito peculiar e, ainda, a cultura negra, numa mescla de referências do Rio Grande do Sul e Bahia, lugar onde morou e trabalhou por alguns anos e que transformou significativamente sua produção.

Este filme é uma homenagem e um resgate. Procura dar o devido valor a um artista tão importante e, igualmente, salvaguardar o legado artístico, somando a um conjunto de iniciativas que buscam este mesmo objetivo, como é o caso da recém criada Fundação Silvio Rebello.

Vale ressaltar que o filme foi produzido concomitante a uma oficina de produção audiovisual com jovens da cidade, que, além de produzirem imagens para o documentário, realizaram o seu making of, que em breve estaremos divulgando com um relato sobre este processo.

Pra não esquecer: Cine Marighella

No aniversário do assassinato de Carlos Marighella, segue uma coprodução do Coletivo Catarse com o Professor de História Laurence West, diretor do filme (Sinopse: Cine Marighella busca resgatar a memória de um herói brasileiro. A prisão do então deputado Carlos Marighella, em maio de 64, marca de forma intensa a trajetória de lutas do baiano que virou referência mundial na luta contra a opressão.).

Trailer:

Filme completo:

Heavy Hour sobre o tema:

Filmografia Social – O Grande Tambor precisa bater!

Num momento em que se inicia o mês da Consciência Negra e que se elege presidente um racista confesso, nada mais certo que indicarmos uma produção nossa: O GRANDE TAMBOR.

Neste documentário em longa-metragem, denso, forte, há uma jornada que começa contando a história de um instrumento que foi a base do samba considerado gaúcho, mais cadente, mas que foi sumindo a partir da década de 1970 pela massificação cultural e pela “carioquização” do carnaval nacional. A partir disso, vamos retornando no tempo e observando as origens da ocupação do povo negro no território gaúcho – uma violenta narrativa de escravidão e genocídio, com sequestro de sua prática religiosa para consecução de objetivos mercadológicos do ciclo do charque.

O Grande Tambor recupera a ideia de que a Revolução Farroupilha não foi revolução coisa nenhuma e detalha o papel decisivo do infame Duque de Caxias – um herói da horda fascista vitoriosa no último pleito presidencial – no massacre de Porongos, apresentando a carta enviada aos comandantes brancos do batalhão conhecido como Lanceiros Negros.

Uma viagem de desmistificação. Assista atento, aberto a ouvir muita informação e prováveis contrapontos ao que você sempre entendeu como certo.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: documentário etnográfico
Temática Social: racismo
Público-alvo: gaúchos interessados em sua história, pessoas de outros estados que acreditam que o Rio Grande do Sul é a Europa do Brasil e que aqui não há negros, músicos interessados em percussão, pessoas que gostam de carnaval e samba
Roteiro: 
(o caminho é bem delineado, a jornada vai detrás para frente no tempo e descortina as camadas históricas da contribuição do povo negro na cultura e realidade do Rio Grande do Sul e Brasil, mas pela duração pode ser considerado muito massante)
Dramaturgia: 
(a fotografia não é das melhores, com diferenças entre câmeras e personagens, sem definição de linguagem, o áudio também demandaria melhor tratamento, o filme parece esteticamente não finalizado, mas isso tudo pela opção de se valorizar o conteúdo, que tem uma boa construção emotiva, de momentos de respiro para reflexão e vários ápices catárticos)
Aprofundamento da Questão Social: 
(a razão da existência deste filme é exatamente ser uma obra que aprofunda a questão do racismo na construção histórico-cultural do Rio Grande do Sul, é pleno neste sentido)

Assista ao filme:

Confira todo o material do projeto aqui no site, clique aqui.

Por Gustavo Türck

– Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras