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MAIS QUE UM JOGO | Renato não entende porque gays no futebol viram notícia

No último final de semana, um grande jornal brasileiro publicou uma entrevista com Renato Portaluppi. A manchete diz que Renato não entende porque gay no futebol é notícia.

Renato frequenta o ambiente do futebol há mais de 3 décadas. Além de excelente jogador, sua marca registrada sempre foi o jeito de “machão pegador”, personagem este indissociável do machismo. O tal do machismo, sempre presente no futebol. O tal do machismo que acha que “o que as meninas, com todo respeito, não podem fazer de maneira alguma, é se comparar aos homens. Isso nem daqui a dois séculos”. Nosso treinador acha isso, com todo o respeito.

Renato, esse homem cis, hétero, branco e com um salário de muitos dígitos, o que colocaria ele na tal “Classe A1′ do IBGE, diz que a coisa está melhorando com Witzel no governo do Rio de Janeiro. Wilson Witzel é aquele governador que comandou pessoalmente, de dentro de um helicóptero blindado, uma operação onde agentes de segurança pública atiram de cima para baixo, a esmo, em uma favela. O estado governado por ele, de janeiro a abril de 2019, teve 538 pessoas mortas pela polícia (levantamento feito pelo Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro). É uma média de 5 mortos por dia, mas nosso treinador acha que a coisa está melhorando.

Renato apoia o atual presidente e o atual ministro da justiça. Disse que são pessoas do bem, e que “quem é contra esses caras é contra o crescimento do Brasil.” Avisem Renato que vai ser difícil crescer em um país cuja educação teve um contingenciamento de 25% no seu orçamento, mas a liberação de agrotóxicos cresceu 42%.

Renato não entende porque gays no futebol viram notícia. Ele disse que não pode “entrar no vestiário de sacanagem por ser gay e levar mais para o lado gay do que para o trabalho.” Talvez nosso treinador não saiba, mas não existem profissões exclusivas para determinada orientação sexual, ou seja, não tem como “levar para o lado gay”. Mas se Renato quiser muito misturar orientação com desempenho no trabalho, alguém avisa pra ele que a artilheira da Copa do Mundo feminina, a estadunidense Megan Rapinoe, é homossexual. Aliás, a maior artilheira de todos os tempos, a nossa Marta, também é.

Renato não entende, afinal de contas, é difícil sentir empatia por algo que não conhecemos. Ele não entende pois não foram 4422 homens héteros – como ele – mortos entre 2011 e 2018. Não foram 552 mortes de héteros por ano, e nem mesmo existe uma heterofobia, que vitimaria uma pessoa a cada 16 horas.

Se atletas homossexuais viram notícia é porque existem 11 países no mundo onde a relação consentida entre dois adultos do mesmo sexo é punida com morte, e um em cada três países do mundo condena a homossexualidade. É preciso ter muita, mas muita coragem pra se assumir neste planeta, e mais ainda quando ambiente de trabalho é conhecido por sua homofobia, como no caso do futebol. Renato não entende. Talvez ele não saiba, ou talvez ele simplesmente não queira entender, pois não se importa.

Ficamos com o ídolo, rejeitamos a pessoa.

Movimento Grêmio Antifascista

Heavy Hour 47 – 09.07.19 – LGBTudo!

Recebemos no Estúdio Monstro, na sede do Coletivo Catarse, o ativista do Nuances – Grupo Pela Livre Expressão Sexual, Célio Golin, para um bate-papo sobre questões de homofobia e muito mais! Teve Grêmio, Renato Gaúcho e Coligay na conversa também. Destaque para a sonolenta contribuição de Billy Valdez, correspondente do Heavy Hour direto na Nova Zelândia, o lugar onde os patetas malucos dirigem seus carros, mas que são gentis nas calçadas… Power trio do coletivo nesta edição completado com Clémentine, a antropóloga.

E teve música boa! Confere nossa setlist:
Megadeth – Dystopia
Cake – I Will Survive
Chico Buarque – Construção
Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede – Noite Severina
The Datsuns – Gods are bored
Judas Priest – Electric Eye

MAIS QUE UM JOGO | A luta pelo direito ao amor

“Eles perderam esse olhar de medo que todas as bichas tinham há 10 anos” – Allen Ginsberg, poeta homossexual, sobre a Revolta de Stonewall.

Há 50 anos, em um bar no Greenwich Village em Nova Iorque, acontecia um dos mais importantes movimentos pela luta pelos direitos LGBT nos Estados Unidos e no mundo. A Revolta de Stonewall – movimento popular instantâneo e espontâneo que durou seis dias, foi um ponto de inflexão: pela primeira vez, gays, lésbicas e trans se uniram e resistiram com toda a força contra as leis e violência homofóbicas do estado americano.

Ironicamente, no Brasil (país que mais mata LGBTs no mundo), ser homossexual deixou de ser crime durante o Império, em 1830. Nos Estados Unidos, porém, os relacionamentos com pessoas do mesmo sexo eram vistos como uma anomalia que precisava de cura ou motivo para prisão. Na Nova Iorque dos anos 60, as pessoas eram obrigadas por lei a usar roupas de acordo com seu sexo biológico e batidas em bares gays eram frequentes, com prisões de donos, empregados e clientes.  Na noite do dia 28 de junho de 1968, quando a polícia entrou no Stonewall Inn, ao contrário das vezes anteriores, o público resistiu. Segundo relatos da época, a multidão – cansada da opressão e violência policial, começou a atirar garrafas, pedras e tijolos contra as viaturas. Em menos de uma hora, o bar foi invadido e apesar das viaturas continuarem chegando e mais pessoas serem presas, havia resistência na forma de danças e cantos que riam da ação da polícia. Apesar da destruição do bar, por cerca de cinco dias ocorreram novas revoltas na região até que o caos foi finalmente contido. Em 2016, o presidente Barack Obama declarou o Stonewall Inn como monumento nacional dos direitos LGBT.

A homossexualidade é tão antiga quanto a própria humanidade, e perceber que uma revolta como a de Stonewall ocorreu há apenas meio século nos leva a pensar na necessidade urgente e no profundo significado que as lutas por direitos para a população LGBT têm. Faz apenas meio século que falamos em orgulho. Para efeitos comparativos – e já que falamos em orgulho – a nossa inigualável Coligay surgiu em 1977, apenas 8 anos depois de Stonewall. Cinco décadas depois da revolta, existem países no dito mundo civilizado onde diplomatas são orientados a frisar que gênero é apenas sexo biológico, aberrações irreais como uma suposta “cura gay” (existe cura para o que não é doença?) são defendidas por uma parte dos psicólogos do país e o presidente considera “completamente equivocada” a criminalização da homofobia. 50 anos não foram o suficiente.

Em 13 de junho de 1980 – há quase 40 anos, portanto – mil manifestantes se juntaram nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo para protestar contra a violência da chamada “Operação Limpeza”, ação policial que pretendia varrer a população LGBT do centro paulistano. João Silverio Trevisan, um dos criadores do “Lampião da Esquina” – uma das publicações pioneiras do movimento LGBT no Brasil – classificou o movimento de 1980 como uma tentativa de sobrevivência, um ato de indignação de pessoas que buscavam espaço em uma sociedade injusta.

Stonewall ou a sua “versão brasileira” foram isso: o levante de uma população violentada ao limite e que se revolta e revida. Stonewall, sua versão brasileira, as diversas paradas pelo mundo, os tantos dias de orgulho e visibilidade (lésbico, trans, bi…) e a luta individual diária de cada pessoa LGBT – são em nome de algo que parece óbvio para um hétero: o direito das pessoas serem quem quiserem. Quando o Grêmio Antifascista defende a existência de um outro modo de habitar o estádio – o modo da inclusão e do respeito – nos colocamos ao lado dessa luta, a luta pelo direito ao amor.

Movimento Grêmio Antifascista

MAIS QUE UM JOGO | Resistir como a Coligay

No estádio de futebol os ânimos ficam exaltados, as emoções ficam à flor da pele e, muitas vezes, o preconceito contra as ditas minorias ganha força – por parte de torcedores ou jogadores. Quando estão vencem, se sentem motivados a “ofender” o rival com gritos de “puto” ou “viado”; quando estão perdendo, também encontram nestes termos uma forma de descontar a raiva através de xingamentos que colocam determinada orientação sexual como algo ruim ou digna de ser menosprezada.

Recentemente, o jogador Felipe Bastos, do Vasco da Gama, comemorou uma vitória em cima do Fluminense chamando-o de “time de viado”. A torcida do Fluminense, indignada com a ofensa, exigiu um pedido de desculpas. Apesar de ter acontecido, o fato é que o pedido de desculpas foi dirigido aos torcedores e jogadores do Fluminense, e não aos homossexuais, que são as pessoas que REALMENTE foram ofendidas. Por que a orientação sexual de uma pessoa seria uma ofensa? A LGBTfobia está tão intrínseca na sociedade que não levamos em conta que somos o país que mais mata LGBTs, que não existe uma lei sequer que proteja essas pessoas de morrerem apenas por serem quem são.

Pensando pelo lado dos jogadores, é notável que há raríssimos casos em que os homossexuais são assumidos, justamente por causa do ambiente hostil do esporte e, principalmente do futebol, a partir de uma crença de que é um esporte de “macho”. Os inúmeros casos de homofobia sofridos pelo jogador Richarlyson* (atualmente atleta do Noroeste-SP) provam isso. Em declarações, ele disse: “O que me deixa intrigado sobre essa questão de manifestações homofóbicas dentro do futebol é que quer dizer que se o cara for gay, ele não pode jogar? Por que não pode jogar? É isso que eu não consigo entender. Fico sem saber o porquê. Tento explicar, mas ao mesmo tempo eu nem sei porque estou explicando algo que é inexplicável”. O atacante francês Giroud** também se pronunciou sobre: apoiador da causa LGBT, lembrou o caso do alemão Hitzlsperger, que foi criticado por se declarar gay em 2014, apontando a dificuldade de se declarar homossexual no futebol.

Ainda há muito que se fazer nos estádios, no campo e nas ruas para que as pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais tenham os mesmos direitos de torcer em paz para o seu time e de praticarem o esporte que amam. A primeira torcida LGBT no Brasil foi a nossa Coligay, na década de 70, em plena ditadura. Essa tinha que se fazer respeitável ou sofria ataques homofóbicos. Hoje em dia, em 2019, infelizmente não avançamos muito, dado que essa temática ainda é alvo de ofensas para os rivais e, inclusive, para muitos torcedores gremistas que têm vergonha dessa parte da nossa história. Nós, do Grêmio Antifascista temos muito orgulho da Coligay… E além de orgulho, nos inspiramos na força e na coragem desses LGBTs. A Coligay de hoje resiste!

Movimento Grêmio Antifascista

Filmografia Social – Nanette: “Vou abandonar a comédia…”

*pode conter spoilers

A comédia stand up tem um histórico controverso. Não necessariamente de gostos – que, neste caso, nunca caiu muito bem para a plateia brasileira, tendo se difundido aqui principalmente em apresentações de “atores” de ideologia direitista cheias de preconceitos e agressões gratuitas, em nada se aproximando da perspicácia de uma ironia ou sarcasmo bem colocados. Este é um gênero que foi – e segue sendo – muito bem usado por negros estadunidenses que se utilizavam do poder do discurso e da retórica para jogar à sociedade ferozmente seus costumes e indignações mascaradas na sátira da crítica ao comportamento branco, médio. Aliás, mesmo tomando características de diversidade, sempre tem a aparência de um palco de catarses acerca dos comportamentos de vida de seus autores – o racismo, o machismo, o feminismo, as questões LGBT, as questões da gravidez, suicídio… Dá para se achar de tudo um pouco nos dias hoje. Mas é inegável a importância do papel histórico contemporâneo de resistência cultural da comédia stand up, de combate ao instituído no canhão da indústria cultural massiva que é os Estados Unidos.

Todo este raciocínio para ensejar o estímulo a se assistir uma obra de uma comediante…australiana.

Disponível no catálogo Netflix, de título Nanette, de autoria de Hannah Gadsby, ela produziu algo que literalmente pode se chamar de um “soco no estômago”. Um desafio à homofobia, à misoginia, ao feminismo – a sentimentos mais profundos que se possa imaginar que se tenha. Hannah construiu um roteiro lógico de apresentação que leva lentamente uma plateia a perceber que a sátira é muito mais forte do que parece, constrói em 60 minutos uma narrativa que envolve quem a assiste e faz você perceber que se está em algo sério “tarde demais” – uma armadilha, muitos poderiam classificar.

Assistir a essa peça é estimular a crítica à construção cultural homofóbica de matriz judaico-cristã, branca e de patriarcado. E não no macro, mas no micro. Hannah fala de sua vida pessoal – um clichê do stand up commedy -, conta situações muito particulares e leva a todos a sentirem a sua dor com singelos toques de ironia e risadas. Muito inteligente, muito profundo, muito sensível. Não apela nem mesmo agride – até mesmo a nós, homens brancos heterossexuais.

NOSSA AVALIAÇÃO
Gênero: comédia stand up
Temática social: questão LGBT
Público-alvo: todos os espectros acima de 16 anos, sendo um desafio a homofóbicos masculinos e femininos
Roteiro: 
(perfeito, recebe avaliação máxima porque surpreende em um gênero que se sustenta na sequência de clichês)
Dramaturgia: 
(muito difícil avaliar um stand up commedy, apesar de que o cenário é lindo na sua simplicidade, e Hannah “atua” muito bem migrando da comédia para o drama e apimentando com indignação sua apresentação)
Aprofundamento da Questão Social: 
(traz causa, consequência e perspectiva de como superar suas questões)

Por Gustavo Türck.

– o autor desta resenha foi estimulado por uma resenha de Tiago Barbosa, postada originalmente no site Diário do Centro do Mundo (aqui)
Filmografia Social é um conteúdo apoiado pela Graturck – perícia social, consultoria e cursos (www.graturck.com.br) e é publicado simultaneamente no site/redes do Coletivo Catarse e no site/redes da Graturck todas as quartas-feiras